Posts tagged Dostoiévski

5 filmes de Woody Allen para fãs de Literatura

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José Figueiredo, no Homo Literatus

5 obras do diretor nova-iorquino Woody Allen que todo fã de Literatura deve assistir

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Ele pode não ser uma unanimidade, mas é considerado um dos grandes nomes vivos do Cinema. Com uma vastíssima obra, Woody Allen criou filmes de muitos gêneros (comédias, dramas, suspense e, pasmem, um musical).
Amigo de grandes autores (Saul Bellow, ganhador do Nobel, faz pontas em ao menos dois filmes do autor), Woody Allen sempre manteve um contato direto com grandes obras da literatura, sejam elas clássicas ou contemporâneas.
Separamos cinco filmes para quem ama literatura e cinema. Have fun!

Noivo neurótico, noiva nervosa
É um clássico óbvio por dois motivos: trata de temas óbvios que tocam a todos em determinados momentos da vida (amor, insegurança, relacionamento) e trabalha com todos estes numa perspectiva de tempo. O relacionamento de Max Singer (Woody Allen) e Annie Hall (Diane Keaton) passa pelos problemas comuns a todos do seu começo até (spoiler) o final. As referências a Freud e técnicas do modernismo são abundantes (a famosa cena na qual o casal divide a tela em suas respectivas terapias é um exemplo).

Meia-Noite em Paris
Um dos últimos filmes do diretor – e o que mais lhe rendeu financeiramente -, Meia-noite em Paris traz a vida boêmia de Paris, seus artistas, ilusões e desejos. Gil (Owen Wilson), um escritor com problemas para trabalhar, está na cidade luz com a futura esposa e os sogros. Insatisfeito, ele acaba se encontrando numa brecha temporal e tem contato com pessoas como Gertrude Stein, Ernest Hemingway, entre outros. Com um grande questionamento acerca da eterna insatisfação humana (estamos sempre descontentes com o presente e idealizamos o passado), é um clássico moderno.

Match Point
Parcialmente baseado em Crime e Castigo, Match Point trata da vida de Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) se envolve com Chloe, uma filha de uma rica família inglesa. Enquanto esse relacionamento se desenrola, Chris se envolve com Nola (Scarlett Johansson), uma americana impulsiva. Chris se casa com Chloe e ascende socialmente e seu caso com Nola se desenvolve. Quando a americana põe entraves ao seu sucesso, ele decide matá-la.
As reflexões e tensões do personagem principal são as mesmas do personagem de Dostoiévski (inclusive com várias referências, diretas e indiretas, durante todo o filme). Um grande suspense filosófico capaz de agradar a todos os públicos.

Boris (Woody Allen) é um cidadão russo dos romances do século de ouro. Sendo acometido de questões filosóficas profundas e em meio ao contexto das guerras napoleônicas, Boris se apaixona por Sonja (Diane Keaton), é rejeitado e se torna acidentalmente um herói de guerra. Com bom humor e um sem fim de referências aos clássicos russos, A morte de Boris Gruschenko (originalmente Love and Death) homenageia a literatura russa tão amada por Woody Allen e nós.
(Esta informação talvez seja a menos relevante, mas é meu filme preferido de Woody Allen)

A rosa púrpura do Cairo
Cecilia (Mia Farrow) vive em meio a depressão pós crash de 1929. Ela tem um marido que se aproveita dela, um emprego ruim e sua única diversão é assistir várias e várias vezes o filme A rosa púrpura do Cairo. Um dia, no meio da sessão, Tom Baxter (Jeff Daniels), protagonista do filme, sai da tela e foge com Cecilia. Eles se envolvem e deixam todo mundo em alvoroço, inclusive Gil Sheperd (Jeff Daniels), o ator que interpreta Baxter no filme. Entre o realismo mágico e uma grande história de amor, Woody Allen cria um filme cheio de momentos engraçados e tocantes.

Os 10 livros que todo estudante de direito deve ler

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Jonatan Silva, na Contracapa

A Contracapa selecionou 10 livros de literatura que todo estudante de direito deveria ler. Confira a lista.

Crimes – Ferdinand von Schirach

Advogado criminalista e leitor voraz, von Schirach recria no seu primeiro livro muito dos casos que vivenciou em tribunais alemãs. O grande feito de Crimes está no poder de argumentação e persuasão apresentado pelo autor. Lançado em 2009, vendeu mais de 400 mil exemplares na Alemanha.

Culpa – Ferdinand von Schirach

Segundo e mais recente livro de von Schirach lançado no Brasil, Culpa retorna à estética de Crimes e permite ao leitor entrar em um universo incrível. Assim como na obra anterior, o autor usa da própria experiência delimitar o que é culpa perante o tribunal.

O Processo – Franz Kafka

Romance inacabado do escritor tcheco, O Processo é uma alegoria à culpa e à burocracia. Joseph K. se vê às voltas com uma acusação que não sabe qual é e repentinamente abandona o cotidiano suburbano que tinha.

Na Colônia penal – Franz Kafka

Novela magistral de Kafka, Na Colônia penal narra a macabra prisão em que os detentos têm gravado na pele a sua sentença. O escritor novamente dialoga com a burocracia e inscreve um ambiente mórbido, beirando o expressionismo.

Crime e castigo – Dostoievski

Um dos pilares da literatura mundial, Crime e castigo é a história do estudante Raskólnikov que, graças ao seu meio, comete um crime nas ruas de São Petersburgo. A sua salvação pode estar na teoria que criou para justificar seu ato. Os exemplos do pobre rapaz? César e Napoleão.

