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Lista de Schindler original está à venda no eBay por R$ 7 milhões

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Documento de grande valor histórico tem relação de judeus salvos das câmaras de gás por Oskar Shindler

Publicado no Estadão

SÃO PAULO – A lista de Oskar Schindler, o empresário alemão que salvou mais de mil judeus das câmaras de gás nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, está sendo leiloada no site de comércio eletrônico eBay por um preço inicial de US$ 3 milhões, o equivalente a quase R$ 7 milhões.

Uma das sete listas originais, das quais só restam quatro, está sendo vendida na Califórnia pelos colecionadores Gary Zimet e Eric Gazin.

Em 2010, a lista foi vendida por US$ 2,2 mil (R$ 4,9 mil) por um sobrinho do confidente de Schindler, Itzhak Stern, ao seu proprietário atual.

Schindler, interpretado por Liam Neeson no filme vencedor do Oscar 1993, salvou mais de mil vidas ao abrir uma fábrica na Tchecoslováquia na qual empregava judeus refugiados.

A lista que está sendo leiloada é de 18 de Abril de 1945. Duas das outras listas estão no Museu do Holocausto de Israel e uma está no Museu do Holocausto dos EUA em Washington.

“É um documento extremamente raro e de grande importância histórica disponível no mercado”, disse Gary Zimet, ao New York Post.

“Muitos dos sobreviventes dessa lista e seus descendentes se mudaram para os Estados Unidos, e há nomes nesta lista que vão soar muito familiar para os nova-iorquinos”, acrescentou.

 

Apple condenada por cartel na venda de livros eletrônicos

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Chad Bray, Joe Palazzolo e Ian Sherr, no Observatório da Imprensa

A sentença de uma juíza federal, afirmando que a Apple fez conluio com editoras americanas para aumentar artificialmente o preço dos livros eletrônicos, ou e-books, pode ter implicações mais amplas para a maneira como os provedores de mídia eletrônica – de música até filmes e livros – vão negociar seus acordos para divulgação de conteúdo no futuro. “Se você é uma empresa de tecnologia e quer agregar conteúdo, você tem que ser extremamente consciente da maneira de conversar com seus fornecedores”, disse Ankur Kapoor, um advogado de defesa da concorrência da empresa Constantine Cannon, falando sobre a decisão, da qual ele discorda. “O processo ‘Estados Unidos contra Apple’ colocou essas comunicações sob um microscópio.”

Também ontem (10/7), o regulador antitruste da França anunciou que está examinando a influência da Apple e de outras empresas de tecnologia sobre as vendas de aplicativos móveis. Numa severa repreensão à estratégia da companhia para vender livros eletrônicos, a juíza distrital Denise Cote disse que a Apple conspirou com cinco grandes editoras dos EUA para elevar os preços dos e-books nos meses anteriores à sua entrada no mercado, em 2010.

A Apple, por sua vez, insiste que não fez nada errado e comunicou que planeja recorrer. “A Apple não conspirou para manipular o preço dos e-books e vamos continuar lutando contra essas falsas acusações”, disse um porta-voz da empresa. “Quando lançamos a [livraria virtual] iBookstore, em 2010, demos mais opções aos clientes, injetando no mercado uma inovação e concorrência muito necessárias, quebrando o domínio monopolista da Amazon sobre o setor editorial.”

O “problema da Amazon”

A decisão abre a porta para o Departamento de Justiça dos Estados Unidos examinar melhor as outras linhas de negócio da Apple, dizem juristas. O Departamento de Justiça pediu ao tribunal para adotar uma série de medidas para garantir que a Apple não tenha conduta semelhante no futuro. “Segundo as leis antitruste, você pode não só prevenir um comportamento ilícito, mas também prevenir outras condutas que podem levar a um resultado semelhante”, disse David Balto, ex-diretor de normas da Comissão Federal de Comércio dos EUA.

A Apple, que tem fama de ser uma negociadora agressiva, orgulha-se de não entrar em um novo mercado a menos que possa ser competitiva nos preços – porém não com prejuízo – e que tenha acesso a novos conteúdos ao mesmo tempo em que suas concorrentes. A receita trimestral da sua loja virtual iTunes mais que duplicou desde a introdução dos e-books, em abril de 2010. Contudo, as vendas da loja iTunes Store representam menos de 10% da receita global da empresa californiana; a maior parte vem da venda de iPhones, iPads e outros produtos usados para acessar mídia eletrônica.

