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O verdadeiro papel da educação – Edgar Morin

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Publicado na Revista Prosa e Verso

“A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.”

O filósofo francês Edgar Morin fala sobre um dos temas que o tornou uma influência mundial, a educação. Morin fala sobre a necessidade de estimular o questionamento das crianças, sobre reforma no ensino e sobre a importância da reflexão filosófica não tanto para que respostas sejam encontradas, mas para fomentar a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos. Leia abaixo:

O senhor costuma comparar o nosso planeta a uma nave espacial, em que a economia, a ciência, a tecnologia e a política seriam os motores, que atualmente estão danificados. Qual o papel da educação nessa espaçonave?
Ela teria a função de trazer a compreensão e fazer as ligações necessárias para esse sistema funcionar bem. Uso o verbo no condicional porque acho que ela ainda não desempenha esse papel. O problema é que nessa nave os relacionamentos são muito ruins. Desde o convívio entre pais e filhos, cheio de brigas, até as relações internacionais — basta ver o número de guerras que temos. Por isso é preciso lutar para a melhoria dessas relações.

O que é preciso mudar no ensino para que o nosso planeta, ou a nave, entre em órbita?
Um dos principais objetivos da educação é ensinar valores. E esses são incorporados pela criança desde muito cedo. É preciso mostrar a ela como compreender a si mesma para que possa compreender os outros e a humanidade em geral. Os jovens têm de conhecer as particularidades do ser humano e o papel dele na era planetária que vivemos. Por isso a educação ainda não está fazendo sua parte. O sistema educacional não incorpora essas discussões e, pior, fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade.

O senhor então é contra a divisão do saber em várias disciplinas?
As disciplinas como estão estruturadas só servem para isolar os objetos do seu meio e isolar partes de um todo. Eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação. A educação deveria romper com isso mostrando as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem. Caso contrário, será sempre ineficiente e insuficiente para os cidadãos do futuro.

Na prática, de que forma a compreensão e a condição humana podem estar presentes em um currículo?
Ora, as dúvidas que uma criança tem são praticamente as mesmas dos adultos e dos filósofos. Quem somos, de onde viemos e para que estamos aqui? Tentar responder a essas questões, com certeza, vai instigar a curiosidade dos pequenos e permitir que eles comecem a se localizar no seu espaço, na comunidade, no mundo e a perceber a correlação dos saberes.

Mas uma pergunta como “quem somos?” não é fácil de responder.
E não precisa ser respondida. É a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos que tornam o assunto interessante. Podemos ir pelo social, somos indivíduos, pertencentes a determinadas famílias, que estão em certa sociedade, dentro de um mundo que tem passado, história. Todos temos um jeito de ser, um perfil psicológico que também dá outras informações sobre essa questão. Mas também somos seres feitos de células vivas, entramos na biologia—, que são formadas por moléculas,— temos então a química. Todas essas moléculas são constituídas por átomos que vieram de explosões estelares ocorridas há milhões de anos… E assim por diante. Sempre instigando a curiosidade e não a matando, como frequentemente faz a escola.

Como temas tão profundos podem ser tratados sem que a aula fique chata?
É só não deixar enjoativo o que é por natureza passional. Um jornal francês de literatura fez uma pesquisa entre os alunos e descobriu que até os 14 anos os jovens gostam de ler e lêem muito. Quando vão para o liceu, lêem menos. É verdade que eles começam a sair mais de casa e ter outros interesses, mas um dos principais motivos é que os professores tornam a literatura chata, decupando-a em partes pequenas e analisando minuciosamente o seu vocabulário, em vez de dar mais valor ao sentido do texto, à sua ação. Nada mais passional do que um romance, nada tão maravilhoso quanto a poesia! Nada retrata melhor a problemática humana do que as grandes obras literárias. Os saberes não devem assassinar a curiosidade. A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.

A literatura e as artes deveriam ter mais destaque no ensino?
Sem dúvida. Elas poderiam se constituir em eixos transdisciplinares. Pegue-se Guerra e Paz, de Tolstói, por exemplo. O professor de Literatura pode pedir a seu colega de História para ajudá-lo a situar a obra na história da Rússia. Pode solicitar a um psicólogo, da escola ou não, que converse com a classe sobre as características psicológicas dos personagens e as relações entre eles; a um sociólogo que ajude na compreensão da organização social da época. Toda grande obra de literatura tem a sua dimensão histórica, psicológica, social, filosófica e cada um desses aspectos traz esclarecimentos e informações importantes para o estudante. Todo país tem suas grandes obras e certamente também os clássicos universais servem para esse fim.

O professor deve buscar sempre o trabalho interdisciplinar?
Ele deve ter consciência da importância de sua disciplina, mas precisa perceber também que, com a iluminação de outros olhares, vai ficar muito mais interessante. O professor pode procurar ter essa cultura menos especializada, enquanto não existir uma mudança na formação e na organização dos saberes. O professor de Literatura precisa conhecer um pouco de história e de psicologia, assim como o de Matemática e o de Física necessitam de uma formação literária. Hoje existe um abismo entre as humanidades e as ciências, o que é grave para as duas. Somente uma comunicação entre elas vai propiciar o nascimento de uma nova cultura, e essa, sim, deverá perpassar a formação de todos os profissionais.

