Posts tagged entrevista

‘A resposta está nos nativos digitais’, diz o historiador Roger Chartier

0

image

Roger Chartier é professor de Collège de France, diretor na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e professor visitante na University of Pennsylvania

Rodney Eloy, no Pesquisa Mundi

Cinthya Oliveira | Hoje em Dia

Um dos mais prestigiados historiadores do mundo, o francês Roger Chartier nos mostrou que é possível conhecermos mais sobre a humanidade a partir das pesquisas sobre as relações entre os homens e os textos. O pesquisador é o convidado do projeto “Literaturas: questões do nosso tempo”, que será realizado nesta terça, no Sesc Palladium, dentro da programação comemorativa de cinco anos do centro cultural.

Ao lado do historiador Robert Darnton (diretor da biblioteca da Universidade de Harvard), Chartier vai falar sobre os marcos e as transformações da prática literária desde a invenção do codex – manuscrito que substituiu o pergaminho.

Por ter a história da leitura como foco principal de suas pesquisas, Chartier passou a ser muito estudado não somente por estudantes de História, mas também nos cursos de Educação e Letras. Com o Hoje em Dia, ele conversou sobre contemporaneidade e o impacto das novas tecnologias sobre a história da leitura. Confira.

Houve muitos fatos históricos que contribuíram para a popularização da prática de leitura ao longo do mundo moderno e contemporâneo, como a invenção da imprensa e a universalização do ensino. Com a tecnologia e a internet, vivenciamos novas mudanças. Quais contribuições e questões a revolução digital tem trazido à prática de leitura na contemporaneidade?

Para responder à sua pergunta, me parece que devemos pensar que a descontinuidade existe inclusive nas aparentes continuidades. A leitura diante da tela é uma leitura descontínua, segmentada, ligada mais ao fragmento que à totalidade. Não seria talvez, por esse motivo, a herdeira direta das práticas permitidas e suscitadas pelo codex? Esse último convida a folhear os textos, apoiando-se em seus índices ou mesmo a “saltos e cabriolas” – à “sauts et gambades” como dizia (o jurista Michel de) Montaigne. É o codex, e não o computador, que convidou a comparar diferentes passagens, como queria a leitura tipológica da Bíblia que encontrava no Antigo Testamento prefigurações do Novo, ou a extrair e copiar citações e frases, sentenças e verdades universais, assim como exigia a técnica humanista dos lugares comuns. Contudo, a similitude morfológica não deve levar ao engano. A descontinuidade e a fragmentação da leitura não têm o mesmo sentido quando estão acompanhadas da percepção da totalidade textual contida no objeto escrito, tal como propõe o codex, e quando a superfície luminosa da tela, onde aparecem os fragmentos textuais, sem nos deixar ver imediatamente os limites e a coerência do corpus (livro, número de revista ou de periódico) de onde foram extraídos. A descontextualização dos fragmentos e a continuidade textual, que não diferencia mais os diversos discursos a partir de sua materialidade própria, parecem contraditórias com os procedimentos tradicionais do aprender lendo, que supõe tanto a compreensão imediata como a percepção das obras como obras, em sua identidade, totalidade e coerência.

Conforme o tempo passa, mais leitores o mundo ganha. O Brasil, por exemplo, viu seu mercado editorial crescer muito nos últimos anos. Mas além da quantidade, a qualidade da leitura vem se transformando ao longo do tempo?

A noção de “qualidade” da leitura pode ser muito subjetiva. A questão mais essencial para mim é: como preservar maneiras de ler que construam a significação a partir da coexistência de texto em um mesmo objeto (um livro, uma revista, um periódico), enquanto o novo modo de conservação e transmissão dos escritos impõe à leitura uma lógica analítica e enciclopédica, onde cada texto não tem outro contexto além do proveniente de seu pertencimento a uma mesma temática? Estas perguntas têm relevância particular para as gerações mais jovens que, ao menos nos meios sociais com recursos e nos países mais desenvolvidos, têm se iniciado na cultura escrita através da tela do computador. Nesse caso, uma prática da leitura muito imediata e naturalmente habituada à fragmentação dos textos de qualquer tipo se opõe diretamente às categorias forjadas no século 18 para definir as obras escritas a partir da individualização de sua escrita, a originalidade da criação e a propriedade intelectual de seu autor. A aposta não é sem importância, pois pode levar tanto à introdução na textualidade eletrônica de alguns dispositivos capazes de perpetuar os critérios clássicos de identificação de obras como tal, em sua coerência e identidade, quanto ao abandono desses critérios para estabelecer uma nova maneira de compor e perceber a escrita como uma continuidade textual sem autor ou copyright, no qual o leitor corta e reconstrói fragmentos móveis e maleáveis.

