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7 livros de escritos por mulheres para ler ainda em 2017

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São livros fluídos, deliciosos e íntimos, como só uma mulher sabe fazer.

Daniela Kopsch, no HuffpostBrasil

A cada ano que passa me parece que os meses encurtam. Eu sinto muito informar, mas já estamos em setembro, quase dezembro o que significa que amanhã já é 2018. Sei que você não leu ainda todos os livros que gostaria e daqui a pouco vai começar a se culpar por ter desperdiçado tanto tempo lendo as minhas bobagens. Mas antes que isso aconteça, tenho algumas dicas de leitura que podem me redimir. São livros fluídos, deliciosos e íntimos, como só uma mulher sabe fazer. Foram os meus destaques de 2017. Espero que gostem.

1. Contos completos, Clarice Lispector

Este é um livro para morar na sua mesa de cabeceira e ter com ele um longo relacionamento íntimo. Os contos estão organizados em ordem cronológica, de forma que dá para perceber o desenvolvimento do estilo de Clarice ao longo do tempo. Curiosamente, os meus preferidos são os que ela escreveu ainda muito jovem: Viagem a Petrópolis e Feliz Aniversário.

2. O Conto da Aia, Margaret Atwood

Por que todo mundo está falando sobre o Conto de Aia? Porque a autora é um gênio. É maravilhoso que ela esteja finalmente ganhando destaque nas livrarias depois de ter o livro adaptado para a TV. Outro livro que deve bombar em breve é Alias Grace, que também vai virar série. Em resumo, ler tudo da Margaret Atwood é excelente objetivo de vida.

3. Resta um, Isabela Noronha

Isabela conta a história de uma mãe em busca de sua filha perdida. Acompanhamos o processo do luto-que-não-é-um-luto, a esperança que não morre nunca, tudo aquilo que a gente já sabe que é terrível, mas é ainda pior quando se olha de perto. O livro tem uma força de suspense muito poderosa. Grudei e não larguei mais.

4. Isso também vai passar, Milena Busquets

Este é um livro sobre luto, muito sincero e delicado. O título é a melhor sinopse. Apesar da dor inacreditável de perder a mãe, a personagem está passando o verão na praia, onde a acompanhamos viver um dia depois do outro e outro depois do outro…

5. Vida querida, Alice Munro

“Mestre contemporânea dos contos”, Alice Munro venceu o Nobel de Literatura em 2013. Particularmente, eu fico sempre surpresa com a habilidade dela em contar uma vida inteira dentro de um conto. E se ela não mostra, parece que mostrou, parece que você viu tudo. Vida querida tem uma grande parte autobiográfica, o que a diferencia dos outros livros da autora.

6. Operação impensável, Vanessa Barbara

O livro conta o breve curso de uma história de amor até a sua inevitável derrocada. O estilo levemente profundo e altamente irônico nos livros da Vanessa é o que a torna tão irresistível. Não é à toa que ela foi considerada pela revista Granta como um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros. Para ler imediatamente.

7. Dias de abandono, Elena Ferrante

Elena Ferrante dominou o meu ano. Desde janeiro, eu li tudo o que ela escreveu e agora sinto um buraco no meu estômago, tenho fome de mais. Dias de Abandono é um de seus trabalhos mais elogiados e pode ser uma boa porta de entrada no universo da autora. Retrata a dor de uma separação com muita sinceridade, dor e alguma dose de humor. Vale também investir na série napolitana, formada por quatro livros: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida. Já são bem mais de sete livros nessa lista. Acho melhor me despedir. Boa leitura!

Romances de Elena Ferrante guiam passeio por becos e praias de Nápoles

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Amigas tiram fotos da baía de Nápoles, com o Vesúvio ao fundo, na rampa SantAntonio a Posillipo

Amigas tiram fotos da baía de Nápoles, com o Vesúvio ao fundo, na rampa SantAntonio a Posillipo

Iara Biderman, na Folha de S.Paulo

Descobrir Nápoles seguindo os passos da escritora Elena Ferrante ou de suas personagens é uma aventura proveitosa até para quem ainda não leu os livros de sua elogiada série napolitana.

