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5 livros para compreender a miséria humana

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Autores como Fiódor Dostoievski, José Saramago, Graciliano Ramos, Victor Hugo e Paulina Chiziane escreveram obras fundamentais para entendermos tragédias que se abateram (e ainda se abatem) sobre a humanidade

Marcelo Hailer na Revista Forum

A classificação de um produto cultural enquanto “clássico” não se dá à toa. Uma série de fatores estão envolvidos em torno da obra que fazem dela atemporal e fundamental para se compreender eventos, trágicos ou não, que aconteceram durante a história. No momento presente vivemos uma série de acontecimentos que são alvos de inúmeras análises – jornalísticas, sociológicas e históricas – tais como os novos conflitos de guerra, seca no Brasil, grupos políticos da extrema esquerda e direita que disputam a narrativa político-social e, claro, a concentração de riqueza e a miséria inerentes ao sistema capitalista.

Por mais que os temas acima citados sejam contemporâneos, eles são recorrentes na história do mund, seja no Ocidente, na Ásia ou na África. E todos eles já foram fontes de inspiração para obras primas que nos trazem algum entendimento das atitudes dos considerados “humanos” e que, inevitavelmente, levam à tragédia. Para tanto, selecionamos cinco autores e uma obra respectiva que trata de questões presentes no cotidiano, seja ele político, jornalístico ou social.

1 – Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski

Obra fundamental para quem deseja compreender e acompanhar os resultados de quando duas figuras ávidas pelo poder travam uma disputa na qual as pessoas são meramente instrumentos para tal objetivo. De acordo com especialistas na obra de Dostoiévski, Os Demônios é uma das poucas, senão a única obra do escritor russo que teve como ponto de partida uma tragédia real: o assassinato do estudante Ivanov por um grupo de niilistas liderados Nietcháiev, em 1869.

Todo o ambiente político de então é recriado por Doistoiévski de maneira magistral e, a partir dos personagens Kirilov, Chigalióv e Piotr Stiepánovitch, temos a representação do intelectual pessimista e dos fanatismos políticos perpetrados pelos grupos de Chigalióv e Stiepánovitch. Temas como fundamentalismo religioso, fanatismo político e terror se fazem presente nesta obra prima. As análises críticas sobre o humano e a sua busca pelo poder são de uma atualidade perturbadora. Para historiadores, ao construir as personagens de Chigalióv e Stiepánovitch, Dostoiévski foi profético a respeito dos horrores cometidos em nome de Hitler e Stálin.

Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski
2 – Os Miseráveis, de Victor Hugo

Esta obra monumental do escritor francês Victor Hugo é fundamental não apenas para se compreender a questão da miséria humana, mas também para quem deseja ter acesso a críticas e percepções do período revolucionário que resultou na fundação do Estado francês. Inúmeras críticas tecidas pelo escritor podem ser muito bem adaptadas e trazidas para o atual contexto político, principalmente quando pensamos na atual fase da Europa e dos novos movimentos revolucionários.

Os Miseráveis não chamou apenas a atenção, à época, por conta de seu teor crítico, mas, principalmente, por ter como protagonistas um presidiário (Jean ValJean), uma prostituta (Fantine) e uma criança explorada por adultos (Cosette). Tal escolha de personagens foi considerado um escândalo, pois, à época, os romances apenas retratavam o cotidiano da realeza e da burguesia.

A partir da narrativa de Jean, Fantine e Cosette, Victor Hugo mergulha na hipocrisia humana e como está dividida entre “ambiciosos” e “invejosos” e que tal divisão é parte da cultura e, portanto, presente desde a educação infantil. Ao mesmo tempo em que o autor desnuda a “sociedade de bem”, ele dá voz aos sujeitos subalternos que passam ao largo da Revolução Francesa.

Os Miseráveis, de Victor Hugo

3 – Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Considerada a obra mais importante do movimento realista da literatura brasileira, Vidas Secas nunca esteve tão atual, principalmente quando pensamos que nos dias atuais o que mudou foi o mapa geográfico da seca retratado na obra. Se antes eram exôdos rurais, hoje o Brasil vive na iminência de um êxodo urbano.

Empurrados pela seca, a família de Sinhá Vitória e Fabiano empenha uma jornada em busca de meios à sobrevivência. Na obra, o que chama atenção é que, a única personagem humanizada e com sentimentos é a cachorra Baleia e também é a única que possui um nome. As outras personagens são referidas pelos cargos que ocupam ou posição genética na família, tais como filho mais novo.

