Contando e Cantando (Volume 2)

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A americana que fez doutorado em Cambridge sem nunca ter ido à escola

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Tara Westover entrou na faculdade aos 17 anos, após comprar livros escondida e se preparar sozinha para um teste. Anos depois, chegou a Cambridge (Foto: BBC)

Nascida em uma família de tradição fundamentalista, que a proibia de ter qualquer tipo de educação formal, Tara Westover protagonizou uma verdadeira corrida pela educação e, aos 27 anos, se tornou doutora na universidade – uma das mais prestigiadas do mundo

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

A história de Tara Westover poderia ser um conto de outra época. Mas, diferente disso, é uma narrativa real que envolve uma vida familiar conturbada, preparativos para “o fim da civilização” e uma corrida pela educação que lhe rendeu o título de doutora aos 27 anos de idade, na Universidade de Cambridge – uma das mais prestigiadas do mundo -, sem ter tido qualquer educação formal na infância ou feito o ensino médio.

Tara cresceu em Idaho, nos Estados Unidos, em uma família de sobrevivencialistas – como são chamados grupos ou indivíduos que se preparam para emergências em caso de possíveis rupturas na ordem política e social. Sua família via escolas como parte de um exercício de lavagem cerebral do governo a ser evitado a todo o custo e o resultado é que ela cresceu sem nunca ter pisado em uma escola.

Seu pai, obsessivamente independente, estocava armas e suprimentos, pronto para o fim da civilização e para se proteger de qualquer tentativa do Estado de intervir em suas vidas. E essa lógica valia até mesmo em casos de emergência, como quando, por exemplo, a família se feriu em um acidente grave de carro, mas evitou hospitais por enxergar os médicos como agentes de um estado maligno.

Também era um modo de vida profundamente controlador.

A família fazia uma interpretação fundamentalista do Mormonismo – movimento religioso restauracionista iniciado no século 19 nos EUA – e estabelecia regras sobre aspectos da vida de Tara, como o que poderia vestir, seus hobbies e seus contatos com o mundo exterior.

Tara, em Cambridge: americana aprendeu a ler em casa porque o pai acreditava que escolas eram parte de um exercício de lavagem cerebral do governo a ser evitado a todo o custo (Foto: BBC)

“Achava que os outros fossem alienados”

Era uma vida dura, violenta e autossuficiente, como na série de TV americana “Little House on the Prairie” (pequena casa na pradaria).

Tara se lembra que, com medo de incursões de agentes federais, seu pai comprou armas poderosas o bastante para derrubar um helicóptero.

O estilo de vida que levavam significou, para ela, uma infância montando cavalos na montanha e trabalhando em uma sucata, mas não indo à escola.

Ela diz que o argumento familiar em defesa da educação doméstica era, na verdade, um disfarce para nenhuma escolarização.

Na época, não parecia estranho que não fossem à escola como outras crianças locais, diz ela.

“Eu achava que eles estavam errados e nós estávamos certos. Eu pensava que eles eram espiritualmente e moralmente inferiores porque iam (à escola), eu realmente pensava”, diz Tara, em Cambridge, onde vive agora.

“Eu achava que eles estivessem sendo alienados e eu não.”

Tara, agora com 31 anos, escreveu um relato sobre sua infância, chamado Educated (Educada, em tradução literal), que está sendo publicada neste mês.

Em grande parte se trata de uma autoeducação, porque a primeira vez que teve contato com aulas formais foi quando começou a faculdade, aos 17 anos.

Ela havia aprendido a ler e escrever com sua mãe e seu irmão, mas nunca tinha aprendido nada sobre história, geografia, literatura ou o resto do mundo.

Tara vai publicar suas memórias de infância, com detalhes sobre sua educação não convencional (Foto: Reprodução/BBC)

“Ensinar a si mesmo”

O acesso aos livros era limitado a alguns títulos que se enquadravam na visão de mundo fundamentalista da família, e ela também trabalhou desde cedo.

Mas tinha sido criada com uma crença feroz na capacidade de qualquer um aprender o que quer que fosse desde que se concentrasse naquilo.

