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Cortella: “Não é só a educação dos filhos que é necessária, mas a dos pais também

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Para o filósofo Mário Sérgio Cortella, uma das principais referências do país em educação, somos a primeira geração que testemunha mudanças de paradigmas tão velozes. E é natural que os pais se sintam perdidos. Então, afinal, qual o segredo para não ficar ultrapassado na educação dos filhos?

Naíma Saleh, na revista Crescer

“A novidade não é a mudança no mundo, é a velocidade da mudança.” Foi assim que o filósofo Mário Sérgio Cortella, professor há 42 anos, pai e avô, abriu a palestra Novos Tempos, Novos Paradigmas, que aconteceu em São Paulo, no fim de setembro. Diante de uma plateia hipnotizada pelo vozeirão com sotaque sulista e pela naturalidade em tratar temas complexos sem firulas, ele deixou claro que o grande desafio da atualidade é acompanhar as transformações para não ficar para trás. Sim, estamos vivendo um tempo de reviravoltas sem precedentes: na tecnologia, no trabalho, nas relações. Nesse contexto, mudar não é apenas imprescindível, mas inevitável. Principalmente quando se fala em educação. Em entrevista exclusiva à CRESCER, Cortella separa o que é velho do que é antigo, defende que pais podem ser, sim, amigos dos filhos sem perder a autoridade e critica o peso colocado na escola para assumir um papel que é da família. Confira!

Mário Sérgio Cortella (Foto: Marcos Camargo/Editora Globo)

Mário Sérgio Cortella (Foto: Marcos Camargo/Editora Globo)

 

Como essa mudança tão veloz de paradigmas tem afetado a forma como os pais criam os filhos?

Uma parte das famílias acabou perdendo um pouco a referência dada à velocidade das mudanças e à rarefação do tempo de convivência com as crianças. Isso fez com que muitas acabassem terceirizando o contato com os filhos e delegando à escola aquilo que é originalmente de sua responsabilidade. Só que isso perturba a formação das novas gerações. É claro que criar pessoas dá trabalho e exige esforço. Acontece que, no meio de todas essas mudanças, alguns pais e mães ficam desorientados. Por isso, é necessário que eles encontrem apoio, em livros, revistas, grupos de discussão. Não é só a educação dos filhos que é necessária, mas a dos pais também.

Ao mesmo tempo que muitas famílias terceirizam os cuidados, há um movimento de mães e pais largando a carreira para se dedicar exclusivamente aos filhos, não?

Claro. Uma das coisas mais importantes na vida é entender que a palavra prioridade não tem “s”. Não tem plural. Se você disser: “tenho duas prioridades” é porque não tem nenhuma. Então, deve estabelecer qual é a sua prioridade. Sua prioridade é o convívio familiar? Então dê força a isso. É a sustentação econômica? Vá fundo. Só que, ao escolher, não sofra. É evidente que ninguém precisa abandonar a carreira em função da família, mas é necessário buscar o equilíbrio – da mesma forma como se faz para andar de bicicleta: só há equilíbrio em movimento. Se você parar, desaba. Tenha em mente que haverá momentos em que a família é o foco. Em outros, a carreira. Mas lembre-se de que a vida é mais como maratona do que como uma corrida de 100 metros rasos: você não sai disparado feito um louco. Tem horas que vai mais rápido, outras em que desacelera. O segredo é ir dosando.

Você diz que, em um mundo de mudanças, nem tudo o que é antigo é velho. Como saber o que está ultrapassado na criação dos filhos?

No convívio familiar, uma coisa que é antiga, mas não é velha, é o respeito recíproco. Outra é a capacidade de o adulto saber que a criança é “subordinada” a ele, ou seja, que está sob as suas ordens. O pai não pode se tornar refém de alguém que ele orienta e cria. Agora, uma coisa que é velha e que deve ser descartada é o autoritarismo, a agressão física, o modo de ação que acaba produzindo algum tipo de crueldade. Isso é velho e é necessário, sim, mudar. Na relação de convivência em família é preciso modificar aquilo que é arcaico. O que não dá para perder é a honestidade, a afetividade e a gratidão. Tudo isso vem do passado e tem que continuar.