Vidas Secas é um mergulho profundo na miséria humana no que diz respeito a explorar o próximo em situações de calamidade, tal como a seca. O que impressiona é a crítica de Graciliano Ramos: profética e atual.

Vidas Secas, de Graciliano Ramos

4 – O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Como será que Jesus Cristo narraria a sua trajetória se lhe fosse dada esta oportunidade? É o que faz o escritor José Saramago em O Evangelho segundo Jesus Cristo, onde o Messias é o narrador de sua própria história na qual mitos bíblicos e crenças religiosas são desconstruídos.

Em tempos onde fundamentalistas religiosos ocupam cargos de poder no Brasil e em outros países, resgatar a obra de Saramago é de fundamental importância, principalmente quando lembramos da memorável cena onde Cristo estabelece um diálogo com o Diabo e Deus e fica sabendo do provável acordo entre as duas imagens referências da religião.

Além de toda a crítica à moral religiosa, principalmente a católica, reler O Evangelho… é de suma importância para compreendermos que, entre laicos e fundamentalistas, o acordo político vem antes.

O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago

5 – Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane

Ventos do Apocalipse, ao lado de Neketcha – Uma história de poligamia, é considerada uma das obras mais controversas de Paulina Chiziane, onde a escritora moçambicana pesa a caneta para retratar os horrores da guerra de civil de Moçambique, que aconteceu entre 1977 e 1992 e onde a escritora atuou como voluntária para ajudar os feridos de guerra.

Na obra, Paulina Chiziane está mais interessada em discutir a relação e a destruição entre os irmãos moçambicanos do que as questões políticas. Ativista da revolução que libertou Moçambique da colonização portuguesa, Chiziane sempre declara que, à época, não se conformava que, depois de tanto lutar contra os colonizadores, moçambicanos iniciassem uma guerra contra… moçambicanos.

Com uma narrativa muito particular, Paulina Chiziane retrata os horrores da guerra civil que, segundo a autora, presenciou durante o conflito. Não existe bem ou mal, apenas guerra e miséria.

Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane

Ilustração de capa: Emile Bayard (A jovem Cosette)

A Faixa de Gaza e os escritores egoístas do nosso tempo

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Ao conviver em sociedade, a humanidade desenvolveu as muitas formas de enfrentar coletivamente inumeráveis desafios, dando respostas inteligentes a cada um deles, aprendendo também a dominar as linguagens para expressar tudo aquilo que desejava, como a literatura ou a linguagem escrita.

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Marcelo Vinicius, no Homo Literatus

Sei que a literatura não tem maiores pretensões, mas vale lembrarmo-nos de uma coisa: Paulo Leminski, com seu extenso reconhecimento como escritor, crítico literário, tradutor e professor, no ensaio Arte in-útil, arte livre?, nos disse que a curiosa ideia de que a arte não está a serviço de nada a não ser de si mesma é relativamente recente. Embora se possa afirmar que a ideia da autonomia da arte radica, em última análise, na Poética de Aristóteles, é a partir dos finais do séc. XVIII que ela surge plenamente consciencializada. É melhor evidenciada, de fato, no romantismo europeu do século XIX, apogeu da 1ª Revolução Industrial e da hegemonia burguesa, momento em que a indústria veio para “substituir” a arte e o artesanato.

Mas, na Rússia, nos meados do século XIX, a literatura estava ainda no centro da arena dos grandes temas, da condição humana daquela época, daquele tempo. Fala-se muito da literatura ser amoral, mas, segundo Leminski, na grande Mãe Rússia, a extraordinária literatura do século XIX, com escritores como Gogol, Tolstói, Dostoiévski, Turguiênev e Tchékov, é uma literatura, sobretudo, moral. E a consciência social do povo russo é uma literatura de acusação e denúncia, de resistência e responsabilidade coletiva.

Se já lemos os grandes clássicos da literatura mundial, principalmente os russos como Tolstói e Dostoiévski, que por sinal, este é meu projeto de estudo na Universidade, o que Leminski nos aponta não é novidade.

Sim, a censura czarista estava de acordo com os artistas no que tange a arte com uma moral. Nisso, os poderes e a oposição estavam de acordo. Mas, os significados estavam trocados. Ao forçoso e forçado moralismo da censura czarista, os escritores russos reagiram com um moralismo oposto.

