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Nova HQ da Marvel quer inspirar uma geração de mulheres cientistas e engenheiras

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Pouco se sabe, na história que se ensina na escola, sobre personagens femininas que fizeram a diferença nos rumos do nosso mundo. Para incentivar e inspirar uma nova geração de cientistas e engenheiras

Brunella Nunes, no Razões para Acreditar

a nova série de HQ’s da Marvel vai incluir a trajetória de mulheres reais dentro destes campos, abrindo espaço para experts em matemática e tecnologia, como forma de inspirar uma nova geração.

Batizada de The Unstoppable Wasp, a história em quadrinho escrita por Jeremy Whitley é ilustrada pela artista Elsa Charretier, terá uma heroína principal chamada Nadia Pym, uma super cientista adolescente que passou metade de sua vida numa instalação de treinamento soviético. Com asas que mudam de tamanho, ela está pronta para voar.

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Segundo Whitley, eles notaram que muitas mulheres neste campo de atuação estavam não só ajudando a moldar nosso futuro, como também eram leitoras assíduas das HQ’s, então nada melhor do que incluí-las nas páginas para celebrar a ciência e a inovação.

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A primeira edição traz a paleontologista Rachel Silverstein, que estuda fósseis de elefantes extintos, e a estudante PhD em química analítica Marina Chanidou. A Marvel afirmou que estará sempre em busca de mais histórias para incluir na série, deixando aberto o contato com as leitoras que queiram participar.

Enquanto isso, no Brasil, infelizmente cientistas estão deixando o país por falta de recursos e investimento. Quem sabe a cena não muda…Nadia Pym, nos salve!

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7 livros que mostram às meninas que elas podem ser o que quiserem

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Publicado no Catraca Livre

Os livros são uma ótima forma de ampliar o repertório das crianças, de palavras, mas também de universos, ideias e realidades. A seguir, compartilhamos uma seleção feita pelo site Garimpo Miudo, com livros com protagonistas meninas, para crianças já alfabetizadas, livros para empoderar e mostrar que as meninas podem chegar onde desejarem. Confira:

Reinações de Narizinho

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Pinóquio, Peter Pan, Tom Sawyer: por que tantos clássicos infantis narram a vida de um personagem do sexo masculino? Quem seria o equivalente feminino? No Brasil, certamente, é Emília, de Monteiro Lobato, que aparece pela primeira vez em 1920, no livro “A menina do narizinho arrebitado”, e ganha corpo em 1931, quando foi publicado “Reinações de Narizinho”, continuação ampliada de seu precursor. Em uma época em que não eram bem-vindos nem os adultos questionadores (enquanto o Brasil era governado por Getúlio, o fascismo e nazismo ascendiam pelo mundo), dar voz a uma personagem criança, mulher e não humana, era triplamente transgressor. Monteiro Lobato faz com Emília mais do que inaugurar uma nova estética da literatura infantil, ele funda um novo jeito de ser menina.

A faladeira e atrevida boneca Emília eternizou referenciais fortíssimos de desobediência civil, liberdade e contravenção. Dizer isso já justificaria o tão sabido potencial de clássico revisitado dos livros em que aparece, mas já que aqui o assunto é o protagonismo feminino, nunca é demais revisitar também a personalidade inquieta de Emília, capaz de dizer coisas como “Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia”; ou a consagrada definição da boneca do que é a vida: “Viver é isso. É um dorme e acorda (…) A vida da gente neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.”

Engolir uma pílula falante do Doutor Caramujo já era fantasia demais para o ambiente moralizante, realístico e altamente escolarizado em que o livro infantil surgiu, mas a partir do momento em que a boneca Emília recebe mais visibilidade do que a própria Narizinho, que dá título do livro, algo se transforma para sempre no paradigma social de representação feminina. Afinal, a uma menina inventada que nem humana era, foi possível perguntar e perguntar de novo, se a resposta não fosse suficiente.

