Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged educação

Quando estudar em Harvard não é o melhor para você

0
Flâmulas da Universidade de Harvard (Foto: Getty Images/Arquivo)

Flâmulas da Universidade de Harvard (Foto: Getty Images/Arquivo)

 

Enquanto há estudantes que de fato tirarão o máximo de proveito de um ambiente como de uma universidade de ponta, é possível se desenvolver de outras maneiras em escolas menos prestigiadas

Publicado na Época Negócios

Diferente do que o senso comum pode indicar, estudar em Harvard (ou em universidades de elite em geral, líderes nos rankings internacionais) não é um indicativo de sucesso. E nem de realização. Isto porque, enquanto há estudantes que de fato tirarão o máximo de proveito de um ambiente como de uma universidade de ponta, é possível se desenvolver de outras maneiras em escolas menos prestigiadas.

Um estudo conhecido, publicado em 1999, apontou que estudantes que se candidataram às Ivy League e acabaram optando por outra escola de menos renome tiveram o mesmo nível de rendimento futuro que os colegas que frequentaram as de mais prestígio. A conclusão do estudo é que estudantes que se candidatam a estas universidades em geral possuem certas características – como determinação e disciplina – que serão benéficas para o seu futuro, independentemente de qual escola emitiu seu diploma. Em outras palavras, os pesquisadores Krueger e Dale concluíram que “o estudante, não a escola, era responsável pelo seu sucesso”.

Naturalmente, o prestígio destas instituições não existe à toa. Para algumas áreas (como mercado financeiro ou economia), o networking de uma Ivy League pode ser relevante; para outras, o contato com determinado grupo de pesquisa pode ser essencial para quem deseja seguir carreira acadêmica. Mas, dependendo do seu objetivo, outras escolas tão boas quanto Harvard (embora menos famosas) poderão oferecer uma experiência melhor para o estudante.

Artur Ávila – “Sorte” de não ter ido para as mais renomadas
É o caso do matemático Artur Ávila, brasileiro ganhador da Medalha Fields, que afirmou em um evento da Fundação Estudar, em 2016, que sua sorte foi não ter ido para Harvard ou Princeton. Ele, que optou por estudar no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, acredita que teve, assim, mais tempo para desenvolver confiança e adquirir conhecimento. “No IMPA, eu sentia medo, claro, mas não estava em um ambiente que podia me esmagar. Tinha pouco conhecimento, mas fazia uma coisa de cada vez.”

Ter estudado em uma instituição de menor renome internacional, portanto, não apenas não prejudicou a carreira do matemático como também colaborou para o seu amadurecimento. Assim, quando para o seu pós-doutorado ele optou por estudar na França, já estava mais adaptado para enfrentar “aquele mundo”: “Cheguei mais confiante, trabalhando nas linhas que já havia começado, indo sem desespero e com consciência de que eu sabia, de fato, muito pouco” afirmou.

Como avaliar se universidades de elite são a melhor opção para você
Em geral, candidatos tentem a considerar apenas se eles são inteligentes o suficiente para serem aprovados em uma universidade de elite. Raramente se considera se estas instituições são as melhores para eles em outros aspectos da vida universitária.

Para isso, autoconhecimento é a chave. O estudante não pode deixar de considerar qual é o seu estilo de estudos; como ele lida com situações de pressão e quais são suas expectativas para os quatro anos de faculdade. De acordo com avaliações enviadas pelos próprios estudantes no portal Unigo, o candidato deve sempre considerar os seguintes fatores:

Carga de Trabalho

Universidades de elite exigem muito trabalho. Além de uma carga grande de leitura, mesmo os estudantes mais preguiçosos não conseguem se livrar de escrever ao menos um essay por semana – e geralmente bem mais que isso.

Estilo de Ensino e Avaliação

Algumas universidades favorecem o debate oral – é o caso, por exemplo, da maior parte das instituições da Ivy League, que têm aulas em formato de seminário e discussão de cases. Assim, estudantes brilhantes, mas que tenham melhor desempenho escrito podem ser ofuscados pelos mais desenvoltos na oratória.

Estilo de Envolvimento Acadêmico

Muitas universidades de elite assumem que boa parte do seu aprendizado se dará através de atividades extracurriculares – seja através de envolvimento com esportes, clubes, trabalho voluntário ou projetos particulares. Claro, você também encontrará espaço se a sua melhor opção de lazer (ou de estudo) for uma biblioteca silenciosa – mas definitivamente não estará explorando o máximo que estas instituições oferecem.