No seu processo civil antitruste, o Departamento de Justiça afirmou que a Apple entrou em acordo com as editoras em janeiro de 2010 para lhes permitir fixar preços mais altos para best-sellers e novos lançamentos. Foi uma reação ao que ela teria chamado de “problema da Amazon” que os editores tinham: o preço de US$ 9,99 que a Amazon.com cobrava por esses livros no seu site. Como resultado, os preços dos best-sellers eletrônicos subiram para entre US$ 12,99 e US$ 14,99, alegou a Justiça.

Julgamento por danos e perdas

Todas as editoras citadas fizeram acordos com o Departamento de Justiça desde então, bem como em um processo separado aberto por um grupo de procuradores estaduais. Na sua decisão, a juíza Denise Cote disse que havia provas claras de que a Apple, apesar de afirmar que negociou arduamente e separadamente com cada editora, estava no centro da conspiração. “Compreendendo que nenhuma editora poderia se arriscar a agir sozinha para tentar tirar o poder de precificação da Amazon, a Apple criou um mecanismo e um ambiente que permitiu a todas agirem em conjunto, em questão de semanas, para eliminar toda a concorrência para seus e-books nos preços de varejo”, disse a juíza distrital Denise Cote na sua decisão de 160 páginas. “A evidência é esmagadora de que a Apple sabia dos objetivos ilícitos da conspiração e que entrou nessa conspiração com a intenção específica de ajudá-la a ter sucesso.”

Quando entrou no mercado dos e-books, em 2010, a Apple concordou em mudar para o chamado modelo de agência, em que são as editoras, e não as varejistas, que definem o preço dos e-books. Como parte de seus acordos com as editoras, a Apple recebia uma comissão de 30% sobre cada livro vendido e as editoras tinham que igualar o preço da Amazon ou outros concorrentes, se este fosse menor. Na época, a Amazon dominava o mercado, respondendo por 80% a 90% de todas as vendas de e-books. Mas as grandes editoras temiam que a Amazon estivesse vendendo livros com prejuízo com o objetivo de abocanhar mais participação de mercado e ameaçaram retirar alguns de seus livros mais populares do site da varejista online.

Como a Apple foi considerada responsável por violar as leis americanas de concorrência, um julgamento separado por danos e perdas virá em seguida, numa ação judicial contra a empresa apresentada por 33 procuradores estaduais, que buscam reaver dinheiro para consumidores que pagaram preços mais altos pelos livros eletrônicos.

“Provas irrefutáveis de participação na conspiração”

A juíza também deverá agendar uma audiência, atendendo a um pedido do promotor público federal, para impor uma medida cautelar, que pode incluir a exigência de que a Apple não entre, por um período de dois anos, em outro acordo do tipo agência para a venda de e-books e não faça retaliações ou discriminações na sua loja online contra aplicativos das concorrentes para leitores eletrônicos. “As empresas não podem ignorar as leis de proteção à concorrência quando creem que isso favorece seu interesse econômico”, disse o procurador-geral adjunto Bill Baer, que dirige a divisão antitruste do Departamento de Justiça. “Essa decisão do tribunal é um passo fundamental para desfazer os danos causados pelas ações ilegais da Apple.”

Em maio, a juíza indicou que acreditava que o governo provavelmente conseguiria provar suas acusações, mas ressaltou que não iria tomar uma decisão final até que todas as provas fossem apresentadas. Um julgamento de três semanas sobre o assunto terminou em 20 de junho em um tribunal federal de Manhattan, em Nova York. No ano passado, a Apple fez um acordo separado para arquivar um processo antitruste com a Comissão Europeia sobre precificação de e-books, mas não admitiu qualquer irregularidade.

Na sua decisão de ontem, a juíza também criticou a Apple por comentários feitos por Steve Jobs, ex-diretor-presidente e cofundador da empresa que morreu em 2011. A juíza disse que “provas irrefutáveis da participação da Apple na conspiração vieram das palavras proferidas por Steve Jobs, fundador, diretor-presidente e visionário da Apple” (colaborou Sam Schechner).

dica do Felipe Reis Melo

Convidado da Flip, escritor transforma Axl Rose e Michael Jackson em literatura

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Isabelle Moreira Lima, na Folha de S.Paulo

Prazos, para escritores, são sempre tensos: o editor quer menos tempo, o autor quer mais. Nos agradecimentos do livro de ensaios “Pulphead – O Outro Lado da América” (Cia. das Letras), o escritor John Jeremiah Sullivan menciona “aqueles que demonstraram gentileza e compromisso com o prazo”.

