Contando e Cantando (Volume 2)

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5 livros para entender o Brasil de 2017

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Líderes do PCC que deram início a rebelião no Rio Grande do Norte (Josemar Goncalves/Reuters)

Líderes do PCC que deram início a rebelião no Rio Grande do Norte (Josemar Goncalves/Reuters)

 

Especialistas em direito, sociologia e ciência política indicaram obras para explicar as consequências do ano de 2016 para o país neste ano

Clara Cerioni, na Exame

São Paulo – Após um 2016 cheio de reviravoltas, o que esperar de 2017? No ano passado, vimos a conclusão do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e as novas propostas para educação e saúde do novo presidente Michel Temer. Além disso, o final do ano foi marcado pela explosão de rebeliões nos presídios.

Para que você não seja pego de surpresa em 2017, EXAME.com conversou com professores de ciência política, direito e sociologia para saber quais livros explicam o Brasil atual.

Veja abaixo a lista completa:
Junto e misturado: uma etnografia do PCC

 

Nesta obra, indicada por Paulo de Tarso, pesquisador sobre o sistema carcerário do país, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, o leitor é apresentado ao universo do Primeiro Comando da Capital, o PCC. A leitura é necessária para entender o que acontece dentro dos presídios brasileiros, que nas últimas semanas têm sido palco de diversas rebeliões e massacres.

De acordo com o pesquisador, o livro esclarece a incapacidade do Estado em controlar os presídios brasileiros e explica o desenvolvimento histórico da maior organização criminosa do Brasil.

“Essas organizações, ao perceberem o afastamento do Estado de suas responsabilidades, passaram a se organizar e se articular como substitutos. Em simples palavras, fenômenos como o PCC são consequências da falta do governo de suas funções básicas no sistema carcerário”, diz o pesquisador.

Autor: Karina Blondi / Editora: Terceiro Nome
A miséria governada através do sistema penal

 

Outra indicação do pesquisador Paulo de Tarso é o livro “A miséria governada através do sistema penal”. Nesta obra, o especialista destaca a produção teórica do Instituto Carioca de Criminologia, sobre questões básicas do sistema carcerário brasileiro. De acordo com Tarso, essa obra permite entender a evolução dos problemas causados pela ausência de uma política pública nas prisões. Além disso, o livro apresenta o quadro da criminalização da pobreza.

“O Estado idealizou que bastaria a população ter mais acesso econômico para resolver todas as questões sociais e criminais do país, mas não foi isso que aconteceu.”

Autor: Alessandro de Giorgi / Editora: Revan
Juventude e Ensino Médio

 

O governo Temer apresentou em setembro uma proposta para reformar o Ensino Médio no Brasil, que deve ser votada pelo Senado no começo de fevereiro. Para entender quais podem ser as consequências dessas mudanças na educação, o professor Marcos Villela Pereira, da Escola de Humanidades da PUCRS indicou o livro “Juventude e Ensino Médio”.

De acordo com o especialista, essa obra pode auxiliar a comunicação entre professores e estudantes por apresentar um panorama dos jovens do país e questionar por que se deve repensar o Ensino Médio nos dias de hoje.

Autores: Juarez Dayrell; Paulo Carrano; Carla Linhares Maia / Editora: UFMG
Impeachment: instrumento da democracia

 

Esta obra, indicada pelo professor de direito da PUCRS José Carlos M. da Silva Filho explica o processo do impeachment, pela visão de diversos advogados e juristas do Brasil. O livro esclarece os mecanismos e os conceitos judiciais usados para embasar o pedido e o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Autor: Instituto dos Advogados de São Paulo / Editora: IASP
A difícil democracia – reinventar as esquerdas

 

O processo de impeachment que se arrastou pelo ano de 2016 foi decisivo para consolidar o enfraquecimento do Partido dos Trabalhadores (PT) e auxiliar a ascensão de figuras políticas alinhadas com a direita. Por isso, para este ano, de acordo com o professor de direito da PUCRS, o desafio de partidos de esquerda é “reinventar o conceito e os posicionamentos desta política”.