“Meus pais me diriam: ‘Você pode ensinar qualquer coisa a si mesmo melhor do que outra pessoa o faria’. Esse era o espírito da minha família”, diz ela.

Buscando uma forma de sair de uma vida familiar restrita e emocionalmente claustrofóbica, ela encontrou uma universidade que a admitiria se passasse em um teste.

Foi então que comprou em segredo os livros didáticos de que precisava e estudou metodicamente, noite após noite, até obter as notas necessárias.

Mas quando chegou à sala de aula em 2003, aos 17 anos, ficou em um “estado de temor perpétuo”.

“Eu era como um bicho da floresta. Estava em pânico, aterrorizada o tempo todo. Achei que me pediriam para fazer algo e eu não saberia o que era.”

“Tudo sobre a sala de aula era aterrorizante, porque eu nunca tinha estado em uma delas antes.”

Tara chegou à faculdade com enormes lacunas no conhecimento, mas se dedicou e agora ostenta o título de doutora (Foto: BBC)

‘Não é uma esteira rolante’

Havia enormes lacunas em seu conhecimento. Ela ficou chocada ao aprender, por exemplo, sobre o Holocausto pela primeira vez em uma aula de história.

Sobre escravidão, seu único conhecimento prévio havia saído de um livro, no qual, diz ela, esse regime era apresentado como uma experiência benevolente e mais difícil para os proprietários de escravos.

Depois de um início desastroso, ela manteve a mente focada nos estudos e provou ser uma aluna altamente capaz.

Tanto que teve a chance de passar um período em Harvard e, depois, ir estudar no exterior, na Universidade de Cambridge.

Ela conseguiu uma bolsa de estudos na universidade, com financiamento da Fundação Gates, e fez doutorado. Virou a doutora Westover aos 27 anos, em 2014, sem jamais ter concluído o ensino médio.

O assunto de sua tese foi uma comunidade utópica criada no século 19.

A trajetória de Tara lhe deu uma visão pouco ortodoxa sobre como a educação funciona.

Ela diz que sua própria educação foi em boa parte uma alternativa extrema, mas tem dúvidas sobre a experiência convencional.

“A maior preocupação é que isso parece um processo tão passivo e estéril. Uma esteira rolante onde você fica e de onde sai educado”, diz.

“Eu acho que muitas pessoas cresceram com a ideia de que não podem aprender as coisas por conta própria. Elas acham que precisam de uma instituição para lhes suprir conhecimento e ensinar a como fazer as coisas. Eu não poderia discordar mais”, diz ela.

Uma década após iniciar estudos em uma instituição de ensino formal, sem qualquer tipo de formação, Tara se formou em Cambridge (Foto: BBC)

Distanciamento

Tara diz que se tivesse filhos não os enviaria à escola quando tivessem cinco anos. “Eles poderiam pensar que educação é se sentar quieto.”

Ela se distanciou de seus pais e de sua religião – e diz que romper com suas antigas crenças tem sido uma experiência traumática.

Mas ela não se converteu acriticamente à nova vida e à experiência na universidade.

Tara diz, por exemplo, que há menos tolerância a diferentes opiniões dentro dos círculos acadêmicos liberais da classe média do que havia entre os fundamentalistas estritos de sua infância.

Ela afirma que rejeitou as políticas antigovernamentais extremas, mas que, na perspectiva da Idaho rural onde cresceu, isso fazia algum sentido.

Para comunidades rurais tão isoladas, diz, o governo federal parecia uma “força alienígena e extremamente ineficaz”.

Nos relatos sobre sua criação, é possível ouvir algumas das ideias que alimentaram a campanha eleitoral do presidente Donald Trump.

Memórias

Tara diz que suas memórias de infância, incluindo suas descrições sobre a violência de seu irmão, não têm um “final feliz como nos cinemas”.

“Você pode sentir falta de alguém todos os dias e ainda se alegrar de não ter de vê-los”, diz.

As coisas mais difíceis de escrever não foram sobre as brigas com a família e as restrições que enfrentava.

“O mais difícil foi escrever sobre as coisas boas, as coisas que eu perdi. O som da risada da minha mãe, o quanto a montanha era bonita.”