E como os pais podem construir essa autoridade sem autoritarismo?

O pai e a mãe têm que saber que ele ou ela é a autoridade. Ao abrir mão disso, há um custo. Quem se subordina a crianças e jovens, e têm sobre eles alguma responsabilidade, está sendo leviano.

Mas você acha que dá para ser amigo dos filhos?

Claro. O que não pode é ser íntimo no sentido de perder a sua autoridade. Eu tenho amizade com os meus alunos, mas isso não retira a autoridade nem a responsabilidade que eu tenho sobre eles como professor. Há uma frase que precisa ser deixada de lado que diz que “o amor aceita tudo”. Isso é uma tolice. O amor inteligente, o amor responsável é capaz de negar o que deve ser negado. A frase certa é: “Porque eu te amo é que eu não aceito isso de você”. O amor que tudo aceita é leviano, irresponsável.

Atualmente, se joga muita responsabilidade na escola. Qual é o limite entre os deveres dos pais e dos professores na educação das crianças?

É uma coisa estranha: a escola fica quatro ou cinco horas com as crianças, em um dia que tem 24 horas, com 30 alunos juntos. É um estabelecimento que deve ensinar a educação para o trabalho, educação para o trânsito, educação sexual, educação física, artística, religiosa, ecológica e ainda português, matemática, história, geografia e língua estrangeira moderna.

Supor que uma instituição com essa carga de atividade seja capaz de dar conta daquilo que uma mãe ou um pai é que tem que ensinar a um filho ou dois é não entender direito o que está acontecendo. A função da escola é a escolarização: é o ensino, a formação social, a construção de cidadania, a experiência científica e a responsabilidade social. Mas quem faz a educação é a família. A escolarização é apenas uma parte do educar, não é tudo. Já tem personal trainer, personal stylist, agora querem personal father, personal mother. Não dá, é inaceitável.

Por outro lado, os pais interferem demais na escola?

Há uma diferença entre interferir e participar. A escola tem que ser aberta à participação. Quando há uma interferência é sinal de que está mal organizado. O que acontece nas escolas particulares, que são minoria e representam apenas 13% do total, é que muita gente não lida mais com a relação família versus escola como parceria. É mais como se fosse um relacionamento regido pelo Código do Consumidor, como um cliente, como se o ensino fosse o mesmo que a aquisição de um carro. Essa relação é estranha e precisa ser rompida.

A educação de gênero tem gerado repercussão no meio escolar. Como você acha que as escolas devem abordar esse tema?

Uma sociedade que não é capaz de atender à diversidade que a vida coloca é uma sociedade tola. É preciso lembrar que a natureza daquilo que é macho e fêmea está na base biológica, mas o gênero se constrói na convivência social. O macho e a fêmea vêm da biologia. Mas o que define masculino e feminino é aquilo que vai se construindo no dia a dia. Por isso a escola tem que trazer o tema. É claro que não vai incentivar uma discussão que seja precoce para crianças de 8, 9, 10 anos. Mas também não vai fazer com que aquele que é diferente seja entendido como estranho. Aquele que é diferente é apenas diferente, não é estranho. Nessa hora, é tarefa da escola acolher. Se a família não concorda e a escola é privada, mude a criança de escola. Agora, se for uma instituição pública, é um dever constitucional e republicano admitir a diversidade.

Para educador português, ‘não se aprende nada numa aula’

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Palestra do professor José Pacheco em Brumadinho (MG)

Palestra do professor José Pacheco em Brumadinho (MG)

 

Angela Pinho, na Folha de S. Paulo

Idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, José Pacheco influenciou professores do mundo todo com a proposta educacional implantada no colégio a partir de 1976.

Os colégios dos quais participa ou que aconselha não têm aulas, séries nem provas. As crianças escolhem projetos –fazer um robô, por exemplo– e aprendem os conteúdos curriculares a partir deles. No Brasil, onde Pacheco vive hoje, dezenas de escolas seguem seus princípios.