John leva entre seis e nove meses para produzir um ensaio. E, eventualmente, atrasa. A justificativa? Pesquisa extensiva e extremo apuro formal.

Em seu último livro, com trabalhos escritos entre 1997 e 2011, sobre assuntos como um festival de rock cristão, a aura do neoconservadorismo americano e a genialidade esquecida de Michael Jackson, o ensaísta teve de revisitar e aprofundar textos há tempos publicados e abandonados. “Odeio o meu trabalho de uma semana atrás, nem tenho cópias dos meus livros em casa. Foi terrível.”

John Jeremiah Sullivan

O escritor americano John Jeremiah Sullivan, que vem para a FLIP, mistura estilos diferentes para escrever sobre temas não menos distintos: do fim do Guns N’Roses até suas relações familiares (Sebastian Lucrecio)

O escritor americano John Jeremiah Sullivan, que vem para a FLIP, mistura estilos diferentes para escrever sobre temas não menos distintos: do fim do Guns N’Roses até suas relações familiares (Sebastian Lucrecio)

Há 15 anos, ele trabalha na pesquisa para um livro, a ser publicado em 2014. É a história de um advogado alemão que foi ao sul dos EUA, em 1730, e tentou fundar uma república iluminista utópica entre índios (Sebastian Lucrecio)

Há 15 anos, ele trabalha na pesquisa para um livro, a ser publicado em 2014. É a história de um advogado alemão que foi ao sul dos EUA, em 1730, e tentou fundar uma república iluminista utópica entre índios (Sebastian Lucrecio)

John escreveu ficção e poesia antes de chegar ao ensaio, aos 20 anos, quando disse ter ouvido sua própria voz (Sebastian Lucrecio)

John escreveu ficção e poesia antes de chegar ao ensaio, aos 20 anos, quando disse ter ouvido sua própria voz (Sebastian Lucrecio)

O fruto dessa “terrível” experiência, sucesso de público e crítica, será assunto na próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre os dias 3 e 7 de julho, em que ele participa de uma mesa sobre “a arte do ensaio”.

Nos EUA, “Pulphead” foi considerado um dos cem livros notáveis do ano pelo “New York Times”. Para a “Time”, ficou entre as dez melhores obras de não ficção, sob a justificativa de que, “com David Foster Wallace e Hunter S. Thompson mortos e Tom Wolfe praticamente aposentado, não restam muitos escritores com coragem e cérebro para confrontar nossa cultura e não se deixar contaminar pelos seus absurdos”.

A primeira ideia era que eu o acompanhasse na festa trimestral da revista “Paris Review”, em que trabalha como editor, em Nova York. Seria interessante -eu repetiria seus próprios passos, quando acompanhou Miz, subcelebridade conhecida pelo reality show “The Real World”, da MTV, em uma balada.

A segunda opção seria uma viagem à Carolina do Norte, para conhecer a casa onde vive com a família. Fiquei espantada com sua generosidade: ele me disse que eu poderia dormir lá.

Acabamos em um banco de praça, em Nova York. Era uma tarde de sábado. Ali, John falaria, entre tragadas de um cigarro que ele mesmo enrolou, sobre sua vida de escritor, o livro que lança no Brasil, seu próximo trabalho e a entrevista em si. “O meu trabalho é fazer exatamente o que você está fazendo.”

VELHO NOVO ENSAIO

John discorda dos críticos que o consideram expoente de um estilo batizado como “o novo ensaio”. “Se você lê bastante, vai ver que esse jeito de escrever sempre existiu. O que acontece é que, de vez em quando, as pessoas voltam a ficar interessadas no assunto e colocam a palavra ‘novo’ na frente.”

Como ele mesmo define, o formato ensaio, em sua versão “século 21”, dá conta de uma escrita em primeira pessoa, caracterizado pela análise e argumentação em torno de um tema. E faz uso de estratégias literárias, como o cuidado com a forma e a tensão narrativa, “como se fazia no século 18”.

Geralmente, há dois caminhos para quem passa meses trabalhando em um texto assim, que requer extremo aprofundamento do tema: a repulsa ou a obsessão. John costuma ser vítima do segundo.

Há 15 anos, ele trabalha na pesquisa para um livro, a ser publicado em 2014. É a história de um advogado alemão que foi ao sul dos EUA, em 1730, e tentou fundar uma república iluminista utópica entre índios. Foi perseguido pelos ingleses e morreu na prisão, em 1743. Para o trabalho, aprendeu a ler em alemão.