Como o professor vai aprender a trabalhar de forma conjunta?
Ele vai se autoformar quando começar a escutar os alunos, que são os porta-vozes de nossa época. Se há desinteresse da classe, ele precisa saber o porquê. É dessa postura de diálogo que as novas necessidades de ensino vão surgir. Ao professor cabe atendê-las.

Como acontece uma grande reforma educacional?
Nenhuma mudança é feita de uma só vez. Não adianta um ministro querer revolucionar a escola se os espíritos não estiverem preparados. A reforma vai começar por uma minoria que sente necessidade de mudar. É preciso começar por experiências pilotos, em uma sala de aula, uma escola ou uma universidade em que novas técnicas e metodologias sejam utilizadas e onde os saberes necessários para uma educação do futuro componham o currículo. Teríamos, desde o começo da escolarização, temas como a compreensão humana; a época planetária, em que se buscaria entender o nosso tempo, nossos dilemas e nossos desafios; o estudo da condição humana em seus aspectos biológicos, físicos, culturais, sociais e psíquicos. Dessa forma começaríamos a progredir e finalmente a mudar.

Como tratar temas tão profundos como o estudo da condição humana nos diversos níveis de ensino?
Os professores polivalentes da escola primária são os ideais para tratar desses assuntos. Por não serem especialistas, têm uma visão mais ampla dos saberes. Eles podem partir da problemática do estudante e fazer um programa de ensino cheio de questões que partissem do ser humano. O polivalente pode mostrar aos pequenos como se produz a cultura da televisão e do videogame na qual eles estão imersos desde muito cedo. Já a escola que trabalha com os jovens deve dedicar-se à aprendizagem do diálogo entre as culturas humanísticas e científicas. É o momento ideal para o aluno conhecer a história de sua nação, situar-se no futuro de seu continente e da humanidade. Às universidades caberia a reforma do pensamento, para permitir o uso integral da inteligência.

Fonte: revista Nova Escola | Fronteiras do Pensamento

Cláudia Costin: “O maior erro foi não ter discutido a reforma do Ensino Médio com os jovens”

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A professora Cláudia Costin, em dezembro de 2015. Jorge Araújo Folhapress

A professora Cláudia Costin, em dezembro de 2015. Jorge Araújo Folhapress

 

Especialista diz que a reforma do ensino médio era urgente e elogia o aumento da carga horária

Marina Rossi, no El País

A necessidade de uma reforma no Ensino Médio é praticamente um consenso entre especialistas e educadores. Mas o fato de ter sido feita por meio de uma Medida Provisória, às pressas e sem diálogo com a comunidade escolar, é um ponto negativo quase consensual também. Cláudia Costin, professora de Harvard e da Fundação Getúlio Vargas, acredita que a falta de diálogo para propor uma reforma tão profunda na educação brasileira foi o maior problema da Medida Provisória do Ensino Médio, que acaba de ser aprovada no Senado, faltando apenas ser sancionada pelo presidente Michel Temer.

Ex-ministra da Administração e Reforma do Estado no Governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ex-secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro e ex-secretária da Cultura de São Paulo, Costin passou também pelo Banco Mundial.

Pergunta. O que você achou da proposta da reforma do Ensino Médio?

Resposta. Era urgente reformar o Ensino Médio. Hoje temos 13 disciplinas na grade curricular de alguns Estados, chegando a ter até 15 disciplinas em outros para uma carga de quatro horas e meia por dia. Não é razoável. Dos 30 países que ficaram em primeiro lugar no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], nenhum tem uma carga assim.

P. Por que o nosso modelo é assim ainda hoje?

R. Esse modelo de disciplinas tem muito mais a ver com interesses corporativos do que com o interesse dos jovens. São associações e sindicatos de professores que pressionam para que muitas disciplinas ainda permaneçam no currículo. A escola no Brasil já não é pensada para adolescentes e jovens. O currículo é enciclopédico. Por isso, quando começaram a trabalhar na Base Nacional Comum Curricular fiquei muito otimista quando deram atenção para esse excesso de disciplinas.

P. Qual é o ponto negativo, na sua opinião, dessa reforma?

R. Não gostei de ter sido por meio de uma Medida Provisória. O Brasil teve várias mudanças educacionais ao longo da história e sempre foi um processo muito discutido. Era muito importante discutir essas mudanças com os jovens. Eles têm idade para isso. Nós temos uma tendência no Brasil de infantilizar o adolescente…

P. Como assim?

R. Todo mundo se inspira no modelo educacional da Finlândia, por exemplo. Mas esquecem de uma coisa: lá eles nunca chamam os pais para discutir a escola ou falar do aluno. Eles falam com os jovens. O jovem vota para presidente da República mas não pode definir o que vai acontecer na sua vida escolar. Isso é um paradoxo. Mesmo que ele cometa erros, ele deve participar das decisões, pois ele pode aprender com os erros.