“É como ir ao casamento de alguém por quem você ainda está apaixonado.”

Saiba por que esse é o momento dos autodidatas

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Empresas estão reconhecendo que habilidades não dependem de notas ou universidades, acredita especialista

Publicado no Administradores

O vice-presidente de Recursos Humanos do Google anunciou, há alguns meses, que notas e formação acadêmica não serviam para prever, durante o processo de recrutamento, o bom desempenho que alguém teria futuramente no trabalho. Além disso, também afirmou que o título de universitário já não era mais tão necessário e que no Google vários dos funcionários não passaram pela universidade.

Hoje em dia, é cada vez mais comum questionar o que há de tão crucial no aprendizado formal quando temos tantos recursos para o aprendizado informal, a preço baixo e com flexibilidade.

“Cada vez mais as empresas reconhecem que as habilidades necessárias tem menos correlação com os diplomas e programas oferecidos pelas universidades. Isso representa o início de uma nova etapa, que provocará mudanças irreversíveis”, disse Fernando Valenzuela, presidente da Cengage Learning na América Latina.

Tudo isso vem acompanhado do auge dos tutoriais e dos cursos onlines, muitos destes gratuitos e endossados por empresas, universidades e escolas de negócios, que chegaram para democratizar o conhecimento. Mas este novo panorama também traz desafios para as empresas e universidades, que estão numa competição para captar talento. Sobre isso, Valenzuela disse que as universidades deveriam acelerar sua transformação para cativar os estudantes e oferecer experiências de aprendizagem mais relevantes para o futuro do trabalho.

Para isso, deveria-se abandonar os programas rígidos, as experiências de aprendizagem planejadas para estudantes medianos, a aplicação de instrumentos de avaliação padronizadas e o conceito de que os estudantes começam a partir do mesmo nível.

Mas para as empresas o desafio é menor. De acordo com Valenzuela, “estas enfrentam as dificuldades de não encontrar as capacidades que necessitam em seu capital humano. Por isso, se abrirão para integrar indivíduos que não têm diplomas ou o respaldo das instituições educativas, valorizando os micro créditos, os micro diplomas e os portfólios digitais desenvolvidos a partir de experiências formais e informais”.

A aprendizagem do inglês é um dos exemplos que pode ser mencionado, já que, através de várias plataformas, as pessoas podem melhorar seu nível, sem maiores custos ou problemas. Nicolás Fuenzalida, CCO da Políglota, comunidade gratuita para aprender inglês, explica que o sucesso deste empreendimento se deve porque “as pessoas estão cansadas do sistema tradicional e buscam algo diferente para aprender idiomas, como fazer isso num parque enquanto tomam um café. Também está em pauta a viralidade, porque isso está muito na moda, junto com as plataformas e com os vídeos, onde se gera um feedback. Esse tem sido o segredo para o nosso sucesso, porque mesmo sem ter investido em publicidade, as pessoas falam de nós. As pessoas entenderam que podem aprender se divertindo”.

Esses casos de aprendizagem não convencionais podem ajudar a desenvolver habilidades necessárias para as empresas, como o pensamento crítico, criatividade e inovação, gestão de informação não estruturada, integração multicultural, interação com diversas audiências 3e autogestão empreendedora.

Mas além disso, permite que as pessoas se aproximem de um tipo de aprendizado muito mais exploratório, que foi deixado para trás por parte das escolas, onde o estudo não está ligado à aprendizagem dentro de quatro paredes nem necessariamente por um professor. “Existe uma série de estudos que demonstram que quando uma pessoa está se divertindo em ambientes positivos, aumenta-se o nível de dopamina e se gera mais conexões cerebrais. Quando uma pessoa está fazendo as coisas por si mesmo, empoderado, existe um maior crescimento”, disse Fuenzalida.

Valenzuela, da Cengage Learning, complementa que “a aprendizagem já não pode ser por disciplinas, mas multidinária. Cada indivíduo deve ser capaz de integrar elementos complementares aos que a disciplina lhe dá”. Isso significa que as pessoas devem deixar de ser passivas ou receptores de aprendizagem.

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