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Professora é a 1ª surda a defender o doutorado no Estado de São Paulo

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Banca foi realizada na tarde desta quinta-feira na UFSCar, em São Carlos.
Apresentação contou com videoconferência e diversos intérpretes de Libras.

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Publicado no G1

A professora Mariana de Lima Isaac Leandro Campos se tornou nesta quinta-feira (27) a primeira pessoa surda a defender o doutorado no Estado de São Paulo, segundo a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde ocorreu a banca.

“Me sinto aliviada e também sinto a responsabilidade como representante do povo surdo”, contou por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras). “É um momento de mostrar a capacidade do surdo, me sinto um modelo mostrando que é possível estudar”.

Professora da disciplina “introdução à Língua Brasileira de Sinais” na universidade, Mariana defendeu a tese “O processo de ensino-aprendizagem de Libras por meio do Moodle da UAB-UFSCar” e contou com três bancas: uma de avaliadoras presenciais, uma virtual e outra de intérpretes. Ela foi aprovada.

As professoras Ana Cláudia Balieiro Lodi, Cláudia Raimundo Reyes, Isamara Alves Carvalhoa e a orientadora, Cristina Broglia Feitosa de Lacerda, compuseram a banca tradicional. Do outro lado da tela, por videoconferência com interpretação para o português, a docente Marianne Rossi Stumpf, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que também é surda, completou o quadro. E, responsáveis por fazer a ponte entre o português e a Libras, estavam os intérpretes Vinícius Nascimento, Samantha Daroque, Lara dos Santos, Diléia Martins, Sarah Diniz e Joyce Cristina Souza Almeida, integrantes do grupo de pesquisa Surdez e Abordagem Bilíngue e amigos de Mariana.

Pesquisa
No estudo, orientado pela pesquisadora Cristina Broglia Feitosa de Lacerda, foram analisadas as ferramentas disponibilizadas para o ensino de língua no ambiente virtual e como alunos, tutores e docentes dos cursos de pedagogia e educação musical a distância percebiam esse aprendizado.

Como conclusão, notou, entre outros pontos, que ferramentas como os chats precisam ser melhoradas, a necessidade de encontros presenciais dos alunos para o uso da Libras e também a importância de mais espaço para o ensino da língua junto aos futuros professores.

“Minha tese me deu muita segurança de entender esse aluno, agora posso voltar para o ambiente virtual e lutar para estender a carga horária da disciplina”.

Primeiros anos
Mãe de Mariana, a médica Myriam de Lima Isaac contou que teve rubéola quando estava no primeiro mês da gestação e que a filha foi diagnosticada com perda profunda da audição quando completou oito meses de vida.

Na época, as cirurgias e aparelhos não estavam tão desenvolvidos e, com orientação da fonoaudióloga Regina Sampaio e do professor Mauro Spinelli, Myriam começou a buscar recursos para que Mariana aprendesse a se comunicar. “Quando soube da perda, minha preocupação foi ‘o que vou fazer para que ela tenha um bom aprendizado?’”.

Ainda pequena, Mariana foi exposta à comunicação total, aprendeu português e Libras. “Ela é bilíngue”, resumiu Myriam, contando que, na família, nem todos usam a língua de sinais. “Nos comunicamos por leitura orofacial e pela fala, ela não é muda”.

Nascida em Ribeirão Preto, a pesquisadora sempre estudou em escolas regulares – era a única estudante surda do colégio – e contou com a receptividade da direção e do corpo docente. “A direção permitia que a fonoaudióloga fosse orientar os professores”, lembrou Myriam. “Isso é um fator muito importante, ela sempre foi incluída onde estudou e isso é fundamental”, completou a mãe, que não escondeu o orgulho do percurso percorrido.

“A defesa é o fechamento de uma jornada cheia de trabalho dela, de determinação, vontade, metas, disciplina. Tenho orgulho, é um avanço para a educação de outros surdos por mostrar que são capazes”.

Faculdade
Mariana é graduada em ciência da computação, mas optou por mudar de rumo. “Achava que ia ficar só no computador, mas estava enganada. Comecei a trabalhar e ter limitações, precisava falar, ficava muito tensa em reuniões. Pensava: ‘Como será? Como vou viver tensa?’. Aí comecei a migrar para a educação”, explicou.