1984 – George Orwell

O ano é 1984 e a população é dominada por um partido que cria guerras para fomentar o lucro. As pessoas são proíbas de pensar e se relacionar com outras. Todos são vigiados pelo Grande Irmão. O partido possui o lema “Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força”.

O Mercador de Veneza – Shakespeare

A peça foi escrita entre 1596 e 1598 e conta os dias de um mercador do século XVI que precisa se livrar de uma dívida com um judeu. O caso vai a julgamento quando o comerciante deixa o coração como garantia de pagamento.

O Estrangeiro – Albert Camus

Mersault é um homem sem grandes qualidades, mas que se mantém alheio ao mundo que o cerca. A morte da mãe parece não tocá-lo. Sua única intensão é acabar com os trâmite burocráticos e voltar para casar para sair com a vizinha. O clímax do livro acontece quando Mersault mata um árabe em uma praia. A partir de então, o homem tem suas convicções testadas pela sociedade.

Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Alex é um delinquente juvenil, capaz dos atos mais violentos. Depois de ser apanhado, o jovem é usado em um experimento de reabilitação. Aos poucos, Alex vai percebendo o ser humano que era e, como um ato de vingança, o passado retorna, mas, desta vez, ele próprio é a vítima.

Os Sofrimentos do jovem Werther – Goethe

A história de amor de Werther é também uma das mais trágicas, a ponto de causar uma onda de suicídio entre seus leitores. Considerado como o precursor do romantismo, Os Sofrimentos do jovem Werther é um dos pilares da literatura mundial.

Traições – cadernos de fofocas sobre mim mesmo

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Douglas, no Cafeína Literária

Traições – cadernos de fofocas sobre mim mesmo
Antônio Ramos da Silva

Acredito que a grande maioria das pessoas já pensou em escrever sua autobiografia. É comum que todo aquele que tenha uma autoestima normal veja a si mesmo como o maior protagonista de sua própria vida. Pensamos que as coisas que nos ferem e/ou nos trazem alegria são dignas de registro e podem impressionar aos demais.

Eu, como ser humano, escritor e com uma autoestima possivelmente um pouco maior que a média, já aventei escrever sobre mim mesmo. O que me impede é que, ao analisar as histórias que contaria, tirando uma peripécia ou outra, não vejo nada que poderia ser tão interessante que já não tenha ocorrido com as outras pessoas.
(mais…)

A razão no escritor Dostoiévski: a consolidação do controle ideológico e a crise da razão

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Marcelo Vinicius, no Homo Literatus

Uma análise, sem maiores pretensões, das teorias do personagem Raskólnikov do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski. Apesar de tantas interpretações sobre elas, exigem do leitor praticamente tanta garra e tanta erudição quanto demonstra ter o próprio escritor, ou seja, exige um conhecimento amplo da história do pensamento filosófico.

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Já que em um Portal da internet não permite nos aprofundar muito, então, pretendemos, sem maiores pretensões, analisar brevemente a razão na obra Crime e Castigo, de Dostoiévski, como a consolidação do controle ideológico e a crise da razão. Do que se trata isso? Veremos:
Quem foi o escritor Dostoiévski? Dostoiévski foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos (BAKHTIN, 2008). É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo ou Memórias do Subsolo, descrito por Walter Kaufmann como a “melhor proposta para existencialismo já escrita” (KAUFMANN, 1975, 12).

O filósofo Nietzsche referiu-se à Dostoiévski como o único psicólogo com que tem algo a aprender, ele pertence às inesperadas felicidades da vida de Nietzsche:

De Dostoiévski eu não sabia, até poucas semanas, nem sequer o nome – eu, um homem sem instrução, que não lê nenhum “jornal”! Uma visita casual a uma livraria me colocou diante dos olhos o livro L’esprit souterrain em uma tradução francesa (tão casual quanto me ocorreu aos 21 anos de idade com Schopenhauer e aos 35 com Stendhal!). O instinto de parentesco (ou como poderia eu chamá-lo?) falou de imediato, minha alegria foi extraordinária: eu devo retroceder até meu contato com O vermelho e o negro de Stendhal, para me recordar de semelhante alegria (NIETZSCHE, 1887, p. 27).

O último romance de Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, como o melhor romance já escrito (FREUD, 1997).

O filósofo Sartre também, dentre outros, discute questões vivenciadas pelos personagens de Dostoiévski e reconhece a influência desse escritor (NUTO, 2011).

É sabido ainda que a obra de Dostoiévski exerce uma grande influência na literatura moderna, legando a ela um estilo caótico, psicológico, desordenado e que apresenta uma realidade alucinada. Ainda várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas ideias.

Dostoiévski influenciou imensamente vários escritores como: Marcel Proust, Albert Camus, Franz Kafka, Ernesto Sabato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores (SABATO, 1998).

Depois dessa pequena apresentação do já conhecido Dostoiévski, iremos, então, analisar brevemente a razão na obra Crime e Castigo. Logo no primeiro capítulo, o narrador começa por apresentar aquele que será o personagem principal do romance, o Ródion Ramanovich Raskolnikov, e esclarece as condições psicológicas e sociais em que ele se encontra:

Mas fazia algum tempo que vivia num estado irritadiço e tenso, parecido com hipocondria. Andava tão absorto e isolado de todos que temia qualquer tipo de encontro, não só com a senhoria. Estava esmagado pela pobreza, e até mesmo o aperto em que vivia deixara de oprimi-lo ultimamente. (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 19).

Percebemos ainda uma alusão ao capitalismo e as suas mazelas, segundo Dostoiévski. Por exemplo, o jovem e pobre estudante Raskólnikov vai à residência da senhora Aliena Ivánovna, uma agiota que o explora ao máximo com juros de empréstimos altíssimos que parece ser impagáveis.

