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‘Não há mais leitores porque escola pública não forma’, diz autor de ‘Dois Irmãos’

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Palestra com Milton Hatoum em Poços de Caldas, MG, acontece no dia 30 de abril, às 19h30 (Foto: Flavio Moraes/G1)

Palestra com Milton Hatoum em Poços de Caldas, MG, acontece no dia 30 de abril, às 19h30 (Foto: Flavio Moraes/G1)

 

Milton Hatoum é patrono da edição 2017 do Festival Literário de Poços de Caldas, MG, que começa em 29 abril.

Daniela Ayres, no G1

A menos de três semanas do início do Festival Literário de Poços de Caldas (MG), o premiado escritor amazonense Milton Hatoum está animado em retornar ao Sul de Minas. Há cerca de 10 anos, o autor do romance “Dois Irmãos” participou pela primeira vez da Flipoços. Patrono da 12ª edição do evento, que começa no dia 29 de abril, Hatoum aguarda a oportunidade de falar sobre o que mais gosta de fazer, literatura, e demonstra preocupação com a qualidade do ensino público no Brasil. “Não há mais leitores porque a escola pública não forma bons leitores”, observa em entrevista ao G1.

Aos 64 anos de idade, o escritor amazonense é considerado um dos mais importantes nomes da literatura contemporânea, com obras premiadas no Brasil e no exterior. A história dos encontros e desencontros dos gêmeos Omar e Yaqub, contada em “Dois Irmãos”, seu segundo romance, lançado em 2000, é leitura obrigatória em muitos vestibulares pelo país. Além de escritor, Hatoum tem formação em arquitetura, é tradutor e professor.

Eu me formei no ensino público. Não posso reclamar, que os ‘Dois Irmãos’ e o ‘Cinzas do Norte’, principalmente, são muito lidos por causa dos professores. Mas não há mais leitores porque a escola pública não forma bons leitores. A escola é precária. A culpa não é dos professores, é do sistema e, sobretudo, dos políticos. Um país que não investe em educação não tem futuro mesmo. Não adianta.

Hatoum manifestou sua preocupação com a qualidade do ensino público do Brasil durante entrevista aos G1 Sul de Minas, como parte de uma série de reportagens sobre a edição 2017 da Flipoços. Confira a seguir os principais trechos desse bate-papo.

G1: Como surgiu o convite para ser patrono da Flipoços e que o senhor planeja para a sua palestra, no domingo, 30 de abril?

Milton Hatoum: Eu fui a Poços há uns oito anos. Gostei muito da feira e fui convidado pela Gisele Ferreira [idealizadora do festival] a voltar, agora como patrono. Eu aceitei porque gosto de Minas, gosto de Poços, tenho ótimos leitores em Minas. Para mim, é uma honra ser o patrono da feira. Eu vou falar sobre o meu trabalho, sobre literatura. Vão exibir um filme baseado no meu romance ‘Órfãos do Eldorado’ [dirigido por Guilherme Coelho]. O filme vai ser exibido às 10h. O Amazonas vai ser homenageado, então eles vão exibir esse filme, que se passa no Amazonas e tem algumas locações no Pará. Eu tô animado para ir. Esse caminho para Poços lembra um pouco minha infância. Eu vinha às vezes passar as férias em São Paulo com minha mãe e ela gostava do circuito de águas.

G1: Por falar em “Órfãos do Eldorado”, seus livros ganharam nos últimos anos versões bastante aclamadas. Teve o filme em 2013 e, em 2016, seu segundo romance, “Dois Irmãos”, virou história em quadrinhos, com direito ao Prêmio Eisner, o “Oscar” da categoria. No início deste ano, o mesmo livro deu origem à minissérie de tv homônima exibida pela Rede Globo.

Hatoum: Primeiro lugar, eu tive sorte porque os cineastas e os quadrinistas são artistas muito talentosos, têm uma sensibilidade artística muito apurada. No caso dos quadrinistas, o trabalho é, de fato, muito bonito. Eu acho que 80% do livro está nos quadrinhos. Eles foram a Manaus, pesquisaram, há momentos de silêncios no trabalho deles. É um livro que já tem quatro reimpressões. Eu nem sabia que havia um público tão grande de quadrinhos. Eu não li o livro [se referindo a ‘Dois Irmãos’]. Então, para mim foi uma surpresa.

