Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged educadores

Educação: Reforma do ensino médio permite aulas de profissionais sem licenciatura

0

educacao2

Publicado no Amo direito

A medida provisória também trouxe uma mudança que chamou a atenção: um dos artigos incluídos na LDB autoriza profissionais de outras áreas e especialistas “com notório saber” a darem aulas nas escolas do país. Segundo o governo, a medida ajudará a preencher lacunas na educação básica. O texto enviado ao Congresso determina que essa atuação deve ser “reconhecida pelos respectivos sistemas de ensino” e restrita à formação técnica e profissional. Hoje, o ensino técnico é iniciado após a conclusão do ensino médio, mas a MP permite que as formações aconteçam simultaneamente.

Segundo Rossieli, a medida não interfere nas disciplinas convencionais e não vai prejudicar professores que se especializaram em áreas como português, matemática, geografia e história. A intenção da mudança, segundo ele, é introduzir outros conteúdos para complementar a formação. “Você não tem, por exemplo, cursos de licenciatura em direito. Tem um caso aqui no Distrito Federal, de uma escola que colocou direito no currículo. Se não existe licenciatura em direito, como que você faz? Eles têm um problema”, diz Silva. Neste caso, a MP prevê que um bacharel em direito comande a aula.

Se aprovada pelo Congresso, a nova regra também permitirá que o “conhecimento popular”, sem diploma formal, seja repassado em sala de aula. Como exemplo, o secretário de Educação Básica cita as “especialidades” desenvolvidas em determinadas regiões do país.

“Lá no Amazonas, quando eu era secretário, o estado tentou fomentar um polo naval, havia gente de fora que queria investir no estado. A primeira coisa que perguntaram foi: cadê as pessoas qualificadas? O estado do Amazonas tem uma grande tradição em construção de barcos, especialmente em navegação de rio, mas essas pessoas não têm formação adequada. Os grandes especialistas que têm lá, que poderiam dar aula para esse tema porque têm uma experiência de vida sem igual, não podem”, diz.

Nestes casos, caberá à secretaria de educação de cada estado definir o que é “notório saber” e quem estará autorizado a lecionar no ensino médio. “Para aula de matemática, de educação física, de sociologia, de filosofia, licenciatura plena é requisito legal e continua sendo requisito legal”, garante.
_____

Para aula de matemática, de educação física, de sociologia, de filosofia, licenciatura plena é requisito legal e continua sendo requisito legal.
_____

Novo ensino médio
A medida provisória foi apresentada pelo presidente Michel Temer nesta quinta (22). As mudanças afetam conteúdo e formato das aulas, e também a elaboração dos vestibulares e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A previsão do Ministério da Educação (MEC) é que turmas iniciadas em 2018 já possam se beneficiar das mudanças. Até lá, as redes estaduais poderão fazer adaptações preliminares, já que o Ministério da Educação condiciona a implementação de pontos da reforma à conclusão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O ministro disse que a BNCC só deve ser concluída em “meados” de 2017.

Pela MP, apenas português e matemática terão que ser lecionados obrigatoriamente durante os três anos do ensino médio. A estrutura proposta prevê que, dos 36 meses letivos, apenas metade siga o currículo tradicional. No restante do tempo, o aluno poderá “focar” seu aprendizado na área em que pretende seguir carreira – ciências exatas, linguagens ou biologia, por exemplo.

A reforma também prevê o aumento da carga horária, com a expansão do ensino integral. Na escola “tradicional”, os alunos têm quatro horas-aula por dia. No ensino integral, são sete horas. Quanto maior o tempo dentro da escola, maior a diversidade de atividades que podem ser desenvolvidas, segundo o MEC.

Para isso, o ministério anunciou que vai investir R$ 1,5 bilhão até 2018. A meta é atender 500 mil jovens no ensino integral. A adesão e a lista de escolas contempladas serão definidas pelas secretarias estaduais, até o fim do ano. Segundo o MEC, esse modelo pode começar a ser implementado já em fevereiro de 2017 onde as adaptações forem mais fáceis.

antes-depoisPor Mateus Rodrigues
Fonte: G1

Crianças deveriam receber lição de casa? Talvez não, dizem especialistas

0
Em casa, Caio tem sala com computador, tablet e uma mesa à disposição para os exercícios extraclasse, única responsabilidade dele, conta a mãe, Grace Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

Em casa, Caio tem sala com computador, tablet e uma mesa à disposição para os exercícios extraclasse, única responsabilidade dele, conta a mãe, Grace Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

 

Educadores divergem no Brasil, mas tendência em outros países é considerar a tarefa de casa desestimulante para o aprendizado

Paula Minozzo, no Zero Hora

As crianças deveriam ter mais lição de casa? Não é incomum pais responderem sim a essa pergunta, afinal, fazer o dever, pelo menos para o senso comum, seria um dos caminhos para um bom desempenho escolar. Mas um movimento que já assumiu relevância nos Estados Unidos e em países da Europa contraria a ideia do tema de casa e quer até mesmo a sua extinção.