“Você está perto de terminar?”, pergunto. “A resposta depende do quão deprimido estou. Algumas vezes, diria que tenho 60%. Em outras, tenho 4%.”

Na segunda locação da entrevista, um café ao lado do hotel em que estava hospedado com a mulher e as duas filhas, de dois e sete anos, ele fala devagar, com longas pausas entre as ideias. Com o olhar distante, dá a impressão de ter deficit de atenção. Mas o raciocínio seguinte à pausa é tão articulado que logo a hipótese é descartada.

John acredita ter se tornado escritor na infância. Nascido em Louisville, Kentucky, no sul dos Estados Unidos, em 1974, filho de um jornalista esportivo e de uma professora de inglês, ele conta que nunca teve muita esperança de “escapar do carma de escritor”.

Escreveu ficção e poesia antes de chegar ao ensaio, aos 20 anos, quando disse ter ouvido sua própria voz. Para James Wood, crítico de literatura da revista “New Yorker”, sua principal característica é a qualidade de camaleão, de adaptar a voz narrativa ao assunto que está sendo abordado.

Convidado da Flip(Festa Literária de Paraty) escritor transforma Axl Rose e Michael Jackson em literatura (Paulo Whitaker/Reuters/Michael A. Mariant/Associated Press)

Convidado da Flip(Festa Literária de Paraty) escritor transforma Axl Rose e Michael Jackson em literatura (Paulo Whitaker/Reuters/Michael A. Mariant/Associated Press)

ESQUISITOS E PROBLEMÁTICOS

Mas talvez o traço mais marcante do autor seja a capacidade de retratar personagens esquisitos, problemáticos ou fracassados com doses iguais de humor e generosidade. “Eu parto do pressuposto de que todos nós somos prejudicados pela vida. Tento ver o personagem não com empatia, mas a partir de uma postura de igualdade.”

Após a terceira e última mimosa (espumante com suco de laranja), diz que quer saber mais sobre o Brasil. Quase foi ao país para acompanhar a ação da polícia no Complexo do Alemão, em 2010. Agora, espera conhecer outras cidades além de Paraty, Rio e São Paulo. “Você me recomenda alguma outra região?”

Por ele ter nascido no sul dos EUA, digo que o Nordeste poderia apresentar paralelos interessantes. Falo sobre a colonização, sobre Salvador, sobre a influência africana na cultura da região. Apaixonado por música (toca vários instrumentos e escreve seguidamente sobre o assunto), ele pergunta sobre os artistas locais. E a conversa termina com um interrogatório sobre Caetano Veloso.

Não duvidaria se dali nascesse uma nova obsessão.

VEJA TRECHO DE “O ÚLTIMO RETORNO DE AXL ROSE”, DE “PULPHEAD”

Será que a banda não deveria voltar? Será que não percebem o impacto gigantesco que isso causaria? Dana Gregory me contou que Slash e Izzy nunca mais vão tocar numa banca com Axl. “Conhecem ele bem demais.”

Eu não conheço nem um pouco do Axl. Se o pessoal dele tivesse deixado a gente conversar, talvez ele tivesse me mordido, me batido e me mandado manter meus pirralhos de merda dentro de casa, e eu seria capaz de transcender esses sentimentos.

Mas, nas circunstâncias atuais, tudo que posso fazer é ouvir “Patience” mais uma vez. Não sei como são as coisas aí onde você mora, mas aqui no Sul dos Estados Unidos, onde estou, essa música ainda toca o tempo todo.

E eu assobio junto e espero por aquela voz, perto do fim, quando ele canta “Ooooooo, I need you. OOOOOO, I need you”. E naquele primeiro Ooooooo ele alcança uma nota capaz de esgarçar tecidos. Ela conjura a imagem de alguém arrancando o próprio escalpo como se fosse uma casca de uva.

Preciso tomar cuidado para não tentar cantar junto nessa parte, porque isso pode fazer você meio que se engasgar e quase vomitar um pouquinho. E no segundo OOOOOO você enxerga apenas um crânio desnudo, verde e brilhante pairando ali, vibrando de boca escancarada numa cela de prisão.

Ou sei lá eu o que você enxerga.

Crítica: Livro de historiador expõe contradições de Malcolm X

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Eleonora de Lucena, na Folha de S.Paulo

Capitalismo e racismo andam juntos na história. Discriminações servem para dividir e oprimir grupos. Poucos personagens sorveram dessa realidade de forma tão radical quanto Malcolm X.

