Contando e Cantando (Volume 2)

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Nunca desisti de estudar, diz ex-morador de rua que se formará em direito

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Jéssica Nascimento, no UOL

Jovem trocou as ruas pelas bibliotecas

Jovem trocou as ruas pelas bibliotecas

Um ex-morador de rua do Distrito Federal trocou o chão frio da Rodoviária do Plano Piloto, no centro de Brasília, pelo calor das bibliotecas da cidade. Com o sonho de fazer faculdade, Walisson dos Reis Pereira, 30, voltou a estudar, abandonou as ruas, fez o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio e passou no curso de direito de uma universidade particular. Hoje, no oitavo semestre da graduação, ele trabalha como estagiário da Casa Civil, no Governo do Distrito Federal.

Nascido no interior de Minas Gerais, o estudante foi criado pelos avós até os 18 anos e não chegou a completar o ensino médio na época. Como almejava um diploma de ensino superior, decidiu se mudar para Brasília e passou a morar com o pai. Infelizmente, a aproximação com o familiar não foi o que esperava.

“Meu pai me batia sem motivo, era muito violento. Sofri muito durante esse tempo. Até hoje, não nos damos bem. Preferia passar frio, preconceito, pedir esmolas e até passar fome do que morar com ele”, lembra o rapaz que, cansado da violência, fugiu de casa e passou a morar na rodoviária da cidade.

Entre as amizades com comerciantes e passageiros da rodoviária, certo dia Walisson conheceu um idoso que havia decidido pagar um lanche para ele. Foi aí que conversaram sobre o futuro e o ex-morador de rua confessou o desejo de voltar a estudar.

“Eu sempre quis terminar o ensino médio, ficava folheando as revistas e livros de uma banca de jornais que fica por lá [Rodoviária do Plano Piloto]. Então, contei para o senhor que havia procurado uma colégio para concluir os estudos, mas como não tinha residência fixa, não conseguia ser matriculado. Ele então me deu uma conta de luz. Foi o dia mais feliz da minha vida”, conta.

No mesmo dia, o Walisson pegou um ônibus, com dinheiro obtido por esmolas, e foi até o Centro de Educação de Jovens e Adultos na Asa Sul se matricular.

Era o ano de 2012 e o jovem iniciou uma rotina árdua de estudos. Acordava às 5h, ia para a escola e depois passava à tarde toda na biblioteca. Já à noite, por volta de 22h, voltava para dormir na rodoviária.

“Eu nunca desisti de estudar, mesmo nas dificuldades. Queria me esforçar cada dia mais, para sair daquela situação, entende? Tanto que no mesmo ano conclui o ensino médio. Depois, consegui um emprego como entregador de panfleto. Ganhava R$ 20 e aluguei um quarto em Samambaia. Isso foi em 2012”, relembra.

Da rua para a faculdade

Após conseguir sair das ruas e ter o próprio espaço, o estudante decidiu que persistiria no sonho de infância: entrar em uma faculdade. Durante um ano, ele frequentou bibliotecas públicas e se preparou para o Enem.

“Eu sabia das minhas dificuldades. Mas sempre pensava: ‘os outros candidatos têm internet em casa, mais estudo. Não posso ter preguiça, né? Tenho que estudar todos os dias'”, lembra.

Com o esforço, veio o resultado. Walisson garantiu uma vaga numa universidade particular da região. A pontuação no Enem também assegurou o financiamento do curso de direito por meio do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil).

Apesar da história de superação, o estudante confessa que não gosta de contá-la para professores e colegas. “Muitos nem sabem o que eu passei. Vão saber agora com a reportagem”, brinca. “Eu sei que tem muita gente metida em faculdades particulares. Fiquei com medo de me acharem coitadinho e ficarem com dó. Eu estou onde estou porque me esforcei.”

Vaquinha para a formatura

Para fechar com chave de ouro a conquista da graduação, Walisson sonha com a festa de formatura, que será realizada no ano que vem. O problema é o gasto que ele terá com a festa.

Financeiramente, a vida do jovem continua com altos e baixos. Ele ganha R$ 760 no estágio. Desse valor, R$ 500 são usados para pagar o aluguel da quitinete onde vive. “O que sobra [quando sobra] eu uso para comer, andar de ônibus e tirar cópia das apostilas”, conta.

Por isso, o rapaz resolveu fazer uma vaquinha virtual para tentar arrecadar R$ 6 mil que precisa para pagar o baile, fotos, roupas e a colação de grau.

Depois que se formar, o estudante espera passar em um concurso público para o cargo de defensor público. O motivo? Ajudar pessoas de baixa renda. “Muita gente não sabe os direitos que têm. Por isso, quero ajudá-los.”