Na semana passada, ele foi a Brumadinho (MG) participar do seminário internacional de educação Experiências em Trânsito, promovido pelo Instituto Inhotim. Falou sobre sua resistência ao modelo tradicional de escola, que não consegue ensinar a todos, e contou suas experiências práticas.

Atualmente, integra o conselho consultivo do Projeto Âncora, escola pública de Cotia (SP), que segue os princípios da Ponte. O colégio português, que completou 40 anos na última quinta-feira (1º), obteve “muito bom” na mais recente avaliação externa oficial de Portugal. Esta é a segunda melhor nota da escala, que vai de “insuficiente” a “excelente”.

Leia a entrevista a seguir.

Folha – Por que o senhor diz que dar aula no século 21 é um “escândalo”?
José Pacheco – Porque não se aprende nada numa aula. Não se prova nada em uma prova. Por que há aula? Por que são 50 minutos? Por que há turma? Por que há série? Ninguém sabe responder isso, e essa escola que está aí, igual à do século 19, produz ignorância e infelicidade.

Na Constituição, está escrito e consagrado o direito à educação. Na LDB, está escrito que é um direito de todos os brasileiros. As escolas dão esse direito? Não. Produz muitos milhões de analfabetos, muita ignorância, muita defasagem. Se a política educacional não garante o direito à educação, podem continuar com as mesmas práticas? Não. Estou a falar de ética. De direito. Se o modo como o professor trabalha não consegue ensinar tudo a todos, tem o direito de continuar desse modo?

Sem aulas e, portanto, sem uma ordem de conteúdos a seguir, como as escolas podem garantir os objetivos curriculares mínimos?
Nas nossas escolas não há objetivos mínimos. São objetivos máximos, que é toda a grade. Todas as crianças, jovens e adultos aprendem tudo que está na grade, ao contrário de outras escolas. Só que não tem um planejamento por ano, idade, série, ciclo porque isso não tem fundamento nenhum.

E quando nenhum projeto desenvolvido pelos alunos demanda, por exemplo, que aprendam a raiz quadrada. O professor tem que sugerir?
Sim, o currículo tem que ser cumprido. Mas aparecem as necessidades. Agora, quando eu digo que numa aula não se aprende nada, há professores que se levantam indignados e dizem que aprenderam tudo na aula. E eu pergunto: quem sabe fazer raiz quadrada? Ninguém sabe, e tiveram aula. Tiveram prova e não provaram nada.

Se eu perguntar qual é a forma para calcular o volume da esfera, é a mesma coisa. Nada se aprende numa aula, e isso é um tabu. É preciso que alguém diga aquilo que todo mundo já sabe.

O que acha da proposta para a Base Nacional Comum Curricular que está em discussão?
Quando a equipe que propõe a base nacional estabelece conteúdos por ano, com anos iniciais e anos finais, significa que vamos ter uma escola com anos iniciais e anos finais. Ou seja, uma escola cartesiana do século 19. Não é assunto sério. Educação é uma só. Por que se subdivide, onde está a fundamentação científica e pedagógica? Será que um médico trabalha com os recursos e as fundações teóricas do século 19? Não. O professor trabalha.

Como vê o uso de tecnologia na escola?
As novas tecnologias são incontornáveis. Nós autorizamos ao limite. Nas escolas onde eu trabalho, nós construímos plataformas digitais de aprendizagem. A criança trabalha também com o celular, o iPhone, laptop, tudo. Desde que haja acesso à informação no domínio virtual, vamos lá.

Nós utilizamos tudo quanto é nova tecnologia, porém não damos um laptop para cada aluno.

Por quê?
Porque vamos criar monstrinhos de tela de computador, que não veem nada do lado, que estão a pastar conteúdo na internet sem saber o que estão a fazer. Nunca tantos instrumentos de comunicação nós tivemos e nunca tanta solidão existiu neste mundo.

Vi numa escola em Nova York cada aluno no seu laptop, e um professor lá na frente com a intranet. Ele vigiava tudo o que os alunos estavam a ver. Era um único conteúdo. Havia divisória entre cada criança. Não podiam ver o que o outro estava falando. As pessoas não percebem que estão a reforçar o individualismo, a condenar os outros à solidão?

