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Escola padrão Fifa ainda é sonho

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Apesar dos avanços, qualidade do ensino continua deficiente

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Rafael Moraes Moura, Estadão

De 1995 a 2013, o número de matrículas na educação básica cresceu de 43,8 milhões para 50 milhões, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No ensino superior, pulou de 1,8 milhão para 7,3 milhões. No mesmo período, a quantidade de universidades públicas federais subiu de 39 para 63. O orçamento do Ministério da Educação (MEC) saltou de R$ 33,7 bilhões (em valores corrigidos pela inflação) para R$ 101,8 bilhões, aumento de 202%.

No meio dessa sopa de números, fica evidente a constatação de que o País obteve ao longo das últimas décadas avanços significativos na inclusão de seus cidadãos no sistema educacional, conquista que esbarra em outro desafio: o da conquistar a qualidade de ensino. Apesar do progresso, a escola “padrão Fifa’’ reivindicada nas manifestações de junho de 2013, não está nem estará pronta para a próxima Copa.

Especialistas ouvidos pelo Estado apontaram uma série de medidas que precisam ser adotadas com urgência para melhorar a qualidade, da educação básica ao ensino superior: reformar o currículo escolar; aumentar a atratividade pela carreira de magistério; reduzir distorções regionais; firmar um pacto de colaboração entre os diferentes Entes federados; e garantir a eficiência da gestão.

“Temos uma escola sem infraestrutura, chata, do século19; um professor do século 20, com formação de muita teoria e pouca prática em sala de aula; e um aluno do século 21’’, analisa o diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna e ex-membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), Mozart Ramos. “Se a gente não alinhar esses tempos, vai ser difícil fazer a mudança de que necessitamos. Houve muitos avanços, mas eles não colocaram o País na velocidade de cruzeiro que precisamos.’’

No pé da lista. O Brasil permanece entre os piores países em educação, conforme avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) – com 402 pontos na média geral, ocupa o 58.º lugar entre os 65 países examinados. A média do exame é de 497 pontos. O último Índice Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) apontou que não houve avanço no ensino médio entre as avaliações de 2011 e 2013, mantendo-se em 3,7. A meta era 3,9.

Para Ramos, sem atrair os jovens para a carreira de professor será difícil promover mudança quantitativa e qualitativa na sala de aula. “Fala-se em escola em tempo integral, mas precisamos de bons professores.’’ Um currículo inovador, que dialogue com o universo dos jovens e as diferentes áreas de conhecimento, também é fundamental, pondera.

Na opinião do coordenador-geral da Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, Daniel Cara, o próximo presidente da República terá a obrigação de construir uma agenda de colaboração federativa, firmado um acordo com Estados e municípios que envolverá necessariamente o aumento dos repasses feitos pela União.

“O espírito do Plano Nacional de Educação é de maior colaboração e isso segue o espírito da Constituição de 1988. Tudo que não foi resolvido desde então vai ter de ser resolvido agora’’, diz Cara. “As escolas ‘padrão Fifa’ vão começar a se viabilizar se a União tiver vontade política de cooperar com Estados e municípios. É preciso acordar os critérios para os municípios fazerem bom uso desse recurso.’’

Sancionado pela presidente Dilma Rousseff em junho, o Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece as diretrizes das políticas públicas na área para os próximos dez anos. O texto tramitou no Congresso Nacional por três anos e meio até chegar à mesa da presidente.

Metas. Entre as metas do PNE estão a elevação do investimento em educação para 10% do PIB até 2024, a erradicação do analfabetismo, a oferta de educação em tempo integral em no mínimo 50% das escolas públicas e a elevação do número de matrículas na pós-graduação de modo a atingir a titulação anual de 60 mil mestres e 25 mil doutores.

Os recursos da exploração do pré-sal vêm sendo anunciados pelo governo como um “passaporte’’ para o futuro, mas o grosso do dinheiro só deverá chegar, de fato, a partir de 2019, observa Daniel Cara. Para Ramos, é preciso fazer com essa receita não seja desperdiçada em questões não estratégicas. “É óbvio que o País precisa de mais recursos, mas é preciso que sejam bem geridos’’, ressalta.