A transformação digital também permitiu que todos se tornassem não apenas leitores, mas também produtores de textos, mesmo que isso aconteça apenas em redes sociais. Qual é o impacto disso em uma sociedade?

Me parece que devemos distinguir três modalidades da revolução digital. Primeiramente, a transformação dos textos que existem ou poderiam existir na forma impressa e o processo que construiu coleção digitais ou que geralmente fundamenta a edição digital. Em segundo, a criação de obras digitais irredutíveis na forma impressa, tanto obras de ficção multimídia quanto “livros” de saber que aproveitam as possibilidades hipertextuais e a coexistência entre textos, imagens e materiais sonoros. Em terceiro, a digitalização das experiências e conceitos mais fundamentais da existência humana. Com as redes sociais, são as noções de identidade, intimidade, amizade ou espaço público que se encontram profundamente redefinidas. Nunca devemos esquecer que as discussões sobre o livro, a edição ou a leitura (no sentido clássico) representam uma parte muito marginal da conversão digital de nosso tempo.

A história da leitura é estudada por meio dos vestígios deixados por leitores nos livros, como marcações nas margens, sublinhados e assinaturas. É possível imaginar como será o estudo dos historiadores no futuro, quando o foco do estudo estiver ligado ao século 21?

Também deixa vestígios a leitura digital (por exemplo as anotações compartilhadas, as discussões dos blogs ou dos “youtubers”, ou o que se escreve sobre as leituras nas redes sociais), mas é verdade que estes vestígios também são ameaçados pelo apagamento. E o mesmo com a escrita digital que deixa vestígios no computador, mas vestígios que não se podem comparar com os documentos utilizados pela crítica genética. Talvez para ajudar aos historiadores do século 21 seria útil multiplicar hoje pesquisas sociológicas, dados estatísticos e observações etnológicas sobre os leitores de hoje.

Há dez anos, o senhor esteve no Fórum das Letras, em Ouro Preto, para realizar a conferência “A morte do livro”, em que tratava das possibilidades do futuro do livro como obra e do livro como material. O que mudou nestes dez anos sobre a sua percepção sobre o assunto?

Terminei esta palestra com uma incerteza. Hoje me parece ainda mais justificada. Por um lado, resiste o livro impresso no mercado do livro. Salvo nos Estados Unidos e no Reino Unido, a porcentagem dos livros digitais nas vendas de livros nunca supera 5%. Por outro lado, todas as “instituições” da cultura impressa se encontram num estado de crise. Na Europa livrarias desaparecem a cada dia, frente à concorrência dos supermercados ou da Amazon. No mundo todo, os jornais têm grandes dificuldades econômicas. E as bibliotecas conhecem a tentação de privilegiar as coleções digitais e afastar os leitores dos objetos impressos. Dentro da longa duração da cultura escrita, toda mudança (o aparecimento do codex, a invenção da imprensa, as várias revoluções da leitura) produziu uma coexistência original de objetos do passado com técnicas novas. Pode-se supor que, como no passado, os escritos serão redistribuídos entre os diferentes suportes (manuscritos, impressos, digitais) que permitem sua inscrição, sua publicação e sua transmissão. Resta, porém, o fato da dissociação de categorias que constituíram uma ordem do discurso fundamentada sobre o nome do autor, a identidade das obras e a propriedade intelectual e, de outro lado, o radical desafio a essas noções no mundo digital. Podemos pensar e esperar como Umberto Eco e Jean-Claude Carrière por um futuro no qual existiria uma coexistência das varias culturas escritas. Mas acho que a verdadeira resposta não está nos hábitos e desejos dos leitores que entraram no mundo digital a partir de suas experiências como leitores de livros impressos. A resposta pertence aos “digital natives” (nativos digitais) que identificam espontaneamente cultura escrita e textualidade eletrônica. São suas práticas da leitura e da escrita, mais do que nossos discursos, que vão decidir a sobrevivência ou a morte do livro, o apagamento do passado ou sua presencia perpetuada.

