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Autoras investigam educação de crianças na Dinamarca, país mais feliz do mundo

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Crianças dinamarquesas assistem à competição de vela: socialização é aspecto importante na formação de filhos no país - Reuters

Crianças dinamarquesas assistem à competição de vela: socialização é aspecto importante na formação de filhos no país – Reuters

 

Segundo elas, a raiz dessa satisfação está na forma como os filhos são criados

Mariana Alvim, em O Globo

RIO – Considerado o país mais feliz do mundo em três das quatro edições do Relatório Mundial da Felicidade, das Nações Unidas, a Dinamarca motiva investigações e suposições sobre as causas de tanta satisfação. No livro “Crianças dinamarquesas: o que as pessoas mais felizes do mundo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes” (Fontanar), publicado em 18 países e recém-chegado no Brasil, as autoras Iben Sandahl e Jessica Alexander levantam uma hipótese: a raiz dessa felicidade está na forma como os filhos são criados.

Entre os preceitos dessa educação estão a liberdade com limites, formação cidadã e altas doses de “hygge” (pronuncia-se “ruga”), palavra dinamarquesa que define momentos de alegria com pessoas queridas, sejam amigos ou familiares, e é um estilo de vida, segundo o livro, que tem até um “juramento do hygge”. Iben é dinamarquesa e psicoterapeuta especializada em crianças e família, enquanto Jessica, com formação em Psicologia, é americana, casada com um dinamarquês e radicada na Itália. Ambas são mães, com dois filhos cada.

O GLOBO – Por que as crianças dinamarquesas são mais felizes?

Iben: Os dinamarqueses dão muita importância à socialização e à formação da criança como um todo, em vez de somente destacar suas notas e conquistas. Ensinamos ativamente a empatia, o que torna a criança capaz de levar uma vida autêntica, de se conhecer e agir a partir disso. As crianças dinamarquesas sabem que os desafios e problemas não as derrubam, porque não são poupadas disso na criação. A brincadeira também é considerada importante no aprendizado, mesmo com toda a pressão para ter as crianças engajadas em várias coisas que dão resultados mensuráveis. Não há nada a “realizar” numa brincadeira, e a personalidade da criança pode se desenvolver. Isto é um dos grandes motivos para nosso país ser o mais feliz do mundo.

Os pais dinamarqueses sabem dizer “não” para seus filhos?

Iben: Uma abordagem não disciplinadora da criação não significa que os limites não existam. Pelo contrário! Trata-se de estabelecer regras que criam um sentimento de segurança para a criança de uma forma respeitosa. Mas os conflitos de força podem ser algo difícil de evitar, apesar de tudo. Na Dinamarca, tentamos não entrar imediatamente nessas disputas.

Jessica: Dinamarqueses são muito bons em estabelecer limites, mas fazem isso com respeito e explicação. Não é fácil, mas costumo dizer que os dinamarqueses enxergam o papel de um pai ou uma mãe como um farol: eles enviam sinais consistentes, e as crianças devem aprender como navegar em suas vidas. A questão não é controlar, mas, sim, guiar.

Como é a relação das famílias com a tecnologia na Dinamarca?

Iben: As crianças usam celulares e tablets, mas não durante as refeições, por exemplo. Não podemos evitar as novas tecnologias, e esses aparelhos podem ser úteis como ferramentas pedagógicas ou até para acalmar a criança, se usados adequadamente. Mas insisto na importância dos momentos em que ninguém está ligado neles, todo dia. O cérebro das crianças precisa de paz, e os adultos precisam controlar e dar limites que façam sentido. Somos nós, os pais, que decidimos que tipo de família queremos ser.

Pais que vivem em países com condições socioeconômicas bem diferentes da Dinamarca podem, mesmo assim, aprender com o livro?

Jessica: Não moro na Dinamarca, mas uso a conduta dinamarquesa. É uma filosofia. Todos podem, por exemplo, dar a seus filhos mais tempo para brincar. Ensinar o valor da empatia, também. É claro que a qualidade de vida na Dinamarca, com toda sua estabilidade e benefícios, torna mais fácil aplicar esses ensinamentos, mas muitos podem ser adotados ao redor do mundo.