A obra indicada pelo especialista aborda este tema pela visão de um cientista político, que propõe uma reflexão sobre experiências sociais e políticas atualmente.

Por um ensino autêntico de Filosofia

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Hoje, perde espaço tudo o que representa o pensamento articulado, gerador de unidade e coerência

Hoje, perde espaço tudo o que representa o pensamento articulado, gerador de unidade e coerência

 

Em livro voltado para o Ensino Médio, autor faz conexões entre conceitos filosóficos e o cotidiano dos jovens

Thais Paiva, na Carta Capital

A filosofia permite uma humanização mais eficaz, não porque ensina respostas determinadas, mas porque intensifica nossa autoconsciência e, por conseguinte, colabora para dispormos de nós mesmos com mais liberdade, maturidade e felicidade, explica Juvenal Savian Filho, professor da Universidade Federal de São Paulo.

Autor do recém-lançado Filosofia e filosofias: existência e sentidos, o professor mostra na obra como, em nosso cotidiano, sempre praticaremos Filosofia em certo grau se fizermos a pergunta pelo sentido do que somos, pensamos, sentimos e fazemos. “É só assim que a vida se torna autêntica, que começamos a saber jogar com todos os elementos que condicionam a nossa vida e a produzir espaços de liberdade”.

Em entrevista ao Carta Educação, o professor falou sobre o livro e a necessidade de enxergar a atividade filosófica para além da formação escolar.

Carta Educação: Qual a proposta do livro Filosofia e filosofias: existência e sentidos?

Juvenal Savian Filho: Proponho o livro como um recurso para que os leitores tenham experiências filosóficas autênticas e diversificadas. Aliás, não há apenas um ponto de partida no livro, mas vários, porque a leitura não precisa começar necessariamente pelo primeiro capítulo, mas por qualquer um deles. Os diferentes pontos de partida são sempre tomados da experiência cotidiana, da literatura, da ciência, da arte, etc. Com isso, o objetivo é permitir a vivência de experiências filosóficas, mais do que uma doutrinação ou uma formatação mental específica. O livro se dirige principalmente aos estudantes do Ensino Médio, mas também aos interessados em geral pela Filosofia e a todos os amantes da leitura e da reflexão.

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CE: Quão importante é fazer conexões entre conceitos filosóficos e o cotidiano?

JSF: Para percebermos que a reflexão dos filósofos e das filósofas nasce, em grande medida, de experiências semelhantes às nossas. É claro que certas frentes de reflexão filosófica podem ser “distantes” de nosso cotidiano mais imediato. Um exemplo bastante simples: pode parecer uma especulação separada da vida perguntar se os números são entidades existentes por si mesmas ou se são meros símbolos para retratar convenções; por outro lado, se o assunto são leis, direitos e justiça, uma discussão desse tipo não parecerá nada separada da vida, pois ninguém duvida da importância extrema que há em perguntar se as leis são entidades existentes por si mesmas ou se são convenções, se elas refletem algo da natureza ou se apenas são construções históricas, se são justas pelo simples fato de serem leis ou se a justiça é algo que transcende o mero aparato jurídico de um grupo social. Essas e outras questões mostram quão importante é fazer conexões entre nossas experiências e conceitos filosóficos, principalmente no nível do Ensino Médio, pois nossos jovens merecem um cuidado pedagógico especial que contribua para essa fase tão intensa e ao mesmo tempo tão delicada de seu trabalho de humanização.

CE: O que seria esse processo de humanização?

JSF: No atual contexto produtivista, as disciplinas escolares, sobretudo quando organizadas em função do vestibular, sequer levantam a temática da humanização. Elas operam no registro da hominização, ou seja, da transmissão do estritamente necessário para distinguir-se das outras espécies animais: a assimilação da cultura tradicional, mas não o desenvolvimento das pessoas como sujeitos culturais. Isso não significa necessariamente humanizar-se, tarefa que implica assumir tudo o que determina cada indivíduo e grupo, a fim de desenvolver ao máximo possível e da maneira mais elaborada possível as potencialidades que são propriamente humanas: o pensamento e a liberdade.