Os quatro romances (“A Amiga Genial, “História do Novo Sobrenome, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida, publicados no Brasil pela Biblioteca Azul) acompanham a vida das amigas Lenu e Lila, nascidas no fim da Segunda Guerra em um bairro da periferia de Nápoles.

Lenu, a narradora, tenta superar os limites impostos pela pobreza do bairro e se tornar uma escritora -enquanto Lila, a amiga audaciosa, manipula a vida de Lenu e de todos os vizinhos. No meio disso, o leitor mergulha na história de Nápoles, da Itália e de acontecimentos que definiram o mundo de hoje, como o feminismo, a luta de classes e o crime organizado.

Segui-las por ruas e becos de Nápoles é a melhor forma de perceber a marca da cidade, o contraste entre periferia e centro, interior e mar, riqueza e miséria. Ao mesmo tempo, é uma viagem genial caminhar com as amigas pelo caos napolitano e os marcos turísticos da capital de Campânia, no sul da Itália.

Não à toa os livros se tornaram um fenômeno mundial de vendas, e o primeiro volume já está sendo adaptado para a televisão pela HBO, que deve estrear uma minissérie em 2018.

O nome verdadeiro da autora, porém, continua um mistério: Elena Ferrante é um pseudônimo, a autora se recusa a aparecer e só concede raras entrevistas por e-mail.

ONDE O TURISTA NÃO VAI

O melhor jeito de entrar na Nápoles de Ferrante é por trem. Da janela, você busca avistar a estação central, mas tudo que vê é a periferia, a mesma de qualquer cidade, com seus prédios cinzentos, torres elétricas e muros de pedra, como descreve a autora.

Gianturco, um ponto antes da estação central de Nápoles, é a parada no cenário onde as protagonistas Lila e Lenu nasceram, cresceram, fugiram ou ficaram. Saindo, à direita, chega-se ao túnel que as amigas percorreram quando, pela primeira vez, tentaram passar os limites do bairro.

Uma das bocas do túnel está fechada para carros. Há alguns anos era usado para festas e shows alternativos, mas os eventos foram proibidos pela prefeitura. Hoje, só há escuridão, umidade e grafites.

Na saída estende-se a avenida Emanuele Gianturco, o estradão. Pouco depois de se passar por um posto de gasolina (será ainda o mesmo em que o personagem Antonio Cappuccio, filho da viúva louca, trabalhava?), vira-se à direita, para entrar no coração do bairro: Rione Luzzatti, tão difícil de chegar (para os turistas) quanto de sair (para os personagens).

Praia no vilarejo de SantAngelo, onde o passeio é subir pelas ruas formadas por escadas de pedra, rente às casas brancas e floridas.

Praia no vilarejo de SantAngelo, onde o passeio é subir pelas ruas formadas por escadas de pedra, rente às casas brancas e floridas.

Os prédios de quatro andares de Luzzatti foram construídos para a população sem recursos desabrigada após a Segunda Guerra. Das fábricas erguidas por lá só restam os muros semiarruinados e, no hoje bairro-dormitório, ruas praticamente desertas.

Um dos seres vivos encontrados pela reportagem é o carroceiro Enzo. Nos primeiros livros da série, o também carroceiro Enzo Scanno vendia verduras.

O Enzo real vende peixes e frutos do mar, mas só parou para descansar em frente à igreja da Sagrada Família, onde Lila se casou. Não há para quem vender seus pescados.

Ele nunca ouviu falar em Ferrante ou nos seus livros. “Não sou uma pessoa que lê”, desculpa-se, como provavelmente faria qualquer personagem do bairro da ficção.