Estilo dos estudantes (elas não são “cool”!)

Universidades de elite são, sim, um espaço para diversidade e jovens engajados nas mais diversas causas. Um espaço onde se podem encontrar jovens confiantes, carismáticos, divertidos e sagazes, críticos e questionadores. Porém, em geral não são o lugar para estudantes “descolados” – no estilo mais tradicional da palavra, de Jack Kerouac, caracterizada por desprezo às carreiras mais tradicionais e “engessadas”. De fato, muitos dos estudantes estão nestas universidades justamente para se tornar este profissional tradicional.

A pressão

Estudantes que não conseguem lidar com a pressão de estarem constantemente cercados de conquistas e sucessos passarão tempos difíceis em escolas de elite. Estas instituições não são o lugar para você se você pensa que tem que ser o melhor em tudo – porque invariavelmente você não será. Gustavo Torres, que está em seu terceiro ano em Stanford, afirmou que um dos seus maiores aprendizados por lá foi “Não dá pra ser o melhor em tudo”. “O negócio é também tentar ser o melhor em algo, aprender com as outras pessoas e tentar construir algo com elas”, afirma.

A liberdade

Instituições como estas geralmente assumem que os estudantes são automotivados e que correrão atrás dos seus objetivos de forma independente. Ninguém – nem professores, nem advisors, sem seus colegas – vão lhe dizer o que fazer (embora lhe ofereçam todos os meios para ajuda-lo se você já souber o que quer). Da mesma forma, se você parar de comparecer às aulas ou não entregar trabalhos, ninguém vai lhe cobrar, até que seja tarde demais.

Estes questionamentos são polêmicos e muitas vezes exigem que o candidato quebre preconceitos e reveja sua própria autoimagem. Mais do que questionar a nossa capacidade de ser aceito por uma destas instituições, devemos nos perguntar: será que tenho a disposição/a humildade/a resiliência/a energia para ter um bom desempenho em uma universidade de elite? Será que serei feliz lá?

No fim, é melhor fazer estes questionamentos com calma e antecedência do que seguir o nome famoso da instituição e passar os quatro anos que deveriam ser os melhores da sua vida se perguntando se não havia outro lugar melhor para você.

Prefeitura de Ribeirão Preto planeja criar ‘Uber do Professor’

0
Professor seria acionado por meio de aplicativo(Foto: ThinkStock)

Professor seria acionado por meio de aplicativo(Foto: ThinkStock)

Proposta, ainda em fase de elaboração, é chamar substituto por aplicativo quando docente faltar; categoria é contrária

Publicado na PEGN

Um projeto da prefeitura de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, quer criar um sistema de trabalho que foi apelidado pelos servidores de “Uber da Educação” ou “Professor Delivery”. A ideia é pagar por aulas avulsas a docentes, sem ligação com o município, sempre que faltarem profissionais na rede municipal de ensino.

O professor não teria vínculo empregatício com a prefeitura e o acionamento se daria por aplicativos, mensagens de celular ou redes sociais. Após receber a chamada, o professor teria apenas 30 minutos para responder se aceita a tarefa e uma hora para chegar à escola –caso contrário, outro seria acionado no seu lugar.

Mesmo sem chegar oficialmente à Câmara da cidade, o projeto já foi parar no Legislativo neste mês. Um grupo de professores distribuiu aos vereadores cópia da proposta preliminar e reivindicou que a ideia seja barrada. Um dos argumentos é de que o projeto seria inconstitucional.

Suelly Villela, secretária municipal de Educação da gestão Duarte Nogueira (PSDB), defende a importância do projeto para a rede local de ensino. O objetivo, de acordo com ela, é “solucionar a grave situação de ausências de professores em sala de aula, motivadas por faltas ou licença-saúde, em período inferior a 30 dias”.

De acordo com Suelly, que atuou como reitora da Universidade de São Paulo (USP) entre 2005 e 2009, a falta de professores traz prejuízo à formação dos alunos, que “são dispensados das aulas com frequência”, principalmente nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática.

O projeto, explicou ela, foi submetido à consulta da comunidade escolar e está em fase de análise das sugestões enviadas à secretaria.