‘As pessoas que mais nos acompanham na vida são os livros’, diz Valter Hugo Mãe

0

Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

Livros podem ser como pessoas. Apesar de achar a própria ideia “ousada”, é sobre essa possibilidade que o escritor português Valter Hugo Mãe, 45, discorrerá em suas palestras em São Paulo (31 de agosto) e em Salvador (5 de setembro), dentro do ciclo de conferências “Fronteiras do Pensamento”, evento do qual a Folha é parceira.

O autor de “A Máquina de Fazer Espanhóis” e “O Filho de Mil Homens”, cuja obra no Brasil era editada pela Cosac Naify, agora terá seus livros publicados pela Biblioteca Azul.

Em entrevista à Folha, por Skype, o escritor falou de sua relação com os livros e do novo romance, que se passa no Japão antigo.

*

Folha – Como serão suas palestras no Brasil?

Valter Hugo Mãe – Partirei da presença de um livro na minha infância para refletir sobre o que penso a respeito da felicidade, que é um tema recorrente nos meus livros. A felicidade não existe sem conter a tristeza.

Quero contar minha experiência enquanto autor na busca de uma espécie de redenção, de salvação, a partir da literatura. E questionar até que ponto os livros não são, eles próprios, motivações para a felicidade.

Talvez eu vá dizer que os livros de alguma forma representam pessoas e, enquanto estivermos dentro de um espaço carregado de livros, estaremos na verdade no meio de uma multidão.

Por que talvez?

Porque que vou dizer, mas considero ousado (risos). Vou citar alguns autores de que gosto, mas obviamente pressupor que as pessoas entendam que estou falando de estar cercado apenas de bons livros. O foco será nessa honesta sensação que tenho de que, com o tempo, as pessoas que mais nos acompanham na vida talvez sejam livros. No meu caso, as pessoas que mais demoram na minha vida são mesmo feitas de papel.

O escritor português Valter Hugo Mãe em Sabatina Folha no ano passado - Eduardo Anizelli/Folhapress

O escritor português Valter Hugo Mãe em Sabatina Folha no ano passado – Eduardo Anizelli/Folhapress

 

Você acaba de terminar mais um romance. Pode falar um pouco dele?

Terminei, mas ainda não entreguei. Estou dando a última leitura para mandar hoje mesmo. Neste momento, estou na página 59 (risos). Esse processo é patológico. Estou naquela fase em que começa a depressão pós-escritura. A gente fica tanto tempo meditando sobre um texto que, quando entrega, é quase como sofrer um ato de violência.


Por quê?

Não é porque eu não queira compartilhar, fico ansioso para que as pessoas leiam e me digam o que pensam, fazendo com que eu aprenda algo mais sobre o livro que eu jamais saberia sozinho.

Mas essa hora de entregar é uma coisa horrenda (risos), porque nós vínhamos juntos há tanto tempo, e de repente o autor fica para trás.

O livro vai e eu fico com aquela angústia porque, obviamente, não posso disciplinar o leitor, então não sei o que vai acontecer. Se o leitor vai ler o livro distraído, ou rapidamente, ou interromper a leitura onde eu acho que não deveria. E ele pode, inclusive, ser burro, e não saber coisas elementares que eu acho fundamentais que um ser humano saiba.

Enfim, talvez seja também a minha burrice de autor que está em causa. Fico sem saber se expliquei o suficiente. É uma mistura de insegurança com tristeza. E eu sempre sofro isso de modo performático, então preciso criar uns rituais.

Como assim, pode dar um exemplo?

Ah, eu tenho umas superstições, umas coisas que sempre repito a cada livro. Por exemplo, logo que termino, eu imprimo tudo e coloco essa impressão debaixo de um Galo de Barcelos. O Galo de Barcelos, como você sabe, é um objeto de artesanato tão famoso que simboliza Portugal, uma coisa muito antiga, folclórica.

