Contando e Cantando (Volume 2)

Posts tagged difícil

Com faculdades públicas e sem vestibular, Argentina atrai cada vez mais universitários brasileiros

0

Getty Images
Image caption Estudantes na Universidade de Buenos Aires, que tem 4% de estrangeiros, principalmente brasileiros

A possibilidade de estudar gratuitamente no exterior sem ter que prestar vestibulares tem atraído número crescente de universitários brasileiros para as universidades argentinas – a ponto de causar incômodo em alguns setores acadêmicos do país vizinho.

Marcia Carmo, na BBC Brasil

Nos últimos anos, a presença de estudantes brasileiros de diferentes regiões passou a ser cada vez mais frequente em cidades como Buenos Aires, La Plata e Rosario, onde estão algumas das principais universidades públicas da Argentina.

Há alunos brasileiros também em universidades menos conhecidas, como a do balneário de Mar del Plata, a 400 km de Buenos Aires.

O curso de Medicina é o mais procurado pelos brasileiros, segundo assessores das instituições de ensino argentinas.

O sistema universitário argentino exige dos brasileiros apenas o diploma do ensino médio, reconhecido nos ministérios da Educação do Brasil e da Argentina, e um documento de identidade (o DNI, emitido pelas autoridades migratórias). O desempenho do aluno no ensino médio não é avaliado. No caso do DNI, o processo foi simplificado nos últimos anos, mas o agendamento para o início da emissão do documento pode demorar alguns meses.

Sem vestibular

Diferentemente das universidades brasileiras, as universidades públicas argentinas não têm limites de vagas para vários cursos, incluindo os de Medicina, de acordo com a assessoria de imprensa das instituições acadêmicas. Essa facilidade de ingresso tem sido um chamariz para estudantes brasileiros.

Outro fator de peso, segundo acadêmicos ouvidos pela BBC Brasil, é a crise econômica brasileira.

“Nos perguntamos aqui por que tantos alunos brasileiros vieram nos últimos dois ou três anos e entendemos que o período coincide com a crise no Brasil”, disse um assessor acadêmico, pedindo para não ser identificado. “Sem dúvida, o que vem ocorrendo nos últimos tempos chama a atenção”, disse outro.

A Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), a uma hora e meia de Buenos Aires, registrava em 2015 apenas 11 alunos brasileiros. Esse número saltou para 311 em 2017 e, neste ano, há 566 universitários brasileiros matriculados.

A reitoria da Faculdade de Medicina da UNLP diz que, nesse caso específico, o aumento é explicado pelo recente fim da exigência da prova de admissão, colocando em prática uma lei nacional de 2015.

“As provas (de admissão) deixaram de ser exigência para todas as universidades desde o retorno da democracia, nos anos 1980. Mas, por serem autônomas, algumas delas ainda aplicavam provas”, explica o reitor da Universidade Nacional de Rosário (UNR), Hector Floriani, à BBC Brasil.

Ali, dos cerca de 4 mil alunos de Medicina, 1,5 mil são brasileiros.

A UNR, assim como a Universidade de Buenos Aires (UBA), já não exigia há anos o exame de admissão, nem mesmo para o curso de Medicina.

Para facilitar a vida dos que chegam de fora, algumas universidades ainda oferecem cursos grátis de espanhol, antes de as aulas na faculdade começarem.

A brasileira Raquel Moraes, 25 anos, estudou Engenharia durante cinco anos na Universidade de Brasília e decidiu passar para Medicina. Ela está no primeiro ano da Universidade de La Plata e conta que optou por Buenos Aires justamente pela gratuidade e facilidade de ingresso. “Tem muitos brasileiros estudando aqui”, agrega.

Críticas

No entanto, o acesso ilimitado e gratuito – que é igual para argentinos e estrangeiros – começa a despertar críticas em alguns setores acadêmicos.

Ainda de forma incipiente, há quem defenda que o acesso continue irrestrito, mas apenas para os estrangeiros que cursaram os ensinos fundamental e médio na Argentina e que provavelmente continuarão vivendo no país.

Getty Images
Image caption Alguns setores acadêmicos já manifestam preocupação com a presença crescente de brasileiros, uma vez que as universidades são financiadas com dinheiro do contribuinte

“A Argentina tem mais de 20% de pobres. Não é mais um país rico. Como podemos sustentar a educação da classe média brasileira?”, questiona um assessor acadêmico.

O reitor Floriani, da UNR, admite que a crescente presença brasileira tem causado preocupação.

“É interessante contar com alunos estrangeiros, porque a troca é enriquecedora. Mas depende da quantidade de alunos. Mil e quinhentos (brasileiros) é um número elevado. Além disso, não existe um sistema de reciprocidade. Não imagino que uma universidade federal brasileira receba 1,5 mil alunos argentinos”, diz ele, destacando ainda que 80% do sistema universitário argentino é financiado por dinheiro público.

Segundo o reitor, algumas famílias brasileiras têm achado mais vantajoso economicamente enviar o filho para uma universidade argentina, mesmo pagando passagem e estadia, do que mantê-lo em uma universidade particular brasileira. Isso apesar de o custo de vida não estar baixo na Argentina, onde a inflação deve chegar a 20% neste ano.

Procurados pela BBC Brasil, o Ministério da Educação da Argentina e o Consulado do Brasil no país vizinho informaram não ter dados atualizados sobre estudantes brasileiros nas universidades públicas.

Em São Paulo, o ex-ministro brasileiro da Educação Renato Janine Ribeiro concorda que a gratuidade do ensino e a não existência do vestibular são os motivos que atraem os estudantes brasileiros para as universidades argentinas. “É muito difícil entrar para uma universidade pública (no Brasil), principalmente em Medicina, e as particulares são caras”, destaca.

Mesmo no ensino particular há grande discrepância de valores. O preço da mensalidade de Medicina na faculdade Barceló, em Buenos Aires, onde a presença de brasileiros é a maior entre estudantes estrangeiros, é de 7,5 mil pesos (cerca de R$ 1.250). Já a mensalidade de uma faculdade particular no Brasil pode variar entre R$ 3,5 mil e mais de R$ 7 mil.