Críticas. O Conselho Municipal de Educação (CNE) fez parecer contrário à proposta do Executivo. Segundo a análise do órgão, a alternativa terá lacunas do ponto de vista qualitativo e criará regime laboral precário. O órgão recomenda estudos mais aprofundados antes do envio da matéria à Câmara.

Na opinião do professor Sandro Cunha, que leciona História na rede municipal, o projeto fere o princípio da isonomia, por tratar de forma desigual os funcionários a serviço da prefeitura. Já na avaliação da advogada trabalhista Danielle Dias Moreira, a contratação de professores substitutos não é ilegal, mas pode trazer questionamentos futuros nos tribunais. “O professor chamado várias vezes poderá ir à Justiça e pedir o reconhecimento do vínculo empregatício”, argumenta.

A rede municipal de Ribeirão Preto tem 109 escolas da rede direta e outras 24 conveniadas. O sistema tem 3.159 professores, sendo 400 emergenciais, de acordo com dados da própria secretaria. São cerca de 48 mil estudantes matriculados.

Contagem Regressiva ENEM 2017: 9 dicas para turbinar o seu cérebro e se preparar

0

midia-indoor-wap-educacao-cotidiano-aluno-candidato-curso-teste-universidade-ensino-medio-faculdade-vestibular-prova-simulado-da-folha-para-prova-do-enem-que-vazou-em-2009-1343913596865_956x500

Quer ficar pronto para o Enem 2017? Veja o que fazer para turbinar o seu cérebro e se preparar

Publicado no Universia Brasil

Quando o assunto é Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) , escutamos muito que é preciso estudar, revisar e treinar. Mas, além de se dedicar aos estudos, algumas mudanças no dia a dia e dicas simples podem ajudar o seu cérebro e turbinar o seu aprendizado para o Enem 2017.

DICAS PARA A HORA DE ESTUDAR

Existem estratégias que podem te ajudar – e muito! – na hora de estudar. São elas:

1. ORDEM ALFABÉTICA

Um problema comum quando temos muitas anotações é encontrar uma determinada informação em meio às páginas. É comum que os estudantes façam as notas conforme as matérias forem passadas em aula, mas essa prática pode prejudicar a eficiência dos estudos. Ao invés de usar a ordem cronológica, procure empregar a ordem alfabética.

2. ANOTAÇÕES

Muitas vezes o professor faz um comentário ou passa determinada informação que não está nos livros ou textos de apoio. As anotações são importantes por conta disso. Além de que, com elas, você consegue entender os dados com suas próprias palavras e interpretação.

3. CÓDIGOS

Na correria para anotar todas as informações importantes é comum que os alunos recorram a códigos e abreviações. O importante é não se esquecer delas para que mesmo meses depois você consiga interpretar corretamente essas notas. Se necessário, faça um glossário no fim do caderno.

4. MURAL DE NOTAS

Além de fazer as tradicionais anotações em seu caderno, você também pode criar um mural em seu quarto ou ambiente de estudos com as informações mais importantes de cada matéria, que não podem ser ignoradas ou esquecidas. Esse tipo de mural ajuda a criar uma memória visual que é fácil de ser acessada durante as provas, além de auxiliar você a estabelecer conexões entre os tópicos de estudo.

5. CORES PARA ORGANIZAR

Essa dica é frequente, mas vale a pena repetir. Usar cores para organizar seu material de estudo pode facilitar muito a rotina diária. Você pode distribuir as cores por ordem de importância, por assunto ou por urgência, de acordo com sua necessidade de critérios para organização.

6. CARTÕES OU FICHEIROS

Além das costumeiras anotações no caderno, você também pode fazer anotações em cartões separados para os conceitos que apresentam maior dificuldade ou mais relevantes. Por exemplo, para as aulas de gramática, você pode criar um cartão para cada figura de linguagem. Para as aulas de física, para as fórmulas e suas aplicações.

E COMO AJUDAR A SUA MENTE?

Você com certeza já escutou alguém falando sobre o poder da mente. Na hora de se prepara para uma prova como o Enem 2017, a força do pensamento é mais do que aliada. Por isso, é importante dar atenção também a esse aspecto na hora de estudar.

7. A ARTE DE NÃO PENSAR

Procure separar algum tempo para não pensar em nada, especialmente quando a prova estiver se aproximando. Sim, essa é uma daquelas coisas que são mais fáceis na teoria que na prática. Nossos cérebros estão programados para pensar constantemente, e simplesmente parar pode ser uma experiência difícil e estranha. Mas vale a pena o esforço.