Como é nas escolas onde o sr. trabalha?
As crianças têm acesso a tudo para procurar respostas às perguntas contidas nos roteiros de estudo que construímos com ela para concluir um projeto. Elas pegam o laptop e vão procurar.

Nós ensinamos a selecionar, analisar, criticar, comparar, avaliar, sintetizar, comunicar informação —processos de pensamento complexos que o professor mediador deve ensinar. E elas sabem analisar, criticar, comparar e vão produzir conhecimento. Não fazem cópia. E depois vão testar a recolha de dados junto com um professor. E aí acontece a passagem da informação para o conhecimento.

Porque colocar uma criança em contato com o laptop e a informação não conduz ao conhecimento. Ela vai copiar. E, depois, o conhecimento não é suficiente. Tem que pegar esse conhecimento e colocar numa ação. É assim que as crianças desenvolvem competências.


RAIO-X: JOSÉ PACHECO

Idade 65 anos

Profissão Professor e pedagogo, mestre em ciências da educação pela Universidade do Porto

Realizações Idealizador da Escola da Ponte (1976), no Porto, e um dos criadores do Projeto Âncora, em Cotia (SP), ambos colégios públicos

A repórter ANGELA PINHO viajou a convite do Instituto Inhotim

“Protagonismo da criança é essencial para o processo educacional”, defende educador italiano

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Adultos devem agir mais como observadores do processo do que como alguém que dita regras

Eligia Aquino Cesar, no R7

 Aldo Fortunati Divulgação

Aldo Fortunati Divulgação

Quando um bebê vem ao mundo é natural que os pais se preocupem com todos os aspectos da vida do pequeno. Desde os custos com fraldas e convênio médico até mesmo decidir — mesmo que precocemente — sobre a melhor maneira de educá-lo, o que importa de fato é garantir o que há de melhor aos filhos. E é aí que a questão começa a complicar: qual a diferença entre controlar e determinar o que é melhor para eles?

Aldo Fortunati, renomado especialista em psicologia do desenvolvimento em educação na primeira infância, defende não só a importância que a criança de zero a três anos frequente a escola, mas também que ela exerça o protagonismo nessa fase. Para o especialista italiano, não é possível padronizar o ensino quando se trata de crianças menores de seis anos de idade.

O fundamental neste método de ensino é entender que a criança rica, ativa e competente, não é previsível. Fortunati afirma que três palavras são capazes de nortear os princípios nos quais se baseiam o protagonismo infantil: confiança, oportunidade e tempo.

A cidade italiana de San Miniato, localizada na Toscana, tem cerca de 26 mil habitantes e é referência internacional quando se trata de educação infantil pública de qualidade. Fortunati, que, também, é presidente do Centro de Pesquisa de Documentação sobre a Infância, La Bottega di Geppetto, falou um pouco mais sobre o bem-sucedido método de ensino.

R7: Qual é o papel dos pais e dos educadores no protagonismo infantil?
Aldo Fortunati: A confiança diz respeito, tanto aos orientadores quanto aos pais. Eles precisam entender que a criança pode e deve exercer o papel principal na própria educação e deixar de enxergá-la como um sujeito fraco, que merece ser protegido o tempo inteiro. Isso só poderá ser provado por meio de oportunidades concretas, vindas por meio de recursos materiais organizados, colocados à disposição dos pequenos. Não basta carteira, cadeira e armários na sala de aula, é preciso mais do que isso. São necessários elementos que incentivem a criatividade e que despertem o interesse da criança. E, por último, compreender que a criança tem um tempo totalmente distinto, que ela precisa explorar, conhecer, transformar e descobrir. Muito diferente do tempo do adulto que é focado apenas em resultados.

R7: Como é possível impor limites, mantendo o protagonismo ao mesmo tempo em que a educa? Dá para agir da mesma forma com crianças mais calmas e também com as mais arteiras?