Cobrador monta biblioteca em ônibus no DF com obras de Clarice e Trevisan

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O cobrador de ônibus Antônio Freitas, que montou biblioteca em ônibus no DF (Foto: Raquel Morais/G1)

O cobrador de ônibus Antônio Freitas, que montou biblioteca em ônibus no DF (Foto: Raquel Morais/G1)

Publicado no CONews

Na época da escola, eu às vezes passava uma semana indo ao colégio somente com uma calça, e aquilo me transmitia vergonha, timidez, porque eu via meus colegas com calça melhor. Às vezes eu passava um mês trabalhando roçando arame só para ter uma calça”
Antônio da Conceição Freitas,
cobrador de ônibus

O cobrador Antônio da Conceição Ferreira descobriu nos livros uma oportunidade de entreter passageiros que enfrentam até 90 minutos dentro dos ônibus diariamente para estudar ou ir ao trabalho em Brasília. O caixa do coletivo virou estante para clássicos como os de Clarice Lispector e Castro Alves, que passaram a ser cedidos por até três dias. O projeto ganhou o reconhecimento da Viação Piracicabana, e o rodoviário foi liberado da função há dez meses para expandir a iniciativa para 30 coletivos.

A inspiração para a ideia veio da própria paixão de Ferreira por literatura. Nascido no interior do Maranhão, ele começou a trabalhar ainda na infância para ajudar os pais agricultores e só foi alfabetizado aos 12 anos. Todo o ensino ocorreu em escolas públicas, e o homem diz que recebia pouco estímulo.

“Não sabia nem soletrar direito. Uma professora que, vendo a minha luta para soletrar, me ajudou bastante. Eu gostava de ler gramática. Via as pessoas conversando de uma forma bem solta, eu queria aprender a me expressar também”, conta. “Mas, por um tempo, parece que havia um bloqueio na minha alma.”

A virada aconteceu depois de ler “Capitães da areia”, de Jorge Amado. Ferreira tinha se mudado havia pouco tempo para a capital do país em busca de emprego e viu semelhanças entre os anseios dos garotos criados pelo escritor baiano e os próprios.

“A falta de estudo e o desejo de comprar alguns produtos faz com que a pessoa cometa prática errada. Mas eu nunca fiz isso, porque sempre acreditei na cultura e educação como a melhor arma para mudar de vida. E ler aquele livro me sensibilizou”, conta. “Na época da escola, eu às vezes passava uma semana indo ao colégio somente com uma calça, e aquilo me transmitia vergonha, timidez, porque eu via meus colegas com calça melhor. Às vezes eu passava um mês trabalhando roçando arame só para ter uma calça.”

O homem, que trabalhou em mercados e lojas de eletrodomésticos, passou então a ler um livro por semana. O emprego como cobrador veio em 2000, e três anos depois Ferreira decidiu levar um livro para o caixa do coletivo e “testar” a reação dos usuários de transporte público.

“O passageiro foi se habituando, pegando emprestado, e eu ia anotando. Pegavam para ler no ônibus mesmo, depois para levar para casa, depois ofereciam outro em troca. Tive que passar os livros para debaixo da cadeira, depois pôr em uma caixa de papelão e então, no fim, montar estantezinha para abrigar os livros”, conta.

O cobrador de ônibus Antônio Freitas, que montou biblioteca em ônibus no DF (Foto: Raquel Morais/G1)

O cobrador de ônibus Antônio Freitas, que montou biblioteca em ônibus no DF (Foto: Raquel Morais/G1)

A proposta foi se tornando conhecida, e Ferreira passou a receber cada vez mais doações de livros. Atualmente ele tem 5 mil obras, divididas entre uma quitinete alugada em Sobradinho e um espaço montado na Rodoviária do Plano Piloto para abastecer os ônibus que integram o projeto. A ideia é que cada coletivo tenha sempre seis volumes.

“Neste sábado fui a Samambaia Sul buscar uma doação de 60 livros. Tem coisas de Carlos Drummond de Andrade e Dalton Trevisan”, afirma. “É muito bom, porque você vê que as pessoas se envolvem. E a cultura vai sendo produzida e espalhada de pouco em pouco.”

Futuro
O sucesso do projeto também estimulou que Ferreira buscasse novos sonhos. O homem concluiu o ensino médio e, neste ano, começou a cursar letras em uma faculdade particular. Além disso, sempre participa de feiras literárias e encontros culturais.