Ela fez o mestrado em Santa Catarina, passou em um concurso em São Carlos e, desde então, viu o espaço para Libras na universidade crescer. “A língua foi reconhecida por lei em 2002”, explicou Diléia. Com isso, começaram a surgir cursos e oportunidades.

Mas ainda há muito a construir, segundo Mariana. “Estamos vivendo um momento político. Há grupos que apóiam o ensino bilíngue e grupos a favor da inclusão, são abordagens diferentes. É importante ter o bilíngue e depois, a partir do 5º ano do ensino fundamental, ter o ensino regular. Gostaria muito que fosse assim, a criança precisa aprender na sua língua”, defendeu.

Estudante mais antiga da Alemanha, de 102 anos, consegue PhD negado por nazistas

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Filha de uma pianista judia, Ingeborg Rapoport fez sua última prova no mês passado

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Publicado em O Globo

Uma alemã de 102 anos tornou-se a pessoa mais velha do mundo a receber o título de doutorado nesta terça-feira, quase 80 anos depois de os nazistas terem impedido que ela completasse sua última prova. Ingeborg Rapoport (então com sobrenome Syllm) terminou seus estudos de medicina em 1937 e escreveu sua tese de doutorado sobre a difteria – um problema sério na Alemanha na época.

Filha de uma pianista judia, ela teve que esperar quase oito décadas para receber seu título. Sob leis raciais antissemitas de Adolf Hitler, Ingeborg foi impedida de entrar no exame oral final. Ela tinha a confirmação por escrito da Universidade de Hamburgo de que teria recebido seu doutorado “se a legislação aplicável não proibisse a admissão da Sra. Syllm para o exame de doutorado, devido à sua ascendência”.

Agora, a instituição se redimiu. Três professores da Faculdade de Medicina da Universidade de Hamburgo foram até a casa de Ingeborg no mês passado, no leste de Berlim, para testá-la sobre o trabalho que realizou na Alemanha pré-guerra. Eles ficaram impressionados, e uma cerimônia especial aconteceu no Centro Médico da Universidade de Hamburgo nesta terça-feira.

“Era sobre o princípio”, disse ela. “Não queria defender minha tese para o meu próprio bem. Afinal de contas, com 102 anos tudo isso não foi exatamente fácil para mim. Eu fiz isso pelas vítimas [dos nazistas].”

Para se preparar para o exame do mês passado, Ingeborg pediu a alguns amigos que a ajudassem na pesquisa on-line, de modo que se atualizasse sobre quais desenvolvimentos tinham acontecido no campo da difteria nos últimos 80 anos.

“A universidade queria corrigir uma injustiça. Eles foram muito pacientes comigo. E eu sou grata por isso”, ela disse ao jornal “Der Tagesspiegel”.

Google oferece bolsas de doutorado e mestrado no Brasil

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(Foto: reprodução)

(Foto: reprodução)

Publicado no Olhar Digital

O Google está expandindo um programa de apoio às pesquisas universitárias na América Latina. A empresa irá investir US$ 1 milhão nos próximos três anos na distribuição de bolsas de pesquisa de mestrado e doutorado na região como parte do programa Google Research Awards Latin America.

O programa foi lançado experimentalmente em 2013, restrito ao Brasil com uma parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e já apoiou cinco pesquisadores. Agora a empresa quer expandi-lo para cientistas da Argentina, Chile, Colômbia e México.

Os doutorandos escolhidos para receber a bolsa de pesquisa do Google receberão US$ 1,2 mil mensais, enquanto os mestrandos receberão US$ 750 ao mês. Os professores dos selecionados também serão beneficiados, recebendo US$ 750 por mês no caso do doutorado, e US$ 675 no mestrado.

As bolsas serão oferecidas a quem estiver desenvolvendo pesquisas que sejam de interesse do Google e da comunidade científica, segundo a empresa. O comunicado da companhia diz que os campos de pesquisa contemplados nesta edição do programa são:

Geo/mapas
Interação entre humanos e computadores
Recuperação, extração e organização de informações (incluindo gráficos de semântica)
Internet das Coisas (incluindo cidades inteligentes)
Aprendizado de máquinas (machine learning) e mineração de dados (data mining)
Dispositivos móveis
Processamento natural de línguas
Interfaces físicas e experiências imersivas
Privacidade

O prazo para inscrições se encerra no dia 6 de julho de 2015. Os interessados podem seguir as instruções neste link (em inglês).