Existe uma superstição aqui, sobretudo na região norte do país, onde eu vivo (no Porto), que diz que nenhuma casa é feliz se não tiver um Galo de Barcelos. E esse foi minha mãe que me deu.

É uma coisa boba, porque eu não acredito que o galo dê sorte, mas como foi minha mãe que me deu, acho que, se não fizer isso, estarei ofendendo-a, porque ela me deu o galo convicta de ele tomaria conta de mim.

Sobre o que é seu novo romance?

É uma história que acontece no Japão e conta a história de um artesão, um homem humilde que vive no sopé de uma montanha, perto de Kyoto, no Japão antigo.

Tentei buscar um Japão mitológico, não tecnológico e não sofisticado. Esse foi o Japão que me impressionou desde menino, daquele povo esforçado, trabalhador, mas ao mesmo tempo capaz de uma ira, de uma violência.

Conhecer o Japão depois de ter esse Japão mitológico na memória mudou muito sua visão do país?

Sim, acho bonito eles terem conseguido entrar no futuro sem perder a memória. É uma memória endêmica que eles recusam a deixar de lado. Depois de ser um país profundamente bélico, de uma história de agressões, o Japão conseguiu erguer também a sociedade mais cordial do planeta.

Há uma aprendizagem diante dessa passagem de uma violência secular para uma pacificação. Imagine, com essa quantidade de gente que hoje habita a ilha, o país implodiria se eles ainda estivessem com os sabres erguidos a matarem-se uns aos outros (risos).

Você dizia que queria passar um tempo numa cidade pequena do Brasil e escrever um livro. É seu próximo projeto?

Não é pra já, mas tenho essa vontade, que precede a minha aceitação no Brasil como autor. O Brasil é uma atração minha desde a meninice, mas a minha relação com o país tornou-se tão especial que eu não gostaria que um livro que eu escrevesse sobre o Brasil fosse visto como uma espécie de correspondência fútil.

Não quero correr o risco de as pessoas pensarem que escrevi um livro oportunista para que os brasileiros gostem mais de mim.

Então preciso que o livro surja e que seja legítimo. Mas vai acontecer, a não ser que eu morra de um câncer fulminante.

Bom, você conta sempre que tinha a ideia, na infância, de que iria morrer logo, aos 18, e não morreu

Então, depois que isso não aconteceu, agora acho que não vou morrer mais, então vai dar tempo de escrever o livro sobre o Brasil (risos).

Você tinha uma visão muito crítica da União Europeia, achava que Portugal vinha sendo maltratado. O que achou da saída do Reino Unido?

Acho que colocou um freio no continente. Do modo como estava funcionando, era, sim, uma forma de os grandes manipularem os menores.

Mas eu sou um europeísta convicto, e acho que de maneira nenhuma a Europa pode se desfazer. Se isso ocorrer, vai nos enfraquecer ao ponto de nos tornarmos apenas belos museus medievais.

Seremos um continente de museus decrépitos. As pedras, a monumentalidade vai estar toda aí, mas as pessoas não vão ter como viabilizar um futuro, só vai existir o passado. Se nos desagregarmos, os países se transformarão em digníssimos lugarejos.

Conhecer o hábito de leitura vai levar à estabilização do mercado

0

darton

Maria Fernanda Rodrigues, no Hoje em Dia

ENTREVISTA
ROBERT DARNTON, historiador

Em 2009, o americano Robert Darnton, então diretor da Biblioteca de Harvard, lançou A Questão do Livro, uma coletânea de ensaios sobre passado, presente e futuro deste que é um de seus principais objetos de estudo. À época, o e-book ganhava força nos Estados Unidos e já chamava a atenção de editores de outros países. Aposentado há um ano, ele segue interessado no tema – tanto que entrega, na próxima semana, o original de A Literary Tour de France, sobre o livro e seu mercado no século 18, e será o principal nome do 6.º Congresso do Livro Digital, dia 25.

Nesta entrevista ao Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo, ele atualiza algumas questões de sua obra e reafirma que o futuro será mesmo digital.