De pregador do ódio racial, ele se transformou em liderança pelos direitos humanos, afrontando o poder do governo norte-americano.

Era o período da Guerra Fria, e Malcolm passara a defender os países do Terceiro Mundo e a flertar com as ideias socialistas. Percorrera a África e o Oriente Médio, enterrando o sectarismo cego que o marcara até então. Já não satanizava os brancos nem advogava a criação de um Estado negro separado.

O ativista Malcolm X fala à imprensa em Washington, em 1963, dois anos antes de ser assassinado (Associated Press)

O ativista Malcolm X fala à imprensa em Washington, em 1963, dois anos antes de ser assassinado (Associated Press)

Os meandros dessa transformação são dissecados pelo historiador norte-americano Manning Marable em “Malcolm X, uma Vida de Reinvenções”, obra vencedora do prêmio Pulitzer de 2012.

Diferentemente de Martin Luther King, fruto da pequena burguesia instruída e endinheirada de Atlanta, Malcolm X veio do gueto urbano moderno: vivenciou a pobreza, a falta de emprego, a violência, a segregação.

Na juventude, meteu-se em arrombamentos, roubos, furtos, prostituição. Lavou pratos e vendeu maconha. Preso, virou muçulmano. “O crescimento econômico do pós-guerra tinha deixado muitos afrodescendentes para trás”, escreve Marable.

Malcolm incorporou a cadência do jazz ao seu estilo de oratória e levou multidões a aderir ao islã e a protestar contra a violência policial.

Leitor voraz a partir do tempo de cadeia, fazia discursos sobre o legado da escravidão, atacando o cristianismo e o governo dos EUA.

Seguindo a trajetória do líder, o historiador aponta também suas escorregadelas em entrevistas e seus erros estratégicos. Malcolm chegou a ter encontro com a Ku Klux Klan.

O autoritarismo do seu grupo islâmico e a seita de supremacia branca eram lados de uma mesma moeda: racismo e segregação. O pensamento de Malcolm deu um giro quando se aproximou dos embates de seus seguidores e conheceu outras experiências de luta pelo mundo.

Marable observa que o líder percebeu que só teria êxito “se se juntasse ao movimento de direitos civis e outros grupos religiosos para uma ação conjunta. Não se podia simplesmente deixar tudo por conta de Alá”.

MUDANÇA DE POSTURA

Arrependido de ter ridicularizado King em discursos no passado, Malcolm o cumprimentou. O aperto de mãos traduziu a mudança: o líder rebelde trocava a violência pela batalha do direito ao voto.

“União é a religião certa”, declarou. E se autodefiniu: “Não sou antibranco, sou antiexploração e antiopressão”. O historiador afirma que Malcolm tornou-se “uma ameaça ainda maior” para o governo dos EUA após o seu rompimento com a Nação –o grupo islâmico de características xiitas que abraçara na cadeia.

O historiado Manning Marable, autor de "Malcolm X" (Associated Press)

O historiado Manning Marable, autor de “Malcolm X” (Associated Press)

O livro, rico em análises, faz uma descrição minuciosa do até hoje não esclarecido assassinato de Malcolm, em 1965. Quatro horas após o crime, o palco onde ocorrera o delito estava lavado para um baile de aniversário.

Marable compara Malcolm a Che Guevara e cita as influências do líder no movimento Black Power e em músicos como John Coltrane. O autor conta que começou a trabalhar na biografia no final dos anos 1980. Desconstruindo a “Autobiografia” de Malcolm, percebeu exageros. Marable concluiu o livro pouco antes de morrer, em 2011.

Na cama com Kennedy

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Aos 69 anos, Mimi Alford, que na juventude foi estagiária na Casa Branca, conta nos moldes de literatura erótica a sua relação com o ex-presidente dos EUA

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Antonio Carlos Prado e Ivan Claudio, na Isto É

SEM ROMANTISMO
Kennedy e sua amante Mimi: quando ela foi embora, uma semana antes
do assassinato do presidente, ele a presenteou com broches e colares

