Contando e Cantando (Volume 2)

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Casal transforma Fusca em sebo para vender discos e livros em Cuiabá

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Casal já usava Fusca para atividades diárias (Foto: Arquivo pessoal/ Thiago Sinohara)

Casal já usava Fusca para atividades diárias (Foto: Arquivo pessoal/ Thiago Sinohara)

 

Jornalista e arquiteto vendem discos de vinil e livros, alguns de acervo próprio.
Com Fusca, ano 69, eles chamam a atenção por onde passam.

Publicado no G1

O fusca, ano 1969, parece pequeno para tanta arte. São dezenas de livros, vinis, fitas cassetes, e obras de arte. Quando as portas do veículo se abrem, o sentimento de estar no passado é inevitável. Não é à toa que o sebo itinerante do casal Thiago Sinohara e Marília Bonna se chama ‘Rua Antiga’. Na vitrola, sempre toca um disco antigo. Com o sonho de levar cultura e arte a todos os públicos, eles rodam as ruas de Cuiabá com o veículo.

O que move o casal é o gosto pela arte. Ele é arquiteto por formação e aquarelista por paixão e, ela, jornalista e escritora. Há dois meses, o casal percorre as ruas e bairros de Cuiabá vendendo a baixo custo vinis antigos, livros e artigos de arte. “A proposta é que a arte faça parte do cotidiano, cada vez mais acelerado da cidade”, explica Thiago.

A ideia surgiu há algum tempo, mas tomou forma agora. No começo, a intenção era abrir uma galeria de arte com um espaço físico que misturasse tudo relacionado à arte. Não deu certo, mas a vontade foi maior.

O carro pintado de vermelho – que chama atenção por onde passa – já era usado para as atividades diárias do casal. O primeiro acervo de livros e vinis também era do casal, que resolveu se desfazer das próprias coleções para incentivar a leitura e o gosto pela arte.

Casal retira as mercadorias e expõe ao público (Foto: Arquivo pessoal/ Thiago Sinohara)

Casal retira as mercadorias e expõe ao público (Foto: Arquivo pessoal/ Thiago Sinohara)

 

O intuito não é comercial. Os itens expostos são vendidos à baixo custo. O sebo é um lugar para reunir as pessoas em volta das coisas que ficaram esquecidas na pressa do dia a dia e na rotina de cada um. “A gente quer que as pessoas deem um tempo para ouvir uma boa música, ler um poema ou só para bater um papo”, disse Thiago.

Depois de passar uma temporada no Rio de Janeiro, Marília iria se desfazer dos livros e vinis que deixou no outro estado. Até que a ideia do sebo itinerante tomou forma. “Nós demos um jeito de trazer todos os itens para começarmos nosso projeto”, conta.

Fusca de Thiago Sinohara e Marília Bonn virou sebo itinerante (Foto: Arquivo pessoal/ Thiago Sinohara)

Fusca de Thiago Sinohara e Marília Bonn virou sebo itinerante (Foto: Arquivo pessoal/ Thiago Sinohara)

 

Não há um dia certo, nem um ponto fixo para esse pedaço do passado estacione. Os pontos mais frequentes são em museus, em pontos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e praças. Hoje, o casal participa mais de eventos de arte e feiras de cultura.

Já com dois meses na estrada o acervo cresceu e paixão pela arte também aumentou. E além de vender, o sebo faz troca dos itens e recebe doação para manter o projeto. O número de vinis, livros é rotativo. Porém, atualmente o casal possui em torno de 100 discos, 40 fitas cassetes e 100 livros.

Apesar de colocarem a própria coleção à venda, Thiago e Marília têm artigos dos quais não se desfazem. Um vinil do segundo álbum do cantor e compositor Cartola é um deles. “Esse não sai de casa”, afirmou.

Johnny Cash, entre o céu e o inferno em autobiografia

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Em obra recém-lançada, o lendário cantor de country e gospel lembra amigos, drogas e June Carter Cash

Roberto Nascimento, no Estadão

Popularizada no filme Johnny & June, de 2005, a história de Johnny Cash é a quintessencial trajetória cristã de um grande artista, desde o triunfo inicial à penumbra do pecado e, finalmente, à redenção: um caminho tão humano quanto divino, que o lendário cantor soube traduzir como poucos em letras e interpretações, de gospel ao blues, ao rockabilly. Basta ouvir os discos de sua série American, gravada nos últimos compassos de sua carreira, para compreender o tom transcendental com que Cash imbuiu sua música, assumindo um papel de pecador confesso cuja sinceridade arrebatadora ressoou entre o público.