É curioso perceber que apensar de o Sítio do Picapau Amarelo ser minado dos personagens mais diversos, é Emília que Monteiro Lobato escolhe para dizer o que pensa. É com a voz dela que ele faz as suas reclamações sobre a sociedade. Para a crítica Laura Sandroni, no livro “De Lobato a Bojunga”, Emília é o alter-ego de Lobato. No artigo “Independência ou morte em Emília”, publicado na Revista Emília (não por acaso, batizada em sua homenagem), a jornalista Gabriela Romeu eleva a personalidade curiosa de Emília ao grau de reinvenção da realidade. “Desiludido do mundo dos adultos – “bichos sem graça” –, Lobato sonhava há algum tempo em fazer um livro onde as crianças pudessem morar. Criou o Sítio do Picapau Amarelo, um universo que mistura o real e o maravilhoso em uma só realidade literária. Para as crianças, acreditava o escritor, ‘um livro é todo um mundo’. No mundo de Lobato, a fantasia iluminou a realidade”.

Píppi Meialonga

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A protagonista deste livro é uma espécie de Emília brasileira, mas é, na verdade, anterior a ela. A sueca Astrid Lindgren escreveu Píppi Långstrump (no Brasil, traduzido como Píppi Meialonga) em 1945, para presentear a filha de dez anos que estava doente.

Nada usual para a época em que foi criada a personagem, Píppi é uma garotinha de nove anos que não tem pai e nem mãe e que fala de si mesma sempre em tom altivo e seguro. “Sou uma achadeira. O mundo é cheio de coisas que estão esperando para serem encontrados”, ela diz.

Píppi vive somente na companhia de um cavalo e um macaquinho; cozinha sua própria comida, faz suas próprias roupas, bota policiais para correr, enfrenta meninos mais velhos e valentões, não dá ouvidos a nenhum conselho de adulto e fala o que dá na cabeça. Ousadia pura, mas não esvaziada de sentido, se pensarmos que o livro nasceu no período pós-guerra e contesta um histórico de tradição paternalista em um momento de fragilidade social e reconstrução de paradigmas. Segundo Emy Beseghi, Professora de Literatura Infantil da Faculdade de Ciências da Formação, da Universitá degli Studi di Bologna, “A escandalosa Píppi, a irredutível moleca, a irreverente, irônica e contestadora Píppi, é sempre atual. Um clássico ao qual se retorna continuamente”. Para ela, é um livro que “não conhece o desgaste do tempo”.

Sucesso editorial que foi, a historia de Píppi se tornou uma série de livros amplamente traduzidos, longa-metragem e animação. No Brasil, chegou pela Companhia das Letras em 2001, e já outras duas edições nos dois anos seguintes. Píppi representa a gênese de uma infância que considera meninas e meninos igualmente capazes, e foi um decisivo divisor de águas na história da representação da criança, oferecendo novíssimos e libertários referenciais do que é ser menina.

Luna Clara & Apollo 11

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O nome de Adriana Falcão no território dos livros para crianças está quase que automaticamente ligado a Mania de Explicação, mas este Luna Clara & Apollo 11 é, pra mim, o seu grande feito. Tudo o que outro tem de lirismo e poesia, esse tem de ficção pura. É literatura das maiores: tem narrativa saborosa, personagens cativantes, um cenário onírico e diálogos deliciosos. Um texto que se sustenta sozinho, pega o leitor pela mão e não deixa que ele fuja do livro. E quem faz da história tudo isso é Luna Clara. “Os acontecimentos começaram a acontecer feito loucos na vida de Luna Clara, justo na vida dela, uma menina que tinha uma vida meio besta”.

Incluir uma história de ficção tão recente numa lista em que figuram exemplos do começo do século XX pode parecer algo fora de lugar. No entanto, para se convencer de que Luna Clara é uma heroína das maiores basta se deixar seduzir pelo texto que vai na orelha do livro, assinado por Ziraldo: “Adriana aqui reinventa não só a narrativa como a linguagem. Ela reinventa a maneira de contar uma história. E faz isso com mão de mestre.