G1: O senhor não leu seu próprio livro?

Hatoum: Eu não leio o livro. Nunca. Eu não aguento. Vou querer mudar, vou ficar fazer várias alterações.

G1: Como é para o senhor o processo de criação de um livro?

Hatoum: Eu preciso encontrar a forma do livro na minha cabeça, a estrutura do que eu quero escrever. A estrutura é a forma. O que eu vou narrar, quem que vai narrar. Então, eu começo a escrever mesmo. Faço esquema, esboço. Eu escrevo a mão, depois passo para o computador, depois eu imprimo e vou corrigindo. Isso que dá muito trabalho. Escrever é um grande prazer. O que dá muito trabalho é a revisão. É mais cansativo, vamos dizer assim. Agora escrever é um prazer, eu não sofro não. Alguns escritores dizem que sofrem, né? Se eu sofresse, eu iria sofrer 8h por dia.

G1: E o que o estimulou a se tornar um escritor?

Hatoum: Foi a leitura. A leitura de romances em Manaus [cidade onde nasceu], ainda no ginásio. Eu tinha um avô, que era um libanês. Um ótimo contador de histórias, muito imaginativo. A voz dele atraía. E essas histórias também ficaram na minha cabeça. Eu tive bons professores e eu gostava mesmo de escrever poesia. Eu queria ser poeta na verdade. Eu estudei arquitetura, não deu muito certo. Depois eu achei a poesia muito difícil. Um bom poeta é dificílimo. Aí eu comecei a escrever contos. Foi a partir de um conto que escrevi meu primeiro romance, ‘Relatos de um certo oriente’.

G1: Esse ambiente em que o senhor cresceu acabou se tornando uma presença constante em seus romances.

Hatoum: Foi muito rico pra mim ter convivido com estrangeiros na própria casa. Meu pai falava português e a minha mãe era brasileira, mas falava português com a gente e árabe com os pais. Minha avó materna falava francês comigo porque ela era uma libanesa cristã, e, portanto, um pouco metida, foi educada em um liceu francês e queria que eu estudasse francês a todo custo, o que acabou acontecendo. E tem o lado que é o mais bruto da sociedade brasileira: as empregadas da minha casa e da vizinhança. Algumas eram índias, algumas nem falavam português corretamente e eram bastante humilhadas também. Eram moças que tinham sido educadas pelos missionários, depois se tornavam empregadas com a vida muito dura na cidade de Manaus. Isso me incomodou muito. E daí surgiu a Domingas de ‘Dois Irmãos’, de mulheres que trabalhavam não só na minha casa, mas em todas as casas de classe média de Manaus. Eu percebi uma estranheza na língua das mulheres, na língua dos meus avós, a música árabe, a comida árabe, a comida inglesa, que a minha mãe misturava com a comida amazonense. Era um pequeno Líbano amazonense caboclo em Manaus. Isso certamente foi forte para mim. A infância e a juventude são decisivas para quem quer escrever porque a literatura evoca o passado e reinventa também o passado.

G1: Suas histórias transitam por diversos meios de comunicação. O que o senhor acha da internet? De que forma o senhor acha que ela afeta a literatura?

Hatoum: A internet está acabando com as livrarias, não com a literatura. O comércio eletrônico prejudica as livrarias, sobretudo os pequenos livreiros. Minha questão é outra. Não é internet e literatura. É escola pública e literatura. É a formação da criança e do jovem brasileiro. Essa é a grande desfaçatez dos nossos dias. É a falta de vontade política para melhorar a qualidade de ensino público. Eu me formei no ensino público. Não posso reclamar, que os ‘Dois Irmãos’ e o ‘Cinzas do Norte’, principalmente, são muito lidos por causa dos professores. Mas não há mais leitores porque a escola pública não forma bons leitores. A escola é precária. A culpa não é dos professores, é do sistema e, sobretudo, dos políticos. No país dos ‘Crivellas’, ‘Malafaias’, ‘Felicianos’ e dos ‘Bolsonaros’, é impossível, é muito difícil melhorar a escola. Há prefeitos, políticos se esforçando, os professores também. Todos os meus livros são conhecidos graças aos professores e a muitos estudantes de pós-graduação. Um país que não investe em educação não tem futuro mesmo. Não adianta. Os festivais têm um alcance limitado. Não revertem a qualidade da educação. Só uma política faz isso. Os festivais são um estímulo, atraem públicos e, às vezes, alcançam os professores da região. Acho importante envolver professores no festival.