P. E quais os pontos mais positivos desta reforma?

R. Gostei muito de terem aumentado a carga horária para cinco horas diárias, diante das quatro horas e meia atuais. Deram um prazo para que as escolas possam cumprir essa alteração. Acho que aumentar a quantidade de horas é, inclusive, muito mais factível do que o ensino integral.

P. E sobre a não obrigatoriedade de oferecer as aulas de artes e educação física?

R. Acho que arte, por exemplo, é fundamental desde o ensino básico. Mas sobre sociologia e filosofia, acho interessante que não seja necessariamente por meio de uma disciplina. Você pode ensinar sociologia inserida na disciplina da física, por exemplo. Não precisa ser uma disciplina à parte. De maneira geral, vejo com bons olhos a proposta que saiu. Acho que teríamos ganhado mais se tivessem colocado urgência no projeto de lei que já tramitava na Câmara, e não transformado em uma Medida Provisória. O maior erro foi não ter discutido com os jovens.

P. A Câmara aprovou a Medida Provisória na mesma semana em que o Senado aprovou a PEC do teto de gastos. Essa proposta de estabelecer limite para os investimentos públicos pode interferir no que se está propondo para a Educação?

R. Eu sou super a favor de um Governo que está em déficit corte despesas. Mas é um bom momento para se estabelecer prioridades, que, ao meu ver, seriam a criação de uma rede de proteção social para os mais pobres e a educação. Como vamos crescer em bases sustentáveis sem investir em educação de qualidade? E investir em educação de qualidade significa pagar melhor o professor. O maior gasto com a educação é o salário do professor e é assim que deve ser. Sobre a PEC, não sei como farão para investir na ampliação da rede de período integral, por exemplo, com os limites de gastos. Eu tenho a expectativa de que em pouco tempo alguém se dê conta de que essa PEC seja revista antes dos dez anos.

Escola deveria incorporar ‘conversa de boteco’, diz educadora

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Publicado na BBC Brasil

Em vez de replicar bons sistemas de ensino de outros países, o Brasil deveria se inspirar neles e criar um modelo aproveitando traços da cultura nacional, como o gosto pela música e pela conversa, diz Cláudia Costin, ex-diretora do Banco Mundial para Educação e professora visitante na Universidade Havard (EUA).

“A dinâmica das aulas deveria lembrar mais nossas rodas de conversa do que uma palestra. Nada é mais contrário à nossa cultura fora dos muros da escola do que a forma como damos aula hoje”, afirma.

Em entrevista à BBC Brasil, Costin diz ainda que as centenas de escolas brasileiras ocupadas por estudantes ao longo do ano jamais serão como antes, já que os alunos não aceitarão mais assistir às aulas passivamente.

Formada em administração pública na FGV-SP, Costin passou os dois últimos anos no Banco Mundial, após chefiar entre 2009 e 2014 a secretaria de Educação do Rio de Janeiro na gestão Eduardo Paes (PMDB). Antes, foi secretária de Cultura do Estado de São Paulo (2003-2005) e ministra da Administração e Reforma do Estado do governo FHC (1995-2002).

Ela deixou o banco neste ano para lecionar em Harvard, trabalho que conciliará com a direção do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe). Instalado na FGV-Rio há pouco mais de um mês, o órgão terá entre seus objetivos melhorar a formação de professores. Confira os principais trechos da entrevista.

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BBC Brasil – No Brasil, em que medida o sucesso profissional de alguém se deve à qualidade de sua formação escolar, e em que medida se deve a fatores como círculo social, gênero e raça?
Claudia Costin – Há uma pesquisa mostrando que 68% do sucesso escolar de um aluno depende dos anos de escolaridade dos pais. A criança da escola pública na média já sai perdendo por aí, e depois na vida profissional a desigualdade continua se agravando, porque as que vêm de um meio mais favorecido têm pais com bons contatos e colegas que vão se colocar bem no mercado.

Existe uma promessa na sociedade de igualdade de oportunidade que não está sendo cumprida. Para que seja, a escola pública tem que ser muito melhor.


BBC Brasil – Há estudos que relacionam sistemas de ensino bem sucedidos, como o finlandês e o sul-coreano, a traços culturais dos países que os adotaram. Que características culturais brasileiras poderiam embasar um sistema de ensino que explore todo o nosso potencial?

Costin – Se fosse pensar num traço cultural que pudesse orientar a nossa maneira de dar aula e repensar o ensino é a conversa de boteco. É curioso: somos um povo que gosta muito de conversar, mas a conversa é reprimida na escola, é vista como algo errado.

A conversa deveria ser coletiva na escola: em grupos e, depois, de maneira centralizada. A dinâmica da aulas deveria lembrar mais nossas rodas de conversa do que uma palestra. Nada é mais contrário à nossa cultura fora dos muros da escola do que a forma como damos aula hoje.