Luna Clara tem 12 anos e é uma menina incomum cercada de pessoas e coisas incomuns. Seus parentes têm nomes como Aventura, Equinócio, Erudito, Odisseia da Paixão e Divina Comédia. Ela tem um avô que perdeu as histórias que colecionou a vida toda e um pai que carrega a chuva em cima da cabeça. No meio do caminho, ela descobre que o amor pode estar em alguém cuja maior vontade na vida é querer alguma coisa (sem spoilers!). Onde ela mora, os lugares têm nomes como Desatino do Sul e Desatino do Norte, e nenhuma lei ou regra do mundo de cá faz sentido lá, onde as festas podem durar para sempre.

E é nesse cenário de sonho e fantasia que acontece a desconstrução da imagem da menina indefesa e frágil – Luna Clara é forte, atinada e decidida. O mote do enredo é a busca da menina pelo pai, Doravante, que se perdeu de sua mãe por conta de um infortúnio do destino. “Luna Clara vive seus dias com um pai contado em vez de tido”. Mas, longe de resvalar em qualquer sentimentalismo ou retratar a fragilidade de uma criança sem pai, a narrativa se constrói ao sabor de grandes clássicos, como Pinóquio e Peter Pan, em que a criança amadurece, ganha corpo e sabedoria ao longo das aventuras do caminho – mas dessa vez, com uma menina no centro da história. E isso muda tudo. Um livro que prova que 327 páginas é, sim, tamanho de livro pra criança.

Matilda

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Empoderamento infantil. É com este livro que o aclamado Road Dahl consegue elevar ao grau máximo o desejo de retratar a criança como um ser autônomo, completo e capaz. O livro recebeu inúmeras edições no Brasil e foi adaptado para o cinema em 1996: um clássico do imaginário infantil dos anos 90, repetido à exaustão nas sessões de cinema em casa. Mas, se à época, ninguém parava para pensar no inusitado de uma criança renegada pelos pais ter tanta autoconfiança, hoje, pensamos em Matilda quando queremos dizer a uma menina que vencer na contramão é possíve

A personagem é filha de pai e mãe que só valorizam o filho homem e não dão atenção para nada relacionado a ela. Proibida de ler e escrever, Matilda passa a frequentar a biblioteca para buscar o que lhe era negado. É lá que ela conhece C.S. Lewis, Tolkien, Burnett, e com eles descobre novas fechaduras por onde observar o mundo.

Como é comum nos livros de Road Dalh, em Matilda, os adultos são representados do modo como as crianças o vêem – quase sempre impacientes, sem trato com os pequenos e um tanto cegos e tolos. Nesse cenário, uma personagem como Matilda revoluciona a imagem da criança como um ser dependente do adulto: ela é astuta e superdotada em um mundo onde ninguém repara em suas habilidades. Símbolo da autossuficiência infantil, Matilda rejeita os planos que fazem para o seu futuro, e cria ela mesma seus próprios modos de estar no mundo.

Alice no país das maravilhas/Alice Através do Espelho

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Falar de Alice para aficionados por literatura é quase redundância. Falar de Alice para quem gosta ou estuda literatura infantil, então, aí já é pleonasmo vicioso. Brincadeiras à parte, a questão é que a menina curiosa que segue um coelho branco para descobrir a fatia maravilhosa do mundo, hoje, funciona como metáfora para o desejo de transcender a realidade – afinal, já sabemos, ela não basta. Com Alice, aprendemos que podemos ir além do espelho e da realidade conhecida; podemos vasculhar o inconsciente, escolher os nossos próprios buracos onde vale a pena mergulhar, desafiar as nossas próprias rainhas vermelhas, desviar da normalidade com nossos próprios Chapeleiros Malucos.

Impressiona que um livro de 1865 (Alice Através do Espelho foi escrito seis anos antes do primeiro livro, Alice no País das Maravilhas). Mas não é por acaso que Alice é heroína. Quando a Rainha de Copas ordena que “Cortem-lhe a cabeça!” (quem não se lembra?), ela não recua, não precisa de ninguém para protegê-la, sua proteção é sua própria esperteza e habilidade de argumentação. É uma personagem que sabe escolher, tomar decisões: “Deveria saber em que direção está indo mesmo que não saiba o próprio nome!”, ela diz, em Alice Através do Espelho.