“Temos estudantes brasileiros de vários lugares do Brasil, como Rio de Janeiro, Mato Grosso e Fortaleza”, diz o Departamento de Relações Institucionais e Admissão da Barceló.

Janine afirma ainda que a tradição do ensino argentino também contribui para atrair brasileiros, lembrando que ainda é “muito baixo” (20%) o percentual de brasileiros entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior.

Getty Images
Image caption Analista diz que é mais fácil entrar em universidades argentinas, mas também é mais difícil concluir cursos

Fácil entrar, difícil sair?

O especialista argentino Alieto Guadagni, membro da Academia Argentina de Educação, é um dos que tem levantado hipóteses para a maior presença de alunos brasileiros nas universidades argentinas.

“Será que esses alunos não passaram no Enem no Brasil e buscam as universidades argentinas como alternativa?”, questiona.

Ao mesmo tempo, Guadagni afirma ainda que, embora seja mais fácil ser admitido, “é mais difícil concluir a faculdade na Argentina”.

Ele cita dados oficiais de 2015 que apontam que, a cada 10 mil habitantes na Argentina, 29 estudantes concluíram a universidade (não há dados específicos sobre estudantes brasileiros) naquele ano. Sob os mesmos critérios, no Brasil foram 56 estudantes.

“Ou o ensino aqui é mais exigente ou os alunos estão menos preparados quando entram na universidade e por isso têm dificuldade de chegar ao final da faculdade”, analisa Guadagni.

Como regra própria, a Universidade de Buenos Aires, a maior da Argentina, ministra o Ciclo Básico Comum (CBC), que é o primeiro ano de estudo na instituição e vale para estudantes de todas as áreas, incluindo Medicina. O curso pode ser ministrado até à distância.

O CBC é cursado durante um ano e oferece cursos específicos paralelos, como compreensão de texto e matemática, para aqueles que apresentam dificuldades para acompanhar o ritmo das matérias. O objetivo, informou a UBA, é “nivelar” a educação dos alunos para facilitar o ensino e aprendizagem “igualitários” nas aulas.

‘Meus pais não poderiam pagar’

A brasileira Rafaela Laiz, 20 anos, começou a cursar à distância o CBC neste ano e pretende se mudar de Lajinha (MG) para a Argentina em 2019, para cursar Medicina na UBA.

“Quero ser cardiologista, mas a faculdade aqui no Brasil é muito cara, em torno de R$ 5 mil. Meus pais não poderiam pagar. Por isso, me inscrevi no CBC da UBA, e no ano que vem vou para Buenos Aires”, conta. “Já soube que a prova para revalidar meu diploma argentino aqui no Brasil é bem difícil, mas mesmo assim vale a pena.”

O Revalida é o exame anual realizado no Brasil para que brasileiros ou estrangeiros que cursaram Medicina no exterior possam exercer a carreira de médico no país. O exame, aplicado pelo INEP (ligado ao Ministério da Educação), é considerado exigente. Em 2016, o índice de reprovação chegou a quase 60%.

A UBA, escolhida por Rafaela Laiz, tem 300 mil alunos (40 mil em Medicina) – sendo 4% deles estrangeiros, liderados por brasileiros, que começaram a chegar em maior número a partir de 2016.

Os últimos dados disponíveis apontam que mais de 60% dos brasileiros que estudam na UBA escolhem a carreira de Medicina.

O subsecretário de Assuntos Internacionais de UBA, Patrício Conejero, diz à BBC Brasil que o destaque da instituição nos rankings universitários internacionais acaba atraindo estrangeiros.

“O acesso à universidade é igual para argentinos e estrangeiros. A presença de estudantes estrangeiros contribui para melhorar nossa performance internacional”, opina.

Escrito ao longo de três décadas, materializa-se, enfim, o mais grandioso projeto de Ariano Suassuna

0

Dividido em dois volumes, ‘Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores’ foi definido pelo autor como ‘Autobiografia musical, dançarina, poética, teatral e vídeocinematográfica’

Felipe Torres, no UAI

Ciranda de personagens, espetáculo de circo, “castelo de cartas-espetaculosas”. Epopeia, ópera total, obra definitiva, poema-heroico. Mesmo para pesquisadores, familiares e discípulos, não há palavras muito precisas – ou há palavras em demasia – para classificar o livro póstumo do multiartista Ariano Suassuna (1927-2014). Ele próprio não foi econômico ao qualificá-lo no subtítulo da obra: “Autobiografia musical, dançarina, poética, teatral e vídeocinematográfica”. Recém-publicado pela Nova Fronteira, Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores é dividido em dois volumes: O jumento sedutor e O palhaço tetrafônico. Escrito, ilustrado e reescrito nos últimos 33 anos de vida do poeta paraibano, ostenta fôlego proustiano, engenhosidade linguística roseana e estética armorial, com suas ilustrações inspiradas em arte rupestre.

Ariano Suassuna (1927-2014). (foto: Divulgação)

Ariano Suassuna (1927-2014). (foto: Divulgação)

Em narrativa marcada pela polifonia, o dramaturgo combina vozes de um sem-número de personagens, muitos deles inspirados em figuras reais. O principal deles é Pantero (ou Antonio Savreda), cuja ambição é conquistar a glória literária. Esse revezamento de criaturas, muitas delas já pertencentes ao universo de Suassuna, dá-se por meio de um misto de gêneros literários. “É um formato bem peculiar. Ariano achou uma forma nova, inexplorada no mundo, mas usando elementos da cultura popular brasileira. O livro todo é um espetáculo de circo, com elementos do teatro e cartas transformadas em monólogos. De certa forma, até lembra algo de O auto da Compadecida, quando o palhaço anuncia a estrutura da peça”, compara o escritor Raimundo Carrero, seguidor de Ariano desde muito e autor de um dos textos da contracapa. Para ele, Suassuna de fato se apoiou na própria vida para construir o romance. “É uma autobiografia no sentido de revisão da obra, revisão do seu espírito de escritor e dos temas da vida pessoal. Nela, vemos a consolidação da estética armorial e vemos os movimentos de cultura popular sendo levados para a literatura e para a cultura erudita”, completa.