Você percebe diferenças na criação de filhos entre países que conhece?

Jessica: Sim, enormes! Vejo os Estados Unidos como extremamente competitivo e acadêmico: tudo precisa ser medido e classificado com notas. Na Dinamarca, o foco é no espírito colaborativo. Os alunos não recebem notas antes dos 13 anos. A Itália… Bem, a Itália não é muito moderna. Diria que o estilo da educação aqui está mais para o autoritário. Está ocorrendo um intenso debate, porque a França tornou a palmada ilegal (na Dinamarca, a palmada foi banida nos anos 90). E na Itália, a palmada ainda é amplamente aceita. Mas é bem marcante, por exemplo, a importância da família na sociedade.

Já viveu alguma situação diferente, no exterior, que chamou sua atenção sobre a criação dos filhos?

Jessica: Os italianos são muito protetores. Então, a abordagem dinamarquesa, de dar liberdade aos filhos, deixá-los cair e se sujar, é muito nova aqui. Quando eu saio com os meus filhos, os italianos acham que eles são completamente selvagens!

Leitores de outros países já demonstraram algum estranhamento?

Iben: A brincadeira livre é estranha para muitos. Deixe a criança ser criança e brincar mais! Isto é algo que temos feito há tempos. Com essa liberdade, a criança explora o mundo ao redor sem muita interferência dos pais e se desenvolve sem perceber, nos seus próprios termos. Assim, ela pode escolher o que fazer. Hoje em dia, os pais estão tão preocupados em programar tudo para os filhos que muitas crianças não têm a habilidade de tomar decisões.

Como é o apoio do governo à criação dos filhos na Dinamarca? E a divisão de tarefas entre pais e mães?

Iben: Você recebe apoio financeiro para ficar em casa quando tem um bebê recém-nascido. A gestante tem direito a uma licença de quatro semanas antes do parto, de 14 semanas após o nascimento, e uma licença que pode ser dividida entre o pai e a mãe, no total de 32 semanas. Muitos homens tiram proveito desse benefício, então é natural que pai e mãe se envolvam na vida da criança desde o começo.

Por que você acha que as pessoas ficam tão interessadas em livros sobre a criação de filhos em outros países?

Iben: Todos queremos que nossos filhos se tornem pessoas felizes e conscientes — e isto vai além das fronteiras. Portanto, buscamos informações de quem compartilhamos valores. O livro oferece uma filosofia que faz as crianças felizes.

Jessica: Com a globalização, percebemos que não somos afetados apenas por nossos pais, mas também pela nossa cultura.

Como sua família recebeu o livro?

Jessica: Independentemente de gostar ou não do livro, as pessoas discutem sobre ele. Minha família era muito autoritária. No início, meus pais foram resistentes ao livro, mas quando virou um best-seller, eles leram. E a nossa relação mudou. Nós implementamos o “juramento do hygge”, e isso transformou nosso convívio.

‘Quero ser um agente do sonho’, diz escritor português Valter Hugo Mãe

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(Foto: Luiz Monhoz/ Divulgação)

(Foto: Luiz Monhoz/ Divulgação)

 

Relevante escritor português lança o romance Homens Imprudentemente Poéticos e fala sobre a importância da literatura no mundo atual, Salvador, atentados na Europa…

Hagamenon Brito, no Correio 24Horas

O autor português Valter Hugo Mãe, 45 anos, continua a nos encantar com sua literatura “repleta de poesia e desassombro linguístico” como bem afirma Laurentino Gomes no prefácio de Homens Imprudentemente Poéticos (Biblioteca Azul/ R$ 44,90/ 192 páginas).

Em seu sétimo romance, VHM ambienta a história numa aldeia do Japão para abordar a morte, o suicídio e a cordialidade (mesmo diante da oposição), qualidade mais do que necessária para a coexistência dos homens. A seguir, leia entrevista feita por e-mail.