O grande momento reflexivo dessa afirmação russa do caráter moral da literatura é O que é Arte, do clássico escritor Tolstói (de 1898). Nesse ensaio implacável, o autor de Guerra e Paz denuncia a “degenerescência” da arte moderna, em particular, a doutrina da “arte pela arte”, à luz de critérios éticos e “humanos”. Para Tolstói, toda a arte e a literatura de sua época lhe parecem manifestações patológicas de sensibilidades decadentes e “desumanas”. Repugna-lhe também na literatura o seu “ocultismo”, sua tendência à “panelinhas” fechadas.

Chegamos ao revolucionário Plekhânov e a A Arte e a Vida Social, que são suas conferências de 1912. Plekhânov tem também a mesma postura anti-arte pela arte. O que em Tolstói era moral, em Plekhânov era político.

De certo que o mundo não é de responsabilidade só dos artistas, é claro, mas não nos esquecemos de suas forças na sociedade. É só nos lembrarmos de um fenômeno conhecido no mundo da literatura: o Copycat Effect, que é um ato que é modelado ou inspirado por um ato anterior descrita em ficção. Já o sociólogo David Phillips, chama isso de Werther Effect, se referindo ao romance do escritor Goethe que provocou uma onda de suicídios no século XVIII. No mais, é só para não nos esquecermos do século XIX e a sua arte.

Cena “Os Sofrimentos do Jovem Werther”

Cena “Os Sofrimentos do Jovem Werther”

E mesmo que abordássemos filósofos e críticos de artes mais atuais, como Arthur Danto, de certo que até ele também não negaria essa visão descrita aqui. Para Danto, houve o início de uma nova era de pluralismo artístico, o que encontrou eco na diversidade da arte pós-moderna. Nisso, a arte, no que tange suas pretensões, não nega o século XIX e a moral artística. É uma questão de se utilizar delas também, quando necessário, e não de negá-las em detrimento de qualquer outra coisa.

Arthur Danto, em sua obra A Transfiguração do Lugar-Comum, diferente do que muitos pensam sobre, afirma que a arte tem ainda seu papel social. Ela faz o que toda obra de arte sempre fez: exteriorizar uma maneira de ver o mundo, expressar o interior de um período cultural, oferecendo-se como espelho para flagrar a consciência dos nossos reis.

Danto, ainda nessa obra, afirma que, além de questionar o conceito de Arte, artistas como Duchamp e principalmente Andy Warhol contestaram o consumo desenfreado e todas as hipocrisias que contornavam a sociedade norte-americana da época. Utilizava elementos, figuras e a própria estética popular em seus trabalhos, de maneira a fazer uma crítica direta e irônica da sociedade consumista que se formava. Mas não nos prenderemos em discutir esse caso em especifico da Pop Art e Arthur Danto, pois isso é só para demonstrar o quanto a arte sempre teve seu valor crítico social na nossa história, independente do sistema de crença da “Arte pela Arte” existir.

Arthur Danto

Arthur Danto

O que se percebe é que “Arte pela Arte” sendo um sistema de crenças que defende a autonomia da arte, desligando-a de razões funcionais, pedagógicas ou morais e privilegiando apenas a Estética não viveu sozinha, mesmo no seu auge. Alguns artistas não acreditavam na verdade desse conceito célebre. É certo que alguns deles fizeram a sua arte em função da humanidade e da realidade. Shakespeare, por exemplo, foi um descortinador de toda a vida da Inglaterra de seu tempo. Então não passou ele de um teatrólogo vulgar, amado pelas massas, não aceito pelas elites? Não necessariamente.

Esses artistas que tiveram o senso político, que olharam para a humanidade das ruas, dos botequins, das tavernas, dos campos, não tiveram o aplauso dos homens intelectuais de seu tempo, muitas vezes, porque não cabiam dentro do conceito de “Arte pela Arte”.

Essa desumanização da literatura acima da vida, de colocar o artista à margem dos acontecimentos, dominou muito tempo o conceito de arte e ainda hoje gritam por ele todos os que querem combater a literatura interessada, como se hoje houvesse alguma literatura que não fosse interessada.

Como visto, se quisermos ir mais adiante, chegaremos com facilidade a negar por completo este conceito que colocava o artista acima do bem e do mal. A Literatura nunca deixou de servir a uma classe. O conceito que era fruto da vaidade dos intelectuais, que os colocava acima das competições humanas, foi sempre de uma falsidade desoladora. Os artistas, e em particular o escritor, nunca deixaram de servir a uma classe.

