Eduardo Lacerda deixou curso de letras para virar editor de poesias (Foto: Arquivo Pessoal)

Eduardo Lacerda deixou curso de letras para virar editor de poesias (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Eduardo Lacerda criou editora com R$ 4 mil e já publicou 400 autores.
Há 5 anos ele mantém a Patuá, que agora tem bar/livraria e lançamentos.

Jéssica Balbino, no G1

Há 5 anos, Eduardo Lacerda, de 33 anos, abandonou a faculdade de letras para dedicar-se a um sonho: editar livros. Com apenas R$ 4 mil, ele criou, ao lado de uma sócia – que um ano depois deixaria o projeto – a Editora Patuá. Hoje ele já editou 400 novos autores, montou um bar/livraria na Vila Madalena e é motivo de orgulho para o pai. Essa é a história que ele contou na noite de terça-feira (3) no Festival Literário de Poços de Caldas (MG), o Flipoços.

Com os editores Vanderley Mendonça, Juliana Flores e Marcelo Nocelli, ele participou da mesa “Mundo Editorial: pequenas editoras, grandes publicações” e falou sobre a função de editor em tempos de crise e de tão pouca leitura no país.

A pesquisa mais recente realizada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), divulgada em 2015, mostra os dados de 2013 e 2014 e revela uma queda de 9,1 % no número das vendas de livros, passando de quase 480 milhões em 2013 para pouco mais de 435,5 milhões em 2014. Em compensação, o valor dos exemplares subiu, já que o faturamento entre um ano e outro foi 0,9% maior.

Indo de encontro aos dados comerciais, Lacerda sente-se realizado enquanto, como ele mesmo conta, limpa banheiro, serve cerveja, edita livros e dá conta dos mais de 150 originais que recebe mensalmente em São Paulo (SP). E ainda tem que arrumar tempo para emitir notas, ir ao correio despachar livros, organizar lançamentos e saraus e cantar as músicas preferidas da década de 1980 no karaokê que existe no Patuscada Bar e Livraria.

Eduardo Lacerda no bar/livraria Patuscada, administrado por ele (Foto: Arquivo Pessoal)

Eduardo Lacerda no bar/livraria Patuscada, administrado por ele (Foto: Arquivo Pessoal)

 

No fundo, ele revela, brincando, que sempre quis ser dono de bar. Já o ofício de poeta ele ‘rejeita’, embora circule pelo país com o título “Outro Dia de Folia”. “Eu escrevo poemas e gosto de poesia”, destacou ele, que é fã declarado de Carlos Drummond de Andrade. “Ele é meu poeta preferido”, frisa.

“Eu sou uma editora de um funcionário. Eu faço tudo, desde ler os originais, escolher os que serão publicados, trabalhar no lançamento e agora, mais recentemente, cuidar do bar, atender, servir cerveja e comida, lavar a louça, o banheiro, emitir as notas. E bebo também (risos). Eu que faço tudo, mas faço o que gosto”, contou o editor, que já inspira o surgimento de outras pequenas editoras brasil afora, inclusive em Poços de Caldas.

O músico e poeta Tokinho Carvalho, de 28 anos, foi um dos que se inspiraram em Edu Lacerda. Sem ter capital para bancar uma publicação em larga escala e sem disposição para iniciar uma maratona em busca de editoras, ele criou a Zinelândia e, além de se auto publicar, com os títulos ‘Datilografia Poética’ e ‘Coisas do Coração’, já publicou amigos da cidade e de outros locais do país.

“Minha ideia é fazer sempre os livretos em formato de bolso e a um preço acessível, mas com um visual atrativo. Eu comecei com isso depois que vi que o processo editorial é bem desgastante se depender de muitas pessoas, e aí, com ajuda de programas na internet e com disposição, montei a editora este ano”, contou Carvalho, que em breve deve chegar à primeira dezena de livretos publicados.

A iniciativa serve também como combustível para Edu Lacerda, que nos cinco anos da editora já conseguiu emplacar obras dos autores entre os finalistas de prêmios literários no Brasil, bem como estimular novos leitores.

“Quase 70% do nosso catálogo é de poesia, que é um gênero pouco publicado ainda. Também atuo com autores estreantes e tenho a política de nunca cobrar pela publicação. Eu faço, geralmente, tiragens de até 200 exemplares, dependendo da obra e aí, conforme conseguimos vender, reimprimimos o livro. A distribuição não ocorre em livrarias, apenas no site da editora e agora no bar que é também uma livraria. O que eu gosto é que meu trabalho me permite um contato mais próximo com os autores e também com estes seres raros, que são os leitores”, contou.

Com cerca de 10 lançamentos por mês, ele tenta manter o aluguel do bar na Vila Madalena e abre o espaço para os eventos literários a fim de vender mais cerveja e, assim, fechar as contas em dia. “Eu percebo que não apenas o bar, mas todo esse esquema e as novas editoras que surgem podem enriquecer a cultura do país”, finalizou.