As técnicas de meditação vêm mostrando resultados há séculos, como grandes recursos para aliviar estresse, aumentar a concentração, melhorar o funcionamento do cérebro, a qualidade do sono e vários outros benefícios. Existem vários métodos de meditação (não necessariamente envolvendo quartos escuros e pernas cruzadas), procure o que mais se encaixa com você!

8. PAUSAS ESTRATÉGICAS

As revisões são um período de estudo estressante, mas principalmente nessa etapa do ano, a última coisa que você quer é manter o seu cérebro preocupado. Por isso, faça pausas entre seus estudos. Um estudo recente de Harvard mostrou que quando alguém trabalha intensamente por mais de 90 minutos, o corpo humano automaticamente entra em estado de “lutar ou fugir”.

Para impedir que isso aconteça, tire sonecas durante o dia. Acomode no seu horário, entre cada 90 minutos de estudo, ao menos 15 minutos de sono. A técnica, também conhecida como power nap, no curto prazo aumenta o poder de concentração do cérebro, e no longo prazo reduz o estresse.

9. CONVERSE COM ALGUÉM

Muitos estudantes podem acidentalmente se isolar de amigos e familiares nessa época do ano. Não deixe que isso aconteça com você. Mesmo para quem estuda em grupo, conversar com alguém que não está diretamente envolvido com a prova é ótimo para que você tenha uma visão mais ampla da sua vida. Passar todo o seu tempo estudando pode dar a impressão de que a prova é mais importante do que ela é, e manter conexões saudáveis mostra que na verdade o vestibular é só mais uma parte da sua vida.

Pais interferem em escolas que abordam questão de gênero nos livros e vetam conteúdo

0

Educadores criticam interferência nas decisões dos colégios sobre os temas

Renata Mariz e Eduardo Baretto, em O Globo

BRASÍLIA- Tema de ações no Supremo Tribunal Federal (STF) e de projetos no Congresso Nacional, a chamada “ideologia de gênero” vem sendo apontada nas escolas por pais incomodados com o material didático trabalhado em sala de aula. As reclamações se multiplicam pelo país e resultam muitas vezes na substituição de livros, dividindo a comunidade escolar. No centro do debate, a linha tênue entre o direito da família de acompanhar de perto a educação dos filhos e a ingerência preconceituosa no processo coletivo de aprendizagem.

Um caso recente no Colégio Ipê, escola da rede privada que atende alunos da educação infantil até o 9º ano em Brasília, expõe a complexidade da situação. Após queixas em relação ao livro “Lá vem história: contos do folclore mundial”, uma turma do 2º ano do ensino fundamental ficou dividida. Pouco mais da metade dos pais (18 em relação às 32 crianças da classe) trocou a obra que havia sido indicada pela escola como material de apoio às aulas de literatura para o segundo semestre deste ano. Alguns contos do capítulo “Para sentir uma pontinha de medo” foram considerados pesados demais para os alunos, mas a história que de fato causou discórdia se chama “Maria Gomes e os cavalinhos mágicos”.

Gizeli Nicoski com os filhos Nicholas e Nicole: articulação com outras mães da escola para adequar os temas discutidos à faixa etária das crianças - Jorge William / Agência O Globo

Gizeli Nicoski com os filhos Nicholas e Nicole: articulação com outras mães da escola para adequar os temas discutidos à faixa etária das crianças – Jorge William / Agência O Globo

 

No conto, a protagonista é abandonada pelo pai viúvo sem condições financeiras de sustentar a filha. Disfarçada de homem por ordem de uma voz que passou a ajudá-la, Maria Gomes consegue emprego no jardim de um palácio. Até que “mesmo pensando que Maria fosse um jovem, o filho do rei se apaixonou por ela. Preocupado, o príncipe dizia à mãe: Minha mãe do coração, os olhos de Gomes matam. São de mulher, sim. Não são de homem, não”. Por fim, ele descobre que Maria é mulher, declara seu amor e vivem felizes para sempre.