Após se formar em letras, ex-catador de lixo em Piedade cursa doutorado

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Dorival Gonçalves dos Santos Filho frequentou lixão por mais de dez anos.
‘As pessoas não enxergavam a gente. Não queriam ver’, lembra professor.

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Publicado no G1

Procurar por materiais recicláveis, como plástico, alumínio, vidro e papelão, no lixão e nas lixeiras de Piedade (SP), no interior de São Paulo, foi por mais de dez anos a realidade de Dorival Gonçalves dos Santos Filho. Graduado em letras e atualmente com 32 anos, hoje o rapaz cursa doutorado em linguística em uma universidade federal e diz que deixou de se sentir invisível. “As pessoas não enxergavam que a gente estava lá [no lixão]. Não queriam ver. Me sentia no mesmo patamar que os cães que fuçavam os restos.”

Dorival esteve pela primeira vez no lixão com apenas 4 anos de idade. Na época, ele vivia com a mãe, um irmão e três irmãs em uma casa na periferia de Piedade. O linguista conta que a mãe reuniu a família e também vizinhos para ir ao aterro sanitário da cidade porque todos passavam dificuldades. “Lembro que fiquei doente porque a gente passava fome, mas ainda não ia sempre ao lixão, só quando a situação apertava”, afirma.

Aos cinco anos, Dorival foi matriculado em uma escola pública e começou a dividir o tempo entre as lixeiras da cidade – durante a manhã – e os estudos, à tarde. Além de recolher materiais, ele acompanhava as irmãs para vender alfaces que a mãe plantava em casa. “Meu pai trabalhava na área de construção em outras cidades e vinha para casa uma vez por mês, no máximo. O dinheiro que ele trazia não era suficiente. Tentávamos sobreviver de todas as formas”, lembra.

Comida, calçado e roupas
Quando recorriam ao lixão, a procura não era apenas por materiais para vender, segundo Dorival. Ele e as irmãs pegavam comida, calçados e roupas, já que só possuíam chinelos gastos para ir à escola. Os cadernos e lápis eram levados em sacolinhas de supermercado. O linguista diz ainda que vários momentos foram marcantes nesse período, mas destaca o fato de não ter tempo para brincar como as outras crianças e de receber provocações de alguns colegas.

Após concluir a oitava série, o linguista abandonou os estudos porque não conseguia conciliar com o trabalho. A família conseguia trabalhos temporários na agricultura da região, mas continuava indo ao lixão esporadicamente, um local que traz lembranças amargas a Dorival. “Viver do que os outros jogam é um trabalho subumano e perigoso. Estava sempre doente por conta dos cortes, tinha que tomar cuidado com os caminhões de lixo e ninguém nota quem trabalha lá, como se fôssemos parte da paisagem”, lembra.

Com 21 anos, Dorival decidiu que precisava sair do lixão e voltar para a escola cursar o ensino médio. Optou por não fazer o supletivo e tentou procurar um emprego, mas ele considerava a cidade do interior paulista pequena e que não oferecia oportunidades. A família também havia aumentado, haviam mais quatro sobrinhos. Por isso, ele continuou tirando o sustento do lixão diariamente.

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Três mil livros no lixo e a faculdade
Durante o tempo em que trabalhava no lixão, Dorival juntou milhares de livros e montou uma biblioteca particular na casa onde morava apenas com os exemplares encontrados, que passavam de três mil. Segundo ele, livros de todos os gêneros faziam parte do acervo, mas os preferidos eram os clássicos da literatura brasileira, como Machado de Assis e João Guimarães Rosa.

De volta ao ensino médio, foi incentivado pelos professores, que elogiavam seu desempenho escolar, e apresentado à ideia de cursar uma faculdade. “Os professores falavam que eu tinha potencial e me fizeram ver uma luz. Intensifiquei os estudos e, mesmo dividindo o tempo com o lixão, era minha prioridade. Às vezes ia para a aula apenas assistir, não conseguia escrever porque os dedos cortados sangravam”, lembra.