Tanto a demora para a publicação do romance quanto o apuro estético dos dois volumes foram fruto de exigências feitas por parte da família de Ariano. Até há pouco tempo com seus escritos divididos entre duas editoras, o dramaturgo passou a ter a obra completa sob a tutela da Nova Fronteira. Isso só foi possível graças a algumas contrapartidas: o processo de editoração de Romance de Dom Pantero partiu inteiramente do Recife, feita por pessoas ligadas a Suassuna, e foi dada a garantia de, em um futuro breve, haver a publicação de novos títulos, alguns deles inéditos. “Sempre conversamos muito sobre esse livro e sobre toda a obra dele. Quando aconteceu o ‘encantamento’ de papai, demorou esse tempo todo para a gente ter o juízo assentado e condições de trabalhar na publicação. Ele deixou tudo pronto, faltando somente as capas, organizadas por mim a partir de desenhos dele. Tudo foi feito por mim, Ricardo Gouveia de Melo e Carlos Newton Jr., então saiu exatamente como a gente queria, sem nenhuma mudança”, conta Dantas Suassuna.

Além de atuar nos bastidores da publicação, o pintor dá nome a dois personagens do novo livro: Manoel Dantas Suassuna e Manoel Jaúna. Este último é descrito como discípulo do narrador – o próprio Ariano – e recebe a tarefa de construir a “Ilumiara Jaúna”. Para além da literatura, a missão já está sendo levada a cabo pelo filho: trata-se de uma enorme escultura feita em pedra na cidade de Taperoá, inspirada na Pedra do Ingá, também na Paraíba. No livro, a ilumiara (neologismo criado por Suassuna) se soma a outras quatro: Zumbi (em Olinda), Pedra do Reino (São João do Belmonte), Coroada (a própria casa onde Ariano morava, no Poço da Panela) e Acauã (fazenda da família Suassuna na Paraíba). “O próximo passo é promover um roteiro geográfico e literário para Ariano, visitar todos esses lugares, organizar apresentações culturais, peças de teatro. É algo já encaminhado”, revela Dantas Suassuna.

ENTREVISTA
“Ariano foi um artista revolucionário”

Carlos Newton Júnior / pesquisador especialista na obra de Ariano Suassuna e professor da UFPE

Ex-aluno e amigo de Ariano Suassuna ao longo de quase três décadas, o pesquisador e professor da Universidade Federal de Pernambuco Carlos Newton Júnior exerceu tarefa curiosa no longo processo de burilamento de Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores. Nos últimos sete anos da vida do autor paraibano, ele foi responsável por digitar as muitas páginas escritas a mão por Ariano e dar conta das inúmeras alterações na obra. Com a morte de Suassuna, em 2014, ele assumiu a coordenação editorial do livro e, portanto, participou ativamente das decisões relacionadas à forma final tomada pelos dois volumes da obra. Enquanto acadêmico, Carlos Newton Júnior também é especialista no universo armorial de Ariano, assunto explorado por ele como tema de mestrado e doutorado.

O romance revisita toda a obra de Ariano e tem forte caráter autobiográfico. Que reminiscências da própria vida Ariano deixa no livro?
Várias reminiscências, tanto da vida mais estritamente pessoal quanto da chamada “vida literária”. No primeiro caso, lembranças da sua infância em Taperoá e sobretudo da grande tragédia que marcou toda a sua vida e repercutiu profundamente em sua obra, ou seja, o assassinato do seu pai, João Suassuna, quando Ariano contava apenas três anos de idade, isso antes mesmo da mudança de sua família, então chefiada por sua mãe, dona Ritinha, para Taperoá. No tocante à vida literária, personagens de peças e romances anteriores reaparecem ao longo do livro, e críticos que se dedicaram à obra de Ariano são transfigurados em personagens. Trata-se de uma autobiografia poética, na qual tudo é transfigurado pelo espelho da arte. O próprio Dom Pantero, enquanto personagem, surge da atuação de Ariano nas suas aulas-espetáculo. Ariano fez de si próprio experimento para seu personagem. Antero Savedra (o Dom Pantero) é considerado mentiroso e megalomaníaco por seus adversários do Recife porque cita vários artigos de críticos que elogiaram as obras dos seus irmãos, o romancista Auro Schabino, autor do romance A pedra do reino, e o dramaturgo Adriel Soares, autor da peça Auto d’A Misericordiosa. Os artigos teriam sido publicados em pequenos jornais do interior do Nordeste. Quem for procurar vai encontrar esses textos, que tratam da obra do próprio Ariano, em jornais do Rio ou de São Paulo, quando não em livros publicados no Brasil e mesmo no exterior. Dou apenas um exemplo: o crítico Gabriel Schabino Ferro, que aparece no romance, é, na verdade, o ensaísta português António Quadros (cujo nome completo era António Gabriel de Quadros Ferro), e o texto citado no romance, que teria sido publicado no jornal O Monitor, de Garanhuns, encontra-se num livro de António Quadros publicado em Portugal. É uma resposta bem humorada que Ariano dá aos “equivocados” do Recife.

Ariano trabalhou no romance por 33 anos e, conforme você diz no prefácio, o livro teria crescido bastante se não fossem os problemas de saúde enfrentados por ele. Pode-se dizer que, em alguma medida, é uma obra inacabada?
Quanto ao tempo de escritura do romance, engloba um período que vai desde as primeiras notas até a redação do romance propriamente dito, e é preciso lembrar que Ariano não se dedicou exclusivamente ao romance ao longo desse tempo. Os álbuns de iluminogravuras, por exemplo, que ele lançou na década de 1980, eram experiências para o Dom Pantero. O mesmo pode-se dizer da peça As conchambranças de Quaderna, em que Quaderna, o narrador de A pedra do reino, é levado ao palco. Por outro lado, desde A pedra do reino Ariano brinca com essa história de obra inacabada. A certa altura de seu depoimento ao juiz corregedor, o personagem Quaderna lembra a tradição dos romances epopeicos que ficaram incompletos, citando como exemplo O sertanejo, de José de Alencar. Nesse sentido, A ilumiara, a obra que Dom Pantero pretende escrever, fica, de fato, inacabada. Dom Pantero é um escritor frustrado que pretende escrever uma grande obra, da mesma forma que Quaderna sonhava escrever a “obra da raça brasileira”. Mas, no caso do Romance de Dom Pantero, não podemos falar, rigorosamente, em obra inacabada, pois Ariano colocou o ponto final no livro. Ele pode não ter escrito tudo o que queria, mas, sentindo-se sem forças, concluiu o romance, cujo final, aliás, é belíssimo, mencionando o desejo de Dom Pantero de morrer no palco, ministrando uma de suas “aulas-espetaculosas”.