BBC Brasil – Há outros elementos que poderiam ser melhor aproveitados?
Costin – Na nossa cultura, a música também tem um papel extremanente importante. No Rio, criamos escolas vocacionais (focadas em temas específicos). Uma delas fica ao lado do bloco carnavelesco Cacique de Ramos.

Os alunos têm um currículo normal com sete horas de aula por dia, mas todos os textos em português e em matemática são relacionados à musica e ao samba. Eles passam três horas por dia aprendendo a ler partitura, a tocar instrumentos, a compor samba enredo.

Essa escola é hoje uma das melhores do Rio – um exemplo de como podemos usar a música para dar uma formação integral e com a nossa cara.

BBC Brasil – Algo mudou no debate sobre a educação no Brasil desde que você deixou o país, em 2014?
Costin – Ampliou-se a percepção de que as crianças não estão aprendendo. O Brasil viveu um momento de celebração em 2012 pelo fato de termos sido o país que mais avançou em matemática no Pisa (principal teste internacional que mede a qualidade do ensino) entre 2003 e 2012.

Por certo tempo podíamos pensar que, como fomos um dos últimos países a universalizar o ensino primário, a qualidade da educação estava ruim, mas ia melhorar. Mas hoje estamos estagnados num patamar muito baixo.

BBC Brasil – Por que o resultado deixou de melhorar?
Costin – Porque as transformações mais importantes demandam uma alteração na forma como formamos professores.
Devemos tornar a formação mais profissionalizante, assim como medicina e engenharia fazem.

A universidade no Brasil forma professores nos cursos de licenciatura e pedagogia focando demasiadamente nos fundamentos da educação, como filosofia da educação, sociologia da educação, e quase nada na prática do professor nas aulas.

Além disso, dada a baixa atratividade da carreira, hoje os 25% piores alunos do ensino médio se tornam professores. Na Finlândia e Coreia do Sul é o oposto: os 25% melhores viram professores.

BBC Brasil – Como mudar a formação do professor? É algo que deve ser feito pelo governo ou pela universidade?
Costin – As duas coisas. Tem muita gente fazendo mestrado e doutorado em educação no exterior. Minha esperança é que voltem para as universidades brasileiras para transformá-las por dentro.

Por outro lado, o Estado de São Paulo passou a repassar recursos adicionais para universidades formarem professores com base num determinado currículo. Na gestão do Fernando Haddad no Ministério de Educação, havia a discussão de criar uma prova nacional de certificação, que daria ao indivíduo o direito de ser professor. É algo que existe no mundo todo e, dependendo de como fizerem a prova, há como influenciar a universidade.

Outra coisa que pode ser feita é exigir uma prova prática nos concursos para seleção de professores. Que eu saiba, só Rio de Janeiro e Curitiba fazem isso hoje.

BBC Brasil – Como gastar melhor o dinheiro com o treinamento de professores?
Costin – Fazendo com que trabalhem de forma colaborativa dentro da escola e estimulando que professores tenham mentores e tutores quando entram na carreira. Grande parte do que se gasta hoje com formação de professores é desperdiçada.

Há pesquisas mostrando que não há nenhuma relação entre o desempenho do aluno e o fato de o professor ter feito mestrado ou doutorado, por exemplo. No Rio, fizemos uma avaliação externa e descobrimos que a professora primária da melhor turma da rede não tinha nem feito faculdade.

BBC Brasil – Qual era o segredo dela?
Costin – Era uma professora mais velha, que entrou na rede numa época em que não se exigia faculdade, e que dava aula numa região muito violenta. Ela começava a aula acalmando as crianças, num processo de catarse em que cada uma contava o que tinha acontecido na noite anterior. Instintivamente e sem ser psicóloga, ela trouxe serenidade para o grupo, e aí o conteúdo podia ser trabalhado.

Parecia que ela tinha estudado como desenvolver competências socioemocionais: persistência, resiliência, autocontrole. Esse é o grande debate da educação hoje: como, além das competências cognitivas, trabalhar competências para viver em sociedade, como empatia e respeito ao outro – coisas de que nós, adultos, estamos precisando muito nesses tempos de ódio.

BBC Brasil – Como acompanhou o movimento de ocupação de escolas pelo Brasil neste ano?
Costin – Senti que ele começou de um jeito e virou uma coisa bem diferente. Em alguns casos, tenho a impressão de que, movidos por interesses corporativistas, professores falaram de suas frustrações para os alunos e os encorajaram a ir à luta. Mas, quando se libera um movimento social, ele não fica sob o controle de quem o iniciou.

Acho que os alunos aprenderam muito com esse processo e agora ningém mais vai conseguir ter uma escola igual a antes, com o professor no comando escrevendo no quadro e o aluno anotando. Guardadas as proporções, vai se assemelhar ao que aconteceu em 1968 em alguns países europeus. As escolas vão mudar, e isso vai ser positivo porque
vai ser centrado no protagonismo do aluno.
O aluno tem que ser protagonista da sua vida escolar. Na Finlândia, quando um aluno do ensino médio tem problemas de disciplina, a escola não chama os pais, ela discute com ele mesmo. No Brasil, muitas vezes famílias e escolas infantilizam o aluno de ensino médio.