O cobrador diz esperar que a iniciativa cresça ainda mais e estimule outras pessoas. “Não faço nem controle, não pego o nome da pessoa que pegou o livro emprestado. Isso burocratiza o negócio e pode ser que isso atrapalhe, que funcione como pressão psicológica. O que quero é a circulação, que a pessoa veja e leia. O ônibus é uma ponte, o passageiro sai de casa e vai para o serviço, aí aproveita para conviver com o livro.”

“Aí, em casa, ele lembra que tem no ônibus um espaço para ter o livro e vai pôr para circular alguma obra que esteja parada, ajudando assim o próximo”, completa. “Eu acho que isso é bom e que as pessoas têm que ler qualquer história, desde que seja benéfica para a vida dela.”

O projeto ganhou inclusive uma página na web. O cobrador conta que está agora buscando novas parcerias. Entre os objetivos está estabelecer parcerias com livrarias e bibliotecas, estimular crianças não-alfabetizadas com ilustrações e gibis e promover campanhas para arrecadar obras e materiais escolares para estudantes de baixa renda da rede pública.

Distrito Federal quer ouvir crianças sobre educação

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size_810_16_9_escoladaeduinvestPublicado em Exame

Crianças das escolas públicas do Distrito Federal poderão dizer o que querem aprender e sugerir atividades para serem desenvolvidas a partir do ano que vem. Por meio do Projeto Plenarinha, os professores vão coletar e sistematizar sugestões e opiniões dos alunos de até 5 anos de idade, para que sirvam de subsídio para a elaboração dos projetos político-pedagógicos (PPP).

O projeto, cujo nome é inspirado nos plenários do Congresso Nacional, está na terceira edição e, pela primeira vez contará com a participação de todas as escolas que oferecem educação infantil na rede, seja pública ou conveniada – instituições sem fins lucrativos. De acordo com a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, o Plenarinho contará também com a participação de todas as crianças, desde os 4 meses de idade.

“A criança do berçário, ainda que não tenha a linguagem oral, ela se comunica, seja por choro, seja por movimento. Temos buscado que nossos professores tenham esse olhar para o berçário. A aproximação com as famílias também é essencial”, diz a coordenadora de Educação Infantil da secretaria, Michelle Abreu Furtado.

Segundo Michelle, o projeto político-pedagógico geralmente é elaborado apenas pelos adultos, principalmente os gestores. Muitas vezes, sequer os pais ou responsáveis pelas crianças são ouvidos. Cada escola define um PPP, que orienta as açõe educativas naquela unidade.

“Com a educação integral, muitas crianças passam 10h na escola, às vezes, mais tempo do que passam com a família. Precisamos conhecer essa criança. Tem aquelas que gostam de tinta, de certos materiais e outras, não. E isso tem que ser levado em consideração no PPP. Estamos pedindo que as escolas pensem na particularidade de cada criança, e não em um grupo homogêneo”, destaca Michelle.

O projeto começou em maio e deverá seguir até o dia 25 de novembro, quando, em reunião, as escolas apresentarão a sistematização da Plenarinha. As opiniões das crianças são coletadas de diversas formas. Além de perguntas feitas diretamente pelos professores, a proposta prevê que as crianças usem máquinas fotográficas para registrar o que gostam e o que não gostam, entrevistem umas às outras, gravem áudios, desenhem e pintem a percepção que têm da escola e do ensino. Aos professores cabe a observação, a escuta e o registro dos trabalhos.

Crianças usam máquinas fotográficas para registrar o que gostam e o que não gostam, entrevistam umas às outras, gravam áudios, desenham e pintam a percepção que têm da escola e do ensino Elza Fiúza/Agência Brasil

A primeira edição da Plenarinha contou com a participação de uma amostra de 400 crianças e 50 profissionais de algumas escolas. O tema era Currículo em Movimento da Educação Básica – Educação Infantil. A segunda teve como tema o Plano Distrital pela Primeira Infância. As crianças puderam também dar sua contribuição em outras áreas, como saúde. assistência social e meio ambiente. Neste ano, o tema é “Escuta sensível às crianças: Uma possibilidade para a (re)construção do projeto político-pedagógico.

Literatura muda a vida de jovens infratores no Distrito Federal

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Luiza de Carvalho Fariello, na Agência CNJ de Notícias

“Para se ter opinião e senso crítico é preciso ler muito, se dotar de conhecimento”. A afirmação é do adolescente Vítor*, jovem infrator que cumpre medida socioeducativa há um ano na Unidade de Internação de Santa Maria, Distrito Federal. Quando entrou no sistema, Vítor jamais havia lido um livro, e seus planos giravam em torno das drogas e do crime. A mudança brusca é resultado do “Projeto Leitura – a Arte do Saber”, uma biblioteca itinerante que percorre a unidade entregando livros aos 150 jovens do local.