O livro tem estilo bem particular no que diz respeito ao uso de maiúsculas e de hífens, que você chama de “pantérico”, em referência ao protagonista. Que funções esse modo de escrever exerce na narrativa e qual a importância dele?
Na verdade, é o próprio Dom Pantero quem menciona o processo “pantérico” de escrever, para se referir ao seu estilo. A escrita de Dom Pantero pretende ser não apenas poética, no sentido usual da palavra, mas resultante da fusão de vários gêneros literários. Se, num verso, não estranhamos uma determinada palavra com inicial maiúscula, por que deveríamos estranhar num romance que pretende fundir a prosa com a poesia? Creio ainda que os hífens e as maiúsculas têm uma importância visual no conjunto, além de outros significados, que poderão ser identificados pelos leitores. A autobiografia é também chamada de “musical”, como se vê logo na folha de abertura do livro. Ora, sendo assim, explica-se por que todos os nomes de instrumentos musicais vêm grafados com iniciais maiúsculas.

Que impacto a publicação do livro deve ter na maneira como a obra de Ariano Suassuna é percebida, sobretudo por parte da academia?
Do ponto de vista estético, Ariano foi um artista revolucionário. Não se acomodou em uma fórmula ou uma receita, como outros autores que, não obstante, construíram obras monumentais. Quando percebeu que não tinha mais o que dizer no campo específico do teatro, tendo revolucionado o panorama da moderna dramaturgia brasileira, partiu para o romance. Experimentou sempre. José Cândido de Carvalho, autor de O coronel e o lobisomem, e que foi amigo e grande admirador de Suassuna, foi o primeiro a perceber que A pedra do reino era um romance à frente do seu tempo, afirmando que o livro seria mais novo no ano 2000 do que na época em que foi publicado, em 1971. Que dizer então de Dom Pantero, fruto da fusão de vários gêneros artísticos, sobretudo literários – poesia, romance, teatro, carta, autobiografia, ensaio etc? Tenho dito, em várias ocasiões, que Dom Pantero é o romance mais pós-moderno da nossa literatura, um romance que se vale, para completar a narrativa, de imagens e até da internet. Que impacto isso causará na academia? Talvez o de um tsunami.

Além de volumoso, o livro é de leitura difícil, em especial por parte de quem não é iniciado na obra de Ariano. Há um caminho a ser percorrido entre as obras do autor para enfim estar preparado para este romance?
Sem dúvida. O Dom Pantero é um romance para iniciados, sobretudo pelas referências intertextuais e intratextuais de que o autor se vale para compor a narrativa. O próprio narrador começa dizendo que A pedra do reino serve de introdução ao romance. Costumo dizer que o rico universo criado por Ariano tem várias portas de acesso. Para o leitor mais inexperiente eu recomendaria começar pelas peças de teatro, por comédias como Auto da Compadecida, A pena e a lei e Farsa da boa preguiça. Há ainda dois romances de Ariano que podem ser usados como introdução a seu universo, dois romances bastante acessíveis ao público jovem. Um deles é A história do amor de Fernando e Isaura. O outro é O sedutor do Sertão, um romance da década de 1960 e ainda hoje inédito. Como a Nova Fronteira pretende publicar toda a obra de Ariano, é provável que O sedutor do Sertão seja editado no ano que vem.

Qual a importância de levar a público essas obras inéditas? Ariano tinha o desejo de lançá-las?
Penso que nenhum escritor escreve para si mesmo. O desejo de lançar é permanente. Ariano sentia prazer em escrever. Escrever era a sua missão, sua vocação e sua festa, como ele próprio dizia. Por outro lado, ele sabia que a essência de sua obra era feita de futuro. Por isso não gostava de bater na porta dos editores. A pedra do reino ficou mais de 20 anos fora de catálogo justamente por causa disso. No tempo em que a editora José Olympio passava por dificuldades econômicas, Ariano estava mais interessado em escrever o Dom Pantero do que em procurar nova editora para A pedra do reino. Existem peças importantes de Ariano, anteriores a Auto da Compadecida, que precisam vir a público, a exemplo de Auto de João da Cruz. No campo do romance, além de O sedutor do sertão, é preciso reeditar o primeiro livro de O rei degolado, Ao Sol da onça Caetana, bem como publicar o segundo livro, As infâncias de Quaderna, este com uma boa fixação de texto, uma vez que só saiu em folhetins do Diário de Pernambuco, e isso na década de 1970, quando os erros tipográficos eram muito frequentes em jornal. Sem contar, ainda em relação às Infâncias, que Ariano mexeu muito no texto, ou seja, é preciso fazer todas as alterações que ele deixou em manuscrito. Há ainda poemas, ensaios, textos críticos etc., de maneira que muitos livros deverão vir a público nos próximos anos.

Renato Janine Ribeiro: ‘A educação no Brasil luta para subsistir’

0
 Elza Fiuza / Agência Brasil Ex-ministro da educação Renato Janine Ribeiro: "Não adianta você criar novas vagas de ensino superior se os alunos não estiverem capacitados".

Elza Fiuza / Agência Brasil
Ex-ministro da educação Renato Janine Ribeiro: “Não adianta você criar novas vagas de ensino superior se os alunos não estiverem capacitados”.

 

Em entrevista ao HuffPost Brasil, ex-ministro explica porque acredita que é muito mais difícil resolver o ensino fundamental do que o superior.

Ana Beatriz Rosa, no HuffpostBrasil

Cortes orçamentários, contingenciamento de recursos, obras paradas e bolsas suspensas.

As instituições de ensino superior no Brasil enfrentam grave crise em decorrência dos reajustes econômicos. Em paralelo, o governo federal decidiu vetar o artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que incluía o cumprimento das metas previstas pelo Plano Nacional de Educação (PNE) entre as prioridades para 2018.