Educadores, pedagogos e pais ouvidos por Zero Hora afirmam enxergar o dever como um estímulo para a autonomia dos estudantes. Especialistas de opinião contrária sustentam que a prática desestimula os alunos e causa conflito entre as famílias. Pais que se mostram exaustos após um dia de trabalho e crianças cansadas teriam mais uma tarefa a cumprir na lista de obrigações.

O Brasil está no final do ranking quando o assunto é tempo gasto em lição de casa por adolescentes de 15 anos. A média do país é de 3,3 horas por semana, pouco menos do que o Japão, com 3,8, e muito abaixo dos Estados Unidos, com 6,1. A Finlândia, cujo sistema educacional se sobressai em avaliações internacionais, é o último da lista, com 2,8 horas por semana. A China está em primeiro, com 13,8 horas semanais, segundo os indicadores de 2012 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Recentemente, o bilhete de uma professora de 2º ano primário no Estado americano do Texas viralizou por comunicar aos pais que os alunos não teriam mais dever. “Pesquisas não comprovam que lição de casa melhora o desempenho de estudantes… Jantem em família, leiam juntos, brinquem lá fora e levem seu filho para cama mais cedo”, escreveu a docente.

— É difícil até mesmo questionar o tema de casa. Os professores teriam de revisar suas abordagens educativas se não dessem mais lição. E os pais teriam de aprender que não podem contar com o dever de casa como se fosse uma babá — comenta, por e-mail, a autora do livro The end of homework (O fim do tema de casa, em tradução para o português), Etta Kralovec, uma das defensoras mais árduas da extinção dessa tarefa extraclasse.

Em pesquisa feita pela Universidade de Stanford em 2014, apenas 1% dos alunos de Ensino Médio consultados disseram que o tema de casa não era um fator de estresse. Em comunidades em que o desempenho acadêmico é valorizado, os alunos, em média, recebiam mais de três horas de tarefa por dia. Segundo os pesquisadores que comandaram o estudo, mais de duas horas já causariam impactos negativos no comportamento e no bem-estar.

— Minha filha tem tarefa todos os dias e mais o reforço escolar. Tive de tirá-la da ginástica. Ela fica nervosa para completar tudo, eles precisam de tempo para serem crianças — desabafa a auxiliar de saúde bucal Leticia Hartmann, 32 anos, mãe de Giovanna, nove anos, aluna de uma tradicional escola de classe média-alta da Capital.

Etta, professora da Universidade do Arizona, argumenta que estudos mostram que a lição não melhora o desempenho escolar. Para crianças no Ensino Fundamental, o trabalho de aula, se bem aproveitado, seria o suficiente para uma boa aprendizagem. Em uma temporada de estudos no Zimbábue, ela viu que a situação não se limitava às crianças americanas, cujo dia escolar é mais longo.

— Crianças pobres não têm os recursos em casa para fazer a lição, e as ricas, outras atividades depois da escola que são também enriquecedoras e que disputam o tempo com os temas — ressalta Etta.

De acordo com a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Tânia Ramos Fortuna, a questão da lição é ampla. O dever pode ser considerado benéfico quando os alunos encontram sentido em realizar determinada tarefa:

— O tema de casa traduz essa ideia de que há uma relação da escola com a vida fora dela. Esse é um lado positivo da lição.

Além disso, as tarefas seriam como uma extensão da vida escolar, opina Claudia Marzano, orientadora educacional da Escola Municipal de Ensino Fundamental Gabriel Obino, no bairro Glória, na Capital. Segundo a educadora, também seria na hora da tarefa de casa, sozinhos, que os alunos teriam mais clareza sobre os próprios obstáculos de aprendizagem:

— Não é largar a mochila em casa e pegar só no outro dia. Em sala de aula, os colegas ajudam uns aos outros. Mas é em casa que eles vão saber onde há dificuldades e trazer para o professor no outro dia.