Há tempos o senhor pesquisa a história do livro. O que, deste momento que estamos vivendo, deve entrar para a história?

A mudança mais óbvia é a tecnológica. A internet transformou o modo como os livros são produzidos, vendidos e lidos. As mudanças que começaram em 1991, com o desenvolvimento da internet, são tão grandiosas quanto às da Era Gutenberg. E elas continuam. Não é exagero dizer que o mundo do livro está passando por sua maior transformação em 500 anos. É excitante e ameaçador para profissionais do livro, mas, para mim, é um tempo de grandes oportunidades.

Quando o senhor lançou A Questão do Livro, discutia-se o futuro do livro diante do crescimento do e-book – e os mais catastróficos falavam no seu fim. Lá se vão 7 anos e há quem fale, agora, na morte do livro digital. Como o senhor avalia esses últimos anos no que diz respeito às ameaças do digital ao físico e às ameaças da conjuntura ao digital?

As pessoas amam fazer declarações dramáticas como essas e sobre a obsolescência das bibliotecas, e isso entra na imaginação de outras pessoas. Mas são afirmações imprecisas. No geral, penso que a situação dos livros, impressos e digitais, é melhor hoje que há 10 anos. E também as bibliotecas, pelo menos nos EUA, estão num ótimo momento e se tornando mais importantes do que nunca. Sobre a morte do e-book, e eu só posso dizer isso por informações dos EUA, sabemos que a venda do digital diminuiu cerca de 10%. A estatística é acompanhada de outra informação interessante. Houve um aumento do número de livrarias independentes – e elas só vendem obras impressas. Podemos dizer que houve um revival do livro impresso, mas isso não sinaliza uma transformação para o mercado de e-books. Depois de um período de fascinação com o e-book, tudo está se estabilizando agora, o que quer dizer que a demanda é estável. Além disso, é provável que seja verdade que diferentes tipos de leitura requeiram diferentes tipos de livros. As pessoas estão lendo mais literatura light em e-readers e o impresso tende a atrair e estimular leituras mais profundas. Admito que o pensamento é simples. O que acontece é que se está tentando conhecer os hábitos de leitura. Como resultado, podemos ter uma espécie de estabilização do mercado no lugar do desaparecimento do e-book, que continua indo bem.

Então ainda não é o momento de desanimar?

Pelo contrário. Há informações de que a venda de um e-book pode favorecer a venda de sua versão impressa e isso é fascinante. Um dos problemas que todos os editores enfrentam é como fazer com que a informação sobre seu livro chegue ao leitor no cenário em que há menos revistas e jornais publicando resenhas e em que as livrarias podem exibir um número limitado de livros. Então ocorre um processo que chamo de degustação. As pessoas podem ler um pouco do livro online para decidir se vão comprar ou não. As editoras estão descobrindo que podem ganhar dinheiro oferecendo gratuitamente um livro na internet e depois vendendo o exemplar em livrarias. Não deve ser verdade sempre e nem em todos os lugares, mas é um exemplo de como podemos ser otimistas sobre o futuro do livro em geral.

Muito se discute, também, se a informação é assimilada de forma mais superficial.

Minha intuição é que as pessoas usam aparelhos eletrônicos para literatura de entretenimento, mas não é verdade que elas nunca os usam para ler literatura séria. O problema é que é muito difícil anotar em livros digitais. Além disso, o antiquado codex é uma das maiores invenções de todos os tempos e já provou o quão eficiente ele ainda é. Outra coisa interessante: descobrimos que, nos EUA, a venda de livros impressos aumentou e que algo como 310 mil novos títulos foram lançados no ano passado nos EUA; de e-books, foram cerca de 700 mil, e muitos deles eram gratuitos. Isso quer dizer que as pessoas estão publicando mais porque é mais fácil. Temos uma democratização do mundo dos autores e dos leitores. As coisas estão mudando de um jeito muito interessante.

O fato de os e-books serem mais baratos ou gratuitos desvaloriza o produto ou ajuda a promover o acesso à leitura?

