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‘As crianças negras são mais punidas do que as brancas’, diz pedagoga

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Marcelle Souza, no UOL

Existe racismo na sala de aula, e ele começa na educação infantil. Isso é o que afirma Ellen de Lima Souza, mestre e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e diretora do Itesa (Instituto de Tecnologia, Especialização e Aprimoramento Profissional).

Segundo a pedagoga, a escola normalmente é um ambiente inóspito para as crianças negras. Ellen estudou como elas são vistas por professoras de educação infantil e constatou duas visões distintas: o negro que gera nas docentes piedade (uma postura paternalista) ou expectativa (que deve necessariamente assumir uma postura ativista). Para mudar essa realidade, ela propõe que os professores assumam uma postura de protagonismo em sala de aula, de geradores de conhecimento, para trabalhar a autonomia e a independência nas crianças.

UOL Educação – Crianças também podem ser racistas?

Ellen de Lima Souza – Sim, podem. E são. As pessoas não esperam que elas reproduzam atitudes racistas. Depois da família, o primeiro ambiente de socialização é a escola, onde a criança é mais exposta ao racismo.

UOL – De que forma o preconceito se apresenta em sala de aula?

Souza – Quando você tem criança que se recusa a se sentar ao lado de outra negra, que diz que tem nojo de negro, que vê o negro sempre em papéis de subalternidade; quando crianças negras não são selecionadas a participar ou não têm protagonismo em atividades culturais, festas. Isso faz com que as crianças naturalizem a desigualdade e reproduzam ofensas, como quando dizem que o negro é feio, burro, cheira mal e outras coisas bastante pesadas.

UOL – Como os professores costumam tratar o tema na educação infantil?

Souza – Na minha dissertação [de mestrado], fui buscar professoras premiadas pelas práticas que já exerciam, de uma educação para a igualdade, e percebi que elas são atingidas por duas percepções básicas em relação aos negros: um sentimento forte de paternalismo, ela tem pena da criança negra, entende que ela vai necessariamente sofrer o racismo, e tem um sentimento de piedade; a outra percepção é a que gera nas professoras uma expectativa de que a criança negra tem que ser ativista. Por outro lado, existem as professoras que não têm essa consciência de uma educação para a igualdade. Essas acreditam que o Brasil vive uma democracia racial, trata o negro com indiferença e pune a criança negra com muita frequência. Aliás, desde bebês, as crianças negras são mais punidas do que as crianças brancas, recebem apelidos depreciativos e, nas situações de conflito, são as preteridas ou as culpadas.

UOL – Então como o tema deve ser tratado em sala de aula?

Souza – Na dissertação, a primeira coisa que eu proponho é que o professor crie metodologias e didáticas, ele é o protagonista em sala de aula, tem um papel social, é alguém que garante direitos, que deve ver o sujeito como autor e não reprodutor do conhecimento. Depois, eu trabalho com três conceitos básicos, baseados na mitologia iorubá: as perspectivas da ancestralidade, da corporalidade e da oralidade. Esses conceitos ajudam a criança, seja negra ou não negra, a desenvolver sua identidade, suas relações, desenvolver a emoção, física e intelectualmente, das várias formas possíveis. O professor precisa lidar com as crianças para potencializar e valorizar a condição de ser negro, já que a criança aprendeu sempre que é algo ruim. Essas perspectivas fazem com que as crianças sejam cada vez mais independentes, autônomas, aprendam a respeitar, dão a ideia de pertencimento étnico, de que a criança não está sozinha.

UOL – E o que fazer quando os pais não querem que os filhos participem dessas atividades?

Souza – Eu acho que é preciso procurar o Ministério Público, a Justiça. Ensinar história e cultura afro-brasileira é primordial. Se esse pai ou essa mãe não quer o filho estude cultura africana e afro-brasileira, ele deve pagar uma escola confessional. A escola pública é de todos, é da criança negra, da não negra, da boliviana, e se você não quer que o seu filho aprenda esses valores, tira do serviço público. A escola pública brasileira que tem que ser laica. A gente aprendeu os valores cristãos, por que as crianças não podem aprender parte da filosofia africana?

UOL – Quais são os impactos de discutir racismo na educação infantil?