CE: O que seria compreender filosoficamente a nós mesmos, aos outros e ao mundo?

JSF: Implica parar de crer que os pensamentos que temos sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo são pensamentos “naturais” ou “normais”; implica também dar-se conta de que os conteúdos de tais pensamentos são, em grande medida, construídos. Compreender filosoficamente a nós mesmos, aos outros e ao mundo requer como primeira tarefa desconstruir os pensamentos que nos fazem falar de “eu/nós”, “outro” e “mundo”. Mas desconstruir não significa destruir! Essa é uma ilusão típica de iniciantes. Desconstruir significa desmontar para ver como funciona. É uma das tarefas mais básicas da Filosofia, sem ainda emitir juízos sobre o pensamento analisado, mas apenas mantendo-se no intuito de entender o funcionamento interno de tal pensamento.

Uma vez desconstruído um pensamento, podemos recusá-lo ou concordar com ele. Por outro lado, não se trata também de apenas fazer análises de pensamentos, procurando, por exemplo, explicações com base nos esquemas causa-efeito ou ação-reação. Se fosse só isso, a Sociologia, a História, a Psicologia, as Neurociências e mesmo as Ciências da Natureza dariam explicações melhores. Trata-se de entender os movimentos do próprio pensamento no seu trabalho de formular descrições e explicações, descobrindo e construindo sentidos; é um movimento em que o pensamento pensa o próprio pensamento. É, no limite, aquilo que prova cabalmente que o ser humano é um ser de significação e não se reduz a um aglomerado de células dirigidas por um cérebro cego e voluptuoso em busca de compensação.

CE: A atividade filosófica vai muito além da formação escolar. Como podemos praticar filosofia em nosso cotidiano?

JSF: A filosofia permite uma humanização mais eficaz, não porque ensine respostas determinadas, mas porque intensifica nossa autoconsciência e, por conseguinte, colabora para dispormos de nós mesmos com mais liberdade, mais maturidade e mais felicidade. Não se trata de refinar as pessoas, nem de conscientizá-las, como se elas não tivessem nenhuma consciência. Trata-se de contribuir para que elas levantem a pergunta essencial pelo que significa existir, conhecer, pensar, amar, agir. Existir é simplesmente seguir o turbilhão de coisas a que estamos acostumados no trabalho, na escola, na família, etc.? Existir é ser pessimista, otimista? Quais as razões do pessimismo e do otimismo? Chegar nesse tipo de pensamento é uma das contribuições mais urgentes da Filosofia. Em nosso cotidiano, sempre praticaremos Filosofia em certo grau se fizermos a pergunta pelo sentido do que somos, pensamos, sentimos e fazemos. É só assim que a vida se torna autêntica, que começamos a saber jogar com todos os elementos que condicionam a nossa vida e a produzir espaços de liberdade.

CE: Em sua opinião, o ato de filosofar está perdendo espaço no mundo atual?

JSF: Sim e não. Hoje, perde espaço tudo o que representa o pensamento articulado, gerador de unidade e buscador de coerência, a produção artística paciente e que se dá o direito de ser menos autorreferente e narcisista, enfim, toda experiência que respeite o tempo da criação, a abertura amorosa à alteridade e a aceitação de que a vida nunca será inteiramente controlável. Ao invés disso tudo, ganha espaço a dispersão, a rapidez, a mercadoria, o consumo, o virtual que dispensa o contato físico, o tempo que não apenas devora tudo, mas que a tudo joga na indiferença. Curiosamente, porém, em vários cantos do planeta se tem denunciado essa dinâmica e se tem valorizado a atividade filosófica como reflexão que encontra os sentidos fornecedores de unidade às diversas experiências.