Pais poderiam incentivar outras práticas fora da aula

Professora da Faculdade Educação da UFRGS, Natália Gil orientou uma pesquisa sobre lição de casa em 2015 e defende que o tema não deve ser usado para suprir uma carência escolar, já que as crianças têm rotinas familiares diferentes. Para Natália, alunos mais vulneráveis não teriam o apoio dos pais nem as condições de estudo necessárias. Já as crianças com famílias mais presentes poderiam utilizar o tempo para aprender de maneiras mais individualizadas, e não repetir o que já é feito na escola.

— Uma criança que não aprendeu a ler na escola raramente vai aprender com pais que tiveram pouca escolaridade. Há famílias que têm internet, outras que não têm nem ao menos livros. Não acho que é papel da escola dizer como as famílias devem se organizar — afirma Natália.

Claudia Kober de Araujo, 43 anos, acompanha de perto a rotina dos dois filhos, Henrique, 13 anos, e Erick, 11. Na casa do bairro Cascata, em Porto Alegre, a mesa da sala de jantar da professora de anos iniciais da Escola Municipal de Ensino Fundamental Gabriel Obino é o lugar dos estudos. O primogênito não traz mais lição de casa, mas é um dos alunos de maior dedicação da turma em que estuda do 8º ano: os professores o conhecem pelas boas notas. O mais novo ainda faz os temas com a ajuda da mãe.

— Acho até que a escola poderia puxar mais, com mais tema de casa — diz Claudia.

Natália e Etta não são contrárias ao estudo fora de sala de aula, mas defendem que a didática do ambiente escolar não invada o espaço das atividades propostas pelas famílias. O ideal seria que os pais incentivassem outras práticas. A leitura por meio de maneiras diferentes das trabalhadas em aulas seria benéfico, afirmam.

— A lição de casa é quase sempre a parte menos instigante, não é uma aprendizagem nova. Não é fora da escola, de modos desiguais, sem os espaços propícios, que o aprendizado vai acontecer. Se o gosto pelo estudo se constrói na escola, em casa, ela (a criança) vai desenvolvendo as próprias práticas — acredita Natália.

Para Etta, a compreensão dos professores que levam em consideração a vida dos alunos fora do ambiente escolar para atribuir tarefas também não é suficiente.

— Uma criança pode levar 15 minutos para fazer uma lição de casa, outra pode levar 30 minutos para a mesma lição. Não é a quantidade dada, mas a presença constante daquela obrigação.

É difícil se concentrar em qualquer outra coisa se há uma lição de casa de “20 minutos” esperando para ser feita — comenta Etta.

Como o tema se relaciona à construção da autonomia

Em um grupo de nove alunos do 3º ao 6º ano da escola Província de São Pedro, instituição privada no bairro Boa Vista, todos dizem que fazem as lições sozinhos. Na hora da lição de casa, perguntas para os pais são raras. A eles, fica a tarefa de supervisionar, já que os professores estão, por meio de um aplicativo, conectados aos alunos para responder dúvidas.

O aluno Caio, 11 anos, tem em casa uma sala com computador, tablet e mesa para a lição de casa.

— Essa é a única responsabilidade dele, e ele tem tempo livre depois para fazer o que gosta — conta a mãe, Grace Correa.

Para Luciane Freitas, professora de matemática na escola, o método da lição de casa é instigante e ajuda a desenvolver a autonomia:

— O tema precisa ser para complementar e ajudar a fixar o material. São pequenos exercícios, alguns até terminam a própria tarefa em sala de aula ou vão além.

O caminho para a construção da responsabilidade e da autonomia seria o contrário, diz Natália Gil:

— Nada obrigatório gera autonomia, que se desenvolve quando há sentido e vontade de estudar porque algo instigou isso. O problema não é o conteúdo escolar, mas dar a liberdade e a autonomia para o aluno escolher e investir em outros elementos.