Em A Desumanização (2013), você ambientou a história na Islândia. Agora, Homens Imprudentemente Poéticos tem sua narrativa no Japão. O que te levou a visitar e a procurar locações fora de Portugal para esses livros? Pretendes prosseguir nessas viagens inspiradoras?
A nossa cultura vira facilmente fórmula. Como se fosse autorização de presunção mais do que obrigação de verificação e rigor. Com o tempo, para um criador, lidar com um mesmo universo pode ser redundante. Sinto como deve sentir-se um artista plástico que experimenta novos materiais. Enquanto escritor, é claro que usarei as palavras, mas a deslocação impõe uma novidade, uma insegurança, que redobra os sentidos e, em alguma maneira, recomeça tudo. Somos novos escritores dentro dos velhos escritores cheios de vícios. Partir de outras culturas, outras estéticas, é uma adopção do perigo enquanto amigo da arte. O perigo é amigo do autor. O conforto a gente deixa na cidadania. Para a arte a gente usa outra coisa.

O que veio primeiro, no caso do novo livro, o conhecimento da Floresta dos Suicidas, no Japão, ou a ideia de escrever sobre a morte (já presente em outros livros teus, aliás) e o suicídio, atos com os quais nós ocidentais, com nossa educação e culpa cristãs, nos relacionamos de forma bem diferente dos japoneses?
O livro foi uma ideia anterior ao meu conhecimento da Floresta dos Suicidas. Aliás, visitei a floresta apenas na segunda viagem que fiz ao Japão. Na primeira, quis saber, sobretudo, de templos, jardins e foi imperioso observar os gestos das pessoas. As vénias, os olhos no chão, os braços pendidos, o cerimonioso de cada instante, isso foi o fundamental. A questão da morte, que me obstina, acontece no livro como inevitabilidade. Não poderia ignorar a questão. O modo como o japonês categoriza a morte, desde logo usando vocábulos distintos para um sem número de rituais de suicídio, é sinal de uma relação com o assunto muito distinta da ocidental. Quis estudar um pouco isso. Sem fazer antropologia, apenas criando a convicção de que morrer pode ser um gesto de completude e não de desespero. Julgo ser valiosa essa maturação. Valiosa e bela.

Existe grande humanismo, compaixão, nos teus personagens literários. Você é otimista em relação aos homens. No entanto, os protagonistas de Homens Imprudentemente Poéticos, o artesão Itaro e o oleiro Saburo, não são amigos. Mais que isso: não se gostam, mas têm que conviver na aldeia, têm que ser cordiais. É uma mensagem para a convivência entre as diferenças, de modo geral, na sociedade atual?
Sim. A grande tese do livro é a educação do exercício de oposição. Uma aprendizagem da discordância e da incapacidade para a amizade. Não vamos nunca ser iguais, não é possível que estejamos sempre de acordo e não é possível a unanimidade em quase todas as situações da vida. Aquilo que precisamos alcançar passa por uma cordialidade aplicada mesmo à oposição. Sermos contrários às ideias ou à sensibilidade de alguém não deve, não pode, destituir-nos ou destituir o outro de dignidade. A boa fé é uma urgência. É a maior urgência da contemporaneidade.

Em Nu Com a Minha Música (1981), Caetano Veloso canta que “coragem grande é poder dizer sim”. Você parece concordar com ele ao escrever um romance em que não existe a palavra “não” em hora alguma. Foi uma tarefa difícil na narrativa?

Começou por ser meio desafiador, porque precisava de prestar atenção, como se a natureza do discurso fosse viciada por uma forma que lhe estava proibida. Em algum tempo mudou. Passei a pensar sem a palavra não. O texto era já uma forma diversa, sem atrito, sem hesitação. Aconteceu que me inibia de escrever não, inclusive nos emails que enviei, nas mensagens telefónicas e até quando deixava algum apontamento no Facebook. Subitamente, fiquei meio alérgico à palavra. Precisei descer do livro para voltar a certa normalidade. Para mim foi importante essa questão formal. Ela sublinha uma cordialidade japonesa que evita empenhadamente a recusa absoluta. É um elogio a uma conquista de gentileza que o linguajar japonês conseguiu. Admiro muito isso.