Para falar uma língua mercadológica, podemos evocar aqui o fato de que algumas indústrias e companhias multinacionais dão hoje preferência a profissionais com formação humanista, especialmente filosófica, porque esses profissionais têm maior capacidade de visão de conjunto, de operação com situações e pensamentos complexos, de enfrentamento e solução de conflitos. Há escolas que reintroduziram Filosofia com urgência porque perceberam que seus estudantes estavam se tornando cada vez mais frios, calculistas, incapazes de demonstrar afeto e respeito humano. É óbvio que seria muito melhor se a reflexão filosófica fosse valorizada por si mesma e nas suas próprias potências, mas se o contexto atual dificulta tal valorização, então a valorização pelo negativo não deixa de ser válida.

CE: No Brasil, o cenário é o mesmo?

JSF: O Brasil vive uma ambiguidade que beira a estupidez. Hoje, ele é o país que mais investe dinheiro público em Filosofia, desde a contratação de professores do Ensino Médio até o financiamento de pesquisas pós-doutorais no exterior. Temos tudo para criar uma cultura filosófica geral e democratizar o acesso a ela. Aliás, já temos sentido efeitos extremamente positivos nas gerações pós-2008 quando a Filosofia tornou-se novamente obrigatória no Ensino Médio. No entanto, o atual governo corre o risco de pôr o Brasil em pleno retrocesso histórico e na contramão de países ricos. Como? Defendendo que, para modernizar-se, o Brasil precisa de mão de obra especializada. Essa é uma máscara para cortar os investimentos em Filosofia e Ciências Humanas e para priorizar a formação técnica. O atual governo chega a ser perverso ao dar a entender que formação técnica não combina com formação humanista.

Não deixa de haver certa verdade no pensamento segundo o qual, em um sistema capitalista, é preciso desenvolver a produção técnica com mão de obra especializada, pois é essa mesma produção que permitirá financiar cultura – inclusive a Filosofia. O problema é o que o governo está operando no registro de uma falácia, a de defender que a formação de mão de obra especializada se faz por exclusão ou diminuição da formação humanista. O governo atual está nos obrigando a voltar ao Brasil do início dos anos 1970, com a pauta desenvolvimentista e a valorização exagerada do ensino técnico, sem reflexão. Vamos formar máquinas humanas. Mas não nos esqueçamos: máquinas humanas também deprimem, adoecem, perdem o sentido e o gosto de viver, revoltam-se, dificultam a vida em comum.

CE: Quais os diferenciais do livro didático que você acabou de publicar pela Editora Autêntica?
JSF: Em primeiro lugar, um diferencial é o fato de o livro ser escrito por temas e de o tratamento dado aos temas permitir uma formação segura em referenciais básicos de história da filosofia, de lógica, de prática argumentativa e de crítica cultural, mas tudo sempre em harmonia com os temas dos capítulos. Aliás, procurei oferecer dados históricos e filosóficos atualizados, sem continuar a repetir no Ensino Médio coisas que nas pesquisas universitárias já ninguém mais diz, por exemplo, chamar Platão de “dualista” ou de “ingênuo”; tratar os filósofos antigos e medievais como irrelevantes para os modernos e os contemporâneos; deixar no esquecimento autores judeus e muçulmanos.

Também procurei sempre partir de dados cotidianos. Foi um ponto de honra, em muitas partes do livro, iniciar pelas imagens – pinturas, desenhos, fotos – e só então compor o texto, evitando que as imagens fossem manipuladas como acessórios dispensáveis. O mesmo ocorreu com dados culturais – filmes, peças, danças, livros, músicas, esculturas. Outro diferencial é que trato com profundo respeito a experiência religiosa. De fato, apresento os pontos de vista teísta, deísta e ateu, procurando entender filosoficamente as razões de alguém ter fé ou não. Foi-se o tempo de crer que todo filósofo deve gritar que a religião é o ópio do povo e não justificar seu ponto de vista. Aposto no diálogo e no interesse mútuo mesmo quando o tema é delicado ou tenso. Invisto sobremaneira nos exercícios dissertativos, pois estudantes treinados em dissertação são capazes de resolver exercícios de testes, mas o inverso não ocorre.