Para Gizeli Nicoski, de 38 anos, que articulou com outras mães a reclamação formal à escola, o conteúdo é inadequado para crianças como sua filha Nicole, de 7 anos. Ela afirma que não se trata de intolerância ou censura a determinados conteúdos, mas de adequá-los à faixa etária dos alunos. E diz não se incomodar com a “imagem de chata” que acredita ter diante de funcionários e outros pais do Colégio Ipê:

—Não é que sejamos contrários a temas sobre sexualidade, mas tudo no seu tempo. Uma história que fala de criança abandonada, depois homem com homem, não pode ser algo adequado para alunos do 2º ano — defende Gizeli, que também é mãe de Natalie e Nicholas, de três e quatro anos, respectivamente.

Diante da resistência de pais que não quiseram abrir mão do livro, escrito por Heloisa Prieto e há 10 anos no mercado, restou à escola deixar a critério de cada um fazer a substituição, após negociar a troca de títulos com a editora. Gilberto Fernandes Costa, um dos diretores do Colégio Ipê, diz que a saída foi possível por se tratar de um material de suporte às aulas de literatura, o que permite que os professores trabalhem livros diferentes dentro de uma mesma classe. Sobre a ingerência dos pais, Costa prefere não polemizar:

— Se é possível trocar sem prejuízos pedagógicos, a gente troca. As famílias têm todo o direito de questionar e cabe à escola mostrar aos pais as razões da abordagem dos assuntos.

RETIRADA DE LIVRO DA GRADE ESCOLAR

Na rede privada a pressão dos pais conta muito e a escola acaba cedendo aos apelos, com medo também da repercussão negativa nas redes sociais. No Colégio Marista de Brasília, de ensino infantil e fundamental, vinculado à Igreja Católica, o livro “A família de Sara” foi vetado no segundo semestre de 2015, após críticas de um pai.

A história conta as agruras de Sara, filha adotiva de uma mãe que não era casada, por não ter quem levar às festividades da escola no Dia dos Pais. Em determinado trecho, a mãe tenta consolar a menina: “É possível ter duas mães ou dois pais, ou ter mãe e padrasto e pai e madrasta, e gostar igualmente de todos. O importante, Sara, não é como sua família é, mas como ela te trata”.

Flaviane Leite, mãe de Rafael, aluno do Colégio Marista, critica a intervenção indevida dos pais - Arquivo Pessoal

Flaviane Leite, mãe de Rafael, aluno do Colégio Marista, critica a intervenção indevida dos pais – Arquivo Pessoal

 

Para Flaviane Leite, mãe de Rafael, à época aluno do terceiro ano do ensino fundamental do Marista, a retirada do livro foi uma interferência indevida dos pais na escola.

— Eu li o livro com meu filho. No fim, de maneira bem leve, ele citava que era possível ter outras formas de família. Nada demais. A própria autora do livro contou a história dela: a família era ela e a filha adotada, que era negra — afirma Flaviane.

Autora do livro, que escreveu 61 títulos para a coleção Sara e sua Turma, com adaptações em andamento para a TV Escola, Gisele Gama, de 50 anos, confirma que se inspirou nas dificuldades da própria filha. Ela acredita que a perseguição infundada por conta da obra, que já vendeu mais de um milhão de exemplares, vem do preconceito:

— Esse pai colocava na internet meu livro com um carimbo “ideologia de gênero”. É tremendamente lamentável, mas mostra o preconceito que existe. O pior é a escola retirar o livro. Nenhuma criança pode ser menos por causa da família que tem. E o livro só conta a história real da minha família.

Sem explicar os motivos de ter deixado de usar a obra, o Colégio Marista de Brasília afirmou, em nota, que o material de apoio é atualizado todos os anos. “Para 2016, essa obra não está na lista de livros paradidáticos, o que não significa que escola, família, educadores e estudantes não dialogarão sobre o tema”. E acrescentou que o Papa defendeu recentemente que a Igreja discuta abertamente “mudanças vividas pela família contemporânea, como é o caso dos novos arranjos familiares”.

Miguel Nagib, porta-voz do Escola sem Partido, movimento contrário à doutrinação política e ideológica na educação com forte cunho religioso, que pressiona pela aprovação de projetos de lei com regras e sanções a educadores, diz que a preocupação está nos conteúdos passados de forma dogmática.

— Não pode haver na sala de aula uma revelação divina, uma verdade dogmática. Se os pais dizem para o filho o que é o certo, a escola não pode dizer o contrário. Os pais são os responsáveis.

Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernando Penna afirma que esse fenômeno é influenciado por um contexto político, mas também pelo poder das redes sociais. Para explicar o movimento visto hoje nas escolas, o educador retorna a 2011, quando o governo Dilma Rousseff se preparava para distribuir um material de combate à homofobia que acabou vetado após a má repercussão.

Penna afirma que o material foi apelidado de “kit gay” por parlamentares ditos conservadores, que criaram essa bandeira para se promover. O episódio foi, segundo o especialista, um marco importante na origem do que hoje é chamado de combate à dita ideologia de gênero:

— A ideologia de gênero é um termo cunhado para desqualificar o debate sobre as desigualdades, sobre os papeis sociais, e pregar que o objetivo real é a erotização infantil, a transformação de jovens em gays e lésbicas ou o combate à família tradicional — explica. — Aliado a isso, há circulação de notícias falsas em redes sociais que causam um pânico moral muito grande. E as famílias, numa atitude compreensível, ficam apavoradas.

COLÉGIO CONTRARIA CRÍTICAS E MANTÉM TEMA

Ao contrário do que aconteceu nas escolas Ipê e Marista, o Colégio Positivo de Curitiba não sucumbiu ao protesto de alguns pais em relação ao conteúdo abordado nos livros de Sociologia do 2º ano do ensino médio. No material didático, os autores afirmam, por exemplo, que “não existe um modelo pré-definido de comportamento ideal de mulheres e homens” e destacam que esses valores foram socialmente construídos.

A divulgação do conteúdo do livro por um blog local e pela página “Escola Sem Partido PR” no Facebook também gerou críticas nas redes sociais. Mas, mesmo com a reação negativa de algumas pessoas, a editora Positivo manterá o tema no livros. Segundo Joseph Razouk Júnior, diretor editorial da empresa, a abordagem atende às diretrizes nacionais de educação e promove a cidadania. Atualmente, dois milhões de jovens em escolas públicas e particulares, no Brasil e no Japão, usam os livros da rede.

— A discussão sobre gênero, seja nas escolas, seja na sociedade como um todo, não pode ser lida como uma ideologia, e sim como um campo de pesquisa científico e acadêmico de reconhecimento internacional — afirma Júnior. — A cidadania é entendida como base do Estado de Direito e orientada pelos princípios jurídicos da liberdade, da igualdade e do respeito às diferenças.

Professor de História e Filosofia do Positivo de Curitiba, Daniel Medeiros, critica o conservadorismo:

— A visão de alguns pais conservadores é ditada pelo discurso da religião, que limita o diálogo. O que está acontecendo é uma falsa questão. Aparecem pessoas que não têm formação e querem intervir no trabalho de escolas sérias.

Historiador tenta reconstruir biblioteca da Universidade de Mossul após saída do Estado Islâmico

0
Imagens publicadas no site oficial da Biblioteca Central da Universidade de Mossul mostram como era o prédio antes da invasão do Estado Islâmico, e como ficou após a retirada do grupo terrorista (Foto: Divulgação/University of Mosul)

Imagens publicadas no site oficial da Biblioteca Central da Universidade de Mossul mostram como era o prédio antes da invasão do Estado Islâmico, e como ficou após a retirada do grupo terrorista (Foto: Divulgação/University of Mosul)

 

Prédio virou quartel-general do EI e teve milhares de livros destruídos. Com retomada, historiador anônimo reúne voluntários para preservar obras que sobreviveram a 19 meses de ocupação.

Ana Carolina Moreno, G1

m historiador iraquiano está tentando reconectar a cidade de Mossul com o resto do mundo com o resgate de livros e a reconstrução de uma biblioteca. Depois de dois anos e meio sob o domínio do Estado Islâmico (EI) e nove meses de batalha intensa entre os terroristas e o exército do Iraque, a cidade iraquiana ficou destruída e mais de 900 mil habitantes fugiram de suas casas.

Com a vitória do governo iraquiano, decretada em 9 de julho, os sobreviventes agora começam a reconstruir uma cidade devastada. E a Biblioteca Central da Universidade de Mossul virou um dos símbolos do desafio. “Eu vou trabalhar neste projeto até que eu sinta que a biblioteca voltou a ser um lugar onde pesquisadores de todo o mundo vão querer visitar”, disse, em entrevista por telefone ao G1, o historiador, que só aceita se identificar pelo codinome de ‘Mosul Eye’ (‘Olho de Mossul’).