Por falar em Caetano, ele escreveu um ótimo prefácio na nova edição brasileira de a máquina de fazer espanhóis, falando com sagacidade até da situação política nacional atual. Qual a importância do compositor baiano em tua formação cultural pop?
Caetano é um cantor que tantas vezes experimentou a perfeição. A voz mais perfeita, as composições, os seus inteligentes poemas, tudo nele se levanta da pop mais comum e se torna bandeira qualificada de um tempo, de um povo. Desde sempre que Caetano, como Chico ou Bethânia, Elza Soares ou Cartola, Gil ou Ney e alguns outros, significa o melhor do Brasil. Aquilo que nenhuma outra cultura do mundo soube fazer, aquilo maravilhoso que apenas o povo brasileiro fez. Quando universalmente se pensa no esplendor do Brasil o nome dessas pessoas está implicado. Nenhuma questão ideológica vai apagar ou mudar isso. O melhor Brasil é este Brasil cultural, deslumbrante, criativo, lição de inteligência e infinita beleza.

Em 2016, você comemora 20 anos do primeiro livro, silencioso corpo de fuga, uma obra de poesia. Há alguns anos não lanças um livro de poemas. O que aconteceu com o interesse pela criação poética? É o triunfo da prosa na tua literatura?
A poesia fica contando demasiado acerca da minha vida. É muito declarada e vulnerabiliza-me. Fico com a impressão de que devo escrever poesia mas talvez não precise de publicar. Embora me esteja aproximando da ideia de editar uma nova recolha. Tenho uma colecção de poemas coesos, muito focados num determinado tema, que pedem para ser um livro. Se acreditar que faz sentido, publico em 2017. Tenho muita saudade dos poetas. Continuo a comprar os seus livros, deixei de ser convidado para os seus festivais. Tenho pena disso. Mas a culpa é muito minha. Apenas minha.

Às vezes, penso que já existiu maior delicadeza na relação entre as pessoas e que, como cantava nosso ídolo Renato Russo na Legião, “o mundo anda tão complicado”. Qual a importância da literatura no mundo atual?
A mim importa que os livros façam humanidade. São para que se faça humanidade. Não escreveria se fosse por coisa pouca. Tenho todas as dúvidas do mundo, mas também os sonhos e quero muito ser, nem que quase angustiadamente, um agente do sonho. O papel da literatura pode ser o que quisermos, eu quero que ela seja pela ética. Um modo de ética. É o meu compromisso. Talvez seja minha confissão de esperança.

Um exemplo perturbador de tais complicações são os atentados terroristas islâmicos em capitais europeias como Paris, Bruxelas e Berlim. Como você lida com essa preocupação no continente?
Estamos assustados e também assustados com a hipótese de isso se tornar o novo normal. Corremos o risco de perder a sensibilidade, cansados de atentados e de perigos, celebrando cada dia sem mais memória ou respeito pelos que sofreram, pelos que morreram. Começa a ser difícil que estejamos sequer atentos à constante barbaridade. Perturba-me que a Europa se perca novamente do seu propalado humanismo. O continente das atrocidades históricas, tão recentes inclusive, tinha mesmo de estabelecer uma regra humanista fiável. Infelizmente, a Europa falha e torna-se uma retórica que, numa realidade face ao terrorismo, arrisca a sucumbir de vez por todas.

Em setembro, você visitou Salvador como conferencista do Fronteiras Braskem do Pensamento e postou imagens bonitas e elogiosas nas redes sociais de personagens e de cenas de rua. Quais foram as tuas impressões da capital baiana?
As melhores. Fui recebido com muito carinho e tudo se passou como se Salvador fosse perfeito o cartão-postal para encantar forasteiros. Eu sei que o Brasil passa um tempo difícil, instável e até muito desanimador, mas nos dias em que estive na Bahia vi, sobretudo, gente bonita e simpática, bailando, comendo acarajé, tomando luz, dizendo mal de um frio que, para mim, era sempre calor. Fiquei com muita maravilha da Bahia. Com a certeza de que quero voltar. Quero muito voltar.


Algum plano especial ou projeto em desenvolvimento para a temporada 2017?