Um livro como esse nas mãos de uma criança é uma porta para as possibilidades. E aí, claro, não se pode escolher quais, o pacote vem inteiro, com os ônus e os bônus do confronto com a realidade. Como Alice, a criança talvez triplique de tamanho, nem que seja pelo caminho do contato com o âmago da condição humana.

Procurando firme

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Publicado pela primeira vez em 1984 (Nova Fronteira), Procurando Firme já foi editado outras duas vezes, em 1997 (Ática) e 2009 (Salamandra). Ruth Rocha conta, aqui, a história de uma princesa diferente das outras por um único motivo: ela não quer ser princesa. No lugar de ficar no castelo e esperar pelo príncipe, ela quer sair para conhecer o mundo.

Até mesmo seu nome, “Linda Flor”, faz parte da intenção da autora de ironizar a imagem da mulher delicada e dócil, ao mesmo tempo em que apresenta para o pequeno leitor um recorte do pensamento feminista. Todo composto na forma de um grande diálogo com quem está lendo e cheio de metalinguagem, o livro retoma a tradição oral dos contos de fada para questionar padrões diversos – da mulher, da família, do próprio conceito de cultura e intelectualidade. Um dos diálogos chama a atenção pela metalinguagem sutil e precisa com que Ruth Rocha caracteriza a maneira de se autodefinir de Linda Flor:

– Maviosa?

– É, maviosa, melodiosa. Eu sei que essa palavra não se usa mais, mas se eu não usar umas palavras bonitas, meio difíceis, vão ficar dizendo que eu não incentivo a cultura dos leitores.

Linda Flor é uma antiprincesa, questiona não só os porquês de corresponder à imagem que a sociedade faz de uma menina, mas também as referências européias normalmente associadas às princesas dos livros infantis. Em certo momento do livro, ela resolve adotar o visual africano, depois de conhecer a Africolândia.

Malala, a menina que queria ir para a escola

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A protagonista deste livro é real, quase foi morta por querer ir à escola, mas por um misto de desobediência civil e resistência e uma porção considerável de sorte (em 2012, um atentado em seu ônibus escolar por pouco não tirou a sua vida), ela tem hoje 19 anos e continua na luta pela educação de meninas em seu país.

O livro, editado pela Companhia das Letrinhas em 2015 e escrito pela jornalista Adriana Carranca, é a versão infantil de Eu sou Malala, publicado um antes pela Companhia das Letras, e faz de função não didatizante de contar a história de uma pequena menina paquistanesa em um livro-reportagem documental. Parece ficção, mas é realidade latente, boa de se mostrar desde cedo para as crianças, afinal, trata-se de um livro não só sobre criança, para para a criança.

Malala nasceu no vale do Swat, no Paquistão, um lugar dominado pelo grupo extremista Talibã. Um lugar onde música e literatura são proibidos, onde o nascimento de um filho homem é festejado enquanto o de uma menina não é sequer anunciado, onde as mulheres não podem andar nas ruas e somente meninos podem frequentar a escola. Então, armada somente com seu discurso incisivo sobre a democratização do ensino, Malala resolveu encampar uma luta incansável pelo direito a uma educação de que seu país a privava

Longe de questionar uma cultura onde somos nós o estrangeiro, o livro coloca a História (essa mesma, com letra maiúscula) em perspectiva para mostrar as possibilidades de transformação que o acesso à palavra ofereceu a uma menina. As ilustrações de Bruna Assis Brasil são parte fundamental dessa proposta, pois representam uma realidade da qual conhecemos muito pouco ou quase nada, acompanhadas de notas de rodapé que explicam para os pequenos leitores termos como “dupatta”, “shawl”, “burca” e “niqab”, diferentes nomes para a vestimenta que as mulheres de lá são obrigadas a usar.

Um livro para discutir não só a representatividade feminina, mas também para dimensionar a cultura, o livro, a palavra por si só. Em 2014, Malala foi a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz.

Com informações de Garimpo Miudo.