Deixando claro também que não estamos aqui definindo o que é arte ou o que é arte boa ou ruim e, de acordo com pensamento do filósofo Sartre, não defendemos um engajamento. Isso é impossível. O engajamento ocorre, queiramos ou não. Nossa ação nos define; nossa inação também. Calar-se diante da injustiça é endossá-la. Daí que a diferença não seja entre o político e o apolítico: este é uma impossibilidade. Tudo é de algum modo político. “Arte pela Arte” é também política.

No pluralismo artístico, dito por Danto, a “Arte pela Arte” não pode existir em detrimento da arte que questiona o social, a arte moral. O intelectual fora da humanidade, fora dos anseios, dos desejos, das lutas dos homens, não existiu absolutamente, porque a literatura existiu em função da humanidade.

Como disse o famoso escritor Jack Kerouac:

“Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam”.

Não muito diferente, o escritor Monteiro Lobato indaga sobre a escrita e a nossa posição em relação a ela. Para ele, há dois modos de escrever: um, é escrever com a ideia de não desagradar ou chocar ninguém; outro modo é dizer desassombradamente o que se pensa, dê onde der, haja o que houver – cadeia, forca, exílio.

O que esses pensadores querem dizer é que a “Arte pela Arte” não é uma verdade absoluta na história e única, e que podemos e devemos sair do comodismo, pois os governos suspeitam da literatura, porque é uma força que lhes escapa. A arte não pode ser censurada. Outrora, artistas usavam a própria arte para protestar contra a censura. Dizer que a arte não tem maiores pretensões, é, segundo o filósofo, o sociólogo e o compositor alemão Theodor W. Adorno, uma pretensão histórica ética de querer transformar a obra em mercadoria. É a industrial cultural em detrimento da arte do pensar, como disse a Escola de Frankfurt.

Para Adorno, a grandeza da arte está em sua capacidade de resistir ao estatuto de mercadoria, em situar-se no mundo como um “objeto não identificado”. Em sua recusa de assumir a forma universal da mercadoria, a arte, a obra de arte é a manifestação, em seus momentos mais puros e radicais, de uma “negatividade”. Ela é “a antítese da sociedade”. A antítese social da sociedade.

Porém, hoje tiraram da literatura aquela importância, que se confundia com a filosofia, a sociologia, com grandes visões de mundo. Reforçaram uma espécie de “Arte pela Arte”. E isso nos vem levando à uma implicação tão séria.

Que angústia que me dá esse silêncio internacional sobre crimes de guerra em Gaza, por exemplo. No máximo um repúdio aqui e outro ali. Como se a Europa, tão vizinha, e os EUA não tivessem forças. Como se o mundo todo fosse impotente. Tanta politicagem em prejuízo da vida.

“Vemos derramar o sangue de nossos irmãos da Palestina nas matanças coletivas que não poupam ninguém, e nos crimes de guerra contra a humanidade que acontecem à vista de toda a comunidade internacional, que permanece indiferente aos acontecimentos da região”, afirmou o rei Abdullah, da Arábia Saudita.

Faixa de Gaza – mãe segurando o seu bebê a procura de abrigo

Faixa de Gaza – mãe segurando o seu bebê a procura de abrigo

Atualmente, o mundo se acaba em guerras e os nossos escritores vivem como se nada acontecesse. E não se trata de uma visão pessoal e generalista, há exceções como há pesquisas que apontam isso.

André Forastieri, jornalista e crítico de cinema, afirma, por exemplo, que o assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e a meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Mas, André Forastieri não assegura isso à toa, já que o que é dito aqui é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Drª. Regina Dalcastagnè, da UNB.

A sua crítica continua ao dizer que não queremos saber dos problemas dos senhores letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades. Simplesmente não é tão interessante assim. Em todo lugar o gênero “problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada” tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive.

O que se percebe é que escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. A pesquisadora Drª. Regina Dalcastagnè explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é um problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas.

Ironicamente, André Forastieri exprime que boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.

A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Hammett estava errado, já que a literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor; se quer, se exige, um livro que nos hipnotize e nos leve para outro lugar, e para dentro de nós mesmos. O que importa em ficção é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar, como bem disse André Forastieri.

Como proferia o grande escritor Ernesto Sabato, vencedor do Prêmio Cervantes de Literatura e um dos maiores autores argentinos do século XX: “É característico de um bom romance que nos arraste para seu mundo, que nele mergulhemos, que nos afastemos a ponto de esquecer a realidade. E, não obstante, ele é uma revelação sobre a mesma realidade que nos rodeia”.