A. F.: O investimento sobre o protagonismo da criança deve ser geral e preventivo. Não creio que qualquer criança seja diferente daquelas com as quais trabalho. Se nós investirmos para que tenham uma situação positiva para a vivência delas, é um modo de ajudá-las a ter uma experiência tranquila e não nervosa ou agressiva.

R7: No Brasil as diferenças entre escolas privadas — que contam com cerca de 15 alunos por sala — e a rede pública de ensino, com no mínimo 30 crianças por classe, na maioria dos casos, é bem acentuada. Como aplicar o método que incentiva o protagonismo infantil nas escolas públicas?

A. F.:O método que incentiva o protagonismo infantil é mais adequado para comunidades de dimensões reduzidas. Porém, não é um método que não possa ser aplicado também em grandíssimas comunidades. A realização deve ser feita de maneira diferente. O reconhecimento do protagonismo pode ser universal.

R7: Qual o resultado esperado do protagonismo na primeira infância durante o desenvolvimento da criança nas outras etapas da vida até à fase adulta?

A. F.:Há muitos elementos que colaboram para a formação de uma pessoa, é difícil dizer que apenas um deles vai fazer com que a pessoa se torne um adulto diferente. Porém, é certo que, especialmente a criança que vem de uma família carente terá muitas vantagens se frequentar uma escola nos primeiros anos de vida. É preciso investir na qualidade da educação infantil, não porque dessa forma a criança se tornará um adulto melhor, mas para que ela viva com prazer, alegria e produtividade na infância.

Mário Sergio Cortella: Escola deve abandonar conceitos arcaicos

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DESCRIÇÃO: Inteligência Coletiva - especial 130 anos do Colégio Farroupilha. Na foto filósofo, escritor e professor Mário Sérgio Cortella.

Na foto filósofo, escritor e professor Mário Sérgio Cortella.

 

Publicado no Correio do Povo

Considerado um dos expoentes intelectuais do país, o professor Mário Sérgio Cortella esteve em Porto Alegre, neste mês, para falar sobre gestão do conhecimento. Nascido em Londrina, no Paraná, o filósofo e escritor tem mestrado e doutorado em Educação e atuou por 35 anos na PUC-SP, com docência e pesquisa na Pós-Graduação em Educação. Em entrevista ao Correio do Povo, o professor diagnosticou, opinou e teorizou sobre alguns dos principais assuntos relacionados ao tema. O filósofo defende que a escola precisa enfrentar e se desfazer de conceito arcaicos, como os que entendem que o professor é o detentor do saber ou que o conhecimento é absoluto e indubitável. Para ele, a escola precisa ter uma natureza muito mais de seleção do que de acumulação de conhecimento

O que é a gestão do conhecimento?
Mário Sérgio Cortella: É a ideia de que nós temos que lembrar que vivemos em uma sociedade que tem o conhecimento como uma referência, e que o conhecimento se constrói a partir das informações. E que nós temos um novo mundo, relativo às informações, novas tecnologias, novos modos de acesso, mas temos também uma dificuldade grande de ter critérios de seleção, tamanha a oferta de informações a que as pessoas acabam sendo inundadas, como se fosse uma avalanche informacional que os captura. [A gestão do conhecimento] tem como necessidade maior a formação da capacidade de ajudar a ter critérios que separem, selecionem e guardem aquilo que de fato importa, diferenciando do meramente passageiro e acessório.

Como a escola pode melhorar sua Gestão do Conhecimento?
Mário Sérgio Cortella: A escola precisa dar uma distinção entre aquilo que, vindo do passado, já não serve mais, o que a gente chama de arcaico, daquilo vindo do passado que precisa ser preservado, guardado, que é a tradição. Não é casual que gaúchos entendam isso muito bem e a cada momento façam o seu centro de tradição gaúcha. Porque a tradição tem que ser guardada. Tem que ser colocado pra trás aquilo que não tem mais lugar. E, nesse sentido, a escola tem coisas que são tradicionais e outras que são arcaicas. Uma das bandeiras arcaicas é lidar com o conhecimento como se ele fosse inamovível, absoluto e indubitável. Outra coisa arcaica é supor que só o professor detém o conhecimento. A outra coisa arcaica é supor que esse conhecimento só é obtido dentro da escola. Portanto, tudo isso tem que ser ultrapassado para que a gente consiga construir uma capacitação das pessoas e que nos capacite também para a gente fazer melhor aquilo que a gente quer fazer bem.