Quando a narradora Lenu já é uma escritora consagrada e encontra Lila pela última vez, em 2005, percebe que o bairro permanecera idêntico e, no entanto, a paisagem em torno tinha mudado: “No lugar dos pântanos e da velha fábrica de conservas, há o brilho de espigões de vidro”. É mesmo o que se vê agora para além dos muros da igreja.

Rione Luzzatti satisfaz o fetiche de ver “a casa” dos personagens e permite ao leitor mais aficionado passar pelo túnel de volta ao estradão da Emanuele Gianturco que levaria as amigas ao mar. Mas, como na discussão sobre a verdadeira identidade de Elena Ferrante, talvez aqui seja mais importante a ficção do que a realidade.

BECOS E VIELAS

Para completar a imagem do bairro arquetípico descrito nos livros, o melhor é pegar de volta o trem na linha 2 da rede metropolitana até a estação Cavour, duas paradas após a Gianturco.

Dali chega-se a Sanità, bairro popular onde artesãos, comerciantes, estudantes, artistas e camorristas convivem em ruas estreitas e caóticas.

mapa

Ao entrar pela rua Vergini, ocupada por uma feira livre diária, o primeiro impulso dos leitores da série napolitana é buscar uma criança perdida entre as barracas de frutas, verduras, panelas, roupas e sapatos.

É fácil se perder em Sanità –e isso faz parte do jogo. Ao perambular sem destino pelas ruas, cruza-se com marceneiros ou sapateiros conversando em frente a pequenos negócios, com moradoras que estendem seus varais até a janela da vizinha da frente e com o som incompreensível do dialeto napolitano.

Ao final da via Vergini, um desvio à direita leva à praça Miracoli, de onde se avista do alto o emaranhado de becos e vielas do bairro. Descendo por um desses “vicos”, em direção a via Sanità, chega-se à igreja San Vicenzo.
Ao contrário da fechada e vazia Sagrada Família, em Rione Luzzatti, esta está sempre aberta e cheia, e não é difícil topar com um casamento.

A visão dos convidados em trajes de festa sob um calor de 40 graus remete à cerimônia de casamento do livro. A impressão é mais forte quando se percebe, na praça da igreja, um monumento a um jovem morto em uma disputa da Camorra (máfia napolitana). Quando Lenu volta ao bairro, em 2005, encontra o cadáver de Gigliola Spagnuolo, mulher do camorrista Michele Solara, no canteiro ao lado da igreja.

Barquinhos levam os turistas de SantAngelo até a praia de Maronti por três euros (para uma travessia de três minutos), mas dá para ir caminhando numa  escalada de cerca de uns 20 minutos.

Barquinhos levam os turistas de SantAngelo até a praia de Maronti por três euros (para uma travessia de três minutos), mas dá para ir caminhando numa escalada de cerca de uns 20 minutos.

O bar-confeitaria da família Solara talvez não exista, mas dá para sentir o gosto de sfogliatelles e canolis apreciados pelos personagens de Ferrante (e por toda a torcida do Napoli) na Poppella.

Hoje em uma pequena loja moderna na via Arena Sanità, a Poppella foi inaugurada no bairro na década de 1920 e era frequentada pelo comediante napolitano Totó (1898-1967), uma das três figuras mais cultuadas da cidade (as outras são San Gennaro e Diego Maradona, que jogou no clube local).

No início deste ano, dois motociclistas encapuzados atiraram na vitrine da confeitaria. Não se sabe se foi coisa dos Solara

Cinco coisas que sabemos sobre a misteriosa escritora Elena Ferrante

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Capa do livro "A Amiga Genial" (2011) Foto: Globo / Divulgação

Capa do livro “A Amiga Genial” (2011) Foto: Globo / Divulgação

 

Próximo livro da escritora de identidade desconhecida chega às livrarias nos próximos dias

Publicado no Zero Hora

1) Elena Ferrante mantém sua identidade secreta desde a publicação de seu primeiro livro, Um Amor Incômodo, em 1992. Nos anos seguintes, publicaria Dias de Abandono (2002), La Frantumaglia (2003), A Filha Perdida (2006), Uma Noite na Praia (2007) e a Tetralogia Napolitana: A Amiga Genial (2011), História do Novo Sobrenome (2012), História de Quem Foge e de Quem Fica (2013) e História da Menina Perdida (2014).