G1: Atualmente, o senhor está trabalhando em algum livro?

Hatoum: Eu escrevo um livro há quatro anos. O título provisório é ‘O lugar mais sombrio’. Não é um romance político, mas de jovens secundaristas e universitários que cresceram na época da ditadura militar e, mesmo não sendo um romance político- ao contrário, é um romance que tem uma história de humor-, é impossível não falar de política, no meu ponto de vista, de quem vivenciou aquele momento. São dois volumes. Eu terminei o que viria ser a sequência desse livro. Eu fiz o segundo volume primeiro.

Escola carioca combate o preconceito com o ensino público compartilhando livros com moradores do bairro

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Gabriela Portilho, Renata Massetti, Thaís Zimmer Martins, na Superinteressante

A SUPER viajou a convite da Fundação Lemann, realizadora da pesquisa Excelência com Equidade com apoio do Itaú BBA e do Instituto Credit Suisse Hedging-Griffo

Em meio à Barra da Tijuca, região nobre do Rio de Janeiro, alunos da Escola Municipal Rodrigues Alves seguem para uma praça com caixas de livros para distribuir. “Hoje tô sem dinheiro, filho”, diz uma moradora. “Não é venda, não. É só uma doação”, explica Pedro Henrique Barbosa, aluno do 8º ano.

A cena reflete um preconceito que o próprio programa de doação de livros foi pensado para desconstruir. “A escola pública ainda é vista como um lugar de crianças selvagens”, conta o comerciário Martin Hruby, 53, pai de Rodolpho, do 9º ano. “Mesmo em dias de calor, meu filho sai de casa com uma blusa por cima do uniforme para não ser identificado como aluno de escola pública. A gente precisa mudar isso”, diz.
Quebrando muros

O que quase ninguém sabe é que, em meio aos condomínios de luxo do bairro, está uma das melhores escolas da cidade. Avaliada no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) com nota 6,7, a Rodrigues Alvez fica acima da média das escolas particulares no Brasil. Quem frequenta as aulas, na maioria, são filhos de porteiros, empregadas domésticas e vigias que trabalham na região.

As manhãs de roda de leitura e doação de livros foram uma das iniciativas da Rodrigues para aproximar alunos e moradores e ajudar a romper as barreiras sociais ainda tão presentes no bairro e na cidade. “A ideia é que os alunos se acostumem a usufruir do espaços públicos que também são deles, e assim ampliem suas relações com a comunidade”, explica a professora de leitura Tânia Souza Lourenço.

A qualidade do ensino convenceu algumas famílias de classe média a apostar no ensino público. É o caso da tradutora Daniella Dias e do publicitário Felipe Barcellos, que decidiram juntos com a filha Lia sair do colégio particular. Antes de tomar a decisão, Daniella pesquisou pelo IDEB de diversas escolas da região, mas descobriu que nem sempre o índice é sinônimo de qualidade de ensino. “Algumas escolas têm ótimas notas no IDEB mas não são acolhedoras, ou têm dificuldades em lidar com questões sociais e emocionais dos alunos”, explica.

Na Rodrigues Alves, Lia conseguiu conciliar a acolhida com a qualidade de ensino. Atualmente, ela participa de diversas atividades extracurriculares dentro da escola como cinebooks e clubes de leitura e ainda aproveita para fazer novos amigos. Além de encontrar qualidade de ensino, Lia diz gostar de conviver com a diversidade. “Na escola particular, eu ficava muito presa a um mesmo universo.”

Com apenas 228 alunos, a Rodrigues tem turno integral. Os professores trabalham 40 horas semanais, fato incomum no ensino público brasileiro, em que 70% dos professores trabalham menos de 40 horas por semana e 46% trabalham em mais de uma instituição. O quadro de professores é pequeno, com apenas 12 docentes, e estável. A maioria deles tem cursos de especialização ou mestrado. “A grande vantagem de dessa dedicação integral é criar uma relação próxima entre os professores. Fazemos tudo juntos. Pensamos em projetos para escola mesmo no nosso tempo livre. É uma relação de trabalho e também de muita amizade”, diz a professor de biologia Amanda Regina da Fé.