Estarei a acompanhar a gravação de um filme, por um director português, com um argumento original da minha autoria. Acompanharei sobretudo por curiosidade, porque creio que haveriam de preferir que eu nem estivesse presente, não sei. Vou procurar não ser muito metido, mas queria tanto que ficasse lindo. Além disso, vou loucamente voltar a gravar umas canções com o Governo, essa banda que criei com amigos músicos e que acontece devagar e por puro prazer. De resto, o silêncio longo para um novo romance, como sempre. Ficar catando tudo quanto me seduza para o livro que quero escrever.

Professora cria projeto para debater questões de gênero em escola de SP

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Ana Carla Bermúdez, no UOL

Alunos da Emef Frei Francisco de Mont'Alverne, na zona leste de SP

Alunos da Emef Frei Francisco de Mont’Alverne, na zona leste de SP – Arquivo pessoal

Por que, nas escolas, as filas são separadas entre meninos e meninas? E por que é ‘natural’ que, nas aulas de educação física, as meninas joguem vôlei, enquanto os meninos jogam futebol?

Refletindo sobre questões como essas, Mayla Rosa Rodrigues, professora da Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Frei Francisco Mont’Alverne, na Vila Domitila, zona leste de São Paulo, percebeu como a escola costuma reforçar práticas desiguais que acontecem na sociedade.

“Os meninos são muito mais incentivados a desenvolver atividades físicas e muito mais elogiados pelo seu desenvolvimento em matérias como matemática, enquanto as meninas brincam de como “ser mamãe” e são mais incentivadas a se desenvolver em matérias linguísticas”, conta a professora.

A partir disso, Mayla passou a analisar com um olhar mais crítico os livros didáticos e livros de literatura infantil –e encontrou neles também uma repetição de estereótipos, “seja quando apresentam meninas apenas como ajudantes dos meninos cientistas ou quando deixam de mostrar meninas negras”.

Mulheres na História

Mayla resolveu, então, criar o projeto “Mulheres na História”, onde são debatidos estereótipos de comportamento, sejam eles de gênero, raciais, sexuais ou de classe. Para isso, os principais mecanismos que são utilizados com uma turma de alunos do 4º ano são a pesquisa e as leituras biográficas de mulheres.

Aluno lê livro sobre Aqualtune, símbolo de resistência negra - Arquivo Pessoal

Aluno lê livro sobre Aqualtune, símbolo de resistência negra – Arquivo Pessoal

“As crianças estão pesquisando mulheres que fizeram parte da nossa história e que são frequentemente apagadas e silenciadas. Por exemplo, muitos sabem quem foi Martin Luther King, mas poucos conhecem [a ativista negra norte-americana] Rosa Parks”, explica Mayla.

Para a professora, é papel da escola desconstruir a ideia de que apenas os homens constroem e transformam a história. “Quando mulheres são apresentadas apenas como coadjuvantes, elas passam a acreditar que essa é sua única possibilidade”, afirma.

Entre as mulheres que os alunos já estudaram, estão Aqualtune, grande símbolo de resistência negra e avó de Zumbi dos Palmares; Jackie Joyner-Kersee, atleta americana de destaque no heptatlo e no salto a distância; e Maria da Penha, líder brasileira de movimentos em defesa dos direitos da mulher e que inspirou a criação da lei homônima que completa uma década este ano.

Mudanças no comportamento

Mayla, que se considera feminista, conta que para ela as desigualdades de gênero sempre foram motivo de inquietação. “Fui criada pela minha mãe com mais duas irmãs e, toda vez que alguém via minha casa minimamente bagunçada, o comentário era imediato: ‘como uma casa com tanta mulher pode ser bagunçada?’. Aquilo me incomodava muito”, lembra.

É justamente essa visão de mundo que a professora busca ampliar, além de não limitar o potencial das crianças em “caixinhas” de coisas destinadas apenas para meninas ou para meninos. Com a realização do projeto, ela diz que a mudança no comportamento das crianças é nítida.