2) Dois dos seus romances já foram adaptados para o cinema: Um Amor Incômodo, dirigido por Mario Martone em 1995, e Dias de Abandono, dirigido por Roberto Faenza em 2005.

3) A rede americana HBO e a emissora italiana RAI anunciaram em março que vão coproduzir uma série de oito episódios inspirada na Tetralogia Napolitana. As filmagens devem começar ainda neste ano.

4) Em outubro do ano passado, o repórter investigativo Claudio Gatti publicou uma reportagem baseada em análise de dados financeiros que indicava que a tradutora Anita Raja é a verdadeira autora por trás do pseudônimo Elena Ferrante. O artigo foi bastante criticado no mundo literário pela indevida violação de privacidade da escritora.

5) Em 2016, Elena Ferrante foi escolhida uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista Time, na categoria Artistas. No lugar da foto, a revista usou a capa de um de seus livros.

Série baseada nos livros de Elena Ferrante é comprada pela HBO

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Capa de 'A amiga genial', de Elena Ferrante - Reprodução

Capa de ‘A amiga genial’, de Elena Ferrante – Reprodução

 

Produção italiana será dirigida por Saverio Costanzo

Publicado em O Globo

RIO – A adaptação da tetralogia napolitana de Elena Ferrante para a TV já tem um lar. A HBO anunciou nesta quinta-feira que adquiriu os direitos de exibição da série, capitaneada pelas produtoras italianas Wildside (também responsável por “The young pope”) e Fandango. O primeiro livro, “A amiga genial”, será transformado em uma minissérie de oito episódios dirigidos por Saverio Costanzo.

As filmagens começam no meio do ano na Itália — a série será toda falada em italiano, aliás. As atrizes que interpretarão as amigas Lenu e Lila ainda não foram escaladas. No momento, Costanzo trabalha no roteiro ao lado da própria Elena Ferrante, além dos roteiristas italianos Francesco Piccolo (“Habemus papam”) e Laura Paolucci (“Gomorrah”).

“A série vai explorar a complicada intensidade da amizade entre mulheres”, disse Casey Bloys, presidente de programação do canal americano, que divulgou a sinopse da primeira temporada:

“Quando sua amiga mais importante desaparece sem deixar rastros, Elena Greco, agora uma mulher idosa, imersa em uma casa cheia de livros, liga o computador e começa a escrever a história da amizade das duas. Ela conheceu Raffaella Cerullo, a quem ela sempre chamou de Lila, no primeiro dia de aula em 1950. Passada na perigosa e fascinante Nápoles, a história das duas cobre mais de 60 anos da vida delas, tentando descrever o mistério de Lila, a amiga genial de Elena e, de certa forma, sua pior inimiga”.

Ao todo, a série deve ter 32 episódios de 50 minutos cada, que cobrirão os quatro livros. Recentemente, um jornalista italiano causou polêmica ao investigar transações bancárias na tentativa de descortinar o verdadeiro nome por trás do fenômeno, chegando até a tradutora Anita Raja. A informação nunca foi confirmada.

“As personagens são tão bem contadas, com tantos detalhes, que todos nos identificamos com elas e com o desejo de elas se emanciparem. Elena Ferrante deu um jeito de contar em primeira pessoa coisas que são muito íntimas, arriscadas, coisas que todos nós sentimos, mas que precisam de muita coragem para se admitir”, disse Costanzo.

Segundo o diretor, a série será feita “como um grande filme”. “Para mim a diferença entre a TV e o cinema é muito sutil. As grandes séries atuais são cinematográficas”.