Essa senhora é rabugenta, ranzinza, sem espírito altruísta, sem compaixão e resmunga como reclamando de tudo, a todo o momento. Seria essa velha agiota uma representação do capitalismo selvagem nessa obra de Dostoiévski? Parece que sim, pois, ao decorrer da história, o jovem estudante conhece um senhor bêbado numa taberna, o Marmieládov, o qual inicia uma conversa com Raskólnikov e, entre diálogos que os fazem percorrer em assuntos como empréstimo de dinheiro, esse senhor disse:

– Isso mesmo, sem qualquer esperança, sabendo de antemão que nada vai conseguir. Você sabe, por exemplo, de antemão e em detalhes que essa pessoa, o mais bem-intencionado e mais útil dos cidadãos, não lhe vai emprestar de jeito nenhum, pois, pergunto eu, por que iria emprestar? Ora, já sabe que eu não vou pagar. Por compaixão? Mas o senhor Liebeziátnikov, em dia com as novas idéias, explicou há pouco que a compaixão em nossa época está proibida até pela ciência e que já é assim que se procede na Inglaterra, onde existe a economia política. Por que, pergunto eu, emprestaria? Pois bem, mesmo sabendo de antemão que não vai emprestar, ainda assim você se põe a cominho… (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 31).

Nessa própria obra de Dostoiévski vemos que com o advento do capitalismo, a compaixão não pode ser mais aceita, é o que percebemos nesse diálogo entre esse senhor e Raskólnikov. Um outro exemplo dado pode ser encontrado ainda nessa conversação, que reforça o que foi dito sobre a compaixão: “a economia política da Inglaterra não aceita a compaixão” (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 31). Esse diálogo também parece caracterizar aquela velha agiota, que explora Raskólnikov. Ela, metaforicamente, pode ser a face da injustiça social que assalta a Rússia pré-capitalista na metade do século XIX.

Essa referência à Inglaterra, nessa conversa do personagem Marmieládov com Raskólnikov, é importante, porque, historicamente, a partir de seu nascedouro na Inglaterra, o capitalismo se espalhou pelo mundo eliminando todos os demais modos de produção (DEÁK, 2013).

Mas, apesar de a Rússia estar presente na Europa, a sociedade russa ainda era semi-feudal e o choque do capitalismo ainda estava se tornando atual. As obras de Dostoiévski retratam uma sociedade imponente, que segue as regras do capitalismo que venceu a “mãe Rússia”. A obra Crime e castigo eclode em reação à chegada do capitalismo ao seio de uma sociedade russa à beira da impulsão.

Outra questão que entra em jogo no diálogo do personagem Marmieládov é que, ainda, a compaixão é proibida até pela ciência. Percebemos aí o racionalismo se tornando presente e consequentemente o Iluminismo se apresentando na Rússia. A ideia é que a compaixão se afasta da ciência, onde esta procurava ser neutra e impessoal. A razão (ciência) era, portanto, o único guia da sabedoria capaz de esclarecer qualquer problema, “assim a ciência se destacaria como detentora e promotora da construção dos saberes” (MELLO; DONATO, 2011, p. 263).

Como conseqüência disso, ou seja, da ciência como uma verdade, também possibilitou ao homem a compreensão e o domínio da natureza (BASSANI; VAZ, 2011). Isso é resultado também do antropocentrismo e do individualismo renascentistas, que incentivaram a investigação científica, que levaram à gradativa separação entre o campo da fé (religião) e o da razão (ciência), determinando profundas transformações no modo de pensar, sentir e agir do homem (CENCI; ROESLER; PROSSER, 2013).

Lembramos também que “o Iluminismo encontrou maior força e recepção aos seus princípios na França – palco de problemas econômicos, religiosos, políticos e sociais –, onde influenciaria sobremaneira a Revolução Francesa […]” (MELLO; DONATO, 2011).

autores

John Locke, Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Denis Diderot: livres pensadores iluministas

Portanto, se a inspiração do Iluminismo proveio, em parte, do racionalismo de Descartes, Spinoza e Hobbes, sendo que os verdadeiros inspiradores do movimento foram Newton e Locke (ITUASSU, 2002), e que por sua vez o Iluminismo influenciou a Revolução Francesa (MELLO; DONATO, 2011), tendo como conseqüência uma forma de ciência, que surge como suporte desse processo de racionalização, fornecendo ao pensamento elementos de segurança calcados em valores baseados na abstração, como disseram Mello e Donato (2011), ao se referirem que os paradigmas consolidados em um segundo momento da história, entre os séculos XVII e XVIII, no saber científico, foi consolidada pela Revolução Francesa, demonstrando que o pré-capitalismo determinou a função sobre a ciência (a tentativa de dominar a natureza / a matéria prima / a Revolução Industrial ocorrendo antes e quase que paralelamente a Francesa).

A Revolução Francesa, em síntese, através da Constituição de 1791, estabeleceu na França as linhas gerais para o surgimento de uma sociedade burguesa e capitalista em lugar da anterior, feudal e aristocrática. Apesar disso, este projeto não teve muita sustentação, logo de início.
De qualquer forma, foi no século XIX, quando Dostoiévski vivia e escrevia muito, que o Capitalismo criou força. O capitalismo se tornou dominante no mundo ocidental depois da queda do feudalismo e gradualmente se espalhou pela Europa e, nos séculos XIX e XX, forneceu o principal meio de industrialização na maior parte do mundo.