#LeiaMulheres: Como o mercado editorial perpetua a desigualdade de gênero na literatura

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Ana Beatriz Rosa, no Brasil Post

Basta uma olhada rápida nas prateleiras para perceber: quantas são as autoras que você conhece? Ou melhor, quantos são os livros escritos por mulheres que você já leu?

Provavelmente esse número será muito menor se comparado ao de autores homens, e isso porque há uma grande diferença de representatividade de gênero no mercado editorial.

2014 foi o ano em que este tema foi bastante discutido.

Foi o ano em que foi publicada uma antologia que listou 101 autores contemporâneos essenciais, mas entre eles, apenas 14 eram mulheres.

Foi o ano em que a hashtag #LeiaMulheres foi criada.

Iniciado pela ilustradora e jornalista britânica Joanna Wash, o #LeiaMulheres (#ReadWomen2014) alcançou diversos países.

Aqui no Brasil, o trio de amigas Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques criou um clube de leitura inspirado no movimento. A ideia dos clubes começou com elas em São Paulo e se espalhou para 21 cidades do País, com participação livre e gratuita da comunidade.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, as fundadoras detalham o surgimento dos clubes de leitura:

“Depois da campanha #ReadWomen, tivemos a ideia de fazer um grupo presencial para discutir literatura feita por mulheres. Começou em março de 2015, na livraria Blooks de São Paulo. Hoje são 21 cidades e 4 em implantação. Nós rechaçamos o termo ‘literatura feminina’. A literatura existe. Ela é feita por homens ou mulheres. Ela pode escrever o que ela quiser. Não existe literatura feminina porque não existe literatura masculina. Existe literatura escrita por homem, mulher, cis, trans.”

Mensalmente, o grupo se reúne para discutir o livro do mês. A escolha das obras é livre. Em São Paulo, fica a cargo das três mediadoras.

Março foi o único mês em que todos os clubes do País leram o mesmo livro para marcar o aniversário da rede e reverenciar a poeta Ana Cristina Cesar, escolhida pela Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) como homenageada.

Juliana Gomes mergulhou profundamente no universo da poeta.

“A Ana Cristina foi uma poeta polêmica. Seus poemas vão além da poesia. Ela faz uma pincelada de muitos autores. Ela é contracultura, é poeta marginal, cometeu suicídio e ficou esquecida por um tempo. Os livros estavam esgotados e agora houve um relançamento de sua obra. Ela morreu muito jovem e não teve muitas republicações. Os seus escritos são uma poesia pungente. Aqui em SP nunca tínhamos lido algo tão forte. A poesia é diferente da prosa. A Ana é tao visceral que você sente a necessidade de entrar em tudo sobre ela. Ler poesia não é fácil.”

Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, ainda, comentam sobre a escolha das obras:

“Quando finalizamos o encontro, apresentamos o próximo livro e todo mundo tem um mês para completar a leitura. O objetivo é que as escolhas sejam as mais diversas possíveis: raças, gêneros literários, países e narrativas. Mas sempre mulheres. Os encontros não são aulas nem palestras, são conversas. Queremos levantar questões sobre os livros. É uma discussão livre sobre a experiência de leitura. Em muitos casos, a narrativa tem uma relação com a vida da pessoa e ela compartilha. É bem dinâmico. Não queremos criar um elitismo cultural; pelo contrário, qualquer pessoa pode sentar e conversar — inclusive homens. Não seguimos muito as teorias literárias, podemos nos apoiar em alguns textos, mas não é esse o foco.”

Criadoras do clube de leitura de escritoras (esq-dir): Juliana Leuenroth, Michelle Henriques e Juliana Gomes

Criadoras do clube de leitura de escritoras (esq-dir): Juliana Leuenroth, Michelle Henriques e Juliana Gomes

 

Curitiba, Fortaleza, Sorocaba, Rio de Janeiro, Juiz de Fora, Salvador e Goiânia são algumas das cidades que fazem parte da rede. Quando iniciaram o clube, o trio de amigas não imaginava essa expansão.