Há alguma verdade nisso de as pessoas não valorizarem o que podem ter gratuitamente. Mas o que acontece é que um público mais amplo está tendo acesso a livros graças a plataformas de acesso livre e às novas tecnologias. Um bom exemplo é o projeto SimplyE, parceria entre a Biblioteca Pública de Nova York e a Biblioteca Pública Digital da América. Ele torna livre o acesso a livros por crianças e jovens ao redor do país. Pessoas de áreas mais pobres podem, agora, ter livros gratuitamente e ler. Editores querem seus títulos no projeto porque ele vai espalhar o hábito da leitura. E mais: as editoras não estão perdendo dinheiro porque essas pessoas não compravam livros. O público leitor está sendo ampliado graças ao livro digital.

Como o senhor vê o mercado editorial hoje?

Não há muita diferença entre os livros que estão sendo publicados hoje e os do passado. A leitura está se tornando mais superficial com a disseminação do e-book? Bem, talvez sim, talvez não. Alguns dos argumentos não me convencem, sobretudo o que finge ser baseado em artigos científicos sobre como o cérebro funciona. Dizem que ler coisas online e nos tablets nos deixa mais burros. Honestamente, não acho que já sabemos como o cérebro funciona para termos uma certeza assim.

É preferível ler qualquer coisa a não ler nada?

Uma vida sem leitura é triste. E não lendo nada seríamos cortados de boa parte de nossa cultura. A importância de democratizar o acesso por meio da internet me parece central.

Como fazer isso?

Deveria haver mais apoio público às bibliotecas e elas deveriam se tornar centros eletrônicos de difusão da literatura. Fácil de dizer, difícil de executar. O potencial está lá. Alguém deve assumir a liderança e convencer governos a dedicar mais atenção a isso. Não se trata de uma ideia ingênua. Estamos descobrindo que podem haver consequências econômicas se tivermos maior e melhor acesso a livros e artigos.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

“Leitura profunda é tudo aquilo que desafia o seu cérebro a pensar”

0

cerebro

Confira entrevista com Susan Reynolds, escritora da área científica

Irinêo Baptista Netto, na Gazeta do Povo

Susan Reynolds é escritora com experiência em temas científicos. O livro mais recente dela, “Fire Up Your Writing Brain” (“Acione seu cérebro de escritor”), cita pesquisas de neurociência para falar sobre o que se sabe a respeito de criatividade e escrita. Ela é colaboradora da revista “Psychology Today” e vive em Boston, no estado de Massachusetts (EUA). Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ela faz uma defesa da escrita feita à mão com letra cursiva para estimular o cérebro.

O que acontece com o cérebro de uma pessoa que nunca pratica “leitura profunda”?

Não acontece nada, mas neurocientistas sabem que aqueles que a praticam têm vários benefícios, sobretudo uma habilidade maior para ser empático e compassivo. Ler textos complexos – como poesia, ficção de qualidade e não ficção desafiadora, ou mesmo análises aprofundadas – ajudam o cérebro na habilidade de pensar em níveis mais complexos. Diferente da leitura superficial ou leve – como a que a gente faz quando só passa os olhos pelas chamadas de um site ou lendo textos curtos, ou lendo apenas ficção mais leve e “fofa” (ficção sem substância) –, a leitura profunda põe para funcionar as funções cognitivas complexas do córtex cerebral [ligado ao pensamento, à memória e à consciência]. Qualquer leitura que faça você pensar constrói, cria estruturas e reforça as conexões neuronais no córtex cerebral. Leituras rasas basicamente “entram por um ouvido e saem pelo outro”, com pouco ou nenhum impacto duradouro. É só um passo além de assistir à televisão, que não gera nenhum benefício para o cérebro.

Escrever pode ajudar alguém a ser um humano mais completo? Ou é melhor deixar a escrita para os escritores?

Já mostraram que escrever é um meio eficiente de curar feridas emocionais. O processo de colocar suas emoções numa página por meio da escrita parece diminuir a atividade cerebral relacionada ao estresse e aumentar a liberação de neurotransmissores que acalmam o cérebro. Escrever pode servir como uma meditação para todo mundo, particularmente se você adotar introspecção e usar letra cursiva – está provado que ela desacelera o processo de raciocínio e ajuda a acessar sentimentos reprimidos. Assim como é muito mais impactante ver a versão de um poema escrito à mão pelo poeta, é mais impactante para o cérebro se você escreve à mão usando letra cursiva e de modo reflexivo. É uma ótima forma de explorar sentimentos mais profundos e com clareza. E também se você pesquisa um tópico, estuda e reflete sobre as informações que acumula, e depois escreve algo original como resultado desse processo, você está ampliando a habilidade que o seu cérebro tem para pensar.