Divulgação Livro tem a sinceridade da música de Cash

Divulgação
Livro tem a sinceridade da música de Cash

Na época em que os seis Americans foram gravados, Johnny Cash, morto em 2003 por causa de complicações causadas pela diabete, também preparou o seu segundo livro de memórias Cash: A Autobiografia, que chega agora às livrarias brasileiras em tradução da Editora Leya. (O Estado publicou uma matéria sobre o livro em 2010, quando a autobiografia estava em processo de lançamento, mas por alterações na grade, a editora o segurou até agora.)

No início dos anos 2000, Cash vivia uma renascença artística, possibilitada pelo produtor Rick Rubin, que o apresentou a uma nova geração de fãs por intermédio de um repertório equilibrado entre gospel e canções atuais, como Hurt, do Nine Inch Nails.

A sinceridade cortante das gravações ecoa nas palavras escritas por Cash que, pressentindo o fim, narra sua história com sabedoria curtida em anos de sofrimento e redenção. A primeira metade passa pelas origens de sua carreira, nos meados dos anos 50, quando Cash gravou seus primeiros discos pela lendária Sun Records, gravadora de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e Roy Orbison. Há a descrição da mítica jam session entre Cash, Elvis, Lewis e Perkins, lançada no disco Million Dollar Quartet (Cash abriu mão de seu barítono e cantou uma oitava acima para combinar com Elvis).

Há os dramas do pianista, cantor e pastor Jerry Lee Lewis, que tinha certeza de que iria para o inferno quando via jovens se esfregando ao som de sua música (“Estou fazendo o que Deus mandou, mas estou levando todo mundo para o inferno. É para lá que eu vou se continuar cantando”, dizia Jerry). E há uma defesa de Elvis, que, para Cash, no início de sua carreira era tão invejado que foi tachado como um bad boy pelos próprios colegas. Mas um carinho especial é dado pelo cantor em sua abordagem do trágico amigo Roy Orbison, que suportou um sofrimento sobre-humano ao perder dois de seus três filhos em um incêndio em sua casa no Tennessee, enquanto fazia turnê pela Inglaterra. Cash e Orbison eram muito próximos. Cash morava do outro lado da rua da casa que pegou fogo e depois que Orbison conseguiu se reestruturar, comprou o terreno e prometeu ao amigo que jamais o venderia. Além dos colegas, boa parte de Cash: A Autobiografia concentra-se em drogas e problemas familiares.

Viciado em anfetaminas, barbitúricos e tudo o que viria a matar os ídolos do rock nos anos 60, o cantor foi um pioneiro em dramas de fama e dependência química. Chegou a passar dias alucinado no deserto como um pré-Jim Morrison. Botou fogo em uma reserva nacional. Alugou um avião para se transferir de um hospital, com medo que soldados de elite fossem plantar uma bomba em seu dormitório. Quebrou a porta do quarto de seu guitarrista a machadadas – feito que, em suas palavras, o levou a ser o “pioneiro do vandalismo de motel que tanto é glorificado no rock de hoje em dia”.

Cash conta suas melhores histórias ao relembrar o amor que teve por June Carter, sua alma gêmea e santa protetora até o fim da vida, passado entre Nashville e uma casa na Jamaica. Quando se deparava com o “cachorro negro”, nome que dava para o seu lado sombrio e autodestrutivo, era June quem o salvava, deixando claro que sua carreira se desfaria sem a companheira.Na mais singela das provas de amor de June Carter, Cash – sofrendo de síndrome de abstinência ao tentar se livrar das drogas – sente uma brisa que o guia, como a luz na alegoria de Platão, à entrada da caverna. Quando sai, lá está June, que o espera com uma cesta de maçãs.

O cantor morreu em setembro de 2003, quatro meses depois de sua mulher.