‘Mosul Eye’ não revela sua identidade, sua idade e conta apenas que estudou na universidade que agora quer ajudar a reerguer. Para preservar sua segurança, ele não aceita revelar o país onde vive, e afirma que nem os próprios voluntários locais (entre 20 e 40 pessoas com quem se comunica virtualmente) conhecem sua verdadeira identidade.

Ele conta que há cerca de um ano fugiu do Iraque por causa das constantes ameaças de morte – seu blog anônimo foi o primeiro a surgir após a invasão do EI, e virou uma fonte de informação da resistência aos terroristas para internautas e jornalistas de todas as partes do mundo.

Além de coordenar um grupo que já resgatou mais de 2 mil livros dos destroços, o voluntário anunciou ainda um pedido de doações de livros do mundo todo, e busca uma impressora para digitalizar as obras da biblioteca para que elas sejam preservadas para sempre.

‘Ministério da educação islâmica’

Ao G1, ‘Mosul Eye’ recontou o que foi feito da biblioteca durante a ocupação do Estado Islâmico. Localizado no vasto campus da universidade, no lado leste da cidade, o outrora imponente edifício da biblioteca era um dos locais militarmente estratégicos para o grupo terrorista, e virou a sede de um novo ‘ministério da educação’, que tentou suplantar o sistema educacional por uma doutrinação baseada no ensino religioso.

Neste quartel-general, livros didáticos de todos os níveis de ensino foram reescritos, conta ele. O grupo terrorista também tentou reabrir a universidade, mas impondo seu próprio sistema educacional.

Voluntária de Mossul ajuda a empilhar os livros retirados da Biblioteca Central da Universidade de Mossul, após o Estado Islâmico deixar o prédio, depois de 19 meses usando a universidade como ponto militar estratégico (Foto: Ali Al-Baroodi)

Voluntária de Mossul ajuda a empilhar os livros retirados da Biblioteca Central da Universidade de Mossul, após o Estado Islâmico deixar o prédio, depois de 19 meses usando a universidade como ponto militar estratégico (Foto: Ali Al-Baroodi)

 

“A universidade foi fechada em junho de 2014 pelo Estado Islâmico quando ele ocupou a cidade. Mas eles tentaram reabrir a universidade, obrigando os funcionários e professores a fazerem uma reunião com o ministro de educação islâmica”, afirmou o historiador.

A iniciativa, porém, fracassou. “Eles pararam o ‘ministério da educação’ no começo de 2015, porque não conseguiram fazer nada. As pessoas se recusaram a ir para a universidade. A universidade em si foi reaberta fora de Mossul, então os estudantes não precisavam seguir o Estado Islâmico ou ir para a universidade islâmica.”

Resgate arriscado

O edifício da biblioteca ficou nas mãos do EI entre junho de 2014 e janeiro de 2017, quando o grupo se retirou do local após ataques da ofensiva do exército iraquiano. O Iraque só anunciou a retomada total da cidade em 9 de julho, mas há meses o grupo de voluntários, que atendeu ao chamado do historiador pela internet, passou a se dedicar à recuperação da biblioteca.

Voluntários se organizam para retirar os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul, no Iraque, que passou 19 meses nas mãos do Estado Islâmico e sofreu ataques tanto do grupo terrorista quanto de bombardeios da coalizão liderada pelos Estados Unidos, segundo o historiador anônimo por trás do blog 'Mosul Eye' (Foto: Divulgação/Ali Al-Baroodi)

Voluntários se organizam para retirar os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul, no Iraque, que passou 19 meses nas mãos do Estado Islâmico e sofreu ataques tanto do grupo terrorista quanto de bombardeios da coalizão liderada pelos Estados Unidos, segundo o historiador anônimo por trás do blog ‘Mosul Eye’ (Foto: Divulgação/Ali Al-Baroodi)

 

Até agora, o homem por trás do codinome ‘Mosul Eye’ estima que cerca de 2 mil livros foram resgatados, entre eles obras raras. Nem todos, porém, estão em boas condições, e nem sempre as buscas pelo edifício vazio e cinza estão livres de perigo, já que ainda há bombas dentro do prédio.