O quarto e último volume da saga de Elena, “A história da menina perdida”, será lançado no Brasil ainda no primeiro semestre deste ano pela editora Biblioteca Azul.

Conheça o fenômeno Elena Ferrante, que vendeu 100 mil livros no país

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Filme 'Dias de abandono' foi baseado em livro de Ferrante (foto: Paris Filmes/Divulgação)

Filme ‘Dias de abandono’ foi baseado em livro de Ferrante (foto: Paris Filmes/Divulgação)

 

Escritora italiana, que escreve sob pseudônimo, vai ter mais três lançamentos no Brasil. Duas obras foram adaptadas para o cinema

Publicado no UAI

No mundo de superexposição em que vivemos, é curioso notar que uma escritora que se mantém anônima há mais de duas décadas tornou-se um dos maiores fenômenos literários dos últimos tempos. Não se sabe muito sobre a italiana Elena Ferrante. Todos os aspectos de sua identidade permanecem encobertos pelo véu do mistério. Mas há algumas certezas. Uma delas é sua escrita poderosa e viciante. A outra é que seus livros vendem. E vendem muito.

Estima-se que sua obra mais célebre, a chamada tetralogia napolitana, já vendeu mais de 2 milhões de exemplares no mundo. O Brasil não fica fora desse contexto. Publicados pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, os três primeiros volumes da série – A amiga genial, História do novo sobrenome e História de quem foge e de quem fica – e o romance Dias de abandono alcançaram a marca de 94 mil cópias vendidas.

O quarto e último capítulo da tetralogia, História da menina perdida, deve ser lançado no primeiro semestre do ano que vem. Nos últimos meses, o mercado brasileiro foi inundado de livros de Ferrante. Quem entrar nas maiores livrarias do país encontrará os títulos A filha perdida e Uma noite na praia (infantil), ambos da editora Intrínseca. Desde que a italiana estreou no Brasil, em maio de 2015, já são seis obras publicadas no país – pelo menos outras três serão lançadas em 2017.

O que explica todo esse frenesi em torno de Ferrante? “Tem a ver com a narrativa dela, bastante realista, e sua habilidade muito grande de contar uma história. É uma narradora mulher que traz para o centro da literatura contemporânea alguém que está de igual para igual com outros escritores. Fora isso, também há o fato de que ela se mantém alheia como pessoa, o que acaba gerando a discussão sobre o papel do escritor”, explica Thiago Barbalho, editor dos livros da italiana na Biblioteca Azul.

O selo da Globo largou na frente ao conquistar o direito de publicar a popular tetralogia napolitana, mas em 2016 ganhou a concorrência da Intrínseca, que, além de A filha perdida e Uma noite na praia, prepara o lançamento de mais dois títulos para o ano que vem. O primeiro, L’amore molesto, está previsto para março, enquanto o segundo, a coletânea dita autobiográfica La frantumaglia, ainda não tem data definida.

“Ela chegou ao Brasil colocada em um degrauzinho um pouco acima do mundo comercial, mas o modo como escreve e a temática dos livros são muito acessíveis. Se você tira a camada literária de cuidado e refinamento, sobra uma história fantástica que atinge muita gente”, afirma Danielle Machado, editora de títulos internacionais da Intrínseca.

FAMA Elena Ferrante lançou seu primeiro livro, o premiado L’amore molesto, em 1992. O segundo, Dias de abandono, saiu 10 anos depois. Ambos foram adaptados para o cinema e os filmes exibidos, respectivamente, nos festivais de Cannes e Veneza, contribuindo para aumentar a fama da escritora em seu país.

Ela deixou de ser fenômeno italiano para se tornar global em 2011, com a publicação de A amiga genial, que recebeu críticas bastante positivas nos Estados Unidos e deu início à Ferrante fever (“febre de Ferrante”) em solo norte-americano. A tetralogia conta a história de duas amigas da periferia de Nápoles, Lenù (apelido de Elena) e Lila, escrita pela primeira depois do súbito desaparecimento da segunda.