Souza – A criança que tem condição de trabalhar a partir de uma educação igualitária vai além do que está posto, tem novas perspectivas de valores, uma nova cosmologia de mundo. Ela recebe essa gama de informações e fica com pensamento mais abrangente. Indiretamente, faz com que ela saiba lidar com questões de gênero, de orientação sexual, diferenças entre empobrecidos e não empobrecidos. [Discutir o racismo] É uma ampliação da visão de mundo.

Sem creches de Haddad, mães improvisam na volta às aulas em SP

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Thais Bilenky, na Folha de S.Paulo

As férias nas creches municipais terminam nesta quarta-feira (4), mas diferentes mães que não conseguiram matricular os seus filhos tentam agora se conformar e adiar a volta ao trabalho.

A espera por uma vaga em centros de educação infantil da prefeitura chegou ao recorde de 188 mil em novembro –o dado mais atualizado da Secretaria de Educação. Outras 230 mil crianças de zero a três anos estão matriculadas na rede municipal.

O prefeito Fernando Haddad (PT) prometeu criar 150 mil novos postos no ensino infantil até o fim de 2016, mas chegou à metade do mandato com 42 mil entregues. O secretário de Educação, Gabriel Chalita, disse que a ampliação dessas vagas será a prioridade de sua gestão.

Patrícia Oliveira, 33, é auxiliar em um consultório médico. Sua licença-maternidade vence em fevereiro, mas ela não tem com quem deixar a filha Sofia, de três meses.

“A gente quer trabalhar, mas não tem como. As creches são difíceis de pegar. A família vai ficar no aperto.”

Com salário de R$ 900, Patrícia não quer matricular Sofia na creche particular próxima à sua casa, cuja mensalidade é de R$ 600.

“Não vai sobrar nada do meu salário. É melhor ficar em casa cuidando dela e rezar para ser chamada pela creche. Ou fazer o que o pessoal fala, entrar com pedido na Justiça”, afirma Patrícia.

Em 2012, mais de 7.600 crianças foram matriculadas na rede pública por decisão judicial. Em 2014, foram quase 18 mil. Com isso, a fila de espera anda mais devagar.

Renata Barbosa, 21, e o marido, Wellington Ângelo, 21, estão desempregados. Sem uma vaga em creche para Isaac, de seis meses, eles dizem que estão dando um “jeitinho”, gastando a reserva e contando com a ajuda da família.

Renata afirma que, 15 dias depois de ser contratada, foi despedida da sorveteria onde trabalhava porque o chefe soube que estava grávida.

“Vou tentar arrumar emprego e colocar ele numa creche particular.”

Se não conseguir, afirma, a saída será voltar ao Rio Grande do Norte, onde mora a família de Renata.

A creche que ela buscou para Isaac, a Claret, em Santa Cecília, no centro de São Paulo, tem mais de 150 crianças à espera de vaga; outras 122 estão matriculadas.

Museus devem incentivar perguntas no lugar de dar respostas

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Sabine, no Blog Folha

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Crianças devem frequentar museus de ciências para aprender sobre ciência, certo? Errado.

De acordo com Robert Semper, um dos diretores do museu Exploratorium, que fica em São Francisco, EUA, o objetivo de espaços de divulgação científica como os museus é despertar a curiosidade das crianças para as ciências e não ensinar conceitos que devem ser memorizados. “Isso é função da escola”, diz. “Espaços não formais de educação devem instigar a curiosidade dos visitantes.”

Essa conversa interessante surgiu durante uma visita técnica ao Exploratorium, acompanhada de Semper e de um colega saudita, Amr Almadani, que coordena um espaço de interação de ciências voltado para a questão energética (Mishkat Interactive Center for Atomic and Renewable Energy). A ideia era entender como os museus de ciência contribuem para a educação científica e como podem estimular as crianças para as carreiras de ciência e as engenharias (“STEM”, na sigla em inglês).

Curiosamente, EUA, Arábia Saudita e Brasil –os três países envolvidos nesse encontro– sofrem por falta de mão-de-obra nas carreiras científicas. O Brasil, por exemplo, forma menos de 50 mil engenheiros por ano (precisaria de pelo menos o dobro) e carece de profissionais em áreas como física e química. De acordo com o MEC, há pelo menos 70 mil vagas sem dono para ministrar aula nessas áreas. A preferência nacional dos estudantes é por cursos como administração e direito.