Uma das disciplinas que está no currículo do Ginásio Carioca, mas que a Rodrigues Alves aprimorou, é o Projeto de Vida. A professora auxilia os alunos a planejar o futuro. Entenda:

Na diretoria, a música clássica ligada o dia inteiro dá a tônica da gestão. Com formação em Educação Física, Filosofia e Direito, Alexandre Magno Borja iniciou uma reforma administrativa em 2008, remanejando os professores descomprometidos com os resultados. “Aqui, ficaram apenas aqueles que tinham vontade de fazer uma escola melhor. Queria um time forte e aberto a novas experimentações”, explica.

Ele também reaproximou os pais da escola. Em vez das tradicionais reuniões, propôs um grande café da manhã. “Os pais têm que se sentir parte do processo, além de compartilhar ideias e soluções para os problemas da escola, que são também da comunidade”, explica.

Com a casa em ordem, a coordenação pedagógica se abriu para um novo modelo de ensino: o Ginásio Experimental Carioca (GEC). Lançado em 2011 pela Secretaria Municipal, o programa propõe turnos integrais de ensino com atividades extracurriculares, como cineclubes, oficinas de HQ, xadrez, aulas de idiomas, teatro e disciplinas de projeto de vida, que ajudam na orientação vocacional.

Em quatro anos de GEC, o IDEB da escola dobrou e os problemas de indisciplina diminuíram drasticamente. Hoje, boa parte dos alunos que sai do Rodrigues Alves ingressa em escolas concorridas e tradicionais do município, como Sesc e Pedro II. Os alunos comemoram: “É bom estudar onde se tentam coisas novas e se experimenta. Isso motiva a gente a fazer o mesmo na vida”, conclui Lia.

Oito coisas que aprendi com a educação na Finlândia

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Quatro professores de um grupo de 35 brasileiros capacitados no país nórdico contam o que trouxeram da experiência e que impacto ela pode ter no ensino público do Brasil.

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Publicado no G1

Dona de um dos sistemas de ensino mais elogiados do mundo, a Finlândia recebeu, de fevereiro a julho deste ano, 35 professores de institutos federais brasileiros para treinamento e capacitação.

Embora em 2012 o país nórdico tenha caído do topo para a 12ª posição do Pisa, o principal exame internacional de educação (o Brasil ficou na 58ª posição do ranking, entre 65 países), ele ainda é apontado pela OCDE – a entidade que aplica o Pisa – como “um dos líderes mundiais em performance acadêmica” e se destaca pela igualdade na educação, alta qualificação de professores e por constantemente repensar seu currículo escolar.

Os docentes brasileiros foram selecionados pelo programa Professores para o Futuro, do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Ministério da Educação), para passar cinco meses estudando a educação finlandesa.

A BBC Brasil conversou com quatro desses professores, para conhecer o que viram na Finlândia e saber se lições trazidas de lá podem facilitar seu trabalho em sala de aula e melhorar o aprendizado nas instituições públicas de ensino onde atuam.

Apesar das diferenças com o sistema brasileiro, os professores disseram ver como “pequenas revoluções” o que podem agregar do ensino finlandês em suas rotinas.

“Vou começar com um trabalho de formiguinha, mostrando aos meus colegas o que aprendi, gravando minhas aulas e adaptando (as metodologias) à nossa realidade e aos nossos estudantes”, diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.

Os 25 institutos federais que enviaram professores ao país nórdico reúnem cursos de ensino médio, profissional e superior com ênfase em ciência e tecnologia.

Veja o que os professores aprenderam na Finlândia:

1. Usar mais projetos nas aulas

Os professores entrevistados pela BBC Brasil dizem que projetos elaborados por alunos e a resolução de problemas estão ganhando protagonismo no ensino finlandês, em detrimento da aula tradicional.

São as metodologias chamadas de “problem-based learning” e “project-based learning” (ensino baseado em problemas ou projetos). Neles, problemas – fictícios ou reais da comunidade – são o ponto de partida do aprendizado. Os alunos aprendem na prática e buscam eles mesmos as soluções.

