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Posts tagged Drauzio Varella

Correr, de Drauzio Varella

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Cristine, no Cafeína Literária

Correr
Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico oncologista, autor de best-sellers, voluntário na penitenciária feminina de São Paulo e pesquisador, tendo se tornado célebre por suas intervenções na TV e na mídia impressa. Mas consegue há mais de vinte anos, conciliar esse atribulado dia a dia com a prática regular de exercício físico.
Para Drauzio, correr não é apenas um hobby: é o que lhe dá o equilíbrio, a força e a serenidade necessária para enfrentar os desafios da vida.
(fonte: quarta capa do livro)

(mais…)

Meu primeiro e-book

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O iPhone no qual nosso repórter leu ‘Carcereiros’, de Drauzio Varella. Foto: Carlos Moreira

Caue Fonseca, no Mundo Livro

Aprecio a ideia de vida .zip. Objetos que tornam o cotidiano mais prático e o apartamento mais espaçoso se compactados ao menor volume possível. Isso vale para tudo: TVs, notebooks, celulares… menos para livros. Estes, faço questão de apreciar as capas, curtir o passar de páginas, marcá-las com sachês dos cafés que sediaram minhas leituras e, ao final, de colocá-los na prateleira. Muito me orgulha a estante ainda modesta, mas já com livros sobrepostos, caoticamente organizados pelo encaixe geométrico uns aos outros.

De modo que torço o nariz para as versões eletrônicas deles, os e-books. Ao contrário de ouvir um álbum, por exemplo, a ideia de ler um romance na tela do iPhone e depois vê-lo resumido a um ícone me entristece. Mas, motivado por uma reportagem sobre o assunto e pelo atraso de uma amiga a um compromisso, resolvi comprar meu primeiro livro eletrônico à mesa de um bar. Descrevo em tópicos o que me chamou a atenção ao longo das 627 páginas (calma, elas são menores no celular) vencidas no passar de dedos pelo touchscreen.

1. Facilidade
Com 3G em boas condições e nenhum conhecimento prévio, pesquisei títulos na iBook Store, instalado automaticamente na última atualização do iPhone, e optei por Carcereiros, uma espécie de apêndice de Estação Carandiru, livro que deu fama ao médico escritor Drauzio Varella (leia entrevista com o autor aqui). Paguei US$ 12 e o livro baixou em segundos. Na tela, ele fica disponível com capa e tudo, em uma simpática prateleirinha de madeira virtual. Essa facilidade para espantar o tédio a nem tão módicos R$ 25 assusta um pouco. Como ocorre com as músicas do iTunes, é preciso resistir à compra compulsiva que só pesará no fim do mês, na fatura do cartão de crédito.

2. Velocidade
Simultaneamente a Carcereiros, comecei a ler Segundos Fora, romance bem interessante de Martín Kohan, em versão impressa. Pois desde que o autor argentino começou a concorrer com Varella, o livro virtual levou larga vantagem. A título de comparação, Carcereiros tem 262 páginas na versão impressa. Venci elas na tela do celular em dias, enquanto Segundos Fora, aqui na mochila, está parado na página 72. São dois os motivos para isso, e nenhum deles é a qualidade das narrativas.
Todo bom leitor sabe o quão importante é ter um livro sempre à mão, para horas de ócio imprevisíveis, como uma fila inesperadamente comprida (o Carlos André, dono deste blog, por exemplo, era um goleiro que costumava ler trechos sob as traves enquanto o time apertava a defesa adversária). O celular, mais compacto do que um livro e sempre à mão, otimizou essa leitura incidental. Dependendo do número de velhinhos à frente, dá pra ler um capítulo na fila para pesar as frutas.
O segundo motivo, chuto eu, é o tipo de narrativa. Fiz questão de escolher um livro de não-ficção como primeiro e-book, pois é uma leitura mais propensa a ser abandonada e retomada o tempo todo. Fosse um romance como o de Kohan, cuja história se passa em três cenários e tempos diferentes, creio que seria mais difícil de mergulhar na história dos personagens – e até de apreciar a qualidade do texto – cada vez que a namorada se maquia.

3. Consumo
Eis uma vantagem do livro impresso. Ler no celular exige a tela ligada 100% do tempo de leitura, e isso consome uma bateria medonha. Desde que comecei a ler Carcereiros, não houve dia em que o iPhone não chegasse em casa pedindo penico. Em dias em que você passará muito tempo longe de uma tomada, é preciso cancelar leituras para não correr o risco de ficar incomunicável mais tarde. E-readers com o Kindle, da Amazon, ou o Kobo, da Livraria Cultura, não têm esse problema. Mas, por servirem só para ler, eles perdem esse fator incidental de ler no telefone. A chance de ter um Kindle na mochila ou na bolsa para distrair-se em uma fila qualquer é a mesma de ter um livro físico.

4. Conforto
É besteira a história de que ler em um meio digital cansa. No trabalho, a maioria de nós já passa o dia em frente ao computador. A não ser que o sujeito seja um leitor voraz, uns minutos a mais ou a menos olhando para a telinha não fazem a menor diferença. Em ambientes escuros, como uma viagem noturna, o celular é até mais confortável, pois tem luz própria. O passar de páginas com uma mão só (em um movimento patenteado pela Apple de tão bacaninha) e o tamanho das letras tampouco incomodam, já que o telefone pode ser aproximado “das vistas”, como diriam as nossas avós.