Para o ex-ministro da educação Renato Janine Ribeiro, não há como pensar em metas futuras enquanto o próprio sistema atual luta por sobrevivência.

“O PNE trata de novos investimentos. Isso significa você ter mais e mais gente recebendo bolsas. Isso é uma coisa nova a ser feita. Mas o que não tem sido realmente organizado é atender as contas que já existem. Você tem situações em que o Brasil poderia estar crescendo notavelmente, mas a realidade é que tem dois anos seguidos que universidades não tem reajuste salarial. Isso não é um mero detalhe”, explica o professor da Universidade de São Paulo.

Para Janine Ribeiro, a crise enfrentada pelas federais é preocupante e estabelece um sentimento de “desânimo” na sociedade frente à educação pública de qualidade.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Renato Janine Ribeiro falou sobre a crise orçamentária das universidades federais e os desafios para o ensino público superior no Brasil:

Orçamento e PNE

Eu sou um tanto pessimista quanto a essa situação. Quando você pega certos casos de algumas universidades você vê que o buraco é bem mais embaixo do que simplesmente não alcançar as metas do PNE. Você olha a UERJ, que é uma universidade estadual, você vê que a crise dela é de simples subsistência. Se você olhar a USP, uma das melhores do Brasil, ela enfrenta uma crise econômica que começou antes mesmo da crise enfrentada pelo Brasil. Essas duas universidades não são federais, mas refletem a situação geral do Brasil. As universidades estão com muita dificuldades em se manter. O corte de verbas do CNPQ, por exemplo, é extremamente grave. Se as bolsas do CNPQ deixarem de funcionar, você desestrutura toda a rede de pesquisa do Brasil, essas bolsas são muito importantes para o pesquisador de mestrado e doutorado. A situação não está garantida e é muito preocupante.

O PNE trata de novos investimentos. Isso significa ter mais e mais gente recebendo bolsas. Isso é uma coisa nova a ser feita. Mas o que não tem sido realmente organizado é atender as contas que já existem. Tem situações em que o Brasil poderia estar crescendo notavelmente, mas a realidade é que tem dois anos seguidos que universidades não tem reajuste salarial. Isso não é um mero detalhe.

Hoje, o problema não é o PNE, mas a manutenção do sistema como ele está. O PNE supõe uma série de avanços. Mas já faz um tempo em que muita gente percebeu que esses avanços serão impossíveis. O que é grave é que a própria manutenção do sistema educacional vigente está difícil.

Se começa a ter cortes, a não fazer aumentos e se universidades importantes como a UERJ e USP entram em crise, se não existe um atendimento prioritário para isso, não temos o que esperar para depois.

Ministro e o ministério

Quando estava no MEC, o equilíbrio das contas já preocupava. A diferença é que tinha-se mais otimismo e esperança de que a situação fosse re-equilibrada em curto prazo. A gente acreditava que a crise seria curta e logo permitiria que os problemas fossem sanados.

Aconteceu toda a situação da oposição, como o apoio a pauta-bomba do Eduardo Cunha. A crise se aprofundou e a retomada se tornou muito mais longa. Houve um jogo de ‘o quanto pior melhor’ por parte de quem estava interessado em afastar a presidente. Ao fazer isso, não estou dizendo que a crise não existia, ou que o governo da Dilma era perfeito, mas que com esse agravamento a gente não conseguiu resolver os problemas, tudo ficou mais doloroso.

A essa altura o que temos é cada vez menos verba. O governo atual acaba tendo mais dificuldade de colocar essas pautas em discussão. Porque foi custoso chegar onde eles estão.

Desafios da educação pública

O principal desafio do Brasil é a educação fundamental. A educação superior tem desafios, mas a grande tragédia está no primeiro acesso à educação. E é muito mais difícil resolver o ensino fundamental do que o superior. Porque abrange muito mais gente e em sua maioria são pessoas pobres. Quem chega até o ensino superior, apesar da expansão do acesso à educação que ocorreu nos últimos anos, está mais protegido socialmente do que aqueles que sequer entraram no ensino fundamental. O Brasil ainda tem muita gente que sequer é alfabetizada.

No ensino superior há um desafio no quesito qualitativo. E também tem o fato de que alguns cursos tem um contingente enorme de alunos, mas poucos desses alunos vão trabalhar realmente em seus mercados. No Brasil, por exemplo, temos mais universidades de direito do que em todo o resto do mundo. Quantos desses estudantes são aprovados no exame da ordem? Você tem um número gigantesco de faculdade que não estão desempenhando seu papel fundamental.

A engenharia também cresceu muito. Mas a matemática continua sendo uma matéria que os alunos têm dificuldade. Não adianta você criar novas vagas de ensino superior se os alunos não estiverem capacitados. A reforma do ensino médio era necessária, apesar de eu achar que não tenha sido bem feita. A gente tem que evitar que os alunos que chegam nas universidades desistam por não conseguirem acompanhar os cursos.

Temos uma experiência muito boa do bacharelado interdisciplinar na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Federal do ABC (UFABC). Ele trouxe para as pessoas uma formação multidisciplinar muito boa. Nós temos que mudar um pouco a maneira de ver a educação superior.

Educação pública X privada

Pode ser ingenuidade minha, mas não acredito que o corte nos orçamentos das federais seja uma ferramenta para dar espaço para o setor privado. Até porque o ensino público e o ensino privado tem papéis muito diferentes.