BBC Brasil – Qual sua posição sobre o movimento Escola sem Partido (proposta de lei que, segundo os autores, busca coibir a doutrinação ideológica nas escolas e proteger a educação moral que os alunos recebem em casa)?
Costin – Sou contra a proposta, não concordo com censura em educação. Mas, ao mesmo tempo, quando acontece uma coisa dessas, é bom parar para pensar por que estão falando disso.
Há muito professor que, seja de direita ou esquerda, relata sua visão de mundo para o aluno como se fosse a verdade, em vez de ensiná-lo a pensar. Isso é preocupante. Então acho que a proposta da lei estava errada, mas temos de ter um mecanismo para que as pessoas nem pensem nessa possibilidade.

BBC Brasil – Alguns analistas dizem que, embora tenha havido uma forte expansão do ensino superior no Brasil na última década, não se deu a mesma atenção ao desenvolvimento de centros de excelência voltados à formação de uma elite. A cítica faz sentido?
Costin – Acho que o Brasil fez exatamente o oposto. Só 18% da população entre 24 e 34 anos terminou a universidade. É uma elite. Países com o mesmo grau de desenvolvimento que o nosso têm índices maiores.
O número de vagas aumentou, mas acho que a universidade está ressentida, ela não queria ser ampliada. Há segmentos que desejam que houvesse menos médicos, menos engenheiros, para ter uma reserva de mercado.

BBC Brasil – Que achou da proposta de reforma do ensino médio e da forma como foi submetida ao Congresso, por meio de medida provisória?
Costin – O conteúdo não foi feito pelo governo Temer, ele foi feito pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação e respaldado por sucessivos ministros da Educação.
O que está no conteúdo vai dar um trabalho louco, mas está correto. O erro foi tentar fazer por medida provisória. Não se transforma a educação sem muita discussão.

BBC Brasil – Como melhorar a educação após a aprovação da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que congela por até 20 anos os gastos federais no setor?
Costin – Não concordei com inclusão de educação na PEC e acho que deveríamos brigar para rever essa questão. Quando há uma crise fiscal, é natural que se queira cortar gastos. Mas mesmo os países com atuação fiscal importante tratam a educação como prioridade.
Com o congelamento, estamos condenados a ter a profissão de professor com baixos salários e, portanto, pouco atraente por muitos e muitos anos. Isso prejudica a educação. Nenhum sistema é melhor que a qualidade de seus professores.

BBC Brasil – As críticas que você recebe desde que chefiou a secretaria de Educação no Rio, que a associam à defesa do ensino privado e a uma postura autoritária na negociação com sindicatos, a incomodam?
Costin – Dediquei a vida inteira à escola pública e acho que não se constrói equidade sem focar escola pública. O que esse grupo criticava é termos feito parcerias com instituições de formação de professores que eram privadas.
Isso não me perturba. Eles acham que não deveríamos contratar ninguém para formar professores, ou que só deveria haver universidades públicas ou a própria rede formando professores.
Mas, se não temos determinado conhecimento, é importante que alguém prepare o professor. Se forem fundações sem fins lucrativos, não tem problema. É isso o que o mundo faz.

Professor de Harvard revela os preceitos para a ‘boa escrita’

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Rose Lincoln/Harvard University

Rose Lincoln/Harvard University

 

Professor de Harvard e especialista em linguagem fala sobre as razões por trás da proliferação de textos ruins e aponta preceitos para a boa escrita

Thais Paiva, no Carta Educação

A ideia de que as novas mídias estão deteriorando o uso da língua não é só falsa como nociva. Quem diz é o cientista canadense Steven Pinker, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Harvard e especialista em linguagem. Para ele, hoje as pessoas estão escrevendo mais e a oferta de boa escrita é cada vez mais vasta. “Quando foi a última vez que você ouviu alguém reclamar ‘não há nada de bom para ler na internet?’”, provoca.

No entanto, ainda são muitos os que apresentam dificuldade para escrever textos claros e coesos. Segundo Pinker, o texto mal escrito não é necessariamente resultado da falta de conhecimento. Pelo contrário, pode ser fruto do que ele chama de “maldição do conhecimento”, isto é, especialistas que pressupõem que seus leitores já sabem o que eles sabem e não se preocupam em explicar.

Em entrevista ao Carta Educação, o professor falou sobre seu livro Guia de Escrita: como conceber um texto com clareza, precisão e elegância (Ed. Contexto), no qual elenca princípios que devem nortear o autor para uma produção textual de qualidade e esclarece as relações entre as ciências da mente e o funcionamento da linguagem.

Por que as pessoas têm tanta dificuldade para escrever?