Devido a burguesia da época e o que viria a ser o liberalismo, de certa forma, se apresentando aos poucos, Dostoiévski, em sua obra Crime e Castigo, ainda na sua primeira parte (a obra é divida em seis partes e um epílogo), no diálogo entre os personagens Marmieládov e Raskólnikov, tenta expor que o Capitalismo, ainda não nomeado assim, é desumano devido a falta de compaixão e a exploração do ser humano pelo ser humano.

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Raskólnikov na cena do filme “Crime e castigo” produzido pela BBC

Esse juízo de fatos históricos, que desenvolvemos aqui, se voltando à obra Crime e Castigo, se faz necessário para poder entendermos essa literatura de Dostoiévski, já que os trabalhos desse escritor, apesar de tantas interpretações, exigem do leitor praticamente tanta garra e tanta erudição quanto demonstra ter o próprio autor, ou seja, exige um conhecimento amplo da história do pensamento filosófico.

Um dos entendimentos sobre Raskólnikov, personagem principal da obra, parece ser a representação do seu dilema social de sua época: da crise e da contradição de seu povo com a chegada do Capitalismo que contraria a visão Socialista Utópica. Dostoiévski freqüentou o círculo Petrachévski, nome de um grupo secreto de socialistas utópicos (DOSTOIÉVSKI, 2001). Outra questão presente é a visão do racionalismo que vai de contra aos princípios do Cristianismo russo etc.

Assim, Raskólnikov representa a gradativa separação entre o campo da fé (religião) e o da razão (ciência), determinando profundas transformações no modo de pensar, sentir e agir do homem. Percebemos melhor esse modo quando Raskólnikov encontra uma moça bêbada, deitada em um banco na rua, e assim, com um espírito altruísta, mesmo sem conhecê-la, resolve socorrê-la e até pedir ajuda a um policial bigodudo que, além de pedir que a levasse para casa dela com segurança, a protegesse também de outro senhor que a seguia para abusá-la, o qual, este, tentava aproveitar da má condição física e psíquica da moça. Este senhor, que tentava abusar a moça, foi até nomeado pejorativamente de almofadinha, por Raskólnikov.

Raskólnikov se preocupou tanto com a tal moça que ofereceu dinheiro ao policial para que este pudesse custear o transporte dela com a finalidade de ajudá-la. Mas, contraditoriamente, no decorrer, Raskólnikov mudou de opinião subitamente e assim pediu para que o policial a deixasse em paz, dizendo que ninguém teria nada a ver com isso e que o tal senhor almofadinha poderia sim se divertir com ela; também, depois, sozinho, ele reclamou para si mesmo o dinheiro que ofereceu ao policial, afirmando que se nem tinha condições para se manter como iria ajudar alguém? Segue um dos trechos que permite evidenciar isso no romance:

[…] – Ouça – disse Raskólnikov –, veja (remexeu num bolso e tirou vinte copeques), tome, chame um cocheiro e mande deixa-la no endereço. Só falta a gente descobrir o endereço! […] Num instante alguma coisa pareceu picar Raskólnikov; num abrir e fechar de olhos ficou meio transtornado. – Ei, esculte! – gritou atrás do bigodudo O outro olhou para trás. – Deixe pra lá! O que o senhor tem com isso? Deixe que ele se divirta (apontou para o almofadinha). O que é que o senhor tem com isso? O policial não entendeu e ficou olhando para Raskólnikov de olhos arregalados. Raskólnikov começou a rir. […] Levou meus vinte copeques – pronunciou com raiva Raskólnikov, depois de ficar só. – Deixa para lá, vai pegar dinheiro de outro também e ainda deixar a menina, é assim que vai terminar… por que eu me meti a ajudar? Eu mesmo não estou precisando de ajuda? Tenho eu direito de ajudar? Que eles se engulam vivos – o que é que eu tenho com isso? E como me atrevi a dar aqueles vinte copeques? Por acaso eram meus? (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 65).

Claramente percebemos a contradição do comportamento nesse trecho, onde Raskólnikov em um dado momento era solidário e, logo em seguida, se torna imediatamente em um ser individualista e fechado à compaixão.

Lembramos que o individualismo também foi um dos valores renascentistas e refletiu a emergência da burguesia e de novas relações de trabalho, que era a idéia de que cada um é responsável pela condução de sua vida, portanto a possibilidade de fazer opções e de manifestar-se sobre diversos assuntos acentuaram gradualmente o individualismo (FERNANDES, 2013).

E a compaixão, como foi dita anteriormente aqui, não faz mais parte da nova economia capitalista da Inglaterra, que dominava a Europa, e nem da ciência. O problema disso tudo não era só a questão do individualismo e outras características renascentistas, mas em que situação isso poderia chegar, levando ao um extremismo Niilista, por exemplo. Os efeitos desse fenômeno são visualizados por Dostoiévski.

Esclarecendo que a questão aqui, para Dostoiévski, não é ser necessariamente contra a ciência em si, mas sim como ela era conduzida pelo modelo capitalista e como ela era endeusada, sendo uma verdade absoluta.
Podemos também fazer uma relação da obra Memórias do Subsolo, de Dostoiévski, com a obra Crime e Castigo, pois, segundo Paulo Bezerra, tradutor dos trabalhos de Dostoiévski:

o paradoxalista de Memórias… afirma que os homens de nervos fortes, de ação, isto é, os homens guiados pela razão, os homens da civilização burguesa, param diante do impossível, de um limite, e imediatamente se conformam. Esse limite é um muro de pedras, ‘naturalmente as leis da natureza, as conclusões das ciências naturais, a matemática (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 11).