Lendo Pessoa à beira-mar

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Lendo Pessoa à beira-mar: Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli, na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty

Mediação Júlio Diniz

Cleonice Berardinelli é a mais importante estudiosa de Fernando Pessoa no Brasil e autora da segunda tese feita no mundo sobre o poeta português. Maria Bethânia tem integrado versos de Pessoa em seus espetáculos e discos há mais de quatro décadas, realizando leituras antológicas dos poemas do autor. As duas amigas, ambas condecoradas pelo governo português com a Ordem do Desassossego, se encontram para uma sessão de leitura, conversa e celebração em torno de um dos maiores escritores modernos.

dica do Moisés Lourenço

Livros ‘invadem’ praias do litoral paulista no verão

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Cassiano Elek Machado, na Folha de S.Paulo

A livraria tem 170 cavalos de potência, seis marchas, freio com discos ventilados e seis rodas a disco de aço. Além, claro, de “Cinquenta Tons de Cinza”, “Ágape” e mais de 2.000 títulos.

Instalada no cangote de um caminhão-baú, a Livraria Móvel da Editora Unesp, a primeira do gênero no país, começou a operar há dez dias, no litoral de São Paulo.

Estará hoje na praia de Pitangueiras, no Guarujá. Mas amanhã, pega a estrada. Só volta a operar, na praça da Alegria, em Boiçucanga, em São Sebastião, no dia 6.

A loja ambulante é criação do presidente da Editora Unesp, o professor de filosofia José Castilho Marques Neto, 59, que desenhou pessoalmente o projeto.

“É comum no mercado editorial criticarmos a falta de livrarias. Resolvemos criar uma que possa ir atrás dos leitores”, diz Castilho.

Alessandro Shinoda/Folhapress
Livraria-caminhão da Editora Unesp na praia de Pitangueiras, no Guarujá, litoral sul de SP
Livraria-caminhão da Editora Unesp na praia de Pitangueiras, no Guarujá, litoral sul de SP

Após as operações-piloto no litoral de São Paulo, a livraria irá atrás dos leitores que frequentam os campi da própria Unesp. Fará um tour pelas 24 cidades onde atua a universidade. Em julho, ela deve estacionar no inverno de Campos do Jordão.

Com uma área de 20 m², a livraria-caminhão tem até vitrine e consegue receber 20 clientes ao mesmo tempo.

Em suas estantes, desenhadas de modo a não terem de ser desmontadas a cada viagem, estão livros universitários, mas também obras convencionais, como os best-sellers de tinturas eróticas ou espirituais, os mais vendidos nos primeiros dias da loja.

Dica do Chicco Sal

Catadora cria biblioteca com obras encontradas no lixo no interior de SP

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A catadora de recicláveis Cleuza Branco de Oliveira, 47, lê obra na cooperativa de Mirassol
A catadora de recicláveis Cleuza Branco de Oliveira, 47, lê obra na cooperativa de Mirassol, no interior de SP

Augusto Fiorin, na Folha de S.Paulo

A catadora de recicláveis Cleuza Aparecida Branco de Oliveira, 47, sempre cultivou o sonho de ter uma biblioteca em sua casa, em Mirassol (455 km de São Paulo). Apaixonada por leitura, queria poder emprestar livros a pessoas sem condições de comprá-los.

De tanto ver obras jogadas no lixo de escritores como Machado de Assis, José Saramago e Érico Veríssimo, Cleuza, então semianalfabeta, passou a lê-las e pôde, neste ano, realizar seu sonho.

Foi guardando livros e inaugurou a biblioteca não em casa, mas na associação de catadores, da qual participa, localizada no centro de triagem do lixo.

O acervo já conta com 300 títulos. Criado e administrado por 11 catadores, o espaço tem um canto de leitura, uma brinquedoteca, uma área para discos, brechó e, claro, os livros.

A biblioteca não cobra pelo empréstimo das obras, mas quem quiser comprá-las -há títulos repetidos-, paga R$ 0,50 por livro. A renda vai para a própria associação. O local também faz trocas.

“Não tem burocracia e não precisa preencher nada. Alguns levam para casa e outros optam por ler no próprio barracão”, afirmou o biólogo Luiz Fernando Cireia, 31, incentivador e usuário do projeto.

Empresas de Mirassol também têm feito doações, que vão possibilitar, inclusive, a ampliação da área, de acordo com Cleuza.

Com salário de R$ 500 mensais, os catadores terão um pequeno acréscimo de renda, ainda não calculado, graças à venda de alguns títulos.

Mas Cleuza garante que o objetivo não é financeiro, é dar aos colegas a oportunidade de ler esses livros.

foto: Augusto Fiorin/Folhapress

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