Primeiramente, escrever é uma tarefa artificial, que nós não nascemos para fazer. Como escreveu Charles Darwin, “o homem tem uma tendência instintiva para falar, como podemos ver no balbuciar das crianças pequenas, enquanto que nenhuma criança mostra uma tendência instintiva para assar, fermentar ou escrever”. Quando você fala, você conhece o ouvinte pessoalmente e pode prever o que ele já sabe. Quando escreve, o leitor é um estranho; você tem que adivinhar o que ele sabe e o que não sabe. Além disso, com o discurso, você pode monitorar a reação do ouvinte – vê-lo concordando com a cabeça ou franzindo a testa em perplexidade. Quando escreve, você tem que adivinhar – e provavelmente estará errado.

Em seu livro, o sr. diz que a ideia de que o uso da língua está se deteriorando é falsa. As pessoas estão escrevendo mais do que nunca por conta das novas mídias. Mas estão escrevendo com qualidade?

Há bilhões de pessoas escrevendo! Alguns textos são ruins – e sempre foram. É um erro apontar a escrita de má qualidade que vemos hoje e alegar que ela é consequência do fato da escrita estar piorando. As pessoas se esquecem de todos os textos ruins do passado. E há uma vasta oferta de bons textos atualmente. Quando foi a última vez que você ouviu alguém reclamar “não há nada de bom para ler na internet?”.

O sr. também diz que o texto mal escrito não é necessariamente resultado da falta de conhecimento. Pelo contrário, quanto mais especializada uma pessoa for em um tema, maiores as chances desse autor usar uma linguagem hermética e distante e se comunicar mal. Por que isso acontece?

A razão pela qual os especialistas têm dificuldade para se comunicar é que eles estão sujeitos à “maldição do conhecimento” – a dificuldade de entender como é não saber algo que eles sabem. Como resultado disso, autores usam abreviações e jargões ou falham em descrever o concreto, detalhes visuais de uma cena; eles pressupõem que seus leitores já sabem o que eles sabem e não se preocupam em explicar. Há inúmeras maneiras de evitar a maldição do conhecimento. A primeira é estar ciente dela, perguntar a si mesmo “o que meu leitor já sabe sobre o que eu estou escrevendo?”. Boa escrita requer empatia. A segunda coisa é colocar o texto de lado por um tempo e voltar para ele depois quando ele já não é familiar para você. Você se verá dizendo “o que eu quis dizer com isso?”. A melhor estratégia de todas é mostrar um rascunho para um leitor representativo e ver o que ele entende. Você se surpreenderá ao ver que o óbvio para você não é óbvio para todo mundo.

Podemos falar em “erro” quando se trata de língua, algo que sabemos estar em constante mudança? Se sim, deveríamos dar tanta importância para eles?

O erro é definido em relação às expectativas de determinado conjunto de leitores – um grupo de pessoas alfabetizadas que se importam com a escrita e esperam que determinadas convenções sejam seguidas. As línguas mudam, mas isso não acontece de terça para quarta-feira. Se sim, ninguém poderia compreender o outro e se você pegasse um jornal do ano anterior não entenderia nada.

O sr. diz que a boa escrita é aquela que faz com que o leitor se sinta um gênio. No entanto, a escrita ruim é aquela que faz com que o leitor se sinta um estúpido. Parte do problema que vemos hoje com a proliferação de textos ruins não está ligada ao fato de que muitos autores querem se sentir superiores aos seus leitores?

Isso pode ser parte do problema, mas um maior está no fato dos autores se preocuparem que seus colegas de profissão/área pensem que são inferiores, então eles tentam antecipar todas as objeções e críticas possíveis e evitam a linguagem simples porque isso talvez revele que são ignorantes. Em outras palavras, um autor ruim não está tentando ser superior aos seus leitores, está tentando não ser inferior às pessoas que ele acredita que estão julgando-o, isto é, os experts em seu campo de atuação. Mas escrever de forma defensiva e tentando provar que não é ignorante só irá fazer sua prosa difícil e hesitante para a grande maioria dos leitores.

A ordem com que os pensamentos surgem na nossa mente é diferente daquela em que os argumentos são mais facilmente entendidos pelo leitor? Como alinhar essas duas dimensões?

Os pensamentos ocorrem ao autor por meio de associações – uma ideia te lembra outra que te leva a uma terceira ideia. Em seguida, você se lembra que você quis dizer três coisas diferentes e que acabou omitindo-as. Aí você antecipa uma objeção e responde à essa objeção e assim por diante. Mas o fluxo da consciência de um autor não corresponde ao modo como o leitor consegue absorver uma informação. O mais importante princípio na hora de apresentar ideias é “dado, agora algo novo” – comece cada sentença com aquilo que o leitor já está pensando, então apresente a informação nova para o leitor no final da frase.

“PEC do teto dos gastos vai trazer danos graves à educação”

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FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

 

Publicado no Terra

Para a diretora global de Educação do Banco Mundial, o congelamento de investimentos no ensino será um “desastre” para as novas gerações e comprometerá a produtividade dos futuros trabalhadores no Brasil.O Senado vota nesta terça-feira (13/12), em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55, conhecida como PEC do teto dos gastos públicos. Elaborada como uma tentativa de conter a crise econômica, a proposta fixa um limite para os gastos do governo pelos próximos 20 anos. No primeiro turno, realizado no final de novembro, os senadores aprovaram a proposta por 61 votos favoráveis e 14 contrários.