Essa afirmação, de um personagem paradoxalista em Memórias do Subsolo, é logo evidente também quando continuamos ainda dentro do contexto do trecho da obra Crime e Castigo, em que conta a história da moça bêbada, citada anteriormente aqui, na qual ora Raskólnikov age de forma altruísta, ora ele age de forma egoísta, quase que ao mesmo tempo, com gestos confusos. Para fortalecer esse paradoxo no personagem, que era o retrato social russo da época (de um lado o semi-feudalismo e toda sua cultura cristã russa, e do outro lado o capitalismo), como que numa espécie de vai e vem ou em crise emocional ou em surto de loucura, sempre contraditório e em conflito, Raskólnikov sai de sua visão individualista ou egoísta e entra novamente numa visão mais altruísta e, assim, comenta:

“Pobre menina!… – disse ele, olhando para o canto vazio do banco. – Vai voltar a si, chorar, depois a mãe ficará sabendo de tudo… Primeiro irá espancá-la, depois açoitá-la, para doer e envergonhar, pode ser até que a expulse de casa… Mas se não expulsar, as Dárias Frantsievnas acabarão farejando e a minha menina começará a correr pra lá e pra cá… Depois logo irá bater com os costados num hospital […] e depois… depois novamente hospital… vinho… botecos… e de novo hospital… dois, três, anos depois estará mutilada, aos dezoito ou dezenove anos de vida apenas… Por acaso não conheço moças assim? E como chegaram aí? Foi assim que chegaram… Arre! Que seja! É assim, dizem, que tem que ser. Essa tal porcentagem, dizem, deve ir todo ano… para algum lugar… para o diabo, deve ser, para revigorar as demais e não lhes atrapalhar. Porcentagem! Excelentes, verdade, essas palavrinhas deles: são tão tranqüilizantes, científicas! Foi dito: porcentagem – logo, não há motivo para inquietação. Mas se empregassem outra palavra, aí… talvez fosse mais inquietante…” (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 66).

Nesse momento, percebemos também o discurso de Raskólnikov que diz que o homem se conforma com as misérias, no caso, com as moças mutiladas, só porque cientificamente são explicadas e, assim, aceitas como uma resposta quase que de uma verdade absoluta em sua época. Essa tal porcentagem que o personagem se refere pode ser entendido segundo o:

“[…] raciocínio sobre o permanente ‘percentual’ de vítimas condenadas inevitavelmente pela natureza ao crime e à prostituição apareciam nos jornais e revistas russos entre 1865 e 1866 em face da publicação, em língua russa, do livro O homem e o desenvolvimento das faculdades… do famoso matemático belga, economista e ‘pai da estatística’ Lambert Adolf Quétele. O economista alemão A. Wagner, um dos divulgadores de Quételet, é mencionado por Dostoiévski no romance. Naquele momento, a imprensa russa proclamava Quételet e Wagner os pilares da ‘ciência da estatística ética’”. (N. da E.) (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 66).

Novamente se percebe o ataque ao surgimento do Renascimento, na época, que proporciona o desenvolvimento do racionalismo como a explicação do mundo através de verdades absolutas (se não absolutas, as únicas mais confiáveis) estabelecidas pela razão.

Só que Dostoiévski, através do seu personagem Raskólnikov, pontua mil vezes a não-razão, é a crise da razão, já que, para o autor, a razão é só uma fração do homem, que satisfaz somente a parte racional humana, enquanto o ato de viver em toda a sua expressão vai além do racional. Mesmo que essa expressão resulte, às vezes, em algo bizarro, no entanto, ali será sempre uma vida expressa e não um cálculo matemático. Na matemática, dois mais dois são quatro. No homem, dois mais dois são cinco, seis, sete… (DOSTOIÉVSKI, 2000).

Freud também, posteriormente, fez desmoronar a ideia de um homem determinado pela primazia da razão. Desde os momentos finais do século XIX, o Eu, a sede da consciência, deixou de ser o senhor em sua própria casa.

O que vamos conhecendo nessa obra é que, para Dostoiévski, o homem é um ser complexo e por isso desdenha desse modelo de homem guiado pela razão.

Outro ponto que precisa ser abordado na obra é que o crime de Raskólnikov, em outras passagens do romance, quando ele mata a velha agiota, vai além das aparências de problemas financeiros. É certo que a Rússia que Dostoiévski sentiu e pintou tão espantosamente, é um fantasma gerado pelo homem errante e renegado. Nesse período, final do Século XIX, “a Rússia vivia uma das piores crises econômicas de toda a sua história. O atraso econômico e cultural do país e as péssimas condições de vida dos camponeses e operários […] eram a marca da época” (SACHS, 2011, p. 14).

E, como foi dito, nesse contexto histórico, a velha agiota Alena Ivanovna podia entregar-se livremente à exploração de desgraçados como o estudante Raskólnikov. Assim, porque não eliminar a velha agiota, aquele ser parasitário, inútil, e utilizar-se do seu dinheiro para sair daquela situação incomoda, salvando também sua mãe e sua irmã, reduzidas à miséria? Seria esse um dos pensamentos do Raskólnikov.

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Ilustração mostrando o crime de Raskólnikov contra a velha agiota Alena Ivanovna

Foi nessas circunstâncias terríveis que o jovem estudante desenvolveu sua doutrina do “direito ao crime”, na qual todo aquele que se sente além das convenções tradicionais acerca do bem e do mal , tem direito a tudo, inclusive o direito de eliminar os que consideram prejudiciais ao seu objetivo (visão do niilismo predominante na época da Rússia de Dostoiévski).
Mas, dessa forma, se engana quem pensa que Raskólnikov cometerá um duplo crime devido somente a sua condição financeira modesta. Realmente esse ato do estudante é um ato de revolta, de rebeldia contra o status quo, porém, sua atitude carrega por trás uma questão muito mais complexa e filosófica. Um desses exemplos filosóficos por de trás das ações de Raskólnikov é o crescimento do Iluminismo, resultado do Racionalismo, com o qual percebe-se que nossa sociedade muito se beneficiou com tais iniciativas, no entanto teve como consequência o relativismo moral, o individualismo, o hedonismo e o consumismo.