“Os projetos são desenvolvidos sem o envolvimento tão direto do professor, em que os alunos aprendem não só o conteúdo, mas a gerir um plano e lidar com erros”, diz Bruno Garcês, professor de Química do Instituto Federal do Mato Grosso, que pretende aplicar o método em aulas de experimentos práticos.

Os professores brasileiros visitaram, na Finlândia, cursos superiores baseados inteiramente nessa metodologia.

“Um curso de Administração tem disciplinas tradicionais no primeiro ano. Mas, nos dois anos e meio seguintes, os alunos deixam de ter professores, passam a ter tutores, formam empresas reais e aprendem enquanto desenvolvem o negócio”, diz Francisco Fechine, coordenador do Instituto Federal de Tecnologia da Paraíba.

Não é uma estrutura que sirva para qualquer tipo de curso, mas funciona nos voltados, por exemplo, a empreendedorismo, explica Joelma Kremer, do Instituto Federal de Santa Catarina.

“E os alunos têm uma carga de leitura, para buscar (nos livros) as ferramentas que precisam para resolver os problemas.”

2. Foco na produção de conteúdo pelos alunos

A resolução de problemas e projetos é parte de um ensino mais centrado na produção do próprio aluno. Ao professor cabe mediar a interação na sala de aula e saber quais metas têm de ser alcançadas em cada projeto.

“Nós (no Brasil) somos mais centrados em o professor preparar a aula, dar e corrigir exercícios. O aluno faz pouco. Podemos dar mais espaço para o aluno avaliar o que ele vai desenvolvendo”, diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.

“No modelo tradicional de ensino, quem mais aprende é o professor. Lá (na Finlândia) é o aluno quem tem de buscar conteúdo, e o professor tem que saber qual o objetivo da aula. Para isso você não precisa de muita tecnologia, mas sim de capacitação (dos docentes)”, agrega Joelma Kremer.

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3. Repensar o papel da avaliação

Nesse contexto, a avaliação tem utilidade diferente, diz Kremer: “A avaliação está presente, mas os alunos se autoavaliam, avaliam uns aos outros, e o professor avalia os resultados dos projetos”.

“Ao reduzir o número de testes (formais) e avaliar mais trabalhos em grupo e atividades diferentes, os professores têm um filme do desempenho do aluno, e não apenas a foto (do momento da prova)”, diz Fechine.

“Conhecemos um professor de física finlandês que avaliava seus alunos pelos vídeos que eles gravavam dos experimentos feitos em casa e mandavam por e-mail ou Dropbox.”

4. Usar tecnologia e até a mobília para ajudar o professor

A tecnologia não é parte central desse processo, mas auxilia o trabalho do professor em estimular a participação dos alunos finlandeses.

“Em vez de proibir o celular, os professores os usam em sala de aula para estimular a participação dos alunos – por exemplo, respondendo (via aplicativos especiais) enquetes que tivessem a ver com as aulas”, conta Kremer.

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“Isso torna a aula mais interessante para eles. E é complicado para a gente ficar dizendo, ‘desliga o celular’, algo que já começa estabelecendo uma relação de antipatia com o aluno.”

Os professores brasileiros também conheceram algumas salas de aula com mobília especialmente projetada, diferente do modelo tradicional de cadeiras individuais voltadas à lousa.

“Muitas salas têm sofás, poltronas, mesas ajustáveis para trabalhos individuais ou em grupo e vários projetores”, agrega Kremer. “É um mobiliário pensado para essa metodologia diferente de ensino.”

Fechine vai reproduzir parcialmente a ideia no Instituto Federal da Paraíba, trocando as carteiras de braço por mesas que possam ser agrupadas para trabalhos.

5. Desenvolvimento de habilidades do século 21

A professora Giani Barwald Bohm conta que o ensino fundamental finlandês continua dividido em disciplinas tradicionais, mas focado cada vez mais no desenvolvimento de habilidades dos alunos, e não apenas na assimilação de conteúdo tradicional.

“(São desenvolvidas) competências do século 21, como comunicação, pensamento crítico e empreendedorismo”, diz ela.

Para Fechine, estimular a independência do estudante é uma forma de romper o ciclo de “alunos passivos, que só fazem a tarefa se o professor cobrar, interagem muito pouco”.