Nós chamamos de ensino privado todo o ensino que não pertence ao Estado e o ensino particular todo ensino que tem por objetivo o lucro. No ensino privado tem universidades que cobram mensalidades, mas que não tem puramente finalidade lucrativa. Essas universidades sem fins lucrativos são as que lideram o ranking de qualidade hoje no Brasil. Não vejo como as universidades com fins lucrativos iriam competir com as universidades públicas pelos estudantes. É outra coisa.
Pronatec

O Pronatec é muito importante. Vou tentar explicar a lógica em que ele foi pensado. Primeiro você tem a Bolsa Família. A bolsa consegue ajudar bem as famílias, mas para o Estado é um dinheiro perdido, porque é uma bolsa. A família precisa manter os filhos na escola, fazer os testes de gravidez, vacinações, enfim, é fantástico, mas continua sendo uma bolsa. Depois, surgiu o aumento real do salário mínimo. A pessoa não está mais recebendo uma bolsa, ela está recebendo o salário dela. Isso é mais positivo porque a lei coloca um salário melhor para essa pessoa. O terceiro momento é o Pronatec. Você tem a pessoa recebendo um salário melhor porque você melhorou a sua capacidade de trabalho. Dilma defendia o Pronatec da indústria, da lavoura, o Pronatec que gerasse dinheiro novo. Mas o caso do Pronatec para cabeleireiros, por exemplo, é um ótimo caso. Havendo uma demanda de serviços de beleza, você terá gente qualificada. Muita gente que tem um dinheiro a mais passa a cuidar da estética. E muitas mulheres de regiões pobres encontraram espaço nesse serviço, graças a capacitação profissionalizante. A ideia é melhorar o rendimento desses profissionais.

O que esperar?

Você tem pessoas com ótimas formações, até na pós-graduação, e essas pessoas estão sem emprego. Você reduz a perspectiva de trabalho delas. Por outro lado, você tem um corte nas bolsas. Pessoas que estariam entrando para o sistema e não vão ter a oportunidade de fazer suas teses de mestrado e doutorado. Isso é um desperdício. Pessoas que teriam todas as condições de crescer economicamente e que não terão a possibilidade. Se você deixa de fornecer bolsas por um ano, por exemplo, no ano seguinte você terá o dobro da demanda. Isso tudo é uma situação complicada. É a precarização econômica e social do país. Todo mundo sabe que a educação é a base de tudo. Mas o investimento na educação não tem sido feito de uma maneira correta. Isso tudo deixa a sociedade mais desanimada em relação ao ensino público de qualidade.

Este é o segredo para estudar algo chato com (algum) prazer

0
Estudante entediado (Tomwang112/Thinkstock)

Estudante entediado (Tomwang112/Thinkstock)

Como encontrar motivação para explorar um tema difícil ou desinteressante? Veja dicas para vencer a preguiça e descobrir novas paixões acadêmicas

Claudia Gasparini, na Exame

São Paulo — Estudar assuntos desinteressantes é uma obrigação que começa logo nos primeiros anos da formação escolar. O aluno apaixonado por matérias de exatas precisa encontrar motivação para assistir às aulas de história e literatura; já o estudante com típico perfil de humanas não tem outra opção senão mergulhar nos livros de física e matemática para passar de ano.

Isso se repete pelo resto da vida adulta, ainda que você se especialize na profissão que escolheu. Seja ao longo de uma pós-graduação, seja na preparação para um concurso público, por exemplo, sempre será necessário se debruçar sobre temas desvinculados dos seus interesses e aptidões para ter sucesso profissional.

Felizmente, é possível aprender a gostar de uma área do conhecimento que você sempre achou que detestava. O esforço vale a pena: ao expandir os seus temas de interesse, você ampliará os seus horizontes e poderá ir mais longe na carreira.

Esse foi o caso da professora norte-americana Barbara Oakley, autora do livro “Mindshift: Break through obstacles to learning and discover your hidden potential” (em tradução livre, “Mudança de mentalidade: Supere obstáculos para aprender e descobrir o seu potencial oculto), publicado em 2017 pela editora Tarcher-Perigee.

Em artigo para o site da Harvard Business Review, ela conta que detestava as aulas de matemática durante toda a sua vida escolar. Hoje, é professora de engenharia na Oakland University.

“Uma versão mais jovem de mim teria ficado chocada ao descobrir que, no futuro, eu seria professora de engenharia, encantada com números e confortável com o mundo da tecnologia”, escreve Oakley.

Com base em sua própria experiência pessoal e em diversos estudos sobre o assunto, a professora tem um método para aprender a desenvolver inesperadas paixões acadêmicas — ou, pelo menos, ser capaz de estudar algo desinteressante com algum prazer.

Ela propõe 4 passos, que você verá a seguir:

1. Busque um gatilho de motivação

Você morria de tédio na escola durante as aulas de geografia? Sofria para decorar fórmulas de química? Um motivo provável para todo esse sofrimento é que você considerava esses assuntos inúteis. Aí está o segredo para gostar (ou odiar) qualquer tema: o uso que você pode fazer dele na sua vida.

Para descobrir graça em um tema aparentemente desinteressante, o primeiro passo é tentar encontrar um motivo para aprendê-lo. Segundo Oakley, um dos melhores gatilhos de motivação é a busca por uma vida mais feliz e confortável.

Foi o que a fez voltar aos livros da sua tão detestada matemática, aos 26 anos de idade: a possibilidade de conseguir um emprego melhor no Exército, onde até então trabalhava numa função de pouco prestígio.

“Desejar uma mudança faz com que, mentalmente, você compare a sua situação atual (por exemplo, empregado como assistente administrativo) com o lugar em que poderia estar (como um funcionário público de alto gabarito certificado em contabilidade)”, explica ela. Ao serem encarados como chave para um horizonte melhor, até os livros mais tediosos podem parecer atraentes.

2. Drible a dor

Acredite se quiser: estudar aquilo de que você não gosta é literalmente doloroso. Pesquisadores da Universidade de Chicago perceberam que até pensar num assunto que você detesta ativa uma parte do cérebro envolvida com a experiência da dor.

A reação natural do corpo é a fuga. Ao começar a estudar aquele assunto, você ficará muito mais suscetível a distrações e provavelmente começará a adiar a tarefa. Das muitas técnicas para vencer a famosa procrastinação, a favorita de Oakley é a Pomodoro.

Funciona assim: desligue todas as possíveis distrações, como celulares ou computadores, e trabalhe por 25 minutos ininterruptos, contados no relógio. Passado esse tempo, levante e busque uma recompensa para si mesmo, como uma xícara de café ou uma boa música. Volte em seguida para mais 25 minutos de atividade sem pausas, e assim por diante.

Com blocos de estudo altamente produtivos, você tem a chance de finalmente entender aquela matéria que sempre pareceu misteriosa para você. Ao ganhar essa familiaridade com o assunto, você pode descobrir alguma dose prazer ao se aprofundar nele.