A narrativa começa com Lenù recebendo a notícia de que Lila havia sumido sem deixar rastros, cumprindo um antigo desejo de “desmaterializar-se”. Irritada, decide colocar “em preto no branco” toda a trajetória dessa amizade – da primeira infância à velhice.

Como pano de fundo, Ferrante descreve as tensões enfrentadas pela Itália e por Nápoles no pós-guerra, como os anos de chumbo, o fascismo, o comunismo e o crescimento da Camorra e a tentativa das duas amigas, cada uma a seu modo, de se libertar da vida de miséria, exploração e violência à qual nasceram condenadas.

Tudo isso é impulsionado por um estilo claro e intenso. Sentimentos e fatos do cotidiano são narrados com franqueza, realismo e, coisa rara na história da literatura, sob o ponto de vista feminino. “É uma narradora que traz a discussão sobre a figura feminina no mundo. A complexidade da escrita dela é parte da razão desse alcance tão grande”, acrescenta Thiago Barbalho.

IDENTIDADE Seja por timidez, traço característico da personagem Lenù, seja por dizer que seus livros devem falar por si sós, Ferrante não revela sua verdadeira identidade. Só aceita entrevistas por e-mail, não participa de eventos para promover suas obras. Sobre ela, sabe-se quase nada. Acredita-se que tenha nascido em Nápoles, pois narra com riqueza de detalhes a vida na periferia da cidade, e que seja mulher, por usar a mesma precisão para falar sobre as angústias do universo feminino.

O mistério em torno da italiana acabou se tornando um dos motivos de seu sucesso e, ironicamente, um apelo publicitário que atrai leitores – muitas vezes mais do que a própria história narrada nos romances. “Claro que tudo pode ser visto como mercadológico, mas é algo decidido desde o começo. Não acho que seja marketing, é uma decisão até muito arriscada”, diz Barbalho, da Biblioteca Azul.

A busca pela identidade da autora atingiu o auge em outubro, quando o jornalista italiano Claudio Gatti, do diário econômico Il Sole 24 Ore, publicou que Ferrante seria Anita Raja, tradutora que colabora com a Edizione E/O, a mesma editora da escritora. O repórter descobriu que Raja recebera remunerações incompatíveis com o trabalho de tradução, pagamentos que cresceram paralelamente ao aumento do sucesso de Ferrante. Seu marido, o escritor napolitano Domenico Starnone, já havia sido apontado anteriormente como a possível Ferrante, devido à similaridade de estilos. As conclusões da reportagem foram rechaçadas pela Edizione E/O, que criticou a suposta intromissão do jornalista, assim como fãs no mundo inteiro.

Para o diretor Roberto Faenza, que adaptou Dias de abandono para o cinema, não há mal nenhum na investigação conduzida por Gatti. “Toda a intelligentsia italiana se colocou contra esse jornalista, mas o público estava curioso para saber quem é Ferrante. Então, se alguém responde, não me parece uma coisa feia”, diz o diretor.

Faenza conta que teve uma “relação estranha” com aquela que define como uma “grandíssima escritora”. Segundo o cineasta, a Edizione E/O lhe pedira para enviar o filme à autora antes do lançamento, e ela lhe respondeu com duas ou três cartas batidas à máquina. Sem assinatura.

“Quando se chega à paranoia de não assinar porque pensa que, pela análise da assinatura alguém descobre se é masculina ou feminina, não me parece uma coisa bela. Por isso sou da opinião de que esse jornalista fez bem”, acrescenta.

O fato inegável é que a suposta revelação da identidade de Ferrante aumentou o interesse em torno de sua obra e mostrou que os leitores querem e, ao mesmo tempo, não querem saber quem está por trás do pseudônimo. Se Lenù escreve para não deixar que a amiga Lila desapareça, mencionar o real nome de Elena Ferrante poderia fazê-la sumir para sempre.

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