Lembrando-se que aqui é a história da Rússia e não de toda a Europa. Os russos viveram o atraso, no que tange se tornarem capitalistas em relação a Europa, e tiveram sintomas muito particulares, embora não tão diferentes de outros países europeus.

Assim, continuando com o personagem Raskólnikov e o caso do assassinato da velha agiota, entra em jogo o relativismo moral e a grande discussão Niilista da época (MAYOS, 2013). Nesse momento percebemos que Dostoiévski não ataca só o capitalismo, mas ainda o socialismo. Assim como o homem do Memórias do Subsolo, ataca tudo e todos sem distinções. Como também afirmou Paulo Bezerra, professor, ensaísta e tradutor das obras de Dostoiévski:

Apesar do anticapitalismo arraigado de Crime e Castigo, não vamos promover Dostoiévski à categoria de revolucionário. A própria teoria do crime permitido, desenvolvida por Raskolnikov, é também uma polêmica com as tendências político-ideológicas de cunho revolucionário… (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 21)

Dostoiévski foi detido e preso em 23 de abril de 1849 por participar de um grupo intelectual revolucionário chamado Círculo Petrashevski. Depois da saída da prisão, o escritor russo teve uma nova concepção de mundo e Crime e Castigo foi escrito cinco anos após Dostoiévski ter voltado do exílio siberiano (1850-1860).

Na Rússia, o niilismo, que inspira também o crime de Raskolnikov, vai para o plano social e político e passa a designar um movimento de rebelião contra a ordem estabelecida, o atraso da sociedade e os seus valores (PECORARO, 2010). Assim, Dostoiévski presenciou movimentos socialistas e anarquistas que promoveram atentados terroristas e assassinatos políticos na Rússia czarista, que foram denominados de Niilistas, e que é bem descritos na obra Os Demônios, de Dostoiévski.

Mas toda a crítica de Crime e Castigo ao racionalismo e suas “vertentes”, como o Iluminismo, o Niilismo, a Revolução Francesa etc., tem como pano de fundo a civilização burguesa oriunda desses movimentos que

“[…] incorporou os piores exemplos de violência da história e na qual o homem ‘talvez chegue ao ponto de encontrar prazer em derramar sangue, ‘os mais refinados sanguinários foram todos cavalheiros civilizados’ e ‘são encontrados com demasiada frequência, são por demais comuns, e já não chamam atenção’ porque seus atos sanguinários já viraram hábito, isto é, passaram a integrar a própria civilização. Essas reflexões estão em profunda sintonia com a análise que Raskólnikov faz da história e com sua teoria do crime permitido.” (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 11).

Raskólnikov, então, cria a teoria do homem “ordinário” e “extraordinário”, que tem origem nos grandes criminosos da história. O protótipo do homem extraordinário de Raskólnikov era justamente Napoleão, um conquistador que não hesitava em pisar em quantas cabeças fosse preciso.

“O substrato da reflexão de Raskólnikov é o seguinte: Napoleão derramou rios de sangue para consolidar a civilização burguesa, que tem em sua macroestrutura o sistema bancário como símbolo maior, e a história o absolveu. Então, por que eu, Radion Románovitch Raskólnikov, não posso matar uma mísera velha agiota, que repete na microestrutura da sociedade o que o sistema bancário faz na macroestrutura?” (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 12).

Assim, toda essa ideologia de Raskólnikov antecede mais uma discussão filosófica: os valores humanos do nosso tempo. O personagem, do escritor Dostoiévski, antecipa as discussões como as tratadas pelo filósofo e sociólogo Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, no que tange ao embrutecimento das relações humanas.

Antecipa também as reflexões sobre a sociedade atual do sociólogo Zygmunt Bauman, em suas famosas obras Tempos Líquidos (Editora Zahar) e Amor Liquido (Editora Zahar), que são as fragilidades dos laços humanos, de que forma as relações parecem tornar-se cada vez mais ‘flexíveis’, gerando níveis de insegurança maiores, afetando negativamente não só os laços familiares e amorosos, como também a capacidade de tratar um estranho com humanidade.

Ou seja, terrorismo, desemprego, solidão – fenômenos típicos de uma era na qual, para Bauman, a exclusão e a desintegração da solidariedade expõem o ser humano aos seus temores mais graves, os personagens dostoievskianos já previam.

Essa questão é discutida também em a razão subjetiva, formal e instrumental, que se encontra na obra Eclipse da Razão, do filósofo Horkheimer.

Além disso, a temática do cristianismo e do amor também se apresenta na obra Crime e Castigo de Dostoiévski, ela é também essencial para compreensão do romance. Ou seja, essa obra não se resume a problemas filosóficos e políticos, mas também religiosos, no termo mais convencional da palavra. O amor é representado pela personagem Sônia, a paixão de Raskólnikov. Temos, de um lado, a ética do amor cristão, o sacrifício total, imediato e incondicional do Eu que é a lei da existência de Sônia; e, de outro, a ética utilitarista racional de Raskólnikov, que justifica o sacrifício dos outros em nome do bem social comum, mas que depois o próprio Raskólnikov será uma espécie de redenção cristã. Evito aqui mais detalhes sobre ele, nessa fase do personagem, pois, uma vez que as histórias estão interligadas, pode gerar spoiler (JOSEPH, 2003).