O ensino médio lá fora

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Modelos variam muito entre países, mas há algumas características em comum entre nações com bons resultados na educação

Antonio Gois, em O Globo

Comparar países e seus modelos educacionais é sempre um exercício necessário, mas complexo. Por um lado, sociedade nenhuma pode se dar ao luxo de ignorar experiências de nações que enfrentaram dilemas comuns. Por outro, tentar copiar fórmulas desconsiderando contextos tende a ser improdutivo. No momento em que o Brasil debate uma reforma em seu ensino médio, ao menos dois seminários neste mês possibilitaram entender melhor como são organizados os sistemas secundários em países como Finlândia, Alemanha, Suíça, Polônia, Inglaterra e Canadá.

Uma primeira constatação é de que não há uma receita única. Um exemplo disso está no número de disciplinas obrigatórias. No Brasil são 13, e há quem ache demasiado. Na Inglaterra e em boa parte dos estados americanos, por exemplo, apenas inglês e matemática são compulsórias. A Polônia, um dos países que mais teve ganhos no Pisa e cuja experiência foi debatida em seminário realizado pelo Banco Mundial e pelo MEC, fez recentemente uma reforma que diminuiu de 14 para três o número de disciplinas obrigatórias. Ficaram apenas linguagem, matemática e educação física. O restante do currículo é montado a partir da opção dos alunos.

A regra mundial então seria ter poucas disciplinas? Nem sempre. Basta ver o caso da Finlândia, país reconhecido pela valorização dos professores e por seu sistema equitativo e de alto desempenho. O caso finlandês foi apresentado pela chefe da unidade de Ensino Médio do Conselho Nacional de Educação daquele país, Tiina Tahka, em seminário do Instituto Unibanco e do Conselho Nacional de Secretários de Educação. Lá, são 18 disciplinas obrigatórias. Alguns educadores finlandeses acham o número exagerado, e há no país escolas que estão testando inovações, apostando num ensino cada vez mais interdisciplinar, sem divisões rígidas entre as matérias.

Cabe destacar, porém, uma diferença em relação ao modelo brasileiro. O sistema finlandês no ensino médio tradicional é organizado em créditos, e a parte obrigatória do currículo corresponde a no máximo 51 dos 75 necessários para o aluno se formar. Algumas disciplinas (caso de física, química, filosofia e psicologia) são obrigatórias apenas num módulo básico, o que permite que o aluno complete essas matérias, por exemplo, no primeiro ano do ensino médio, e nos anos seguintes só volte a se aprofundar nelas caso queira.

O que há em comum em todas as nações cujos casos foram apresentados nos dois seminários é o fato de terem sistemas com algum grau de flexibilidade, em que é permitido ao aluno optar pelas áreas em que quer se aprofundar. Mas há também uma preocupação constante em evitar que esse sistema acentue desigualdades, com alunos mais ricos sendo direcionados majoritariamente para uma trajetória que os leve para a universidade, enquanto os mais pobres se destinam ao profissionalizante. Por isso, vários desses países oferecem orientação vocacional aos estudantes e permitem que eles voltem atrás em suas decisões. Não há caminhos sem retorno.

Porém, talvez a lição mais importante que podemos tirar desses países é a de que o projeto de reformar o ensino médio não se encerra na definição de um modelo. Há muito esforço a ser feito antes e depois, pois, tão ou mais importante quanto buscar o melhor formato possível é o investimento nas escolas e nos professores, para que sejam valorizados e estejam de fato preparados para fazer o melhor por seus alunos.

Enem 2015: 38 em cada 100 escolas são ‘reprovadas’ em teste do ensino médio

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Getty Images/iStockphoto

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Cristiane Capuchinho, no UOL

Os resultados das provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) por Escola 2015 indicam que 38% das instituições seriam “reprovadas” no teste do ensino médio, segundo os critérios do próprio MEC (Ministério da Educação) para a certificação do ensino médio.