Falta de ensino de arte nas escolas gera preconceito

0
Gislene é artista plástica e professora de arte - PEDRO NEGRÃO

Gislene é artista plástica e professora de arte – PEDRO NEGRÃO

 

Daniela Jacinto, no Jornal Cruzeiro

“Vagabundos que querem mamar nas tetas do governo”. Com essas palavras – ou algo do gênero – algumas pessoas têm demonstrado nas redes sociais a sua visão sobre os artistas e o desconhecimento de que a arte é um direito da própria população, previsto em lei. Para a arte-educadora, artista plástica e artesã Gislene Fernandes Pedroso, professora de arte no ensino fundamental 1 e de literatura infantil na pós-graduação em Educação do Instituto Campos Giglio (ICG), essas expressões mostram a consequência da falta do ensino de arte nas escolas. Essa deficiência na educação tem um prazo de cinco anos para ser corrigida, a partir de agora. Desde maio de 2016, as artes visuais, a dança, a música e o teatro são as linguagens obrigatórias no currículos dos diversos níveis da educação básica.

A nova lei, de número 13.278/2016, altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, e estabelece um prazo para que as escolas promovam a formação de professores para implantar esses componentes curriculares no ensino infantil, fundamental e médio. Até então, a LDB não especificava todos os tipos de arte a serem abordados. Mesmo assim as escolas já inseriram essa disciplina em 1996.

Gislene, que trabalha com formação de professores, afirma que o preconceito com relação a arte também é reproduzido com relação ao professor de arte e ao ensino de arte na escola e ela acredita que seja pelo mesmo motivo: desconhecimento sobre o que é arte e a sua função na sociedade. As consequências da falta de conhecimento sobre o tema, para Gislene, são desastrosas. Conforme ela, ainda nos dias de hoje o professor de arte que trabalha em algumas escolas, onde principalmente a direção não tem esse conhecimento, tem de enfrentar batalhas em seu dia a dia que vão desde esclarecer que fazer arte não é fazer sujeira até mesmo se impor quando querem passar para o professor de arte a organização de eventos como o Dia da Família. “As aulas de arte têm uma programação, um objetivo a seguir e ser cumprido. Existe conceito e método, não são para organizar eventos”, frisa Gislene.

Tem quem pense ainda que o professor de arte não precisa se preparar para dar suas aulas e que tem menos conhecimento que os demais. “Por mais incrível que isso possa parecer, tem quem ache isso, inclusive entre os próprios professores”.

Gislene lembra que teve um tempo nas escolas em que as aulas de arte se resumiam a copiar da lousa formas geométricas. As cores deveriam ser sempre as propostas pelo professor, e se as medidas das figuras não fossem exatamente o que estava pedindo no exercício, lá vinha uma canetada vermelha: estava errado.

Com o passar dos anos, veio a contribuição da pesquisadora Ana Mae Barbosa, que trouxe uma nova perspectiva para as aulas de arte-educação no Brasil. A oportunidade de conhecer arte é um dos privilégios da nova geração de estudantes, que também são incentivados a criar. Muitas escolas já implantaram esse ensino e a tendência, com a lei, é que todas sejam assim.

Visão simplista é por desconhecimento do conceito

Tem momentos da época de criança que acabam ficando na memória, seja por serem bons ou ruins, e entre as lembranças da arte-educadora Gislene Fernandes Pedroso estão os desenhos que fazia na aula de Educação Artística, que a professora costumava amassar e jogar no lixo. Isso ocorria, lembra ela, porque sua mão ficava suada e acabava manchando a folha. Por mais caprichado que estivesse, não havia desconto. “Sou insegura até hoje por causa disso e nunca acho que o que faço está realmente bom”, diz ela.

Graças a Ana Mae Barbosa, autora de diversos livros e artigos fundamentais para o estudo nesta área, e a principal referência em arte-educação no Brasil nos dias de hoje, a Abordagem Triangular tem ajudado os estudantes do ensino fundamental e médio a conhecerem de fato o que é arte. Gislene falou sobre o tema durante a oficina Arte-Educação: Reflexões sobre a Abordagem Triangular, realizada para educadores na sexta-feira passada, dentro do 1º Encontro de Educadores: Educação Solidária, promovido pelo Instituto Campos Giglio (ICG), de Votorantim.

De acordo com Gislene, Ana Mae revolucionou o ensino da arte no Brasil porque não se conformava com a forma como a arte era ministrada na escola. “A Abordagem Triangular é uma inovação do ensino de arte na escola, que era algo engessado, sem contexto. Por isso é que até hoje tem professores com uma visão simplista da arte”.

A a visão triangular, diz Gislene, é uma referência para trabalhar arte na escola, pois está baseada em três eixos: contextualização histórica; fazer artístico e apreciação artística (saber ler uma obra de arte). “Aula de arte não é apenas colocar os alunos para desenharem, pintarem. Se for assim basta abrir o YouYube e produzir algo, basta fazer um artesanato e pronto. O educador Paulo Freire falava muito sobre fugir de cópias e ter autonomia de criação”, diz.