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Mimi Alford é uma senhora americana de 69 anos e sete netos. Acaba de lançar o seu primeiro livro no qual se lê em um de seus trechos: “Notei que ele se aproximava cada vez mais. Podia sentir a sua respiração no meu pescoço (…)
Ele estava bem na minha frente (…) colocou suas mãos nos meus ombros e me guiou em direção à beira da cama. Lentamente, desabotoou a parte de cima de meu vestido (…) ele pressentiu que era a minha primeira vez (…).” A escrita segue por esse caminho, e dá para o leitor imaginar por onde vai e para onde vai. Há, no entanto, uma dobra no lençol da história que põe a nu o motivo do sucesso que o livro vem fazendo junto ao público e à crítica de todos os EUA. Mimi não é uma autora que descobriu, somente agora, septuagenária, o seu talento para a ficção erótica, nem se trata de uma velhinha assanhada. Ela é o arquivo, em primeira pessoa, daquilo que até recentemente era o mais enterrado segredo de alcova do ex-presidente americano John Kennedy, assassinado em 1963 aos 46 anos. Durante 18 meses ela foi amante do presidente, e na maioria das vezes ele se relacionou sexualmente com ela, durante o dia, sob os lençóis que na noite anterior dividira com a então primeira-dama Jackie Kennedy. Detalhe da obra: “o presidente nunca beijou na boca”.

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NA CASA BRANCA
Kennedy despacha com sua equipe de imprensa, da qual Mimi (à dir.) fazia parte:
estresse curado com natação e amantes na piscina da sede do governo

O livro se chama “Era uma Vez um Segredo – Meu Caso com o Presidente John F. Kennedy” (no Brasil, editora Objetiva).
Mimi conta que tinha 19 anos e era virgem quando se relacionou pela primeira vez com o chefe de Estado que publicamente apontava mísseis para a Baía dos Porcos e secretamente disparava seus hormônios pela Casa Branca – e dizia a seus assessores “ela dorme feito um bebê”, enquanto traçava planos bélicos ou de paz. Nessa época Mimi acabara de ser contratada como estagiária do Departamento de Assessoria de Imprensa da sede do governo, era inexperiente profissional e sexualmente e, no quesito beleza, não chegava aos pés de outra famosa amante do presidente, a atriz Marilyn Monroe. Mas a Casa Branca tem lá os seus mistérios, vai saber, tem sua química própria, e o certo é que Kennedy olhou para ela e daí por diante, quase todos os dias, caiu na piscina da ala residencial para relaxar. Era ele cair, e a assessora “foca” caía também. O primeiro mergulho começou assim: o “assessor especial para assuntos de alcova”, que, segundo a autora, se chamava Dave Powers, disse-lhe uma tarde ao pé do ouvido: “O presidente vai à piscina. Aceita lhe fazer companhia?” Sim, Mimi aceitou, era o seu quarto dia de trabalho. Nos vestiários, um detalhe chamou-lhe a atenção: a coleção de maiôs dos mais diversos tamanhos, o que a fez concluir que, não só na política mas também nas dimensões das mulheres, o presidente era sim democrata.

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ESTADO E ALCOVA
Mimi revela no livro que o presidente apontava mísseis para a Baía dos Porcos
e disparava hormônios na Casa Branca ao mesmo tempo

A água da piscina era mantida a 32 graus (prescrição médica para as dores nas costas de Kennedy), e quando eles emergiram desse mergulho de estreia ele a convidou para uma “visita guiada” pelo segundo andar da Casa Branca.
Dois daiquiris, e então veio o mergulho sem água, no quarto de Jacqueline “decorado em azul-claro”.

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LIVRO BOMBA
Mimi conta em seu livro todo o envolvimento que teve com Kennedy:
“Foi tudo sexual”

Kennedy gostava da água, e Mimi lembra que foi numa sessão de hidromassagem que veio à tona a porção voyeur do presidente com quem se relacionou até uma semana antes de ele ser assassinado: Kennedy ordenou-lhe que fizesse sexo oral em Powers (o alcoviteiro da piscina, lembra?) porque “ele estava um pouco tenso”. Detalhe: o presidente fez questão de ficar olhando a felação. Mimi decidiu contar agora toda a sua história porque fora citada em uma biografia de Kennedy publicada há dez anos. Não conta quanto recebeu para pôr na tela do computador e imprimir as suas memórias, mas dá para se ter uma ideia, já que um produtor de filmes lhe ofereceu US$ 1 milhão pelos direitos. “Não me arrependo de nada que fiz”, escreve Mimi. “Nosso relacionamento foi sexual.” Quando a coisa esfriou, ela decidiu se casar com um amigo do interior americano e disse adeus ao presidente, que a presenteou com dois broches de ouro e diamante, colares e um bilhete no qual dizia: “Calorosa consideração e profunda gratidão.” Tudo protocolar. Como já foi dito, o presidente não beijava na boca.

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