São 5.642 escolas que tiveram notas médias menores que 450 pontos em, ao menos, uma das quatro provas objetivas (linguagens, matemática, ciências humanas e ciências da natureza) ou não alcançaram a média de 500 pontos na redação do exame. Esses são os parâmetros mínimos usados pelo MEC para conceder a certificação do ensino médio a estudantes por meio do Enem.

Das 14.998 escolas com informações divulgadas pelo ministério nesta terça-feira (4), 3,4 mil escolas reprovaram em duas ou mais provas do exame nacional –sendo que 507 escolas “bombaram” em quatro dos cinco testes. Nenhuma instituição foi “reprovada” em todas as provas.

O retrato é uma das faces da crise do ensino médio, segundo educadores entrevistados pelo UOL. O baixo desempenho dos estudantes brasileiros é percebido em diversas avaliações. No início de 2016, um estudo da OCDE apontou o Brasil como segundo país com pior nível de aprendizado entre alunos de 15 anos.

Matemática e redação são piores notas

Os exames que mais reprovaram escolas são o de matemática –que reprovou 4.899 instituições– e a redação –que desqualificou 3.045 escolas.

“Nem o sarrafo do Enem, que já não é essas coisas, estamos conseguindo alcançar. Isso mostra que precisamos mudar o ensino médio em uma direção que motive o jovem a estudar e a aprender”, afirma Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna.

No final de setembro, o Ministério da Educação enviou para o Congresso uma medida provisória com proposta de reformulação do ensino médio. A MP prevê, entre outras coisas, a redução de disciplinas nesta etapa do ensino e o aumento, paulatino, da carga horária. A proposta, contudo, não altera o ensino de matemática, português ou inglês, que seriam matérias obrigatórias para todos os alunos.

“O mau desempenho é algo que vem acumulando desde o ensino fundamental, o problema não está apenas no ensino médio”, analisa Antonio Augusto Gomes Batista, coordenador do Cenpec.

Para Batista, a reforma do ensino médio proposta não deve ter resultados no quadro geral. “O ensino integral, tal como está colocado, vai atender a uma população muito reduzida. Vai criar mais desigualdades dentro da rede. Seria melhor ampliar uma hora por dia a proporcionar escolas de 7 horas para poucos.”

Distribuição geográfica

Entre as escolas reprovadas nos testes, 7 em cada 10 têm alunos com nível socioeconômico de muito baixo a médio (3.905 instituições).

“O nível socioeconômico da escola é o principal preditor de sucesso na escola. A escola pode fazer diferença, mas em países em que a educação não tem políticas públicas adequadas, o resultado depende muito disso”, explica Batista. Um aluno com acesso a livros em casa, a computador e com pais letrados tem chances maiores de ter bom rendimento escolar.

A maior parte das unidades são públicas (5.266), no entanto, destacam-se 376 escolas particulares cujos alunos do terceiro ano não conseguem alcançar a nota mínima para serem diplomados no ensino médio.

Dentre as reprovadas, 2.114 escolas ficam no Nordeste. O Sudeste tem 1.581 instituições. Outras 682 escolas ficam no Centro-Oeste. A região Sul e a Norte têm o menor número de escolas: 662 e 603, respectivamente.

O MEC divulga apenas as notas médias das escolas em que ao menos 50% dos alunos do terceiro ano do ensino médio fizeram o Enem 2015 e que somam 10 participantes ou mais. Em 2015, os estudantes de 25.777 escolas prestaram o Enem. No entanto, as notas de 14.998 instituições foram divulgadas.

Segundo o Censo Escolar, o Brasil tem 183,4 mil escolas com salas de aula de ensino médio. Há 2,1 milhão de alunos matriculados no terceiro ano desta etapa escolar.