Qual é a influência do excesso de informações na educação?
Mário Sérgio Cortella: Depende da escola que se terá. Nós temos uma diversidade muito grande, no Brasil, de escolas do campo público e privado, seja no seu modo de ação, seja sua localização, seja em relação ao tipo de presença de alunos que ela carrega. Portanto, não há um modo único no qual essa escola se coloque. Mas, independentemente de como ela é, onde se localiza ou quem a frequenta, há desse turbilhão de informações o impacto que é tontear um pouco as pessoas em relação àquilo que elas, de fato, precisam conhecer. De maneira geral, quase gera nas pessoas angústia, imaginando que ela tem que ler tudo, saber tudo, conhecer tudo e não é verdade. Sempre dependerá daquilo que você tem como objetivo. Por isso, a escola, especialmente, tem que ter uma natureza muito mais seletiva do que cumulativa. Não basta inundar o aluno de informações. É preciso que ele construa critérios que elevem a capacidade de boas escolhas, no campo da informação e da conduta, da vida e do conhecimento.

As ocupações das escolas são resultado das reações da sociedade devido ao atual momento político e econômico?
Mário Sérgio Cortella: Parte sim. A questão é que, hoje, uma parcela dos jovens começa a entender que há causas que têm que ser construídas. Causas que, por exemplo, pra minha geração se situavam no campo da política nacional, no enfrentamento de uma situação ditatorial, de ausência de liberdade de expressão e de pensamento. Novas causas têm que vir à tona. Por exemplo, o jovem ter o seu lugar sem necessariamente passar por mera constatação, mas ser aquele que reivindica melhoria da qualidade do trabalho, estruturas escolares mais adensadas, participação na decisão dos rumos do trabalho pedagógico. Então, acho que há uma contaminação positiva em relação a isso, seja no Rio de Janeiro, São Paulo ou Porto Alegre. Houve esses movimentos que tiveram, de um lado, um nível bonito, uma beleza na participação dos jovens, e, de outro alguns, destemperos, que são inerentes a quem não está habituado a fazê-lo e constrói sua forma de fazer no próprio processo. Mas é um aprendizado que traz uma beleza muito forte de uma juventude que não se contenta mais apenas numa consumolatria desesperadora, mas que quer ter voz, afinal de contas é no futuro que viveremos, então é melhor fazê-lo bem desde agora.

Como está sendo tratada a ética dentro das escolas?
Mário Sérgio Cortella: A escola não é imune a tudo o que está à volta dela. A escola sozinha não movimenta as coisas. Paulo Freire, nosso grande educador, dizia: “Não é a escola sozinha que vai mudar o mundo, mas sem a escola o mundo não muda”. Portanto, o tema da ética não tem a escola como sua referência mais exclusiva. Afinal de contas, o número de horas que uma criança ou jovem fica exposta ao processo escolar é muito menor do que o inverso. Uma criança fica, em média, quatro ou cinco horas na escola e as outras 19 fora, em contato com mídia, família e amigos. Aliás, vale muito pouco se uma escola tiver uma matéria chamada ética. O mundo dos valores tem que ser trabalhado no conjunto do projeto pedagógico em todas as disciplinas. E ética, para lidar com crianças e jovens, tem que ser de natureza exemplar e não teórica. Aquilo que se mostra, por exemplo, na educação física, jogos cooperativos em vez de fazer só competição, ter um momento para as crianças da educação infantil do brinquedo partilhado, do lanche coletivo, tudo aquilo que vai moldando valores de convivência que não precisa ser colocado teoricamente.