O projeto foi desenvolvido pela Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude em parceria com a Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal, por meio da Rede Solidária Anjos do Amanhã, e com a rede de postos de gasolina Gasol, que já doou mil livros. A intenção é ampliar o projeto para as outras cinco unidades de internação do DF, com a arrecadação dos livros contemplando cerca de 900 jovens.

De acordo com o juiz titular da Vara de Infância e Juventude, Renato Rodovalho, os jovens leem os livros e passam por acompanhamento. Uma equipe de voluntários avalia e corrige os resumos feitos por eles, condição fundamental para que passem a ter acesso a outras leituras.

“A medida socioeducativa, sem acesso à leitura, perde sua natureza. Embora exista a reprimenda e cerceamento de liberdade, a intenção é propiciar um contexto socioeducativo”, diz Rodovalho. Para ele, a cultura e o livro abrem um mundo diferente para o ser humano, justamente no momento em que esses adolescentes se encontram em uma fase de projeto de vida.

Outra realidade – Esse foi o caso de Vítor, que quando chegou à instituição não fazia ideia da importância que os livros poderiam ter para sua vida. “O livro me levou para outra realidade, passei a me sentir como outra pessoa na sociedade. Li livros de história e passei a querer ser igual ao Mandela, Kant, a querer fazer a diferença. A gente aprontou, matou, roubou, fez várias coisas ruins, mas somos capazes de nos dotar de conhecimento e mudar”, diz o jovem, que terminou o ensino médio e estuda para o Enem. “Eu queria ser independente e o crime era um dinheiro fácil. Agora eu só quero mostrar quem sou por meio da dança, da música. Vou me afastar das pessoas que eu conhecia, a minha vida será de batalha. Hoje eu alcanço minha calma na leitura”, acredita.

Os livros que fazem parte do projeto são arrecadados nas varas de Justiça, fóruns, secretarias do governo e até em postos de gasolina. De acordo com o juiz Rodovalho, a maioria dos adolescentes internados já estava afastada da escola antes de cumprir a medida. “A gente verifica o crescimento do adolescente, uma mudança de atitude que beneficia não só ele como toda sociedade, uma vez que o projeto colabora para diminuir a reincidência criminal”, acredita o magistrado.

Na Unidade de Internação de Santa Maria, não há televisão nos quartos, o que facilitou a aproximação dos jovens com os livros. “No módulo não tem televisão, eu acho bom, se eu tivesse eu não chegaria à leitura. Mas agora nada pode me separar dela, mesmo que tivesse TV eu ia querer ler, isso vou levar para a vida toda”, conta Vítor. Ele ainda não sabe qual faculdade quer cursar, mas tem um sonho: “quero mostrar para uma criança da periferia que o sonho dela pode ser alcançado sem precisar entrar para o crime. Eu poderia ter tido outro destino na vida”, diz.

Quer doar livros? Veja os postos de coleta:

– Secretarias de Educação; Cultura; Ciência, Tecnologia e Inovação; Esporte e Lazer; Desenvolvimento Humano e Social; Políticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos; e Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude;

– Palácio do Buriti (sede e anexo);

– Biblioteca Nacional;

– Câmara Legislativa;

– Unidades do Na Hora;

– Fóruns de Justiça do DF.

*Nome fictício em respeito a Estatuto da Criança e do Adolescente

 

Falta de estrutura e conteúdo diferente prejudicam no Enem, dizem escolas

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Fachada do Centro Educacional 04 de Brazlândia, escola do DF com pior colocação no Enem 2013. (Foto: Isabella Calzolari/G1)

Fachada do Centro Educacional 04 de Brazlândia, escola do DF com pior colocação no Enem 2013. (Foto: Isabella Calzolari/G1)

‘Exame não retrata realidade’, diz diretores de 4 piores colocadas em 2013.
‘Função do ensino público é dar escolarização à população’, diz subsecretário.

Izabella Calzolari, no G1

Escolas do Distrito Federal com piores colocações no Enem 2013 afirmaram que a falta de infraestrutura nas unidades e a diferença entre o conteúdo da rede pública com o que é explorado no exame afetam o resultado final dos alunos. O G1 conversou com diretores de quatro escolas com menor média na prova objetiva de linguagens e códigos do Enem 2013. Todas estão localizadas em zonas rurais – duas em Brazlândia, uma em Planaltina e outra no Paranoá. A pior escola do ranking foi o Centro Educacional 04 de Brazlândia.