5. Falta de charme
É pura vaidade, mas eu gosto de ser visto lendo e também de ver pessoas lendo. Pessoas interessantes leem. Uma mulher lendo, então, não sendo Cinquenta Tons de Cinza, é a dona de qualquer lugar em que eu esteja. Por outro lado, qualquer babaca brinca no celular. E quando você está praticamente dentro do aparelho distraído com a leitura, não só não parece que está lendo, como projeta a imagem de que é um daqueles louquinhos que não sai do Facebook. A mesma falta de charme se estende à ausência do livro na estante após a leitura. Ler um e-book, portanto, é consolar-se com o ser interessante sem parecer interessante. E, poxa vida, isso faz toda a diferença.

Dica do Tom Fernandes

Os carcereiros do Carandiru

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O medico oncologista Drauzio Varella, autor de muitos titulos, posa para foto no terraço do edificio onde tem seu consultório, em Cerqueira Cesar, em São Paulo (Foto: Foto: Na Lata)


Isabella Ayub, na Revista Época

Seu Araújo é um herói anônimo. Pouca gente sabe que o massacre do Carandiru teria sido muito mais grave se ele não estivesse no presídio naquele dia. Carcereiro, ele e seus colegas impediram que a invasão do presídio pela Polícia Militar de São Paulo, que resultou em 111 mortes no pavilhão Nove da cadeia, se disseminasse também pelo pavilhão Oito. Desarmado, Seu Araújo convenceu mais de 1.700 presos reincidentes, soltos no pátio interno e no campo de futebol, a voltarem para suas celas e não aderirem à rebelião. Dessa forma, se protegeriam de uma iminente invasão da PM, que já cercava o presídio para reprimir os presos do Pavilhão Nove. De volta aos corredores do pavilhão Oito, Seu Araújo negociou com os presos, exaltados, que agora apontavam facas afiadíssimas em sua direção. Conversando, os acalmou e os trancou em suas celas. Poucos minutos depois, a PM invadiu o pavilhão Nove, com as consequências conhecidas.

Esse episódio é apenas uma das histórias que Drauzio Varella conta em seu novo livro, Carcereiros (Companhia das Letras, 228 páginas, R$ 32). Treze anos após o lançamento do livro Estação Carandiru, que vendeu mais de 500 mil exemplares, e exatos vinte anos após o massacre (ele aconteceu em 2 de outubro de 1992), Varella volta ao universo das prisões para contar as histórias do Carandiru sob o olhar dos funcionários que lá trabalharam. É a prisão vista do lado de dentro das grades.

Varella trabalhou como médico voluntário no Carandiru por quase 15 anos, período em que conheceu os carcereiros e se tornou até mesmo amigo íntimo de alguns deles. No começo, eles olhavam para o médico com desconfiança. Como alguém poderia escolher ser voluntário em um lugar infernal quanto aquele? A confiança foi conquistada aos poucos. Drauzio só saiu do Carandiru em 2002, ano em que o presídio foi demolido.

Ainda assim, a amizade entre o médico e os carcereiros perdurou. Encontra-se até hoje religiosamente com eles em bares do centro da cidade para colocar a conversa em dia e ouvir os causos que têm para contar. No livro, Drauzio conta as histórias de uma época em que as prisões eram muito diferentes do que são hoje. Antes, os carcereiros ficavam em contato constante com os presos. Conversavam com eles, negociavam, ouviam delações. Havia também abusos físicos e torturas, o lado perverso da intimidade. O carcereiro não era um funcionário contratado somente para abrir e fechar celas. Tinha que desenvolver uma sensibilidade especial para prever uma rebelião, desarticular uma fuga, atuar como justiceiro. Punir e poupar quando fosse necessário.

Capa do livro Carcereiros, de Drauzio Varella (Foto: Reprodução)


Naquele enorme presídio localizado na Zona Norte de São Paulo, que o massacre de 1992 e o primeiro livro de Drauzio ajudaram a tornar célebre, acontecia de tudo. Em um capítulo, o novo livro conta a história de Hulk, um carcereiro que interrompeu uma sessão de tortura para salvar um preso prestes a se suicidar. Minutos depois, resolvido o problema, voltou a torturar outro presidiário no pau de arara, a fim de obter uma delação.

Poucos são os carcereiros que entraram na profissão por “vocação”. A maioria, com filhos e mulher para sustentar, foi atraída pela segurança que o emprego como servidor público inspirava. Entraram para o que foi a maior prisão da América Latina sem preparo, sem treinamento. Logo no primeiro dia já interagiam com os presos e aprendiam na marra a dinâmica das relações interpessoais na prisão. Todos passaram por grande transformação. Era difícil voltar para casa após um dia de trabalho e simplesmente esquecer das cenas brutais com que se deparavam. Tornaram-se pessoas mais taciturnas, sozinhas. Menos inocentes. O próprio Drauzio não ficou imune a essa mudança. Por vezes, voltava para casa com imagens assombrosas na cabeça.

Após o massacre do Carandiru em 1992, as prisões paulistas mudaram. Elas passaram a ser comandadas internamente pelo crime organizado e a função dos carcereiros passou a ser abrir e fechar celas. Os carcereiros de longa data lamentaram a mudança. Depois da demolição, Drauzio passou a ser voluntário em um presídio feminino da capital, localizada do lado do antigo Carandiru. O relato de sua experiência com as presas será publicado em Prisioneiras, outro livro, ainda em fase inicial de elaboração. Mais histórias dramáticas estão por vir.

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