Mas, não vamos confundir o cristianismo de Dostoiévski com o nosso cristianismo. Ele era um crítico do nosso cristianismo ocidental. Ou seja, como se sabe, há uma grande diferença entre a visão de cristianismo, entre a igreja ocidental (latina) e a oriental, segundo o teólogo russo Evdokimov. Por isso, o cristianismo, que é na verdade a mística ortodoxa, pulsa fortemente na Rússia de Dostoiévski e está presente em sua literatura. Dessa forma, é importante termos uma compreensão da mística ortodoxa para a análise do pensamento religioso de Dostoiévski e dessa influência religiosa em seus escritos (PAULINO, 2012). O que não será possível aqui.

Só assim, entende-se que não daremos conta da obra desse grande escritor russo e, como foi dito anteriormente, por isso, e já que é um Portal da internet, não permite nos aprofundar muito sobre. Contudo, sentimos a complexidade da obra Crime e Castigo, pelo menos.

Percebe-se que passamos, mesmo que superficialmente, por vários temas, ao comentarmos da obra Crime e Castigo de Dostoiévski. Percebendo também a complexidade filosófica que se encontra nela. É sabido que muitos a ver ou como um romance policial ou uma obra de visão filosófica, mas com um tema único. Grande engano, pois em termos de valor esse romance enfatiza vários temas num mesmo enredo (polenfático).

Há diversas ideias complexas, que vão tornando-se mais significativas juntamente com o desenvolvimento do enredo do próprio romance. Não diferente de outras obras de Dostoiévski, Crime e Castigo envolve muitos temas que vão da psicologia, filosofia, política à religião. Suas obras são um manancial de reflexão filosófica atemporal e com Crime e Castigo não é diferente.

Enfim, como disse Paulo Bezerra, Dostoiévski foi um riquíssimo e complexo produto de sua época. Aliás, ele mesmo se autodefine em carta enviada à sua amiga N.D. Fonvízina, escrita em fevereiro de 1854: “Eu sou um filho do século, filho da descrença e da dúvida; assim tenho sido até hoje e o serei até o fim dos meus dias. Que tormentos terríveis tem me custado essa sede de crer, que é tão mais forte em minha alma quanto maiores são os argumentos contrários”.

REFERÊNCIAS
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CENCI, R. D; ROELSER, A. D; PROSSER. S. E. A crise da modernidade e a ética da vida na relação home-natureza. FAE Centro Universitário.Disponível em:< http://www.unifae.br/publicacoes/pdf/sustentabilidade/acrisedamodernidade.pdf> Acesso em: 27 julho 2013).
DEÁK, C. (Versão preliminar 4.9.11. Rev. 5.5.24; 7.9.30; 10.5.5. Capitalismo. USP. Disponível em:<http://www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/c_deak/CD/4verb/capitalism/index.html > Acesso em: 26 julho 2013).
DOSTOIÉVSKI, M. F. Crime e Castigo. Tradução: Paulo Bezerra. 3ª ed. São Paulo: Editora 34, 2001.
DOSTOIÉVSKI, M. F. Memórias do Subsolo. Tradução: Boris Schnaiderman. 3ª ed. São Paulo: Editora 34, 2000. SACHS, K. Realismos de Periferia: Machado e Tchekhov. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2011.
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ITUASSU, A. Rousseau, Sturm und Drang, civilização e barbárie: representação do embate entre culturas e a atualidade das discussões acerca do Iluminismo francês. PUC. ALCEU – v.2 – n.4 – p. 173 a 190 – jan./jun. 2002.
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A origem de Dostoiévski: escritores russos e seus sobrenomes

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Tolstói e Dostoiévski, Tchekhov e Pasternak, Nabokov e Soljenítsin… A Gazeta Russa descobriu o que significam os sobrenomes dos clássicos russos e de seus personagens.

Ilustração: Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

Aleksêi Mikheev, na Gazeta Russa

Púchkin

Aleksandr Púchkin é provavelmente o principal símbolo da literatura e da cultura russa, como Dante na Itália ou Goethe na Alemanha. No entanto, para aqueles que não dominam o idioma russo é bastante difícil entender a razão disso, pois a sua poesia perde muito ao ser traduzida. Os Púchkin constituem uma antiga linhagem nobre, iniciada ainda no século 14 por Gregóri Morkhínin, que foi apelidado de “Púchka” (canhão) por ter sido o primeiro artilheiro da Rússia. Atualmente, Púchkin tornou-se uma figura quase mitológica, por exemplo, os pais podem dizer a uma criança preguiçosa: “Quem fará as lições por você? Por acaso será Púchkin?”.

Lérmontov

Talvez o segundo mais importante poeta russo seja Mikhail Lérmontov, contemporâneo mais jovem de Púchkin. Seu sobrenome é de origem escocesa: um antepassado do poeta, George Learmonth, passou a servir no exército da Rússia em 1613. Curiosamente, o sobrenome do protagonista da obra mais famosa de Púchkin, o romance em versos “Evguêni Onéguin”, foi formado a partir do nome de um rio do norte da Rússia, o rio Onega, e Lérmontov deu ao personagem principal do seu romance mais conhecido, “O herói de nosso tempo”, o sobrenome de Petchórin, formado a partir do nome de outro rio, também do norte, o Petchora.