Na prática, acrescenta Gislene, aula de arte consiste em ampliar o repertório cultural dos alunos, que não vão para a aula vazios. “Então cabe ao educador propor estratégias motivacionais para eles”.

E qual seria a função de promover a arte? Gislene afirma que a arte serve para formar cidadãos críticos, reflexivos e transformadores da sociedade.

Gislene exemplifica que uma aula de arte pode trabalhar diversos temas, inclusive aproveitar o assunto do momento, que é a Olimpíada. “O professor pode sugerir a confecção dos mascotes e contextualizar, explicando a origem de seus nomes, Vinícius e Tom”.

A escolha dos nomes homenageia os músicos Vinícius de Moraes e Tom Jobim, dois expoentes da Bossa Nova. Vinícius é o nome do mascote olímpico, já Tom, do paralímpico.

Outra dica é utilizar a contação de histórias. “Eu toco violão, canto, conto histórias, sempre no início de minhas aulas. Falo de algum livro e eles se interessam em ler. Dessa forma amplio o repertório de leitura deles”.

Entre as diversas obras já trabalhadas na escola, Gislene lembra do tanto que rendeu o livro Macaco danado, de Julia Donaldson e Axel Scheffler. “Percorremos com esse livro as áreas de Ciências, História, Geografia, Matemática, Língua Portuguesa. E os alunos produziram peças de teatro, dança e inclusive livro”, cita.

Gislene também gosta de trabalhar contos da tradição oral. “Ajudam a amplia o repertório porque trazem a cultura dos povos. Tudo o que o professor precisa para se aventurar com os alunos nas aulas de arte é ser criativo e ter estratégias de promoção de encantamento”, comenta.

O que é importante na escolinha do seu filho – e o que pode ser prejudicial?

0
Pré-escola municipal em São Paulo; especialistas defendem que crianças experimentem diferentes tipos de atividades lúdicas e estímulos

Pré-escola municipal em São Paulo; especialistas defendem que crianças experimentem diferentes tipos de atividades lúdicas e estímulos

 

A creche e a escolinha são muito mais do que apenas os locais onde as crianças passam seu tempo enquanto os pais estão trabalhando.

Paula Adamo Idoeta, na BBC Brasil

O período da educação infantil tem forte impacto no desenvolvimento da criança de zero a seis anos e é capaz, inclusive, de ampliar ou reduzir as desigualdades educacionais e sociais do país: quem frequenta creches de baixa qualidade, públicas ou privadas, acaba partindo de um patamar inferior a quem recebeu estímulos enriquecedores, experiências produtivas e afeto nesse período, dizem especialistas.

“Pesquisas de neurociência comprovam que é nos três primeiros anos de vida que o ser humano alcança o ápice do aprendizado de capacidades como linguagem, memória e atenção, importantes para a vida toda”, diz à BBC Brasil Beatriz Ferraz, gerente de educação infantil da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.

“Ela faz conexões cerebrais em alta velocidade. A falta de estímulos nessa fase é um grande desperdício. É muito mais custoso (aprender) mais para frente.”

O pesquisador da Faculdade de Economia e Administração da USP de Ribeirão Preto Daniel Santos compilou diversos dados e estudos sobre educação infantil e concluiu que a má qualidade de grande parte da rede brasileira pode prejudicar essas crianças mais adiante, tanto em seu desempenho escolar quanto no desenvolvimento emocional.

Os impactos podem se estender à renda futura dessas crianças e até seu envolvimento com a criminalidade, agrega Alejandra Meraz Velasco, do movimento Todos Pela Educação.

Então, o que é importante observar na escolinha do seu filho, seja pública ou particular? A BBC Brasil listou alguns pontos levantados por especialistas, em nove tópicos:

1. Estímulos e brincadeiras são cruciais para aprender – e ficar à toa é a pior opção

Espaços ao ar livre são muito importantes nas creches, mas podem ser compensados por outros estímulos em ambientes internos

Espaços ao ar livre são muito importantes nas creches, mas podem ser compensados por outros estímulos em ambientes internos

 

E o aprendizado se dá sobretudo pela brincadeira. Atividades individuais e coletivas enriquecerão seu repertório de sentidos e experiências.