Na avaliação do professor Célio da Cunha, especialista em educação da Universidade de Brasília (UnB), as distorções regionais devem fazer as autoridades lançarem um olhar específico para cada região. “Esses diferentes Brasis têm feições, arcabouços distintos’’, afirma. Ele destaca a importância de uma política específica para a educação no campo, onde os indicadores são piores. “O Brasil tem condições de chegar no segundo centenário de Independência, em 2022, numa situação bem mais cômoda do que hoje’’, diz. A conferir.

 

O que fazer para melhorar a educação? O educador José Pacheco dá pistas

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Marcelle Souza, UOL

O educador José Pacheco defende uma escola sem salas de aula, divisão de turmas ou disciplinas, ou seja, pensa que o modelo atual de ensino precisa de mudanças profundas para dar certo. “A velha escola há de parir uma nova educação, mas as dores do parto serão intensas, enquanto a tecnocracia e a burocracia continuarem a invadir domínios onde deveria prevalecer a pedagogia”, diz o pesquisador.

Apesar de português, Pacheco conhece bem o Brasil e já visitou experiências educacionais em várias cidades do país. Ele diz que o Brasil possui excelentes professores e teóricos, e que uma mudança depende de autonomia e da dignidade de um diálogo horizontal e respeitoso entre escolas e poder público.

Sobre algumas das bandeiras mais defendidas pelos candidatos na campanha deste ano, Pacheco diz que não adianta aumentar o tempo na escola se a estrutura continua a mesma, o que ele chama de dose “dupla de tédio”, e que usar tablets na sala de aula não resolve os problemas da escola, eles “apenas contribuem para reforçar a mesmice”. Leia a seguir a entrevista com o educador, que acaba de lançar o livro “Crônicas Educação”.

UOL Educação – Alguns candidatos à presidência da República listam em seus planos de governo o incentivo ao uso de tecnologias da informação e da comunicação em sala de aula. Na sua opinião, qual deve ser o peso dessas ferramentas no dia a dia dos alunos?

José Pacheco – Com ou sem novas tecnologias, a escola precisa ser reinventada. Mas do modo como as novas tecnologias estão a ser introduzidas nas escolas, temo que se transformem em panaceias, que sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade dessas tecnologias, acriticamente consumam, sem resquícios de cooperação com o aluno vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários, estabelecidos com identidades virtuais. É comum verificar que a utilização de quadros interativos e o recurso a tablets, por exemplo, são considerados indicadores de qualidade, quando apenas contribuem para reforçar a mesmice.

UOL – Em seus planos de governo, os presidenciáveis destacam a ampliação do ensino em tempo integral. Qual é o impacto do aumento da permanência da criança na escola?

Pacheco – Um bom exemplo de iniciativa ministerial é o “Mais Educação”. Porém, a interpretação prática de uma proposta de elevado potencial redundou, em muitas escolas, na criação de “contraturnos” feitos de atividades desconexas, transformando o turno integral numa dose dupla de tédio. O impacto poderá ser positivo, se não se tratar apenas de “tempo integral”, mas de desenvolver educação integral em tempo integral. Não se aprende apenas no restrito tempo escolar de quatro horas diárias, ou adicionando horas de “contra-turno”. A aprendizagem acontece vinte e quatro horas de cada dia, nos trezentos e sessenta e cinco dias de cada ano. Deveremos aproveitar a iniciativa do “Mais Escola” para recuperar a ideia de vizinhança, de solidariedade, de fraternidade, de responsabilidade social.

UOL – Acaba de entrar em vigor no Brasil o novo PNE (Plano Nacional de Educação), com metas para a educação brasileira os próximos dez anos. Quais são os seus pontos negativos e positivos?