Usando-se do pensamento do clássico escritor Kafka, se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos.

O mundo depende muito dos verdadeiros artistas, não só deles, mas dos subversivos em geral, como disse Jack Kerouac. Felizmente, como pronunciou o grande escritor Ernesto Sabato, o verdadeiro artista continua lá e graças a sua incapacidade de adaptação, a sua loucura, conservou contraditoriamente os atributos mais preciosos do ser humano.

Literatura e internet: uma jornada metamórfica

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Se tem muito discutido a relação entre internet e literatura, tal como a importância de divulgação da leitura e escrita.

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Luísa G. Ferreira, no Homo Literatus

A literatura possui suas raízes intrinsecamente ligadas à cultura. A escrita não surgiu de forma prorrompida, todos os passos da humanidade influenciaram e influenciam o que escrevemos hoje. De acordo com o momento vivido, as suas relações dentro do contexto histórico e político o escritor cria sua própria técnica e suas características tão importantes em sua obra. Um exemplo são os personagens criados por Dostoiévski, sempre bem construídos psicologicamente, explorando o lado obscuro existente em todo homem. Suas referências são as escolas de teologia, psicologia e o modernismo literário, contribuindo na construção do existencialismo e expressionismo.

Jamais consegui nada, nem mesmo me tornar malvado; não consegui ser belo, nem mau, nem canalha, nem herói, nem mesmo um inseto. E agora, termino a existência no meu cantinho, onde tento piedosamente me consolar, aliás sem sucesso, dizendo me que um homem inteligente não consegue nunca se tornar alguma coisa, e que só o imbecil triunfa. Sim, meus senhores. O homem do século XIX tem o dever de ser essencialmente destituído de caráter; está moralmente obrigado a isso. O homem que possui caráter, o homem. De ação, é um ser essencialmente medíocre. Tal é a convicção de meus quarenta anos de existência. (Conto: O Subsolo, de Fiódor Dostoiévski)

Bem como Dostoiévski, o escritor português Fernando Pessoa possui características bem marcantes. O Modernismo Português (que inclui Pessoa) teve como base os movimentos de vanguarda européia com a publicação do primeiro volume da revista Orpheu. Instalou-se com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e possuía uma crítica à estética e a idealização estabelecidas pela Revolução Industrial. A utilização de heterônimos foi um marco de Pessoa. Diferente dos pseudônimos que constituíam apenas a utilização de um outro nome, os heterônimos eram a constituição de uma nova pessoa com características próprias, uma multiplicação de identidades.

Alguns exemplos de seus heterônimos e suas peculiaridades:

Alberto Caeiro

Considerado o Mestre, tem uma linguagem simples, ligada a natureza, provavelmente herdada pelas suas origens de poucos anos de estudo. Adepto do verso livre, anti-metáfisico, predominando as sensações visuais (vê o pensamento como um mundo vazio e obscuro), pouco uso de metáforas.

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

(Trecho de O Meu olhar, Alberto Caeiro)

Ricardo Reis

Adepto do que promove calma, clareza, serenidade e paz. Baseado principalmente nas doutrinas gregas: epicurismo (busca da tranquilidade) e estoicismo (não envolver muito emocionalmente para ter liberdade). Possui uma linguagem culta com temas mitológicos.

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

(Trecho de Segue o Teu Destino, Ricardo Reis)

Álvaro de Campos

Possuiu três fases de escrita: a Decadentista, Futurista/Sensacionista e a Intimista/Pessimista). Possui poemas mais intensos e apelativos, existencialmente. O heterônimo futurístico de Fernando Pessoa, de angústia incessante.

Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,

A banalidade devorante das caras de toda gente!

Ah, a angústia insuportável de gente!

(Múrmuro outrora de regatos próprios, de arvoredo meu)

Queria vomitar o que vi, só a náusea de ter o visto,

Estômago da alma alvorotado de eu ser …

(Oh, onde estou, de Álvaro de Campos)

Estes exemplos (Dostoiévski e Pessoa) demonstram claramente a relação entre as mudanças ocorridas em um contexto social e a literatura. Para o entendimento da relação com a internet é preciso esgueirar-se pela história; as primeiras formas de escrita eram baseadas em símbolos, evoluindo em diferentes sistemas de acordo com os diferentes povos existentes naquela época. O início da escrita é um marco importante no desenvolvimento humano, delimitando o início da história e o fim da pré-história. Como sendo uma das primeiras formas de comunicação, se torna a base indispensável para as outras que se desenvolveram e as que se desenvolverão ao longo do tempo.

