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‘Estão em festa’, diz filho de pedreiro e doméstica aprovado em medicina

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Sergio dos Santos foi aprovado para o curso de medicina na UFPI (Foto: Sergio dos Santos/Arquivo Pessoal)

Sergio dos Santos foi aprovado para o curso de medicina na UFPI (Foto: Sergio dos Santos/Arquivo Pessoal)

 

Estudante de São Lourenço do Piauí conseguiu a aprovação como cotista.
Comemoração tem casa cheia e fogos de artifício na pequena cidade.

Publicado no G1

O filho de um pedreiro e de uma doméstica da pequena cidade de São Lourenço do Piauí, a 539 km de Teresina, foi aprovado para o curso de medicina na Universidade Federal do Piauí (UFPI) por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) . Sérgio dos Santos Santana, 18 anos, estudou a vida inteira em escolas públicas do município, que possui pouco mais de 4 mil habitantes.

Apesar da alegria pela aprovação, Sérgio conta que a euforia maior está sendo dos familiares na pequena cidade. “Eu já estava esperando, mas quem teve uma reação mais exacerbada foi a minha família. Estão em festa”, disse.

Após a divulgação do resultado, parentes e conhecidos do estudante foram até a casa da família parabenizar o jovem pelo feito. Sérgio concorreu a uma das duas vagas destinadas a estudantes oriundos de escola pública. Ele conseguiu a aprovação com a nota 793,22, sendo o primeiro colocado entre os cotistas na modalidade.

Em entrevista ao G1, o estudante não escondeu a alegria pela aprovação e contou que somente quando estava perto de concluir o ensino médio é que decidiu tentar uma vaga para o curso de medicina. Ele terminou o terceiro ano em 2014 na Unidade Escolar Estadual Malaquias Ribeiro Damasceno, na zona urbana de São Lourenço do Piauí.

“Comecei a pesquisar sobre o curso e a carreira no fim do ensino médio e resolvi que tentaria ingressar na profissão. Essa foi a terceira vez que fiz o Enem. Nas vezes anteriores já havia conseguido aprovação em matemática no IFPI e para direito através do Fies em uma faculdade particular de Teresina”, falou o estudante.

Família comemora aprovação de Sergio no Sisu (Foto: Sergio dos Santos/Arquivo Pessoal)

Família comemora aprovação de Sergio no Sisu (Foto: Sergio dos Santos/Arquivo Pessoal)

 

O pai do estudante, o pedreiro e carpinteiro Hamilton Santana, comprou vários fogos de artifício para comemorar a aprovação do filho. Ele também falou ao G1 sobre o clima de festa na cidade sertaneja e da alegria que ele e a mulher, a doméstica Marizete Vilanova dos Santos, estão sentindo com a conquista. O pedreiro revelou que várias mensagens e ligações chegam a todo momento para o estudante.

“Estou muito alegre e bastante feliz com a aprovação dele. Para a gente foi uma grande surpresa. Ele sempre estudou nas escolas públicas daqui, nunca esteve em escola particular e conseguiu a aprovação. Toda hora chega gente aqui para parabenizá-lo”, falou orgulhoso o pai do estudante.

Sérgio fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na vizinha cidade de São Raimundo Nonato, distante 26 km de São Lourenço do Piauí. O estudante afirmou que fará uma comemoração na residência onde mora e convidará familiares, amigos e os professores das escolas onde estudou na cidade.

Resultado
O Ministério da Educação divulgou nesta segunda-feira (18) o resultado da chamada regular da primeira edição do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2016. Para acessar o resultado, o candidato deve digitar o número de inscrição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e a senha no site do Sisu.

Também é possível consultar a lista de estudantes aprovados selecionando instituição, campus e curso neste link.