Você pode explicar o que é “leitura profunda”?

Leitura profunda é tudo aquilo que desafia o seu cérebro a pensar, a refletir, que faz você lutar para assimilar a informação, para aprender. Podem ser poemas (que se relacionam com sentimentos e estimulam introspecção e reflexão), artigos científicos (que engajam o córtex cerebral), trabalhos literários de ficção – especialmente aqueles que lidam com sentimentos profundos, que têm pensamentos e frases complexos, e que exigem mais do cérebro (algo que faça você procurar palavras no dicionário, por exemplo) –, ou algo que faça você prestar muita atenção e parar para pensar. Se você estuda uma língua estrangeira, ler livros nessa língua pode ser um grande desafio. Se você tem dificuldade de entender matemática ou ciência, ler artigos ou livros sobre esses assuntos que façam você diminuir o ritmo o suficiente para assimilar o que está sendo dito seriam ótimas formas de “leitura profunda”.

Cada vez mais, as pessoas vivem no Facebook, buscando informações, notícias e conhecimento no feed de notícias. Você acha que isso é perigoso de alguma forma – ler apenas o que é publicado em redes sociais?

Existem exceções, mas a maioria dos sites na internet não se detém muito em nenhum tópico. Geralmente, os agregadores de notícias (Google News é um exemplo) oferecem destaques sem muita profundidade. É preocupante que cada vez mais as pessoas estejam só passando os olhos em manchetes, o que certamente pode distorcer a percepção do que é verdade ou não é, e pouco é guardado na memória a menos que o córtex cerebral seja usado. O melhor é ler ampla e profundamente, sobretudo em relação a tópicos de relevância. Busque publicações que você sabe que fazem reportagens com profundidade e que oferecem análises confiáveis.

Neil Gaiman é provavelmente a pessoa mais interessante que você vai conhecer

0

FILE - This July 21, 2013 file photo shows Neil Gaiman speaking at the Spotlight on Neil Gaiman panel on Day 5 of Comic-Con International in San Diego. Gaiman says his return to Vertigo Comics’ realm of the Endless is no mere continuation of the series that spawned a creative revolution altering the medium. Instead, “The Sandman: Overture” is a chance to do the “weird things” and “different things” that he never got to explore in writing the best-selling and critically lauded series. (Photo by Chris Pizzello/Invision/AP, File)

Publicado no Brasil Post

Alto, magro, ligeiramente descabelado e sempre vestido em preto, ele parece um personagem de seu universo fictício, como disse um de seus seguidores no Twitter recentemente. Neil Gaiman é provavelmente a pessoa mais interessante que você vai conhecer.

Quando o escutei na Flip de 2008, lendo um trecho de Os Treze Relógios, de James Thurber, pensei: todos os contos do mundo deveriam ser lidos assim. Gaiman superou a língua presa da infância com a ajuda de uma professora exigente, e hoje os seus áudio books são prova de que a sua voz foi mesmo feita para contar histórias.

Em seu novo livro, a coletânea de não ficção The View from The Cheap Seats (A Visão dos Lugares Baratos, em tradução livre), há semanas na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos, podemos conhecer um pouco mais sobre o homem por trás da voz. Ele conta sobre diferentes momentos de sua vida e carreira, e as pessoas que encontrou pelo caminho: Terry Pratchett, Stephen King, Diana Wynne Jones são alguns dos nomes.

The View ainda não tem previsão de lançamento aqui no Brasil, mas uma nova versão do seu romance Lugar Nenhum acaba de sair pela Intrínseca, com o conto Como o Marquês recuperou o seu casaco.

No segundo semestre de 2017, a editora deve trazer para o Brasil seu terceiro volume de histórias, Trigger Warning que, ainda sem título em português, saiu nos Estados Unidos e Reino Unido no início de 2015.