O subsecretário de Educação Básica da Secretaria de Educação, Gilmar Ribeiro, afirmou ao G1 que a proposta curricular da rede pública não tem como objetivo preparar para exames e vestibulares. “A escola pública tem a função social de dar a escolarização e de trabalhar com os conhecimentos globais e locais para dar formação à população e não tem como objetivo preparar para exames e vestibulares”, disse. “Os projetos pedagógicos das escolas podem, além da proposta curricular, desenvolver projetos extras ligados aos exames e vestibulares, mas isso é uma definição de cada unidade.”

A diretora do CED 4 de Brazlândia, Francisca Zenilda da Conceição (Foto: Isabella Calzolari/G1)A diretora do CED 4 de Brazlândia, Francisca Zenilda da Conceição (Foto: Isabella Calzolari/G1)

A diretora do CED 4 de Brazlândia, Francisca Zenilda da Conceição (Foto: Isabella Calzolari/G1

Além das reclamações, os diretores também foram unânimes ao considerarem que o Enem não retrata a realidade dos estudantes das escolas rurais. No caso do CED 4 de Brazlândia, a diretora da instituição, Francisca Zenilda da Conceição, afirmou que a análise dos resultados do exame dão uma sensação de “inverdade”.

“Quem vê essas notas pensa que a escola é ruim, que os alunos não são inteligentes, mas a qualidade do ensino aqui é muito boa”, disse. “Quando os alunos daqui fazem avaliações, eles sempre se destacam. Se eu passo esse resultado para os alunos e digo que eles estudam na escola pior colocada no Enem, isso vai desestimular com certeza.”

A escola, localizada em uma zona rural de Brazlândia, é formada por filhos de agricultores, caseiros e moradores de fazendas e chácaras. São 11 professores para 186 alunos do ensino fundamental e médio. Para Francisca, o grande problema da escola está na questão estrutural.

A diretora contou que o ensino médio foi implantado na escola recentemente a pedido dos moradores da região, mas não houve nenhum tipo de construção na escola para receber a nova demanda. A coordenação da unidade dividiu uma sala de aula de 30m² em duas. Na sala cabem no máximo dez alunos, mas atualmente ela é ocupada por 17. Uma parte do pátio também foi usada para os professores construírem uma nova sala improvisada para guardar os livros. A escola não tem biblioteca nem sala de estudos.

Sala improvisada feita em pátio da escola para guardar os livros usados pelos alunos (Foto: Isabella Calzolari/G1)

Sala improvisada feita em pátio da escola para guardar os livros usados pelos alunos (Foto: Isabella Calzolari/G1)

“Não temos problemas com relação à parte pedagógica. O que existe é um grande problema no espaço físico reduzido. Não temos laboratórios, para biblioteca improvisamos um espaço pequeno para colocar os livros, mas não há um espaço em que os alunos podem sentar e estudar concentrados”, disse. “Além disso, como a escola funciona o dia inteiro, se o aluno estuda de manhã, a gente não consegue propor nenhuma atividade extra direcionada para o Enem porque não tem local para realizá-la.”

O professor Ezequias Abreu ajudando na reforma da escola (Foto: Isabella Calzolari/G1)

O professor Ezequias Abreu ajudando na reforma da escola (Foto: Isabella Calzolari/G1)

Para receber os alunos na unidade, o professor de educação física Ezequias Abreu resolveu usar o resto das férias para ajudar na reforma da escola. “Sempre que precisa a gente faz algo a mais. Quando a gente ama o que faz a gente faz de tudo para agradar”, disse. “Aqui [quadra de esportes] é o ambiente que eles mais gostam, então temos que deixar tudo arrumadinho.”

Francisca atribui o baixo desempenho da escola no exame ao número de alunos inscritos. “Temos 45 alunos no ensino médio. Se 10 fazem e 5 não conseguem, a média já cai”, afirmou. “Já formamos 148 alunos e 70 deles estão fazendo faculdade. É uma turma esforçada, que gosta de estudar.”

O diretor do CED Irmã Maria Regina Velanes Regis, em Brazlândia, afirmou que considera o contexto socioeconômico e a localização da escola fatores determinantes para o baixo desempenho dos alunos no Enem.

“A nossa escola está situada em área rural e ela está em uma região que em torno dela tem seis assentamentos de sem terra, além de chácaras e fazenda”, disse Sérgio de Oliveira. “Nosso principal público são trabalhadores rurais, filhos de trabalhadores rurais, assentados e filhos de assentados. A realidade é diferente do estudante de área urbana. As perspectivas deles são outras, eles não têm o Enem como referência.”

A escola funciona em três turnos, com 90 professores para atender cerca de 1.250 alunos. Oliveira contou que, apesar do objetivo central dos estudantes (mais…)

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