Pacheco – A par do reconhecimento de muitos dos seus méritos, deverei denunciar o fato de em nenhuma das suas propostas e conclusões haver indícios de uma ruptura de paradigma. O PNE deixa pressupor que o sistema educativo se manterá cativo do velho modelo epistemológico do século 19. Celebro o PNE como documento de macro política. Mas a melhoria da educação depende mais de pequenos gestos quotidianos, no chão das escolas.

UOL – Uma das principais metas do PNE é a destinação de 10% do PIB para a educação. Na sua opinião, mais dinheiro para a educação está relacionado ao aumento da qualidade do ensino?

Pacheco – É louvável essa iniciativa. Porém, a manter-se a prevalência do modelo epistemológico do século 19, de que enferma a maioria das escolas brasileiras, a destinação de 10% do PIB apenas dará aso a um maior desperdício de recursos.

UOL – Qual é a sua avaliação sobre a definição de uma base curricular nacional?

Pacheco – Seria útil rever currículos. As ditas “grades” de língua portuguesa, por exemplo, são amontoados de conteúdos inúteis. Para que serve decorar termos como “dígrafo”, ou expressões como “sujeito nulo subentendido”? O leitor saberá o que são “plantas epífitas”, ou em que consiste um “ato elocutório diretivo”? Nem eu! Mas os alunos são receptáculos de uma acumulação cognitiva, que nem mil horas de “carga” poderiam contemplar. Quando aluno, fiz decoreba dos afluentes da margem esquerda de rios africanos e outras lengalengas que me ocupam a memória de longo prazo e que não me fizeram mais sábio nem mais feliz.

UOL – Um dos entraves da educação básica hoje é ensino médio, fase em que muitos jovens deixam a escola. Alguns candidatos à presidência defendem a reformulação do ensino médio. O que precisa mudar na sua opinião?

Pacheco – Na minha opinião, não é somente o ensino médio que precisa mudar. Predomina nas escolas uma cultura que assente no individualismo, na competição desenfreada, na ausência de trabalho em equipe, na ausência de verdadeiros projetos. Nas decisões de política educativa, prevalece o discurso de economistas, engenheiros, técnicos de informática, jornalistas, gestores, diretores de marketing, ex-ministros, empresários, tudo gente de boa vontade, mas desprovida de conhecimento pedagógico. Talvez devamos apelar ao bom senso dos candidatos e dos titulares do poder público, pedir-lhes que estejam atentos a excelentes práticas que muitos educadores brasileiros vêm produzindo, sem importação de modas pedagógicas, e que são o contraponto da construção social “escola”, que a modernidade nos deixou como herança. A velha escola há de parir uma nova educação, mas as dores do parto serão intensas, enquanto a tecnocracia e a burocracia continuarem a invadir domínios onde deveria prevalecer a pedagogia.

UOL – Você acha que dar um auxílio financeiro (bolsa) ou oferecer o ensino médio aliado à capacitação profissional são saídas para reduzir o abandono nessa fase?

Pacheco – Duvido que essas medidas logrem grandes mudanças. O meu conhecimento da educação é parco, mas suficiente para poder afirmar que há motivos para ser esperançoso. Não tanto pelos progressos na política educativa, que continua sendo desastrosa, mas pelos projetos que, por toda a parte, vejo surgir. O Brasil tem excelentes professores e os melhores teóricos do mundo. O drama educacional brasileiro poderá sintetizar-se numa frase: jovens do século 21 são ensinados por professores do século 20, com recurso a práticas do século 19, em práticas desprovidas de fundamentação científica. A lei brasileira permite ultrapassar esta situação. Estou a falar de autonomia, da dignidade de um diálogo horizontal, respeitoso entre escolas e poder público. Temos razões para acreditar que a educação do Brasil pode melhorar.