6. Intervalos mais frequentes entre as aulas

A Finlândia adota aulas de 45 minutos seguidas de 15 minutos de intervalo na educação básica – prática que Bruno Garcês acha que poderia ser disseminada por aqui. “Tira a tensão de ficar tantas horas sentado”, diz.

Fechine também considera a ideia interessante, mas aponta que a grande carga horária no ensino médio brasileiro dificulta sua aplicação e lembra que na Finlândia ela é acompanhada de uma forte cultura de pontualidade. “As aulas começam no horário e aluno rapidamente entra na (rotina de) resolução de problemas.”

7. Cultivar elos com a vida real e empresas

Muitos dos projetos dos estudantes finlandeses são tocados em parcerias com empresas, para aumentar sua conexão com a vida real e o mercado de trabalho, algo que Garcês acha que poderia ser mais frequente no Brasil.

“Aqui na área rural do Mato Grosso podemos ter uma interação maior com as fazendas locais, ministrando aulas a partir do que os produtores rurais precisam.”

A vantagem disso é que o aluno vê sentido prático e profissional no que está aprendendo, explica Giani Barwald Bohm. “Ele desenvolve algo diretamente para o mercado de trabalho, que vai ter relevância para o próprio estudante e é contextualizado com as empresas locais.”

Ela destaca também as competições de habilidades práticas desenvolvidas por escolas locais (um preparativo para a competição internacional WorldSkills, que neste ano será realizada em São Paulo, pelo Senai, entre quarta e sábado desta semana).

“As empresas são envolvidas na organização e acompanham os alunos no dia a dia e até ficam de olho para contratá-los depois.”

8. Formação mais prática e valorização do professor

A formação dos professores é apontada como a principal chave do sucesso do ensino finlandês. Os brasileiros observaram lá uma capacitação mais prática, voltada ao dia a dia da sala de aula, e mais interação entre o corpo docente.

“Algumas salas têm dois professores – um como ouvinte do outro caso seja menos experiente”, relata Fechine.

“Há uma relação mais direta (entre os professores), com muita conversa entre quem dirige o ensino e quem dá aula”, agrega Barwald Bohm.

“Além disso, há uma valorização cultural do professor lá, semelhante à de outras profissões. O salário é equivalente e as condições de trabalho dão bastante tempo para o planejamento das aulas”, diz Bruno Garcês.

‘Brasil precisa taxar ricos para investir no ensino público’, diz Piketty

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Para crítico-sensação do capitalismo, políticas para combater desigualdade são essenciais para impulsionar crescimento do país

Para crítico-sensação do capitalismo, políticas para combater desigualdade são essenciais para impulsionar crescimento do país

Ruth Costas, na BBC Brasil

 

Para o economista francês Thomas Piketty, o Brasil precisa ampliar os impostos sobre os ricos para ter mais recursos para investir em educação pública – e, com isso, avançar no combate à desigualdade.

Crítico-sensação do capitalismo, Piketty é autor do polêmico best-seller O Capital no Século XXI (Editora Intrínseca) em que defende, a partir da análise de dados inéditos de 20 países, que a desigualdade de renda estaria voltando a aumentar no mundo após décadas em queda.

Ele diz que o próximo passo de seu projeto é estudar países emergentes, entre eles o Brasil, e defende que a desigualdade é um dos fatores que inibe o crescimento brasileiro.

“Se o Brasil quiser crescer no século 21 precisa garantir que amplos grupos da população tenham acesso a educação de qualidade, qualificação e trabalhos que pagam bem”, diz.

Em visita ao país, para promover a versão em português do livro, Piketty concedeu a seguinte entrevista à BBC Brasil de um hotel de luxo no centro de São Paulo.

 

BBC Brasil: Como o Brasil pode reduzir seus níveis de desigualdade?

Piketty: Há uma série de políticas que contribuem para isso. Investir em educação e em instituições sociais, (implementar) um sistema de impostos progressivo, em que os ricos pagam mais que os pobres, (criar) boas políticas para o mercado de trabalho e aumentar o salário mínimo – algo que no Brasil foi importante nos últimos 10, 15 anos. Todas essas políticas são complementares. Não dá para escolher.

Se você só aumenta o salário mínimo, mas não aumenta a qualificação do trabalhador e sua produtividade terá problemas para sustentar isso com o tempo. O investimento em educação – e em especial na educação pública – é absolutamente essencial para se reduzir a desigualdade. E a taxação progressiva de rendas altas e grandes heranças pode ser uma forma de obter recursos para investir no sistema de educação pública.