Se a PEC 55 for aprovada, a partir de 2018 os investimentos mínimos para educação e saúde deixam de crescer proporcionalmente à receita do país e passam a ficar congelados – corrigidos apenas pela inflação do ano anterior. Como se trata de um piso, e não de um teto, é possível, na teoria, que a União invista mais que o mínimo estipulado. Mas como todas as outras áreas estarão com seus orçamentos limitados, é improvável que sobre dinheiro para gastos extras com educação e saúde.

Em entrevista à DW Brasil, Claudia Costin, diretora global de Educação do Banco Mundial, afirma que os impactos da PEC 55 serão danosos às futuras gerações de alunos. “O Brasil continuará com o desastre educacional que tem hoje.”

Claudia já foi secretária de Educação da cidade do Rio de Janeiro, de Cultura do estado de São Paulo e ministra da Administração e Reforma do governo de Fernando Henrique Cardoso. Hoje, vive nos Estados Unidos, onde leciona na Faculdade de Educação de Harvard. Segundo ela, é imprescindível que o Brasil invista mais nos salários e na formação dos professores para aumentar a produtividade dos novos trabalhadores brasileiros.

“Se não conseguirmos avançar nessas medidas, estaremos condenados a uma educação de baixa qualidade, e o Brasil não vai conseguir crescer economicamente. O país será uma promessa falida”, afirma Claudia.

DW Brasil: Como a senhora avalia os impactos da PEC 55 para a educação?

Claudia Costin: Estamos com um problema sério e de longo prazo. Acredito que a PEC 55 vai trazer danos graves para a educação, sem ganhos significativos do ponto de vista fiscal. Não sou contra medidas de austeridade. Houve uma gestão irresponsável das contas fiscais, gastando-se mais do que se podia. Mas na tentativa de correção do problema, é fundamental preservar a educação. Normalmente, quando países têm problemas fiscais, ao menos os mais desenvolvidos, eles preservam a educação dos cortes. O Brasil optou por não fazer isso. É uma grande pena.

Qual será o ponto mais prejudicado pelas novas regras para investimentos em educação?

Muitos olham para os números e dizem que o Brasil já gasta muito com educação. Isso não é verdade. Países que deram saltos na qualidade da educação tiveram de aumentar os investimentos durante um certo período. Não estamos fazendo o mesmo. Pelo contrário.

Hoje, não investimos o suficiente no ensino básico e pagamos mal os professores. Acredito que o mais complicado será lidar com a questão da atratividade da profissão de professor, que vai continuar baixa pelos próximos 20 anos. Caso não se estabeleça um mecanismo de revisão logo (antes dos dez anos previstos pela proposta), o Brasil vai continuar com o desastre educacional que tem hoje.

Quais serão as consequências de não se adotar esses investimentos?

O impacto direto é condenar o Brasil a uma baixa qualidade da educação das crianças por um período de 20 anos. Nenhum sistema educacional é melhor que a qualidade de seus professores. Melhorar o salário do professor é uma das medidas mais importantes para aumentar a atratividade da licenciatura, para aqueles jovens que ainda vão escolher que profissão seguir. Pesquisas mostram que os piores alunos tendem a escolher profissões de baixa atratividade. Corrigir esses salários demanda um esforço importante, constante e progressivo. Ao congelarmos os gastos por 20 anos, isso não poderá ser feito. Não é a única medida para melhorar a educação, mas é uma das mais importantes.

O que pode ser feito para melhorar a educação no país, independentemente da quantidade de recursos investidos?

O ideal seria, pelo menos, aprovar revisões dos valores dos investimentos antes dos dez anos – como prevê a PEC 55. Mas mesmo se isso não passar, será preciso mudar a universidade que forma os professores. Tornar a faculdade de educação e a licenciatura mais profissionalizantes, preparar melhor os universitários para a profissão de professor. Também temos de pensar na criação de um processo de ensino mais adequado para os jovens e adotar um currículo nacional comum (a base nacional curricular comum já está em processo de elaboração pelo governo), que defina claramente as expectativas de aprendizagem dos alunos brasileiros. É preciso que este currículo seja muito mais adequado para as demandas do século 21: que forme jovens que saibam pensar, aplicar conceitos em situações reais, ler e interpretar textos de forma analítica. Tudo isso demanda um professor mais bem preparado. É um esforço que temos de fazer independentemente da PEC do teto dos gastos públicos.

Em que sentido é preciso melhorar a formação dos professores?