3. Tenha paciência consigo mesmo

Certas disciplinas se tornam insuportáveis porque temos dificuldade em aprendê-las. Compreender que é perfeitamente normal não entender algo de primeira ajuda a melhorar a sua relação com o estudo.

Quando era criança, Oakley achava que a sua dificuldade para assimilar um novo conceito matemático era resultado de uma completa inaptidão para os números. Essa certeza a afastou cada vez mais do assunto.

Só depois, quando já estudava para se tornar engenheira, ela percebeu que não precisava compreender todos os conceitos de cálculo instantaneamente. Foi uma epifania: livre da ideia de que não tinha “jeito” para aquele assunto, ela persistiu pacientemente nos estudos e acabou descobrindo seu talento.

4. Quebre o estudo em pedaços

Ao estudar um assunto com o qual tem pouca afinidade, a maioria das pessoas tenta estudar tudo de uma vez, para fazer o tormento passar mais rápido. Não funciona. “Ninguém consegue cantar uma música depois de ouvi-la uma única vez”, diz Oakley.

Segundo a professora, a melhor forma de aprender algo difícil é quebrar o assunto em vários “pedaços”. Imagine-se diante de um exercício aparentemente impossível de química, por exemplo. O conselho de Oakley é tentar resolvê-lo sem olhar a resposta. Não conseguiu? Tente de novo amanhã, e novamente nos dias seguintes, até conseguir.

A prática diária e insistente de uma nova habilidade é essencial para assimilá-la. Não é diferente com aprendizados práticos, como dirigir um carro.

“Cada dia de estudo com foco, seguido por uma boa noite de sono, vai fortalecer novos padrões neurais”, explica ela. Esse trabalho de pavimentação de conhecimentos eventualmente fará você aprender. “E, quanto maior o seu domínio do assunto, mais você vai gostar do que está estudando”, conclui Oakley.

Fundação de Jorge Paulo Lemann indica 10 livros para alavancar a carreira

0

23a4ff10f8d63cc12371df642d3d1983

Paula Zogbi, no InfoMoney

SÃO PAULO – A Fundação Estudar, do empresário e filantropo Jorge Paulo Lemann, enviou ao InfoMoney uma lista com livros essenciais para aqueles que desejam alavancar a carreira. A curadoria foi produzida por especialistas da Fundação, cujo objetivo é melhorar o país traçando trajetórias de impacto para os jovens brasileiros.

Confira os títulos e uma breve descrição de cada um:

1.     Garra (Grid), de Angela Duckworth

Neste livro obrigatório para todos que desejam alcançar o sucesso, a psicóloga Angela Duckworth demonstra para pais, estudantes, educadores, atletas e empreendedores que o segredo para realizações incríveis não é o talento, mas uma mistura de paixão e perseverança que ela chama de “garra” – a capacidade de perseverar e produzir resultados além do puro talento, da sorte ou das eventuais derrotas. Ao usar como exemplo a própria história como filha de um cientista que, com frequência, notava sua falta de “genialidade”, Duckworth, agora professora e pesquisadora renomada, descreve as primeiras revelações que a levaram à hipótese de que não é a “genialidade” que realmente conduz ao sucesso, mas uma combinação especial de paixão e perseverança. Em “Garra”, ela cita o caso dos cadetes que se esforçam em seus primeiros dias na Academia Militar de West Point e de professores que trabalham nas escolas mais difíceis de lecionar dos Estados Unidos. Destaca conceitos e insights fascinantes buscados tanto na história quanto nos mais modernos experimentos sobre alta performance e, finalmente, compartilha com o leitor o que aprendeu ao entrevistar dezenas de pessoas bem-sucedidas nos mais diversos campos de atuação: do CEO do J. P. Morgan a um cartunista da The New Yorker e um treinador da National Football League, entre outros. Pessoal e inspirador, capaz de transformar vidas, “Garra” é um livro sobre o que se passa na cabeça das pessoas durante as derrotas e como isso – não o talento ou a sorte – pode fazer toda a diferença.

2.     Empresas feitas para vencer (Good to great), de Jim Collins

Considerado, pela Time Magazine, um dos livros de negócios mais importantes de todos os tempos, esta obra seminal de Jim Collins responde a seguinte pergunta: Como empresas boas, medianas e até ruins podem atingir uma qualidade duradoura? Empresas feitas para vencer mostra como as grandes empresas triunfam no decorrer do tempo e como o desempenho sustentável a longo prazo pode ser inserido no DNA de uma organização desde sua concepção. Collins apresenta exemplos que desafiam a lógica e transformam a mediocridade em uma superioridade duradoura. O autor apresenta também quais são as características universais que levam uma empresa a se tornar excelente e outras não. Os resultados do estudo irão surpreender muitos leitores e lançar novas abordagens sobre quase todas as áreas da gestão.

3.     Vencedoras por opção (Great by choice), de Jim Collins e Morten T. Hansen.

Este livro busca enumerar princípios para construir uma empresa de sucesso em tempos tidos como imprevisíveis e tumultuados. Os autores procuraram estudar companhias que alcançaram sucesso em cenários caracterizados por mudanças bruscas em que os gestores não podiam prever nem controlar. Depois, pretenderam comparar o desempenho dessas empresas com o de outras que não tiveram sucesso neste mesmo mercado. A obra visa apresentar estes resultados, tais como o estilo dos líderes das empresas de sucesso, inovação, o problema em seguir com velocidade decisões e ações.

4.     O lado difícil das situações difíceis (The hard thing about hard things), de Ben Horowitz

Em O lado difícil das situações difíceis, Ben Horowitz, um dos empreendedores mais respeitados e experientes do Vale do Silício, conta a história de como ele mesmo fundou, dirigiu, vendeu, comprou, geriu e investiu em empresas de tecnologia, oferecendo conselhos essenciais e normas de sabedoria prática para ajudar os empreendedores a resolver os problemas mais difíceis – aqueles de que as faculdades de administração não tratam. Seu blogue alcançou um público dedicado de milhões de leitores, que passaram a confiar no autor para ajudá-los a gerir suas próprias empresas. Horowitz, grande fã de rap, ilustra as lições empresariais com letras de suas músicas favoritas e fala a verdade nua e crua sobre os assuntos mais espinhosos, desde como demitir um amigo até saber o melhor momento para vender a empresa.