Educação: Reforma do ensino médio permite aulas de profissionais sem licenciatura

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Publicado no Amo direito

A medida provisória também trouxe uma mudança que chamou a atenção: um dos artigos incluídos na LDB autoriza profissionais de outras áreas e especialistas “com notório saber” a darem aulas nas escolas do país. Segundo o governo, a medida ajudará a preencher lacunas na educação básica. O texto enviado ao Congresso determina que essa atuação deve ser “reconhecida pelos respectivos sistemas de ensino” e restrita à formação técnica e profissional. Hoje, o ensino técnico é iniciado após a conclusão do ensino médio, mas a MP permite que as formações aconteçam simultaneamente.

Segundo Rossieli, a medida não interfere nas disciplinas convencionais e não vai prejudicar professores que se especializaram em áreas como português, matemática, geografia e história. A intenção da mudança, segundo ele, é introduzir outros conteúdos para complementar a formação. “Você não tem, por exemplo, cursos de licenciatura em direito. Tem um caso aqui no Distrito Federal, de uma escola que colocou direito no currículo. Se não existe licenciatura em direito, como que você faz? Eles têm um problema”, diz Silva. Neste caso, a MP prevê que um bacharel em direito comande a aula.

Se aprovada pelo Congresso, a nova regra também permitirá que o “conhecimento popular”, sem diploma formal, seja repassado em sala de aula. Como exemplo, o secretário de Educação Básica cita as “especialidades” desenvolvidas em determinadas regiões do país.

“Lá no Amazonas, quando eu era secretário, o estado tentou fomentar um polo naval, havia gente de fora que queria investir no estado. A primeira coisa que perguntaram foi: cadê as pessoas qualificadas? O estado do Amazonas tem uma grande tradição em construção de barcos, especialmente em navegação de rio, mas essas pessoas não têm formação adequada. Os grandes especialistas que têm lá, que poderiam dar aula para esse tema porque têm uma experiência de vida sem igual, não podem”, diz.

Nestes casos, caberá à secretaria de educação de cada estado definir o que é “notório saber” e quem estará autorizado a lecionar no ensino médio. “Para aula de matemática, de educação física, de sociologia, de filosofia, licenciatura plena é requisito legal e continua sendo requisito legal”, garante.
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Para aula de matemática, de educação física, de sociologia, de filosofia, licenciatura plena é requisito legal e continua sendo requisito legal.
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Novo ensino médio
A medida provisória foi apresentada pelo presidente Michel Temer nesta quinta (22). As mudanças afetam conteúdo e formato das aulas, e também a elaboração dos vestibulares e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A previsão do Ministério da Educação (MEC) é que turmas iniciadas em 2018 já possam se beneficiar das mudanças. Até lá, as redes estaduais poderão fazer adaptações preliminares, já que o Ministério da Educação condiciona a implementação de pontos da reforma à conclusão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O ministro disse que a BNCC só deve ser concluída em “meados” de 2017.

Pela MP, apenas português e matemática terão que ser lecionados obrigatoriamente durante os três anos do ensino médio. A estrutura proposta prevê que, dos 36 meses letivos, apenas metade siga o currículo tradicional. No restante do tempo, o aluno poderá “focar” seu aprendizado na área em que pretende seguir carreira – ciências exatas, linguagens ou biologia, por exemplo.

A reforma também prevê o aumento da carga horária, com a expansão do ensino integral. Na escola “tradicional”, os alunos têm quatro horas-aula por dia. No ensino integral, são sete horas. Quanto maior o tempo dentro da escola, maior a diversidade de atividades que podem ser desenvolvidas, segundo o MEC.

Para isso, o ministério anunciou que vai investir R$ 1,5 bilhão até 2018. A meta é atender 500 mil jovens no ensino integral. A adesão e a lista de escolas contempladas serão definidas pelas secretarias estaduais, até o fim do ano. Segundo o MEC, esse modelo pode começar a ser implementado já em fevereiro de 2017 onde as adaptações forem mais fáceis.

antes-depoisPor Mateus Rodrigues
Fonte: G1

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