É claro que é mais fácil taxar os pobres que os ricos. Talvez por isso em muitos países você tenha esse monte de impostos indiretos – como é o caso do Brasil. Mas provavelmente, a falta de progressividade no sistema de impostos é uma das razões pelas quais a desigualdade é tão grande no Brasil.

BBC Brasil: Como assim?

Piketty: A alíquota máxima do imposto de renda – algo em torno de 27%, 30% – é pequena para padrões internacionais. E é aplicada a partir de salários muito baixos. Seria possível ter impostos mais altos para quem ganha R$500 mil, R$1 milhão, R$5 milhões e por aí vai.

Os impostos sobre herança também são particularmente baixos para padrões internacionais e históricos. Se não me engano, aqui é de 4%. Nos EUA, por exemplo, esse imposto pode chegar a 40% para as maiores heranças. Na Alemanha, Grã-Bretanha e França também.

BBC Brasil: Mas a França aumentou a taxação sobre os ricos e há notícias de que alguns milionários teriam mudado de país. Esse risco não existe?

Piketty: Você não vê notícias de que esses países que têm imposto sobre herança de 40% tenham de reduzir suas taxas para o patamar brasileiro, de 4%, para reter milionários. Acho que é perfeitamente possível para o Brasil ter níveis mais altos (de imposto sobre os ricos) sem ter uma fuga massiva de capitais.

No caso da França, eu acho que de fato houve um aumento excessivo dos impostos nos últimos anos. Não tanto para os ricos, mas para a população no geral. O objetivo era reduzir o déficit público mas (a estratégia) foi um desastre. No fim, matou (as perspectivas de) o crescimento, o que dificultou a redução do déficit.

BBC Brasil: Enquanto a Europa acaba de anunciar um pacote de estímulos para reativar a economia de alguns países, no Brasil o governo anunciou o fim dos incentivos e cortes de gastos. Quem vai na direção certa? E quais os riscos a serem evitados no caso brasileiro?

Piketty: Não acredito que o governo brasileiro vá reduzir tanto os gastos totais do governo, nem que essa seria uma boa decisão. Talvez seja bom reformar os gastos e o sistema de impostos – e torná-los mais transparentes. Também fortalecer gastos sociais e reduzir outros gastos que não são tão eficientes. Mas não estou certo de que seria uma decisão inteligente reduzir de forma mais significativa o nível geral de gastos do governo com esse nível de crescimento. Se você tem uma recessão ou quase estagnação, austeridade não é uma boa forma de lidar com isso. E tanto no Brasil como na Europa a prioridade agora é voltar a crescer.

BBC Brasil: Se o Brasil já está conseguindo reduzir a pobreza, por que precisa se importar também com a desigualdade?

Piketty: Porque poderia ter uma redução ainda maior da pobreza e um crescimento maior da economia se tivesse menos desigualdade. É tudo uma questão de grau. Concordo que precisamos de um pouco de desigualdade para continuar crescendo. O problema é quando a desigualdade atinge níveis extremos, muito altos. Aí deixa de ser útil para o crescimento. Passa a se perpetuar por gerações, afeta a questão da mobilidade social. Os níveis de desigualdade no Brasil estão entre os maiores do mundo. Se o Brasil quiser crescer no século 21 precisa garantir que amplos grupos da população tenham acesso à educação de qualidade, qualificação e trabalhos que pagam bem. Para isso é necessário muito investimento social inclusivo.

BBC Brasil: Que tipo de programas sociais são efetivos? No Brasil, apesar de diversos grupos políticos abraçarem o Bolsa Família, por exemplo, o programa ainda causa polêmica. Os críticos dizem que é assistencialista ou populista …

Piketty: A aceitação das transferências para os pobres é um problema em vários países. No Brasil, como em outros países, precisamos abordar a questão das políticas sociais de forma equilibrada. O Bolsa Família e a transferência de recursos para os pobres são importantes. Mas mais investimentos em educação, também. Na realidade, o aumento do salário mínimo tem sido até mais eficiente em reduzir a pobreza que o Bolsa Família. A taxação progressiva também é crucial. Como disse, precisamos de todas essas políticas.