“São as brincadeiras, ações, interações (…) que levam a criança a ter curiosidade sobre temas, práticas e ideias”, diz trecho da Base Nacional Comum Curricular, documento do Ministério da Educação que, quando concluído, orientará o currículo escolar do país.

Isso envolve, por exemplo, coletar folhas e galhos no jardim, brincar de roda e de jogos, transformar objetos comuns em brinquedos, ouvir histórias, desenhar e pintar.

O pior para a criança nessa fase é passar o dia à toa: “A escolinha tem de ter um conjunto de atividades que sejam intencionalmente provocadoras de estímulo. Creches onde a criança passa o dia dormindo e assistindo TV são um crime, por mais carinhosas que sejam as educadoras”, adverte Daniel Santos, da USP-Ribeirão Preto.

E isso, no entanto, ainda ocorre no Brasil, como herança da época em que creches eram vistas não como período de educação, mas de mera assistência social, “quando era suficiente que a criança estivesse alimentada, limpa e sem doenças”, agrega Santos.

“Para muitos pobres (sem acesso à pré-escolas de qualidade), a creche piora o desenvolvimento da criança. É um problema bastante agudo num momento em que fala-se tanto em expandir esse serviço no Brasil.”

2. A criança gosta de ir à escola?

Para Santos, “a primeira coisa a observar, independentemente do método (da escola), é se a criança está gostando de ir, se não está se estressando exageradamente – isso é um grande risco à educação infantil”.

Por trás disso estão, além das atividades enriquecedoras, professores afetuosos.

“O professor tem que ser uma presença brincante, lúdica, alegre e amorosa”, diz Shirley, do CEI Suzana Campos.

Portanto, é bom também que não haja muita rotatividade de educadores, porque eles acabam se tornando referência afetiva para as crianças pequenas.

3. Espaço, brinquedos e livros

Com diferentes materiais e atividades, crianças farão mais conexões neurais e se desenvolverão mais

Com diferentes materiais e atividades, crianças farão mais conexões neurais e se desenvolverão mais

 

Os especialistas consultados pela reportagem dizem que o ambiente da pré-escola tem de ser aconchegante e acessível às crianças. Mas mais importante do que as instalações em si são os estímulos que elas proporcionam.

Um jardim oferece às crianças a chance de contato com a natureza, mas a ausência desse espaço pode ser compensada de outras formas.

“Você pode construir cenários (dentro da própria escola), trazer histórias e elementos diferentes às crianças, visitar praças ou parques, usar fantoches e tendas”, sugere Marcia de Castro Ferreira dos Santos, diretora do CEI Suzana Campos.

Não é preciso ter um monte de brinquedos tradicionais, como bonecas e jogos, já que eles podem ser combinados com os chamados materiais não estruturados: caixas e tecidos, por exemplo.

“Esses materiais dão às crianças um espaço de criação muito maior. O pano pode virar capa de super-herói, avental de cozinha, cobertor, cabelo da princesa”, conta Shirley.

Livros infantis são cruciais, mas eles sozinhos não promovem a experiência com a literatura. “É o adulto quem faz isso”, diz Marcia. “Crianças que entram na escola sem estarem habituadas a ler ignoram os livros e só vão se interessando quando fazemos rodas de história e projetos de leitura.”

4. Ter um projeto pedagógico

Por trás de todas as atividades é preciso haver um projeto pedagógico - ou seja, elas não são aleatórias nem visam apenas ocupar o tempo da criança

Por trás de todas as atividades é preciso haver um projeto pedagógico – ou seja, elas não são aleatórias nem visam apenas ocupar o tempo da criança

 

Todos os especialistas consultados pela reportagem concordam que é essencial que escolinhas e creches tenham um projeto pedagógico, ou seja, que haja um motivo por trás das atividades oferecidas às crianças.

As responsáveis pelo CEI Suzana Campos explicam que seus professores planejam quais experiências pretendem proporcionar às crianças a cada semana – linguagens, sons, arte e literatura – e registram diariamente como cada aluno reagiu.

Mas Alejandra, do Todos Pela Educação, faz uma ressalva: “O brincar é o elemento importante e não deve ser abandonado nessa fase. O objetivo não é adiantar o ensino fundamental”.

5. Preservar a autonomia e a individualidade

É preciso que todas as crianças da mesma turma façam a mesma atividade ao mesmo tempo? Nem sempre, dizem os especialistas.