Para Semper, os museus de ciência servem para atrair o aluno para aquilo que ele está aprendendo na escola, mas não devem ter o propósito de ensinar.”A escola é obrigatória e a maioria dos alunos não liga para o que está estudando. Aqui, as crianças vêm ao museu porque querem, no final de semana, e se conectam com aquilo que vêm.”

No Exploratorium, as crianças (e adultos –vi vários deles) interagem com luzes e espelhos, brincam com aparelhos que mostram com a propagação do som, interagem com uma bola eletromagnética famosa por deixar os cabelos em pé. Tudo simples, barato e manuseável. “Se alguma coisa quebrar, a gente conserta facilmente aqui mesmo na nossa oficina”, diz Semper.

E como avaliar se os vistantes aprenderam os conceitos científicos apresentados no museu? De acordo com Semper, não se trata de fazer os visitantes preencherem um formulário respondendo a perguntas conceituais. “A proposta é que as pessoas saim do museu mais questionadoras, mais interessadas e com perguntas mais inteligentes.”

TREINAMENTO

Isso tudo que acontece no museu, claro, não é desconectado da escola. Hoje, 30% do orçamento do Exploratorium (que vem do governo, de associações e do ingresso individual –em torno de R$50,00) é despendido com treinamento de professores. Quem dá aula nos EUA pode aplicar para uma espécie de bolsa do Exploratorium e, se aprovados, passam as férias de verão em treinamento no espaço de São Francisco, recebendo um salário extra.

Outros espaços de ciência que conheci nos EUA, como o Lawrence Hall of Science, que fica no topo de uma montanha na Universidade de Berkeley, igualmente na Califórnia, também trabalham com professores. O Lawrence Hall é conhecido pelo seu programa de desenvolvimento de currículo e de material didático para as aulas de ciências, exportado, hoje, para 25 países. Um dos projetos principais desenvolvidos lá junta ciência e literatura, por meio de livros sobre a lua, por exemplo. Afinal, por que não ler sobre ciência?

No Brasil, há museus de ciência igualmente ricos e interessantes, como o Catavento, que fica no centro de São Paulo. O problema é que a maioria dessas iniciativas está concentrada justamente em São Paulo, onde, estima-se, 18% da população frequenta museus (indicador semelhante ao encontrado em países europeus). Se considerarmos o país todo, apenas 4% da população declara visitar museus com frequência, de acordo com um estudo do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Considerando que os museus de ciência contribuem para estimular as pessoas para as áreas científicas, será que não está na hora de aumentarmos esse indicador?

Esse post foi escrito da São Francisco, onde estou conduzindo uma pesquisa com Amr Almadani e outros colegas sobre inovação, empreendedorismo e educação com apoio da Einsenhower Fellowships.

Sem creche, mãe gasta um terço do salário com babá

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Thais Bilenky,na Folha de S.Paulo

“A gente pensa que vai melhorar, mas não muda nada”, afirma Patrícia Conde, 39, depois de mais um dia de trabalho em uma agência bancária na avenida Paulista.

Auxiliar de limpeza, ela leva duas horas para ir ao trabalho e mais duas para voltar para casa, na região do Capão Redondo (zona sul), uma das mais violentas da cidade.

Mãe de Paulo, 2, ela deixa o caçula aos cuidados do primogênito, de 18, e da babá.

Desde que Paulo nasceu, Patrícia espera uma vaga na creche próximo a sua casa. Mas a fila não anda.

Patrícia ganha R$ 820 por mês. Cerca de um terço (R$ 250) vai para a babá.

“Se chamassem [para a creche], aliviava as contas”, desabafa a auxiliar de limpeza, que perdeu o marido há um ano numa “briga de rua”.

A filha de 17 anos já é mãe. Todos moram juntos, mas só Patrícia trabalha.

A falta de creche é problema recorrente na região. O centro de educação infantil Paulo Cochrane Suplicy não consegue abrir vagas, porque as crianças não têm para onde ir ao completar quatro anos. Resultado: ficam lá.