 

Repasse ao Fundeb triplica, mas desempenho de escolas não melhora

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Entre 2007 e 2013, verba federal foi repassada a dez Estados do Norte e Nordeste, que sequer atingem média nacional no Ideb

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Publicado na Veja

O repasse da União ao principal fundo de financiamento da educação básica do país, o Fundeb, mais do que triplicou entre 2007, data da sua regulamentação, e 2013. Nesses seis anos, a verba federal foi repassada a dez Estados do Norte e Nordeste que não alcançaram o valor mínimo de investimento por aluno. Apesar da alta nos repasses, a maioria desses Estados nem sequer atingiu a média nacional da rede pública no Índice de Desenvolvimento Básico da Educação (Ideb) de 2013, que mede a qualidade das escolas públicas do país.

A maior parte dos Estados atendidos pelas verbas federais ainda ocupa a lanterna do Ideb, tomando como base tanto a rede pública (que inclui as esferas federal, estadual e municipal) quanto apenas a rede estadual. Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco e Piauí recebem aportes desde 2007. Já Amazonas entrou para a lista em 2008 e Rio Grande do Norte em 2011, segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU).

A transferência de recursos federais para os Estados passou de 2,9 bilhões de reais em 2007 para 9,3 bilhões em 2013, em valores já corrigidos pela inflação (IGP-DI). Trata-se de uma alta real de 221%, 12 vezes o crescimento da economia no período, segundo estudo da Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia da PUC-RS, em parceria com o Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis (Sescon-RS).

Além da verba da União, destinada a socorrer entes federativos que não alcançam o investimento mínimo (em 2013, foi de 2.022,51 reais por aluno), o fundo tem ainda recursos estaduais e municipais, que financiam toda a rede pública.

No total, as verbas do Fundeb passaram de cerca de 67 bilhões de reais para 116 bilhões no mesmo período, também descontada a inflação. O dinheiro foi destinado ao pagamento dos salários de professores, compra de equipamentos e manutenção de atividades como merenda e transporte escolar.

Apesar da alta dos investimentos, a nota dos Estados que precisaram de ajuda financeira pouco avançou no Ideb. A situação mais crítica ocorreu no ensino médio. Nessa etapa, as redes estaduais de Alagoas, Maranhão e Rio Grande do Norte não tiveram nenhum tipo de melhora em seis anos. Em dois Estados, o resultado foi pior: Pará teve queda de 2,8 para 2,7 e o Piauí, de 3,1 para 3. Sete dos dez Estados não atingiram as metas para 2013 nesse ciclo — e os objetivos traçados pelo Ministério da Educação, segundo educadores, são pouco ambiciosos.

O Ministério da Educação informou que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) responderia sobre o Fundeb, mas o órgão não se manifestou.

 

País desenvolvido gasta 3 vezes mais com aluno do que o Brasil

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Relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) calculou despesas com educação em 44 nações
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Publicado no Estadão

SÃO PAULO – O Brasil aumentou o total de verbas destinadas à educação nos últimos anos, mas o gasto por aluno no País é um terço do investimento feito pelas nações desenvolvidas. Isso é o que aponta um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado nesta terça-feira, 9.

De acordo com o levantamento, o gasto público com cada estudante brasileiro em 2011 foi de US$ 2.985, o que corresponde a R$ 6.789. Já nos países desenvolvidos, o total de verbas por aluno foi quase três vezes maior no mesmo ano: US$ 8.952, o que corresponde a R$ 20.360.

A OCDE calculou os investimentos públicos de 34 países que formam a entidade, além de dez parceiros, entre eles o Brasil. Da lista, somente a Indonésia gasta menos do que o governo brasileiro por estudante. Entre as nações com maior investimento per capita, estão os Estados Unidos, Áustria, Holanda e Bélgica, com despesas na área superiores a R$ 10 mil.

Por outro lado, o documento, chamado “Um olhar sobre a educação”, aponta que o Brasil emprega mais recursos do os outros países na área. Enquanto a média da ODCE foi de 13% de todo o gasto público, o governo brasileiro investiu 19% no setor.