“Os conflitos que enfrentávamos no início do ano estão quase extintos, pois as crianças passaram a se respeitar mais, a entender o limite do outro e a ouvir o ‘não’ do colega. Além disso, como todas as crianças se sentem ouvidas, o interesse delas em sala de aula aumentou consideravelmente.”
Autonomia e pensamento crítico

Outro reflexo do projeto é um maior desenvolvimento da autonomia das crianças, que não esperam mais que apenas a professora traga leituras ou diga a elas o que escrever. “Elas me trazem notícias que querem discutir em sala ou livros que gostariam que eu lesse para todos e criticam filmes e livros que não tenham personagens negros”, explica Mayla.

Apesar de o projeto ter sido desenvolvido por iniciativa própria, a professora ressalta a importância do suporte da escola. “Desde que comecei a desenvolver o projeto em sala, recebi apoio da equipe gestora, além de muitos elogios”, afirma.
Escola sem Partido

Para Mayla, “todo profissional da educação deveria ter autonomia em sala de aula” – uma ideia que bate de frente com o programa “Escola sem Partido”, que condena uma suposta doutrinação ideológica no ensino.

“Quando defensores do programa dizem que os professores não são isentos de ideologia e, por isso, vão ensinar às crianças o que se deve pensar, ignoram que elas não são sujeitos sem capacidade de crítica”, explica.

A professora ainda diz que a escola é um espaço onde o direito de aprendizagem da criança e a pluralidade de ideias e de concepções devem ser mantidos. “Há a necessidade urgente de se pensar em práticas inclusivas, que considerem as diferenças e a diversidade de opiniões sem demonizá-las, nunca o contrário”.

Por que ler Guimarães Rosa?

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Miquéias Sartorelli, no Homo Literatus

Como a leitura das obras de Guimarães Rosa auxilia a reconhecer as diferenças do outro

"O que mais vou escrever além do Veredas? Já sei."

"O que mais vou escrever além do Veredas? Já sei."

A educação básica e, sobretudo, os cursinhos pré-vestibulares têm uma categoria curiosa para enquadrar Guimarães Rosa na história da literatura. Para eles, o escritor mineiro pertence à terceira geração do nosso modernismo. No entanto, esse rótulo não diz quase nada relevante sobre seus traços norteadores ou suas contribuições para a ficção brasileira. Aliás, quanto mais avançamos no sentido temporal das escolas literárias, mais as nomenclaturas dão sinal de clara insuficiência.

O que interessa aqui, contudo, não é debater os limites e malefícios desse modo particular – infelizmente soberano – de apresentar a literatura nas escolas, mas sim fazer um sobrevoo mais rente a dois aspectos desse autor imprescindível para a cultura brasileira: o aspecto fabulista e o aspecto regionalista.

Quem procurar pela bibliografia de Guimarães Rosa talvez possa se enganar no que diz respeito ao volume de sua produção. São apenas cinco livros publicados em vida e três póstumos. Estreia com Sagarana, em 1946, reaparece dez anos depois com Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas e termina, na década de 1960, com Primeiras Estórias e Tutaméia. Após a morte, são editados Estas Estórias, Ave, Palavra e Magma, sendo os dois últimos procurados, em larga medida, mais por pesquisadores que por leitores não especializados.

Essa aproximada meia dúzia de obras, entretanto, enfeixa um extraordinário número de narrativas, causos, estórias, contos e enredos. Assim, tudo se sagaranamultiplica, prolifera-se. Ao contrário de muitos escritores e escritoras que parecem, a cada livro lançado, gravitar sempre em torno de semelhante entrecho, Rosa é prolífico em criar renovadas situações e personagens.

Sua espantosa capacidade de fabulação nos leva ao primeiro ponto de interrogação que consideraremos, pois crucial no campo da estética e incontornável para cada pessoa que se proponha a escrever: é possível ainda contar histórias?

O filósofo alemão Theodor Adorno, em ensaio fundamental sobre a posição do narrador no romance, afirma que não, em especial se a intenção for continuar sob as mesmas roupagens do século XIX. Ressalta a impossibilidade de narrar depois do abalo que as grandes guerras provocaram na sensibilidade humana. Decorreria desse impacto terrível um deslizamento da antiga figura do contador de aventuras para a fragmentação e dispersão do modo de expor os dados da experiência, incapaz agora de ordenar os acontecimentos e coisas do mundo.