Como é o momento da educação no Brasil? Quais são as lacunas?
Mário Sérgio Cortella: Na educação básica brasileira temos apenas 13% das pessoas que estão na escola privada, 87% estão nas escolas públicas. Portanto, quase a totalidade da população que frequenta a escola está no nível público. Dado que o nível privado é um direito constitucional mas é minoritário, no nível público nós temos quatro grandes questões: a primeira delas é a democratização do acesso e da permanência. Isto é: colocar todas as crianças e jovens dentro da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio a frequentar escolas, não apenas a matrícula, mas nelas permanecerem. Segundo, a ideia da democratização da gestão. A nossa Constituição Federal de 88, depois a lei de Diretrizes e Bases de 96, prevê que a comunidade tenha participação na gestão da estrutura escolar e isso ainda é muito diminuto. Se eu perguntar se você conhece o Conselho Municipal de Educação de Porto Alegre, ele existe e precisa existir por lei. Quem escolhe as pessoas? Como elas lá estão? Quem gere a educação na cidade onde você mora? Ocupa aquele posto por qual mandato? Essa questão é séria, a democratização da gestão. Terceiro, uma nova qualidade de ensino em que a gente, sem perder aquilo que é referência na história da educação, não fique atrasado com plataformas digitais, trabalhar com conteúdo que sejam mais significativos, ter uma atualização do processo pedagógico. Quarto e último, algo que é vergonhoso no nosso país. Um país que faz uma Olimpíada deveria ser capaz também de impedir que, ainda hoje, em 2016, 13 milhões de homens e mulheres não sejam capazes de lerem o lema da própria bandeira. Essa é, absolutamente, uma vergonha inacreditável, que a sétima nação mais poderosa do planeta em termos econômicos tenha ainda 13 milhões de pessoas, com mais de 15 anos de idade, que não leem “Ordem e Progresso”.

Levando em consideração o surgimento de leis sobre educação que nascem já defasadas, não faltam discussões sobre a realidade?
Mário Sérgio Cortella: Tudo é sempre bonito no papel. Isso é inerente a atividade da educação. A gente lida com gerações e gerações mudam todos os dias. O fato de você lidar com educação escolar faz com que haja desatualização cotidiana. Afinal de contas, aqueles que entraram na escola esse ano não estavam no passado e aqueles que estavam no passado já estão em outra postura. Portanto, essa desatualização é inerente a quem lida com o processo. É diferente da área de saúde que se tem uma patologia que você cura e ela cessa. Não há cura em educação. Educação é uma formação incurável. Portanto, todos esses planos têm um nível de precariedade que é muito contínua. A grande questão no Brasil é que eles entram em precariedade antes de serem implementados. Tudo aquilo que foi furtado da nação, seja pela atividade pública ou privada, nas últimas décadas, e que agora veio à tona com a Lava Jato e outras operações, seriam o suficiente para não termos essa questão. A gente tem, por exemplo, várias associações comerciais que, com toda a razão, fazem algo chamado impostômetro – que é avaliar o quanto estamos pagando de tributos no cotidiano. É uma coisa ótima. Mas tem que fazer o sonegômetro também. A Receita Federal calcula que, em 2015, tenham sido deixados de serem pagos em impostos, por sonegação, R$ 400 bilhões. Isso é mais do que o orçamento do MEC [Ministério da Educação]para um ano. Se eu não tivesse a sonegação, não teríamos essas questões. A implementação de vagas e projetos de estrutura seriam mais do que suficientes dentro disso. Não é questão de boa vontade, é questão de evitar a ladroagem.

Que escola é acessível para todos?
Mário Sérgio Cortella: A gente avançou imensamente nisso. Hoje, 97% das crianças em idade escolar do ensino fundamental estão matriculadas, mas não necessariamente têm permanência. Segundo, há uma defasagem imensa ainda na educação infantil e no ensino médio. Apenas metade dos jovens que deveriam estar no ensino médio o frequentam. Por outro lado, a questão não é confundir qualidade versus quantidade. Numa democracia, quantidade total é sinal de qualidade social. Qualidade sem quantidade é privilégio. Não se confunda qualidade com privilégio. Por exemplo, São Paulo, onde eu moro, se come muito bem. Quem come? Quem como o que? Por isso, se as pessoas não comem, eu não posso falar em qualidade, tenho que falar em privilégio. O que nós temos no Brasil ainda é uma estrutura de escolarização em que há uma apologia do privilegiamento, não da qualidade.