“O próximo passo é digitalizar esses livros. Mas acho que a biblioteca central deveria ter feito isso há quatro anos, porque todo mundo esperava que esse tipo de coisa poderia acontecer. Eles deveriam ter pensado mais no futuro.” Essa iniciativa, porém, exige uma impressora específica, que os voluntários ainda não conseguiram.

Um ‘olho’ do mundo em Mossul

Ele documenta, pelas redes sociais, o andamento do projeto, com fotos e vídeos. ‘Mosul Eye’ também promove uma série de eventos culturais para tentar incentivar a produção de arte na cidade – educação e cultura estão entre as muitas restrições impostas pelo Estado Islâmico à população local. Homens vestindo jeans, mulheres com roupas coloridas e o som de instrumentos musicais mostrados no vídeo acima eram impensáveis há um ano, diz ele.

O próprio fato de um civil registrar imagens em fotos e vídeos, como fizeram Ali Al-Baroodi e Saad Hadi, voluntários que documentam o resgate da biblioteca em imagens como as desta reportagem, seria uma morte certa. “Se alguém quisesse se matar, era só levar uma câmera para a rua”, diz o historiador.

Enquanto esperam a reconstrução dos sistemas de esgoto, água e eletricidade, e a reforma dos prédios, que devem custar mais de US$ 1 bilhão, segundo a ONU, a população volta a viver livre. Nesta quinta-feira (27), um grupo de estudantes de belas artes realizará uma noite de gala em Mossul, para apresentar obras que têm sido produzidas em cima dos próprios escombros da cidade, em outra das ações divulgadas por ‘Mosul Eye’.

Sua iniciativa de servir como a “janela” de Mossul para o mundo fez com que o jovem angariasse mais de 270 mil seguidores no Facebook e 23 mil no Twitter. Com publicações em árabe e em inglês, ele busca ajuda para seu projeto desde janeiro.

“A gente não podia, nos últimos anos, reconectar Mossul com o resto do mundo porque tínhamos problemas: segurança ruim, corrupção na educação, eles estavam matando pessoas, nós não podíamos fazer nada. Eu pensei que esse era o momento de fazer algo”, lembra.

Apoio do Ocidente

Ele afirma que chegou a receber uma única doação de seis mil livros vindas dos Estados Unidos, neste mês, e cita países da Europa e a Austrália como principais apoiadores da iniciativa. De pessoas árabes ele afirma ter recebido alguns e-mails. “Da Rússia, nenhum”, ressalta. Em seu site oficial, a biblioteca, que passou a publicar notícias depois de vários anos de ocupação, relatou em junho uma doação de 1.500 obras, feita pela Biblioteca de Alexandria, no Egito.

Professores, estudantes, economistas, acadêmicos: residentes de Mossul atenderam ao chamado do blogueiro anônimo 'Mosul Eye', um historiador exilado fora do Iraque, e agora tentam preservar os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul (Foto: Divulgação/Ali Al-Baroodi)

Professores, estudantes, economistas, acadêmicos: residentes de Mossul atenderam ao chamado do blogueiro anônimo ‘Mosul Eye’, um historiador exilado fora do Iraque, e agora tentam preservar os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul (Foto: Divulgação/Ali Al-Baroodi)

 

Ao G1, ‘Mosul Eye’ relatou que três pessoas do Brasil, entre eles uma moradora de São Paulo e um do Paraná, já enviaram mensagens mostrando interesse no projeto. “Eu gostaria de saber mais não só sobre os brasileiros, mas sobre a América Latina”, disse ele. “Queremos ler, precisamos ler mais sobre culturas diferentes.”

O historiador, que há anos vive virtualmente sob o codinome e não revelou sua identidade nem para a própria família, explica que tem mais poder de ajudar a resgatar e preservar a história de sua cidade por trás da ideia ‘Mosul Eye’ do que como um único indivíduo. Um dos legados que ele pretende deixar com o projeto é mudar a visão que o mundo tem de Mossul:

“O que eu quero mesmo é que, quando alguém buscar por Mossul, que eles não encontrem coisas relacionadas ao Estado Islâmico, e sim a biblioteca de Mossul. É esse o meu sonho. E eu sou tão forte quanto os meus sonhos.”

COMO AJUDAR

As doações estão sendo enviadas a um endereço em Erbil, uma cidade do Curdistão iraquiano. Para obter mais informações, é preciso enviar um e-mail em inglês para [email protected]

batalha-de-mossul-v3-3-

Go to Top