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Durante a década de 1960, uma das mais importantes invenções humanas começou a ganhar forma. Com objetivos militares; a internet, entrementes a Guerra Fria, possuía inicialmente o intuito de armazenamento e compartilhamento de dados sigilosos dos EUA. Muitas das tecnologias usadas hoje foram em seus princípios, utilidades bélicas e de guerrilhas. Apesar disso, com o desenvolvimento científico, estas invenções se tornaram muito úteis para fins acadêmicos, e nos dias atuais tornou-se um alicerce para divulgações literárias.

Se tem muito discutido a relação entre internet e literatura, tal como a importância de divulgação da leitura e escrita. Assim, é viável pontuar os principais tópicos abrangentes das duas áreas para um entendimento mais amplo e racional.

A internet como ferramenta de escrita

Muitos são os textos publicados na internet, sejam em blogs ou em sites. É importante distinguir as várias nuances que cercam um texto feito para a internet e um texto publicado na internet. Os textos escritos em blogs possuem um escrita mais subjetiva, focando na vida do escritor, uma espécie de diário; além disso, é comum o uso de termos típicos da web como: ‘rs’, ‘haha’. Geralmente são texto criados para a web. Já a maioria dos sites focam em um material mais formal, discutindo assuntos atuais ou clássicos. Um exemplo é o Homo Literatus, com o jornalismo literário, publica sobre a literatura (material crítico), e a literatura (com crônicas e contos dos colaboradores). Como diferenças básicas, estão o público alvo e o tipo de escrita: formal ou informal.

Credibilidade

Hoje em dia os internautas possuem uma maior distinção do que se tem credibilidade ou não na internet. Como “todos” têm liberdade de publicar qualquer material, a web pode se tornar vilã para alguns leitores; ludibriando e distorcendo conteúdos de relevância.

Discursões

Conteúdos são despejados todos os dias, a maioria são superficiais. Assim como a credibilidade, o leitor precisa encontrar discussões mais profundas, que não se contentem em mostrar apenas um lado da moeda, principalmente em assuntos atuais, que estejam em pauta.

Algo novo ou apenas uma reprodução modificada do real?

Pode-se pensar que a internet introduziu diversos conteúdos, tipos de escrita; mas a maioria já existia e foi apenas modificada. Como as cartas, os moleskines para anotações, e até mesmo, os próprios livros.

A globalização

A internet se tornou um meio de globalização, uma extensão do que o capitalismo introduziu com empresas multinacionais, se tornando uma forma de adquirir mais acesso do que antigamente. Também é mais comum os textos coletivos, unindo ideias e pessoas de diferentes lugares. Incluindo a possibilidade de armazenamento de fotos e textos virtualmente.

As dificuldades de publicação

Um dos motivos do aumento nas publicações independentes vem da resistência das editoras. Muitas ainda preferem publicar um best-seller americano que já possui viabilidade e com certeza será sucesso de vendas no Brasil, do que investir em um novo escritor. Isso faz com que as publicações independentes permanecem no texto integral, sem ser corrompido por mudanças feitas por editores. O público passa e ter um contato mais direto com o autor, com a sua escrita em essência. Há também, situações que envolvem ‘da internet para a editora’, como aconteceu com o ‘Eu me chamo Antônio’, um projeto envolvendo poemas; fizeram um grande sucesso na internet e só após foi publicado editorialmente.

As redes sociais

O auge de divulgação fica com as redes sociais. Através do Twitter e do Facebook quem está conectado vê como uma forma de se expressar publicar frases/citações e trocar informações sobre suas obras preferidas. Os jovens são quem dominam esta área, criando fan pages sobre obras as obras mais populares do momento. Os livros se tornam mais do que conteúdo, um objeto; e os leitores se tornam fãs; alimentando o mercado editorial e formando um vínculo de afeto entre eles e os escritores.

Não há dúvida quanto a importância da internet na divulgação literária. A resistência encontrada inicialmente com argumentos que apoiavam que a web extinguiria os livros, foi aos poucos sendo substituída pela simples razão: como sendo um veículo de informação e compartilhamento, fez com que o que foi produzido no mundo possa circular com mais facilidade; escoando pelas valas das fronteiras e despejando, em cada ponto do mundo, um pouco de identidade.

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