Tolstói

Sem dúvida, o principal prosador russo é o autor de “Guerra e Paz”, o conde Lev Tolstói. Os Tolstói também constituem uma antiga linhagem nobre, cujo primeiro representante, ao que tudo indica, foi um homem de compleição bastante robusta (“tolstii”, que em russo significa gordo). Em “Anna Karenina”, outro romance seu, Tolstói deu a um personagem um sobrenome “revelador”, Lévin (do nome Liev), uma clara alusão de que ele era uma espécie de alter ego do autor. Mais dois representantes da linhagem dos Tostói estão ligados à literatura: Aleksêi Konstantinovich Tolstói, contemporâneo de Lev Tostói, e o escritor soviético Aleksêi Nikolaievitch Tolstói, que tinha o apelido de “Conde Vermelho” por causa de sua lealdade ao poder soviético. Uma escritora russa da época atual, Tatiana Tolstaia, é neta dele.

Dostoiévski

O sobrenome do grande escritor tem uma origem “geográfica”: os antepassados de Fiódor Mikhailovich eram naturais de um lugarzinho na então Bielorrússia chamado Dostoiev. No romance de Mikhail Bulgákov “O Mestre e Margarida” está presente a seguinte cena: a funcionária da portaria não quer deixar os dois heróis entrarem no restaurante da Casa dos Escritores sem as respectivas carteirinhas de associados, e quando um deles diz que Dostoiévski, por exemplo, não tinha nem poderia ter qualquer carteirinha de associado, ela responde “Dostoiévski morreu”. Então o escritor contesta: “Protesto, Dostoiévski é imortal”, frase que se tornou muito conhecida. O sobrenome Bulgákov, por sua vez, é formado a partir do nome Bulgak, comum nos tempos antigos, e que significa “irrequieto, alvoroçado”.

Tchekhov

Esse sobrenome não tem nada a ver com os tchecos, ele remonta ao antigo nome russo “Tchekh” (ou “Tchokh”), que por sua vez está relacionado com o verbo “tchikhat” (espirrar): pessoas que sofriam de constantes resfriados e que espirravam frequentemente recebiam tais apelidos. Em sua juventude, o médico Anton Tchekhov publicava regularmente histórias humorísticas em um periódico e utilizava uma variedade de pseudônimos; o mais famoso deles era Antocha Tchekhonte e entre outros havia o “Irmão do meu Irmão”, “Laerte”, “Ulisses”, “Homem sem baço”, “Champanski” e “Schiller Sheikspirovich Goethe”. Em um de seus contos, “Sobrenome de Cavalo”, o herói revê sem sucesso dezenas de variantes tentando lembrar de um sobrenome que havia esquecido e que de alguma forma estava relacionado a cavalos; por fim acaba-se verificando que o sobrenome era “Ovsov” (da palavra “ovios”, que em russo significa aveia, ou seja, alimento dado aos cavalos).

Escritores que ganharam o Prêmio Nobel

No século 20, cinco escritores russos foram laureados com o Prêmio Nobel de Literatura: Ivan Búnin, Boris Pasternak, Mikhail Sholokhov, Aleksandr Soljenítsin e Joseph Brodsky.
O sobrenome de Búnin se formou a partir do apelido Bunia, com o qual, no passado, chamavam uma pessoa que era arrogante e orgulhosa.

Pasternak (Pastinaca sativa), também conhecida como cherovia, é um legume cujo nome virou sobrenome. Outra curiosidade é que o sobrenome do herói do famoso romance de Pasternak, “Doutor Jivago”, aponta para o fato de que o personagem principal pertencia a uma família da aristocracia, o que é indicado pela antiga terminação característica “ago” (na versão moderna, o adjetivo “jivoi”, que em russo significa vivo, no caso genitivo se transforma em “jivogo”).

O sobrenome Cholokhov provém do adjetivo “cholokhii”, que em muitos dialetos, significa “de rosto áspero”, ou seja, uma pessoa que tem marcas de varíola.

O sobrenome de Soljenítsin foi formado a partir da palavra “soljenitsi”. Era assim que eram chamados aqueles que se ocupavam de “solojenie”, ou seja, do cultivo e secagem do malte. E “Chukhov”, o sobrenome do protagonista de seu romance mais famoso, “Um dia na vida de Ivan Denisovich”, provavelmente vem de “Chukhi”, que é um dos diminutivos do nome Aleksandr (Sacha – Sachukha – Chukha); ou seja, como Tolstói no caso de Levin, com a ajuda de tal recurso, Soljenítsin certamente insinua indiretamente que neste caso está escrevendo sobre si mesmo.

Bródski é um típico sobrenome “geográfico” que indica que os antepassados do poeta eram naturais de Brody, uma cidade da Galícia (atualmente situada no território da Ucrânia).

Nabokov e Erofeev

O sobrenome de Vladimir Nabokov vem da palavra “nabokii”, que significa “torto, que manca de um lado”. Quando na segunda metade de sua vida Nabokov, vivendo no exílio, começou a escrever em inglês e conquistou, após a publicação de “Lolita”, a popularidade na América, ele dizia que seu sobrenome representava certa dificuldade para os americanos em termos de pronúncia: constantemente eles o chamavam de Nabakov ou Nabukov.

A origem do sobrenome do autor do famoso poema em prosa “Moscou – Petuchki”, Venedikt Erofeev, é clara: ele foi formado a partir do antigo nome Erofei. Mas, também com esse sobrenome está associado um caso curioso. Viktor, um autor que tem o mesmo sobrenome do falecido Venedikt, atualmente escreve e tem sido frequentemente publicado no Ocidente. Quando o seu primeiro nome é abreviado ele praticamente se torna um perfeito homônimo do outro escritor: V. Erofeev.

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