Nesse sentido, não é estranho que ele defenderá as vanguardas, expressões dessa ruptura com o modelo narrativo tradicional que remonta, em última instância, à oralidade. A posição do frankfurtiano, no limite, cristaliza ideias que estão no cerne das grandes questões da modernidade.

Ora, Grande Sertão: Veredas, por exemplo, é uma resposta formidável a esse impasse. Sem apostar em realismos, algo também combatido veementemente por Adorno, o livro é um rico painel de histórias. Vale registrar que Riobaldo, protagonista do romance, não deixa de sublinhar a arbitrariedade que conduz sua fala, o distorcimento dos fatos pela memória, ao longo do envolvente relato de sua vida; no entanto e igualmente, não se furta ao ato de narrar. Em resumo, a perspectiva desfigurada se faz sentir também na obra, mas com outros propósitos. No lugar de plasmar cruamente um mundo desencantado, investe na tentativa de reencantá-lo com histórias e momentos poéticos. Não que tal resposta seja a solução, o único caminho possível, mas representa uma alternativa.

A título de comparação, tomemos o caso da poesia concreta, movimento cosmopolita sintonizado com o que havia de mais moderno e radical no panorama literário contemporâneo a Rosa. Arquitetada sobre princípios de veredasdesintegração de linguagem/comunicabilidade, autorreferência e autonomia da obra de arte e capitaneada pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e pelo não menos importante Décio Pignatari, a poesia concreta pouco se interessava em contar algo ou investir em conteúdo, a preocupação era entusiasticamente formal.

Guimarães Rosa percorre, como observamos, vias diferentes. Além disso, inscreve-se numa tendência regionalista que, embora dominante nos anos 1930, já sinalizava certo esgotamento naquela conjuntura marcada pelo desenvolvimentismo.

Fator decisivo para nosso segundo ponto de interrogação: é possível ainda ser regionalista?

Nome destacado nos estudos rosianos, Walnice Nogueira Galvão, compreende o lugar de Rosa na literatura brasileira como uma síntese de duas vertentes literárias: o já citado filão regionalista e a linha espiritualista. Em razão disso, conciliaria descrição da vida sertaneja e especulação metafísica. O autor mostraria que o mais papudo dos catrumanos dos rincões do Brasil pode aspirar à transcendência, mesmo sendo iletrado. Visão bem distinta de uma abordagem que representa o pobre como tipo social, sem qualquer densidade psicológica.

Um dado importante de frisar é que a ficção introspectiva, herdeira do romance católico francês, é algo relativamente novo, enquanto a prosa ao rés-do-chão, comprometida com a pesquisa geográfica e social, é velha companheira das letras nacionais. Esteve presente desde os cronistas coloniais, passando pelos subprodutos indianistas e sertanistas do romantismo. Mais adiante, ganha novo sopro com autores naturalistas e chega ao limiar do modernismo paulista. Nos anos 1930, dá um grande salto de qualidade nas mãos de um Graciliano Ramos ou uma Rachel de Queiroz, em especial porque coincide com a formação de um mercado editorial e com a ampliação de um público leitor. Nesse contexto, o papel do livreiro José Olympio é decisivo.

Isso tudo faz com que a vertente regionalista seja um programa estético dominante entre nós, mas que em fins da década 1940 sofra, por outro lado, sua contrapartida mais incisiva: o processo de urbanização.

Vidas Secas (1938) e O Quinze (1930), para citar os títulos consagrados dos nomes acima elencados, tratam da diáspora nordestina. Mas o que vem depois? E quando parte significativa da população das zonas rurais já se deslocou para as cidades, como São Paulo ou Brasília?

Talvez possamos nos valer de uma equação entre os mundos rural e urbano: quanto mais incorporada e diluída a cultura dos interiores do país pela modernização, mais o projeto literário regionalista arrefece. Daí a sensação de enfraquecimento desse modelo.

No entanto, contrariando todas as expectativas, Guimarães Rosa aparece com suas obras na esteira regionalista e prova que ainda é possível retirar desse universo uma ficção de inconteste qualidade.