“É muito gratificante ver que as pessoas têm interesse e apoiam a ideia. Elas têm outros compromissos, mas conseguem se encontrar à noite, durante a semana. A gente sabe que é difícil. Mas aí você vê que tem muitas pessoas querendo debater o livro com você, e é muito legal poder compartilhar.

A gente nunca sonhou grande, foi acontecendo de maneira orgânica. Isso dá o senso de comunidade e de simplicidade. Nós fomos o fio condutor para algo muito maior. Acho que criar o buzz e gerar o desconforto com essa campanha e com os dados sobre o mercado editorial foi o nosso ganho em 2015.”

Literatura e empoderamento

Em 1929, Virginia Woolf já falava das “dificuldades materiais” que a mulher sem emancipação tinha para escrever.

Em Um Teto Todo Seu, a autora usa sua ironia para traçar um painel da presença feminina na literatura, não como personagens, mas como autoras. Nos ensaios, ela faz uma análise sobre a situação das mulheres que são impedidas de ter um espaço próprio de reflexão e como o peso do machismo e da “autorização do patriarcado” recai sobre elas.

Mas será que hoje, décadas depois, o cenário editorial mudou tanto assim?

Em 2012, Regina Dalcastagné publicou o livro Literatura brasileira contemporânea — Um território contestado.

De acordo com a sua pesquisa, 72% dos autores publicados no Brasil são homens, brancos, de classe média, moradores do Rio de Janeiro e São Paulo, professores ou jornalistas.

A análise examinou 258 obras publicadas entre 1990 e 2004 pelas maiores editoras do setor – Companhia das Letras, Rocco e Record.

O texto final do livro demonstrou em números uma tendência nada surpreendente da nossa literatura tradicional atual.

Quase três quartos dos romances publicados (72,7%) foram escritos por homens; 93,9% dos autores são brancos; o local da narrativa é a metrópole em 82,6% dos casos; o contexto de 58,9% dos romances é a redemocratização, seguido da ditadura militar (21,7%).

Além de o protagonista ser, na maior parte das vezes, representado como artista ou jornalista, os negros aparecem quase sempre como marginais e as mulheres, como donas-de-casa ou objetificadas sexualmente.

Esses números revelam uma estrutura histórica em que as desigualdades continuam persistindo.

Em novembro de 2014, a autora Luisa Geisler, conhecida após ter levado o Prêmio Sesc de Literatura aos 19 anos, com um livro escrito sob pseudônimo masculino, afirmou ao jornal fluminense O Globo que escreve “como mulher, sim”.

No contexto da fala, Luisa foi contra aos “elogios sinceros” que costuma receber: os de que escreve como um homem.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a escritora questionou o local ocupado por mulheres na literatura:

“Não vejo ‘um’ papel específico, até porque não vejo ‘a’ mulher. Existem muitas literaturas, muitos papéis e muitos tipos de mulheres. É difícil determinar um papel só, se é que ele existe. Mas ao mesmo tempo, ressalto que escrever é uma arte, e a mulher não deveria ter a obrigação de ‘educar sobre o feminino’, se ela assim não quiser, em sua criação. Talvez a função que eu possa indicar seja esta: é fazer a melhor arte que ela pode.”

Sobre o machismo e o empoderamento, ela refletiu:

“O mercado editorial é tão machista quanto a maioria dos meios. Acho complicado dizer ‘X é machista’, porque no Brasil o machismo é estrutural. O mercado editorial não é uma bolha machista em um país de paz, amor e igualdade. Ele reflete problemas que existem além dele.

Escrever sempre é um ato político, mesmo que a autora (ou autor) não tenha essa intenção. A criação de uma história, de um universo, tudo isso dialoga com a realidade de maneira política. No entanto, não sei se escrever é uma forma de empoderamento. Adianta escrever se não se é lida? Escrever para o vácuo seria se empoderar? Não sei dizer. Claro que escrever como mulher é um passo em direção à igualdade, mas a ideia de empoderamento é mais abrangente. Talvez o ato de escrever por si só não seja garantia de empoderamento.”

Por isso, fica a sugestão: leia mulheres.

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