Dorival prestou o vestibular, aos 24 anos, para o curso de Letras e foi aprovado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis (SP). Mudou de cidade e conseguiu auxílio de R$ 200. “Ainda não era suficiente. Então, cuidava de idosos, trabalhava em uma lavanderia e também com serviços de jardinagem para me manter”.

No mesmo período, a situação da família começou a melhorar. “Minha mãe e minhas irmãs conseguiram auxílio do governo e empregos formais também. Foi o que me deixou mais tranquilo para ficar longe deles”, conta.
As visitas à Piedade se tornaram raras, mas ele se comunicava por cartas com a mãe. “Estava sempre orgulhosa. Ela contava que as pessoas do bairro achavam que eu estava preso. Dizia para eles que eu estava fazendo faculdade, mas ninguém acreditava”, diz.

Depois de graduado, Dorival começou a lecionar em escolas públicas e também concluiu um mestrado em linguística. Em seguida, ingressou na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis (SC), onde cursa atualmente o doutorado. “Quando entrei na sala de aula pela primeira vez, fiquei parado cinco minutos. Um filme passou pela minha cabeça porque nunca imaginei que estaria ali”.

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Alunos pressionam pela nomeação de professora travesti como reitora no CE

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A professora trans Luma Andrade, cotada por estudantes para ser reitora no Ceará (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

A professora trans Luma Andrade, cotada por estudantes para ser reitora no Ceará (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

Estêvão Bertoni, na Folha de S.Paulo

Alunos de uma universidade pública do Ceará lançaram uma campanha para que uma professora travesti seja nomeada reitora da instituição.

O movimento “Luma Lá”, iniciado no final de dezembro por estudantes da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) pede para que o novo ministro da Educação, Cid Gomes (Pros), nomeie a professora Luma Andrade para o cargo.

Luma é conhecida como a primeira travesti do Brasil a fazer um doutorado. Ela defendeu em 2012 uma tese em educação na UFC (Universidade Federal do Ceará) sobre travestis nas escolas.

O cargo de reitor na universidade está vago desde o dia 1º de janeiro porque a ex-reitora Nilma Lino Gomes assumiu a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República.

Nilma foi a primeira negra a se tornar reitora de uma universidade brasileira. Caso seja escolhida, Luma será a primeira travesti reitora do país.

A Unilab, em Redenção (a 66 km de Fortaleza), é uma autarquia vinculada à pasta ocupada desde 1º de janeiro por Cid Gomes, ex-governador do Ceará.

Cabe ao ministro da Educação escolher o reitor, que não precisa ser necessariamente docente da instituição. Antes de assumir a pasta, Cid foi governador do Ceará (2007-14).

Segundo o estudante Kaio Lemos, 35, que cursa bacharelado em humanidades e integra o centro acadêmico da faculdade, o movimento de alunos já enviou um apelo por carta a Cid Gomes, quando ele ainda era governador, pela nomeação da professora.

“Se ela tem capacidade acadêmica, não tem nenhum problema para ela como travesti ser reitora”, afirma.

“Nós já tivemos muitos nomes de homens importantes na história, de reitores, de presidentes. Essa escolha vai muito além, condiz com a questão da diversidade sexual”, defende o estudante.

Segundo ele, o movimento gerou resistência de um grupo pequeno, “de oito a dez alunos”. “Mas isso é natural.”

Luma afirmou que foi pega de surpresa pela campanha e que recebeu a iniciativa como “um presente”. “Não foi uma afirmação minha. Fiquei muito feliz porque a campanha veio do grupo mais forte de estudantes da universidade e eles confiaram no meu trabalho”, diz.

Segundo ela, a campanha foi vista como uma afronta por muitas pessoas de dentro da Unilab. “Em todos os espaços temos pessoas conservadoras. É um espaço de disputa, uma relação de poder, e existem pessoas que querem essa função e que tinham certeza de que iriam ocupar esse espaço. De repente, surge o nome de uma travesti e isso veio da comunidade de estudantes, então foi um surpresa para todos.”

Cid Gomes ainda não definiu quem será o novo reitor da Unilab. O Ministério da Educação foi procurado, mas não se manifestou sobre o assunto até o início da tarde desta terça.

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