Hoje, a formação dos professores é excessivamente focada nos fundamentos da educação, como sociologia da educação, história da educação, filosofia da educação. Os currículos das universidades que formam professores trabalham muito pouco com a prática. Os cursos de Engenharia e Medicina, por exemplo, preparam o futuro engenheiro ou médico com uma abordagem prática e reflexão sobre a prática muito maior. Em educação, isso não acontece. É urgente mudar os currículos de formação de professores pelas universidades e os concursos públicos das secretarias municipais e estaduais de educação para selecionar professores que, durante sua formação, tenham desenvolvido sua competência de ensinar de forma mais prática, com maior enfoque na didática.

Caso essas mudanças não sejam adotadas, como a senhora vê o país daqui a 20 anos?

Vejo o país estagnado. Uma das questões mais preocupantes que observamos na economia brasileira é a da produtividade, que está estagnada em um patamar muito baixo. Com uma produtividade baixa, e ela tem uma correlação importante com a qualidade da educação e o crescimento econômico de longo prazo, não vamos crescer. Com menos investimentos em educação, não vamos conseguir preparar os jovens para o futuro do mercado de trabalho. Hoje, vários cargos que demandam atividades manuais e intelectuais rotineiras estão se tornando obsoletos e desaparecendo por causa da automação do trabalho. O que está sendo cada vez mais valorizado no mercado é a capacidade de criação, concepção, reflexão crítica, comunicação. E essas habilidades dependem de uma educação mais sofisticada e de melhor qualidade. Se não conseguirmos avançar nessas medidas, estaremos condenados a uma educação de baixa qualidade, e o Brasil não vai conseguir crescer economicamente. O país será uma promessa falida.

O que garante o crescimento econômico de longo prazo, especialmente inclusivo, que diminua a desigualdade, é a educação de qualidade. Se o Brasil colocar no seu projeto de nação a educação como um eixo estruturador, e investir nela, poderemos ser um país diferente.

A senhora conhece outros países que já adotaram medidas semelhantes ao que a PEC 55 propõe para a educação?

Não. No Brasil, quem usa os serviços de educação e saúde públicas são, em geral, as pessoas mais pobres. A classe média frequenta pouco as escolas públicas e os serviços de saúde do governo. Num país tão desigual como o nosso, estaremos atingindo os mais pobres. Com certeza, há outras formas de cortar gastos sem prejudicar investimentos em educação e saúde.

Em oposição à PEC 55 e à Medida Provisória da reforma do Ensino Médio (que, entre outros pontos, diminui a quantidade de disciplinas obrigatórias da grade curricular), milhares de estudantes ocuparam escolas de todo o país. Como a senhora avalia este movimento estudantil?

Durante muito tempo, o sistema educacional brasileiro tratou os jovens de forma um pouco infantilizada, como se não pudessem ser protagonistas de sua própria vida escolar. Na Finlândia, por exemplo [país com desempenho educacional excelente], as escolas não chamam os pais para discutir comportamento de alunos de Ensino Médio. Eles chamam o próprio aluno. O estudante tem de perceber que a educação dele depende do seu protagonismo. Ele é o principal ator na construção dos seus sonhos e na sua vida escolar. Quem vai sair perdendo se a qualidade da educação ficar congelada ou se deteriorar ainda mais vai ser justamente esta geração.

Por isso, vejo esse movimento estudantil de forma positiva, embora eu concorde que o ensino médio brasileiro, com uma média de quatro horas de aula por dia e 13 disciplinas, está insustentável. Precisamos criar trilhas diferentes de educação, em que o aluno possa escolher disciplinas e não cursar durante os três anos as 13, ou 15 em alguns estados, matérias obrigatórias. Se olharmos para os 30 primeiros países no ranking do Pisa, nenhum deles têm mais de seis matérias, e todos têm carga horária maior que quatro horas de aula por dia. É uma pena que a reforma tenha sido proposta por medida provisória, mas ao meu ver ela é necessária.

O Brasil obteve resultados ruins no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) em 2015, ocupando a 59ª posição em leitura, 63ª em ciências e 66ª em matemática, de um total de 70 países avaliados. Por que o desempenho brasileiro foi tão fraco?

O Brasil está estagnado há várias edições do ranking. O Pisa enfatiza a área de ciências, de letramento científico. Em primeiro lugar, estamos com professores muito mal formados para sua função. A universidade não prepara adequadamente professores no Brasil. Um professor de química, por exemplo, tem em média três anos e meio de aulas de química e um ano, ou menos, de aulas de fundamentos da educação. Mas não aprende a didática da química, ele não aprende a ensinar os alunos a pensar cientificamente. A prova Pisa pede exatamente esta competência: aplicar conceitos científicos para resolver problemas do dia a dia. Os nossos professores não estão sendo preparados para isso. Além disso, dada a baixa atratividade da carreira, considerando os salários, condições e perspectivas, os melhores alunos do ensino médio não escolhem tornar-se professores. E mesmo os que já estão na faculdade de Química, Física e Biologia, por exemplo, na hora de fazer a licenciatura, optam apenas pelo bacharelado, porque o mercado paga muito mais que a sala de aula. A somatória das duas coisas, a baixa preparação da universidade e os salários reduzidos, explica boa parte do problema.

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