Quando nos encontramos para essa entrevista, ele estava hospedado numa casa construída sobre uma antiga ponte, na parte central de Londres. Da janela, uma paisagem idílica: o canal com dois ou três cisnes e um barco onde a vizinha escrevia, bebericando vinho branco, no início da noite.

Ele mostrou o caderno que usa (para contos ou romances, já que os roteiros são criados diretamente no computador) – um Leuchtturm clássico com capa de couro e páginas numeradas – e autografou alguns livros com uma Sharpie e sua caneta tinteiro.

Então saímos em direção à rua Hanway, onde antigamente ficava o Troy Club, em que Clube Diógenes de Hora de Fechar é baseado. Lá, entramos em um de seus restaurantes japoneses favoritos na cidade, o Kikuchi.

2016-07-01-1467407581-1342591-IMG20160609WA0009-thumb

Numa conversa regada a sushi, chá verde e um delicioso black cod, Neil falou sobre Terry Pratchett, Sandman, seus novos projetos e contos favoritos e por que não volta ao Brasil há oito anos.

HuffPost Brasil: Neil, no que você está trabalhando no momento?

Neil Gaiman: Estou escrevendo o quinto episódio da adaptação de Belas Maldições para a televisão. Não era algo que eu esperasse fazer um dia, pois Terry Pratchett e eu sempre dizíamos que faríamos juntos qualquer coisa relacionada ao livro. Então, oito meses antes de morrer, ele me escreveu um e-mail dizendo: Você precisa fazer isso. Eu quero muito ver e o único jeito de isso acontecer é se você o escrever. Ele morreu antes de eu começar. Então entrar nesse projeto foi uma coisa triste e estranha. Mas me diverte muito. São episódios de uma hora. E têm muita história. Criei algumas coisas novas, e esta é parte mais difícil, pois cada vez que invento alguma coisa, quero mostrar para Terry. E não posso.

Como era a dinâmica de vocês dois?

Aquilo de que mais sinto falta em Terry era a sua mente para histórias. Quando a narrativa trava, tudo o que quero fazer é entregar para ele, pois sei que vai dar um jeito, e aí tudo vai parecer óbvio. E sempre que escrevo algo inteligente, também quero mostrar para Terry. Eu era a sua plateia. Ele sempre foi a minha. Ele escrevia para me fazer rir. Eu escrevia para fazê-lo rir. É um presente post-mortem.

São tantos projetos ao mesmo tempo… Pode falar um pouco deles?

Deuses Americanos está em filmagem no momento. É impressionante. Alguns dias atrás, vi Gillian Anderson como Lucy. “Você quer ver os seios de Lucy?”, me perguntaram. Foi algo que imaginei em 2001. O filme de Jon Cameron baseado em meu conto Como falar com garotas em festas já está em fase final de edição. A história é a primeira meia hora do filme, o primeiro ato. Então se torna algo mais. Uma das garotas alienígenas segue um dos meninos até em casa e a história vira um Romeu e Julieta com alienígenas e punks. Elle Fanning está absolutamente incrível. E temos Nicole Kidman, que faz a rainha punk. Alex Sharp interpreta Enn, o punk jovem.

Você é provavelmente um dos principais escritores multimídia da atualidade. Como se sente em relação a isso?

Tenho a chance de me maravilhar. Adoro poder fazer algo como Sandman Overture e então um romance, ou um roteiro para a TV. Ninguém parece se importar que o meu último livro era um graphic novel e que este é um volume de ensaios, discursos e introduções.

Na Flip, em 2008, quando Edney Silvestre perguntou por que fazia tudo isso, você respondeu: “Porque eu posso”.

É verdade. Da última vez em que vi Tom Stoppard, ele falou sobre a Flip e sobre como eu perdi o jantar dos autores porque fiquei na fila de autógrafos. Havia todos aqueles escritores famosos, David Sedaris, Tom Stoppard, Richard Price, uma lista incrível, e ninguém tinha mais do que 20, 30 pessoas na fila. Então eu cheguei e tínhamos 1200 pessoas, vindas de São Paulo, do Rio de Janeiro… E eram todos (mais…)

Go to Top