Projetos e brincadeiras em grupo são importantes, mas também o são os momentos em que as crianças podem escolher entre uma aquarela para pintar ou um livro para ler. O objetivo é dar-lhe liberdade e autonomia.

Outra forma de estimular isso é durante as refeições, por exemplo permitindo que crianças de 2 ou 3 anos comecem a tentar se servir. “Há pais que se surpreendem em ver que seus filhos conseguem fazer algumas coisas sozinhos”, explica Marcia, do CEI Suzana Campos.

Daniel Santos orienta também que se fique atento “à criança que está fora do grupo e buscar entender o porquê (de ela não participar das atividades)”.

Além disso, é preciso enxergar as crianças como seres singulares, que vão vivenciar as experiências cada uma a seu modo.

Marcia sugere, por exemplo, que bebês fiquem nos berçários com algum pedaço de pano que tragam de casa, cujo cheiro remeta à família. “Eles estão aprendendo outros vínculos além da mãe”, explica.

A disponibilidade para atender os pais e incluí-los no projeto pedagógico é outro ponto crucial, diz Shirley.

“Fazemos encontros temáticos com os pais, sobre brincadeiras, o Estatuto da Criança, a importância da leitura – até para eles entenderem que quando o seu filho voltar para casa de bermuda suja de terra ou tinta será um sinal de que ele brincou, explorou, desenvolveu capacidade de equilíbrio, confiança e força.”

6. Qualificação e quantidade de educadores

Os educadores precisam por lei ser formados em pedagogia, mas recomenda-se que tenham também uma formação específica para lidar com essa faixa etária (de zero a seis anos) e vivências práticas.

“É o professor quem vai trazer elementos ao imaginário da criança, com estratégias como jogos, músicas, histórias”, explica Marcia.

“Os dados parecem mostrar que a formação prática tem mais efeito do que o diploma (na capacidade do educador nessa fase)”, diz Santos.

Quanto à proporção, os parâmetros de qualidade do (mais…)

Satisfação latino-americana com educação é semelhante à da África

0

Plano-Nacional-de-Educacao-20-metas-pra-mudar-o-Brasil-Leonardo-Quintao-Deputado-Federal

Publicado em Folha de S.Paulo

Os países africanos e latino-americanos têm a pior avaliação do mundo sobre a educação que ofertam nas suas próprias regiões, de acordo com um estudo apresentado no congresso internacional de educação WISE.

O estudo, que ouviu especialistas em educação de todo o mundo, mostra que só 11% dos entrevistados na América Latina se declaram satisfeitos com a sua educação local. Na África, o índice de satisfação é de 8%. São as duas regiões do globo com pior satisfação em relação à sua própria qualidade de educação.

Para se ter uma ideia do que os números significam, na Europa, 66% dos entrevistados se declararam satisfeitos com a educação na sua região.

Os entrevistados dos países latino-americanos também têm a pior percepção do mundo em relação à inovação na educação na sua região. De acordo com 66% dos especialistas consultados nessa região, as escolas e universidades inovam pouco ou simplesmente não inovam os processos educativos e pedagógicos. A taxa é pior do que na África, onde 64% dos especialistas deram as mesmas respostas.

A situação da educação latino-americana está ruim, mas já foi pior: 41% dos entrevistados latino-americanos acham que a educação melhorou nos últimos dez anos. A região líder na percepção em relação à melhora recente da educação foi na Ásia (70% acham que melhorou) e, a pior, na América do Norte (só 20% consideram que melhorou).

O estudo, feito pelo Gallup, consultou 1.550 especialistas em educação de 149 países em agosto deste ano –como políticos, educadores e acadêmicos. Eles foram questionados sobre qualidade de educação nas suas respetivas regiões.

UNIVERSIDADES MELHORES

O ensino superior teve uma avaliação bem melhor dos especialistas em relação à educação básica. Apenas um em cada três entrevistados declarou que considera o ensino fundamental e médio na sua região bom ou excelente, mas metade deles acha boa ou excelente a qualidade de suas universidades.

Mais: a imensa maioria dos entrevistados concorda que o principal desafio da educação no mundo é a formação de qualidade dos professores –e, com exceção da Ásia, todas as regiões do mundo concordam que os professores devem ser tratados com mais respeito.

O estudo foi apresentado no congresso de educação WISE, que reuniu mais de dois mil acadêmicos, ongueiros e políticos de todo o mundo em Doha, no Qatar. O evento aconteceu no início de novembro.

Go to Top