 

Piketty defende Estado mais eficiente para investir em educação e serviços públicos

Piketty defende Estado mais eficiente para investir em educação e serviços públicos

BBC Brasil: Não é possível reduzir a desigualdade com um Estado menos inflado?

Piketty: Acho que precisamos de um Estado eficiente para investir em educação e serviços públicos. Não há exemplos no mundo de um país que tenha se desenvolvido com um nível de imposto de 10% ou 20% do PIB. Também sou cético sobre aqueles que dizem que a filantropia privada vai substituir o governo no futuro e que não precisamos (mais…)

Cai 9% o número de matriculados em escolas públicas no Brasil

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Publicado no UOL

A escola pública encolheu. A Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD-2013) mostra que 76,5% dos estudantes estavam matriculados em alguma instituição pública. No ano anterior, a proporção era de 77,4% dos estudantes. Em um ano, foram 445 mil alunos a menos. Nesse período, os estudantes da rede particular passaram de 12,1 milhões para 12,6 milhões.

A redução de matrículas na escola pública tem se mostrado uma tendência – nos anos de 2004 e 2005, 80,9% dos estudantes brasileiros estudavam em instituições municipais, federais ou estaduais. A partir de 2006, essa proporção começa a cair.

“A PNAD reforça o que o Censo Escolar já vinha mostrando. Também encomendamos estudo à Fundação Getúlio Vargas que mostra essa migração da escola pública para a particular nos segmentos da educação infantil e no ensino fundamental.

O ensino médio está estagnado”, afirma o diretor da Fenep (Federação Nacional das Escolas Particulares), Antônio Eugênio Cunha. Ele aponta a ascensão da classe C como uma das causas para essa migração. “O poder aquisitivo melhorou, consequentemente as pessoas querem qualidade do serviço. E a educação é fundamental”.

Em 2013, a Região Centro-Oeste era a que tinha a maior proporção de alunos matriculados em escolas pagas, 27,3%. O Sudeste vem em segundo lugar, com 26,3%; seguido de Sul (24,2%); Nordeste (21,8%); e Norte (14,6%).

O Grupo Educacional Alub, voltado para a classe C, com onze unidades em Goiás e Brasília, é exemplo dessa migração – saltou de 5 mil alunos em 2013 para 11 mil, este ano. “Esse fenômeno tem duas causas: o aumento do poder aquisitivo de uma parcela da população que agora ganha entre R$ 3 mil e R$ 4 mil; e a falta de escolas públicas nos novos bairros”, afirma Alexandre Crispi, diretor do Grupo Alub.

“A classe C já não consegue se manter nos centros, onde estão as escolas, e vai para esses novos bairros, que não chegam a formar uma periferia. São áreas verticalizadas, com condomínios com serviços, mas onde a escola pública não chegou”.

Crispi sugere a criação de um Prouni para os ensinos fundamental e médio. Ele se refere ao programa do governo que dá bolsas integrais ou parciais para a educação superior em instituições privadas. “A escola particular está recebendo mais de 300 mil alunos por ano. É uma demanda grande, que Estados e municípios não conseguem suprir”, afirmou.

A coordenadora do movimento Todos Pela Educação, Alejandra Meraz Velasco, ressalta que os dados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), divulgado no início do mês, e que apontam para uma queda da qualidade na educação particular, são um sinal de alerta.

“A qualidade percebida pelos pais na escola particular é almejada e, na medida em que as condições econômicas permitem, eles fazem essa migração. Mas o indicador de que a qualidade da escola particular caiu é preocupante. Essa expectativa não se cumpre”, afirma.

Para Alejandra, a saída dos alunos com melhor condição econômica é prejudicial para o ensino público. “O ideal seria o contrário. A escola pública melhoraria muito se a classe média trouxesse seus filhos. Numa discussão mais ampla, não tem bala de prata na educação: a melhora passa pela execução do Plano Nacional de Educação, melhorar a infraestrutura, investir na formação de professores, oferecer condições de trabalho”.

Antônio Eugênio Cunha, da Fenep, diz que a “grande preocupação” da escola particular é manter a qualidade. “Recebemos alunos com algumas defasagem, que enfrentaram greves, que não tiveram professores de algumas matérias. Fazemos a adequação ao longo do ano. Não é imediato”.

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