por Marco Aurélio Ruas

Professor vegano é proibido de lecionar em MG por defender direitos animais

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Divulgação

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Publicado no Anda

No dia 20 de outubro, o educador vegano e colunista da ANDA Leon Denis foi chamado a comparecer na escola que lecionava, na cidade de São João Evangelista, Minas Gerais, para ser informado que estava oficialmente dispensado de sua função.

A ordem de dispensa foi dada pela superintendência de ensino localizada na cidade mineira de Guanhães no dia 15 de outubro. Ironicamente, o dia do professor.

O educador Leon Denis é internacionalmente conhecido como pioneiro no ensino de direitos animais, ética animal e veganismo em escolas públicas no Brasil. Para tratar dessa temática em sala de aula, o educador usa uma abordagem filosófica, lógica, histórica e científica. Os temas apresentados e trabalhados em sala de aula questionam as tradições e os costumes e mexem com o status quo sexista, racista, especista, e muitos outros preconceitos legados como naturais.

Justamente por questionar as tradições econômicas, religiosas, culturais, políticas e científicas em aula, de modo crítico, o educador começou a receber no final do segundo bimestre letivo muitas reclamações dos pais dos alunos. Reclamações que foram registradas na escola na forma de BO (boletins de ocorrência) e se estenderam até o mês de agosto. Segundo o educador, no mês de julho, em umas das reuniões em que foi chamado para ter ciência dos BOs feitos contra suas aulas, ele pediu uma reunião com os pais dos alunos para que pudesse ouvir pessoalmente as reclamações e assim poder explicar o teor das aulas, o que ele fala e o que ele não fala, a importância dos filmes e documentários indicados aos alunos, como A carne é fraca e Não matarás. A reunião pedida pelo educador para esclarecer os pais, mesmo sendo registrada em ata, nunca ocorreu. Os pais se recusaram a ouvir o docente.

O educador, que leciona a disciplina de filosofia, sabe que apresentar uma visão crítica do mundo, exigindo de seus alunos que pensem e reflitam sobre seus costumes é algo que gera desconforto nos familiares, na comunidade escolar como um todo e, por incrível que pareça, em muitos professores, colegas de profissão. Após ler as reclamações e denúncias registradas nos BOs, Leon levanta dois questionamentos: primeiro, como alguns pais, que se recusam dialogar com o docente, têm poder sobre uma entidade representativa da Secretaria Estadual de Educação, como a superintendência, decidindo a vida funcional de um profissional? Simplesmente porque não concordam com o que o professor fala em sala de aula. Segundo o educador, os BOs estão repletos de argumentum ad hominem (argumento contra a pessoa). E o segundo questionamento do educador é sobre seu direito de resposta, de defesa. Onde foi parar um direito constitucional?

Nas palavras do educador e escritor:

“Fui informado pelo inspetor escolar que estou impedido legalmente de lecionar durante os próximos três anos no Estado de Minas Gerais. Está na resolução SEE n. 2741/15. No dia do professor, 15 de outubro, deixei de ser professor. Quanta ironia e injustiça. Sou um espírito livre, e incomodo por isso. A filosofia crítica incomoda. A verdade dos fatos incomoda. E estou pagando o preço por ser adepto da veracidade como virtude. Por defender em aula todos aqueles que estão em constante estado de vulnerabilidade. Os grandes pensadores, aqueles que são minha fonte de inspiração, na filosofia, na literatura, nas ciências, nunca foram bem vistos pela teocracia, pela oligarquia, pelos mantenedores do status quo; pelo contrário, sempre incomodaram e foram caçados pelas ideias que defendiam.”

Nota da Redação: Para registrar indignação pela dispensa / expulsão do educador acesse a Ouvidoria Geral do Estado de MG e manifeste sua opinião.

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