Ex-doméstica vira professora e dirige escola destaque no Enem na Paraíba

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Publicado no Portal AZ

Do trabalho doméstico à direção de uma escola estadual de referência na Paraíba. Este foi o caminho percorrido pela professora Marias das Dores Barbosa, de 55 anos, natural da cidade de Areia, no brejo da Paraíba, onde morava em um sítio na Zona Rural da cidade com outros nove irmãos.

Segundo a professora, que começou a estudar apenas aos 11 anos, o sonho de ser uma profissional da educação a fez superar as dificuldades apresentadas pela vida. “Hoje eu quero que os jovens possam acreditar que é possível crescer e modificar a realidade, ter forças para ir até onde se pode ir. Não é fácil, mas você precisa acreditar, sonhar”, conta.

Maria das Dores é diretora-adjunta da Escola Estadual Sesquicentenário, a escola pública paraibana com melhor resultado nas provas objetivas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2014, conforme o ranking divulgado pelo MEC.

Mas a história de ‘Dorinha’, como é conhecida pelos alunos e colegas de profissão, começou em seu primeiro contato com os estudos, que aconteceu quando ela precisou se mudar da Zona Rural de Areia para a Zona Urbana.

Ela foi para um centro social da cidade após o agravamento do estado de saúde do seu pai. “Fui alfabetizada pela professora Maria Francisca, ‘Dona Francisquinha’, aos 11 anos. Ela era apaixonada pelo alunos e me fez me envolver. Para mim era encantador”, recordou Dorinha.

Antes disso, o contato com os livros acontecia apenas quando um tio levava a literatura de cordel até sua casa e através das histórias contadas pela mãe, como as de Monteiro Lobato.

Com a morte do seu pai, Dorinha conta que foi necessário contribuir com as contas de casa e trabalhar como doméstica, cuidando de crianças em algumas casas de família. Segundo ela, trabalhar durante o dia e estudar à noite se tornou uma rotina durante o Ensino Fundamental e até o 1º ano do Ensino Médio.

Durante este tempo, a professora disse ter encontrador professores que a fizeram admirar o ensino e acreditar que os estudos seriam uma saída para a realidade social em que estava inserida.

“Todos os meus professores foram espelhos para mim. A professora Maria de Lourdes, do Colégio Santa Rita, me transmitia sabedoria. Eu ficava encantada em receber o conhecimento, eu também queria ter isso para mim. Por outro lado, o [retorno] financeiro era muito pequeno. Minha mãe não tinha condição financeira nenhuma e eu desejava uma mudança de vida”, relatou.

Além das dificuldades, Dorinha lembra que não tinha muito incentivo para continuar os estudos. De acordo com ela, se tornar professora, sempre foi uma busca pessoal, pois para os seus familiares, o importante era ter foco apenas no trabalho. “O meu foco era trabalhar, sim. Entretanto, era também o de buscar o conhecimento”, frisou.

O início da formação
Após concluir o Ensino Fundamental e o 1º ano do Ensino Médio, a ex-emprega doméstica cursou o 2º e 3º ano do curso na época chamado de magistério, uma formação técnica para professores. Nesta época ela já tinha dois filhos.

O seu primeiro dia de trabalho como professora aconteceu na mesma sala de aula onde recebeu os primeiros contatos com a educação.

“Foi uma satisfação, uma alegria que não sabia expressar, passei de um caminho duro e me tornei uma profissional, sendo colega de alguns que eram meus professores”, comentou.

Atualmente, a professora é formada em pedagogia na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Além disso, uma de suas filhas está cursando doutorado em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Ascensão para a gestão escolar
No ano de 1996 e com quatro filhos, Dorinha precisou se mudar para João Pessoa por problemas pessoais. A professora relata que assim que chegou à capital foi convidada pela então diretora do Sesquicentenário, sobrinha de uma das ‘ex-patroas’ de Dorinha em Areia, para ser professora na instituição. Ela trabalhou na alfabetização das crianças, foi contadora de histórias e também ajudava na formação de crianças com deficiências, o que a levou a um curso para educação especial.