 

‘A revolução na educação passa pelo conhecimento do próprio ser humano’, diz Edgar Morin

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Filósofo francês defendeu a integração disciplinar em uma das mais esperadas palestras do seminário Educação 360

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Por Leonardo Vieira, O Globo

RIO – “As escolas de hoje não ensinam sobre a diversidade do ser humano”. Com essas palavras, o filósofo e antropólogo francês Edgar Morin abriu neste sábado uma das mais concorridas palestras do encontro internacional Educação 360, evento promovido pelos jornais O GLOBO e “Extra”, em parceria com Sesc, Prefeitura do Rio, Fundação Getúlio Vargas e apoio do Canal Futura.

As cerca de 600 pessoas que lotaram o auditório na Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá, ouviram as críticas de Morin ao atual modelo de ensino no mundo, que segundo ele, se especializou em fornecer conhecimentos fragmentados. De acordo com o pensador, a escola não atende mais às necessidades vitais do cidadão, que passariam por um aprendizado integrado e observando todos os aspectos da realidade humana:

– Aprendemos na escola muitos conceitos, muitos conhecimentos, mas todos dispersos. Precisamos desenvolver um modelo educacional que ligue esses conhecimentos, que lhes coloque em perspectiva. As escolas acumularam saberes, mas não são capazes de organizá-los.

Morin era um dos palestrantes mais aguardados do seminário Educação 360, que começou na sexta e termina neste sábado, com a palestra do presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Francisco Soares.O filósofo francês conquistou a plateia logo de início, quando arriscou poucas palavras em português dizendo que não ousaria falar durante toda a conferência na língua de Camões, já que isso só seria possível se ele tomasse “algumas caipirinhas”.

Já em excelente francês, Morin pregou que a verdadeira reforma educacional no mundo só será possível assim que os currículos das diversas disciplinas se preocupassem em pensar conjuntamente o ser humano. – Há uma realidade mutilada de nós mesmos, fatiada. Nas aulas de Biologia, eu conheço nosso organismo. Na de economia, somos traduzidos apenas em números frios. Em ciências humanas, fico sabendo como como agimos em sociedade. Mas há conhecimentos separados de tudo isso, e precisamos integrá-los. O aluno precisa entender que a diversidade é o tesouro da humanidade.

Morin se aprofundou no debate filosófico para defender sua tese. Para ele, é preciso que as questões do “eu” e do “nós” sejam trabalhadas conjuntamente, de forma que a pessoa não seja sufocada pela sociedade. Dissertando sobre a alteridade, o francês afirmou que não só o aluno, mas os cidadãos em geral precisam conhecer e compreender o “outro”. O esforço de a realidade no outro lado deve começar, principalmente, pela batalha do autoconhecimento:

Não ensinamos nem a nos conhecer. As escolas deveriam estimular que alunos escrevessem diários, e depois os lessem com o passar do tempo. E essa prática poderia perpassar ao longo de toda a educação básica. Só conhecendo nossas fraquezas é que conhecemos também as fraquezas dos outros, e assim, as compreenderemos.Em cerca de uma hora de discurso, houve espaço também para a introdução de conceitos já defendidos por Morin em seus trabalhos, como por exemplo a “ecologia da ação”. Nela, o aluno precisa estar consciente de que toda decisão é uma aposta, e que somente desenvolvendo estratégias de ação é que seria possível o professor lidar com as incertezas dos estudantes quanto ao futuro. Segundo o pensador, esse seria um dos maiores anseios da sociedade moderna:

– E escola e o conhecimento que ela produz não nos prepara para lidarmos com as incertezas que nos cercam. Professores têm que incutir nos alunos a consciência da tomada de ação.A plateia também participou do debate. No momento em que a palestra foi aberta para perguntas, Morin se deparou com questões como o possível conteudismo nos currículos da educação básica, a formação defasada do professor e o dilema entre integrar o conhecimento no ensino fundamental e médio, e lidar no final do ciclo com a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que também pecaria pelo excesso no foco em conteúdo.

– Também acho que todos esses problemas estejam acontecendo. Concordo com tudo isso. Mas esse fenômeno acontece também porque os professores se retraíram em suas próprias disciplinas, sem dialogar com docentes de outras áreas. O individualismo está exacerbado, e precisamos estimular a solidariedade.

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