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fecho”, define Riobaldo já nas primeiras páginas de Grande Sertão. Não são apenas os seres que têm profundidade psicológica, mas o próprio lugar. O sertão é vasto como os meandros da alma humana, é onde começa e termina, grosso modo, toda a obra de Rosa. Sertão de Minas, dos Gerais, menos árido e de rios gigantescos como o São Francisco.

É nesse espaço geográfico e simbólico, sertanejo e místico, que o autor situa também suas estórias (para usar o termo com que ele insistia em designar os próprios contos), narrativas estas do calibre de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, “Desenredo”, “Sorôco, sua Mãe, sua Filha” e “A Terceira Margem do Rio”.

Diferentemente da síntese algo horizontal de tendências sugerida por Walnice, o que se observa é um movimento vertical. O autor supera o filão regionalista menos pela fusão de tradições opostas do que por uma investida por dentro da vertente. Sua observação crava-se tão agudamente na realidade que atinge o âmago de questões primordiais (a morte, o amor, a existência ou não do diabo, a ambiguidade dos seres, o sentido da vida, etc.), e não tópicos estritamente regionais. Paradoxalmente, quando a literatura cola no real, ela se libera como ficção de alto nível. O que indica que Guimarães Rosa não abandona propriamente o regionalismo, mas sim dá a ele dignidade, mostrando-nos que é de rumos improváveis que surgem grandes obras.

Nesses termos, as regiões afastadas dos grandes centros e as pessoas pobres não são, por isso, menos encantadoras ou cruéis. São, na verdade, tão complexas e inconstantes quanto os homens e mulheres letradas – leitores e leitoras de literatura.

É justamente em função desse olhar respeitoso e livre de um ranço de superioridade que Rosa rompe o pitoresco, fazendo-nos enxergar e reconhecer, pela leitura, as diferenças do outro. Identificando, ainda assim, o lastro comum de humanidade entre um jagunço e um doutor da cidade, como em Grande Sertão, numa conversa que tem muito a nos revelar e emocionar.

Para concluir, convém notar que esses dois aspectos são, por um lado, exemplares de que talvez, em última análise, “nunca” seja uma das palavras que não rima com arte, território no qual é sempre possível ir além. Por outro, são instigantes convites para ler Guimarães Rosa e se deliciar com as histórias sempre cativantes de seus sertanejos.

Pois então, fica o convite e boa leitura!

Fonte especial facilita a leitura de disléxicos

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Letras afinadas e outras diferenças marcam proposta de um designer alemão

FONTE PARA PESSOAS QUE TÊM PROBLEMAS COM DISLEXIA (FOTO: REPRODUÇÃO)

FONTE PARA PESSOAS QUE TÊM PROBLEMAS COM DISLEXIA (FOTO: REPRODUÇÃO)

Rennan A. Julio, na Revista Galileu

Um designer alemão decidiu criar uma fonte específica para facilitar a vida das pessoas com dislexia. Ajustando-se às dificuldades de leitura – proporcionadas por uma formação diferenciada do encéfalo –, as letras foram desenhadas para não se “moverem” com tanta frequência. “Pessoas com dislexia inconscientemente trocam, rodam e espelham letras em suas mentes”, disse Christian Boer.

“Letras tradicionais tornam esse problema ainda pior, pois são baseadas em outros designs mais antigos. Isso cria ‘letras-gêmeas’ para pessoas com dislexia”, conta o designer. Chamada de “Dislexie”, a fonte de Boer prima por diferenciar letras parecidas como “b” e “d” – ambas possuem formatos desiguais e são inclinadas para o lado.

Além disso, todas as letras são afinadas em cima. Para Boer, essa é uma técnica “capaz de fazer a pessoa disléxica não rodar as letras”. A fonte criada por Boer pode ser instalada por este link aqui.

LETRAS GÊMEAS COM CARACTERÍSTICAS DIFERENTES NA DISLEXIE (FOTO: REPRODUÇÃO)

LETRAS GÊMEAS COM CARACTERÍSTICAS DIFERENTES NA DISLEXIE (FOTO: REPRODUÇÃO)

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