Os vizinhos, quando não têm condição de pagar uma pessoa para olhar os filhos, acabam deixando com os irmãos. “A situação é difícil.”

Na última eleição, Patrícia votou em Aécio Neves (PSDB) para presidente. Para a prefeitura, em 2012, ela escolheu Fernando Haddad (PT).

“Achei que ele [Haddad] ia fazer mais pela educação, pela saúde, pelas propostas. Vi que ele tinha feito bastante coisa em outros lugares. Fiquei sabendo [que ele foi ministro da Educação], mas não está fazendo nada”, critica.

SATISFAÇÃO

Já a frentista Rizoneide Teixeira acha que “não tem do que reclamar”. Ela conseguiu uma vaga para sua filha Júlia, 2, na creche Coração de Maria, em Santa Cecília (região central), poucos meses após Haddad tomar posse na prefeitura, no início de 2013.

Desde então, a criança se “desenvolveu bastante”, observa. “Todo dia, ela chega em casa com uma historinha que a tia contou na creche, já conhece as cores”, conta.

Há poucos dias, Rizoneide perdeu o emprego em um posto de gasolina perto da creche. Ela procura um novo trabalho na região para não precisar tirar Júlia de lá. “A creche é maravilhosa”, diz.

Casada há 19 anos e moradora de Cachoeirinha, na zona norte, Rizoneide colocou os filhos mais velhos em escolas dessa região.

Felipe, 14, estuda no colégio municipal Pedro Américo. Igor, 18, no estadual Olinda Leite Sinisgalli.

Ela conta que, há cerca de um ano, Felipe, que nunca levava lição para casa, passou a fazer tarefas diariamente.

“Estão cobrando mais. Antes, jogavam ele de sala em sala, porque a professora vivia doente”, afirma.

As gestões anteriores da prefeitura, em sua opinião, “não fizeram nada”.

“Inscrevi o meu outro filho na creche quando ele era menor. Não foi chamado até hoje. Tanto tempo que perdi, porque não podia trabalhar”, lamenta ela.

Mais de 60% dos alunos do 4º ano não dominam leitura e matemática

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Marcelle Souza, no UOL

Os dados do Terce (Terceiro Estudo Regional Comparativo e Explicativo), divulgados nesta quinta-feira (4) pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), mostram que mais da metade dos alunos brasileiros do 4º ano do ensino fundamental não dominam habilidades de leitura e matemática.

De acordo com o estudo, 64,26% dos alunos brasileiros não alcançaram o desempenho bom ou ótimo na avaliação em leitura. Desses, 2,60% tiveram resultados muito ruins, 17,19%, ruins e 44,47% ficaram no nível regular. No nível de excelência, 31,21% foram bem na avaliação e só 4,53% atingiram as maiores notas da avaliação.

Em matemática, 61,4% obtiveram notas entre os níveis muito baixo e regular, enquanto 38,61% conseguiram atingir um desempenho bom ou ótimo.

Melhores notas

No 7º ano do ensino fundamental, os resultados foram melhores do que no 4º ano. Nessa etapa, a maioria dos alunos brasileiros teve um desempenho considerado bom ou ótimo. Nessa faixa estão 51,7% dos estudantes que fizeram a prova de matemática e 53,05% dos avaliados em leitura.

O Terce avaliou também os alunos em ciências. Nessa matéria, 14,20% dos estudantes brasileiros tiveram desempenho considerado bom e só 1,46% apresentaram resultados excelentes. Na outra ponta, 5,20% tiraram notas muito ruins, 34,45% tiveram desempenho ruim e 44,69%, regular.

“Esses dados são amostrais, mas são compatíveis aos resultados de outras avaliações que já fizemos, como a Prova Brasil”, disse o presidente do Inep, Francisco Soares. “Sabemos que uma parte dos alunos ainda não está no nível que gostaríamos, bom e ótimo, mas estamos no caminho para mudar isso, com o novo PNE (Plano Nacional da Educação)”, afirmou.

O Terce avaliou 134 mil estudantes de mais de 3.200 escolas da América Latina e Caribe. Participaram da avaliação 15 países da região (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai) e o Estado mexicano de Nuevo León.

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