5.     Faça acontecer (Lean in), de Sheryl Sandberg

Neste livro absolutamente inspirador, Sheryl Sandberg investiga as razões de o crescimento das mulheres na carreira estar há tantos anos estagnado, identificando a raiz do problema e oferecendo soluções práticas e sensatas para que elas atinjam todo o seu potencial. Eleita uma das dez mulheres mais poderosas do mundo pela revista Forbes, Sheryl encoraja as mulheres a sonharem alto, assumirem riscos e se lançarem em busca de seus objetivos sem medo. Ela acredita que um maior número de mulheres na liderança levará a um tratamento mais justo de todas as mulheres. A executiva faz uma autorreflexão sincera sobre os acertos e os erros de sua carreira, que, unidos a uma pesquisa vasta, resultaram neste livro escrito com humor e sabedoria. “Faça acontecer” é um manifesto feminino para homens e mulheres, fundamental para se pensar os impasses e as questões de gênero no mundo do trabalho.

6.     Fora de Série (Outliers), de Malcolm Gladwell

O que torna algumas pessoas capazes de atingir um sucesso tão extraordinário e peculiar a ponto de serem chamadas de “fora de série”? Baseando-se na história de celebridades como Bill Gates, os Beatles e Mozart, Malcolm Gladwell mostra que ninguém “se faz sozinho”. Todos os que se destacam por uma atuação fenomenal são, invariavelmente, pessoas que se beneficiaram de oportunidades incríveis, vantagens ocultas e heranças culturais. Tiveram a chance de aprender, trabalhar duro e interagir com o mundo de uma forma singular. Esses são os indivíduos fora de série. Para Gladwell, mais importante do que entender como são essas pessoas é saber qual é sua cultura, a época em que nasceram, quem são seus amigos, sua família e o local de origem de seus antepassados, pois tudo isso exerce um impacto fundamental no padrão de qualidade das realizações humanas. E ele menciona a história de sua própria família como exemplo disso.

7.     O poder da confiança (Speed of Trust), de Stephen M R Covey

Revolucionário e rompedor de paradigmas, o livro demonstra que a confiança é um fator de motivação econômica extremamente importante – uma habilidade adquirível e mensurável que torna as organizações mais lucrativas, as pessoas mais evidentes, os relacionamentos mais intensos. Covey, antigo Diretor Geral da Covey Leadership Center (fundada por seu pai, Dr. Stephen R. Covey), aborda sobre sua experiência de liderar uma empresa de US$100 Milhões de Dólares, para explicar como a confiança pode ajudar as pessoas a criar sucesso sem precedentes e prosperidade sustentável em cada aspecto da vida. Ele aponta os 13 comportamentos comuns aos Líderes altamente confiáveis e apresenta argumentos persuasivos que nos ajudam a aumentar e inspirar confiança em todos os nossos relacionamentos importantes.  O livro O Poder da Confiança, delineia um mapa para se estabelecer confiança em todos os níveis, construir caráter e competência, melhorar a credibilidade e criar uma liderança que inspire confiança.

8.     Extreme ownership, de Jock Willink e Leif Babin

Enviados para o mais violento campo de trabalho do Iraque, Jock Willink, Leif Babin e sua unidade da SEAL, enfrentaram uma missão aparentemente impossível: ajudar as forças norte-americanas a protegerem Ramadi, uma cidade considerada “quase perdida”. Ao lidar com vitórias difíceis, heroísmo e perdas trágicas, eles aprenderam que liderança, em todos os níveis, é o fator mais importante na vitória ou na perde de uma equipe. Depois de deixarem as equipes SEAL, lançaram a Echelon Front, uma empresa que ensina esses mesmos princípios de liderança para empresas e organizações. Desde startups promissoras até empresas presentes na Fortune 500, Babin e Willink ajudaram dezenas de clientes em uma ampla gama de segmentos a construir suas próprias equipes de alto desempenho e dominar seus campos de batalha. Agora, detalhando a mentalidade e os princípios que permitem às unidades SEAL realizar as missões mais difíceis em combate, a Extreme Ownership mostra como aplicá-las a qualquer equipe, família ou organização. Cada capítulo enfoca um tópico específico, explicando por que é importante e como implementá-los em qualquer ambiente de liderança. Uma narrativa atraente com instrução poderosa e aplicação direta, Extreme Ownership revoluciona a gestão de negócios e desafia líderes em todos os lugares a cumprir seu objetivo final: liderar e ganhar.

9.     Start with why, de Simon Sinek

Ao estudar os líderes que tiveram maior influência no mundo, Simon Sinek descobriu que todos pensam, agem e se comunicam exatamente da mesma maneira – e é o oposto completo do que todo mundo faz. Pessoas como Martin Luther King Jr., Steve Jobs e os irmãos Wright podem ter pouco em comum, mas todos começaram com o porquê. Com base em uma ampla gama de histórias da vida real, Sinek tece uma visão clara do que realmente leva para liderar e inspirar.

10.  Cultura de Excelência, de David Cohen

Criada em 1991 com objetivo disseminar uma cultura de excelência e alavancar os estudos e a carreira de universitários e recém-formados, a Fundação Estudar contabiliza seu impacto com 617 ex-bolsistas, 25 mil jovens beneficiados pelos cursos e 15 milhões de pessoas alcançadas pelos canais disponíveis na Internet. Como forma de celebrar essas histórias de sucesso, o jornalista David Cohen escreveu o livro Cultura de Excelência, lançado pela editora Sextante, convidando o leitor a conhecer a trajetória da Estudar, seus valores e métodos por meio de grandes cases de sucesso. Em Cultura de Excelência, cada capítulo se debruça sobre um dos seis princípios básicos em que a fundação se baseia para guiar o profissional à tão sonhada excelência. Esses valores – ter metas ambiciosas, trabalhar duro, unir-se a gente boa, investir em conhecimento, assumir o papel de protagonista em sua história e almejar um impacto positivo na sociedade – são o fio condutor do livro e são apresentados por meio de histórias inspiradoras de gente dedicada e comprometida, que seguiu à risca os ensinamentos da Fundação Estudar e hoje tem lugar de destaque no âmbito profissional.

Go to Top