Há cerca de 19 anos trabalhando no Sesquicentenário e desde 2011 como diretora-adjunta da instituição de ensino, ela se orgulha de perceber que contribuiu na formação de muitas crianças, que cresceram e se tornaram bons profissionais no mercado de trabalho, assim como aqueles que fizeram as provas do Enem e tiveram bons resultados.

“Sempre incentivei os alunos a buscarem os seus sonhos. Tudo aquilo que temos de melhor temos que passar para os outros”, diz a professora Dorinha.

Agora, a professora se orgulha em contar que conseguiu mudar a sua realidade, pois conquistou a casa própria, os filhos estão formados e trabalhando como profissionais no mercado de trabalho, tem netos e continua trabalhando na educação. Mesmo com o tempo passado, ela destaca que o amor às crianças, ao ensino e ao trabalho com a educação continuam vivos.

Moradora da Rocinha vira escritora e volta a estudar

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A moradora da Rocinha Lindacy da Silva: volta à escola
A moradora da Rocinha Lindacy da Silva: volta à escola Foto: Fernanda Dias / EXTRA

Bruno Rohde, no Extra

Quando Lindacy Fidélis da Silva Menezes, de 55 anos, coloca a ponta do lápis no papel sua vida se transforma de alguma maneira. A vontade dela de preencher com histórias as folhas em branco de seu caderno está mudando, aos poucos, a trajetória desta doméstica e hoje escritora. Lindacy é uma das autoras do livro “Pensa Flupp”, lançado este mês na Festa Literária das Unidades de Polícia Pacificadora. A obra reúne textos de escritores moradores de comunidades do Rio.

E foi esse desejo de se tornar autora que levou Lindacy de volta para a sala de aula este ano. Moradora da Rocinha, ela cursa o 6º ano do ensino fundamental, na Escola Municipal Rinaldo de Lamare, em São Conrado.

Na última sexta-feira, Lindacy apresentou o conto “Último cliente” para os colegas numa feira de ciências da escola. No texto, que integra o livro recém-lançado, ela relata parte da infância, no Recife, em Pernambuco. O título da história faz referência ao local de trabalho de sua mãe adotiva: um bordel.

— Nunca conheci meus pais. Fui adotada por uma prostituta. Apesar de toda a pobreza, eu era amada por ela. O problema é que ela começou a beber e foi perdendo tudo. Eu tinha 6 ou 7 anos quando ela morreu — diz.

Entre idas e vindas de Recife para o Rio, Lindacy casou e teve três filhos. O estudo ficou de lado. Ainda sim, vez ou outra ela “conversava com os cadernos”, como Lindacy mesmo define. Ao saber que a Flupp procurava novos autores, ela se ofereceu:

— Pedi para minha filha me inscrever. Fiz um texto sobre o Rio e me chamaram.

Gerações diferentes

Além de Lindacy, outras quarenta e duas pessoas colaboraram com textos para o livro. Elas passaram por uma seleção que envolveu 102 candidatos e durou quatro meses. Colega de Lindacy, Francisca Paula de Araújo, de 44 anos, também estuda na Rinaldo de Lamare. Ela não ficou surpresa quando soube que a colega participaria da publicação:

— Já conheço a Lindacy há anos. Achei muito legal. Ela é a prova que nunca é tarde.

A unidade em que as duas estudam atende basicamente ao ensino infantil e ao Programa de Educação de Jovens e Adultos (Peja). Entre os 245 alunos do Peja, adolescentes e adultos dividem as salas de aula de olho num futuro melhor. Se a diferença de gerações às vezes gera conflito, também acrescenta. Jacqueline Nogueira Rodrigues, de 49 anos, e Diego Vinícius da Silva, de 17, são prova disso. O compromisso da aluna mais velha vem auxiliando o estudante mais novo a manter o foco.

— É uma troca. Um ajuda o outro — diz Jacqueline.

O estudante agradece:

— Ela ganhou um “filho”.

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