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Flip: autor de ‘Trainspotting’ quer ‘virar’ série

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PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

 

Autor lança romance no festival literário e negocia adaptação de outros livros para TV e sala escura

Rafael Aloi, na Veja

Irvine Welsh é um dos principais nomes da Flip 2016, que tem início nesta quarta-feira e segue até domingo, em Paraty, com homenagem à poeta brasileira Ana Cristina César. O escritor escocês participa de uma mesa nesta quinta sobre a dependência química na literatura nos Estados Unidos e no Reino Unido, tema que debate com o americano Bill Clegg, de Retrato de Viciado quando Jovem (Companhia das Letras).

Antes de sua chegada ao Brasil, Welsh conversou com o site de VEJA para falar um pouco sobre o livro que lança no país durante o festival literário, A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas (tradução de Paulo Reis, Rocco, 416 páginas, 48 reais), que se passa em Miami, um local distante do seu cenário preferido, a terra natal, Escócia. “Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pelo próprio corpo, e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso.”

O escocês também falou sobre o seu livro mais famoso, Trainspotting, lançado em 1996, que foi adaptado para os cinemas e rendeu dois livros derivados. “É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, e eles são muitos especiais para mim”, confessou o ator.

Welsh também mostrou que conhece um pouco da literatura tupiniquim. Apesar de não se lembrar do nome do livro que leu – pela descrição da trama, pode ser Dias Perfeitos, de Raphael Montes –, ele disse ter gostado e sugeriu que mais histórias fossem vertidas para o inglês. “O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso”, analisou.

Confira a entrevista completa com Irvine Welsh:

Você escreveu Trainspotting em 1996. Lançou a sequência Pornô em 2002, e a prequel Skagboys em 2012. No ano passado, resgatou um dos personagens no livro The Blade Artist (O Artista Afiado, em tradução direta). O que o encantou tanto naquela história criada na década de 1990 que o fez revisitá-la tantas vezes? Eu amo esses personagens. É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, eles são muitos especiais para mim.

E o que fez os leitores gostarem tanto da história? Acredito que é porque mostra uma sociedade em transição. Uma transição para um mundo que nós não queríamos. A tecnologia mudou tudo o que fazíamos, e o capitalismo destruiu o que sobrou.

A-vida-sexual-das-gemeas-siamesas-431x620No Brasil, você está lançando A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas. O romance se passa em Miami, um local bem diferente da Escócia e do Reino Unido, onde suas outras histórias eram ambientadas. Por que você decidiu fazer essa mudança? Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pela imagem do próprio corpo, e Miami e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso, o que a Escócia não tem. Então, eu tive que escolher Miami, porque era o melhor lugar para essa história.

Você agora está morando nos Estados Unidos, como vê a diferença entre a cultura americana e britânica? Estou aqui na Escócia há um mês, e o que percebi é que aqui as pessoas bebem mais (risos), festejam mais. Eu adoro quando vou aos Estados Unidos e depois retorno ao meu país, porque aqui as pessoas berram uma com as outras, se abraçam, brigam, sempre com uma bebida na mão. São mais calorosas.

E você prefere falar sobre a cultura do seu país natal ou da América, onde mora agora? O mundo é muito grande, então eu busco não me limitar a um único tipo de cultura. Mas sou apegado ao local de onde venho, e é um lugar em que sempre posso me aprofundar sobre quando escrevo. Gosto daqui, pois há coisas únicas. Mas há sempre muita coisa acontecendo no mundo sobre as quais posso escrever.

Como já falamos, o seu novo livro se passa em Miami, um lugar que tem muita cultura latina. Você estudou essa cultura, ou já conhecia alguma sobre ela? Vocês aí na América Latina são gente fina, escutam músicas muito boas, usam roupas legais, gostam muito de festejar, beber, têm comidas ótimas, não tem o que não gostar daí. Talvez um dia eu escreva um livro que se passe nessa região, mas vocês já têm muitos escritores bons por aí. E com certeza eles fariam um trabalho melhor do que o que eu.

Você conhece algum autor brasileiro? Há um tempo, conheci um rapaz que me deu um livro, um livro bem estranho, sobre um cara que sequestra a namorada e a prende em uma mala, e a obriga a fazer uma viagem com ele. Eu não lembro agora nem o nome do livro nem do autor, mas era bem interessante. O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas, o que se torna um obstáculo. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso.

E quais autores inspiraram você? Eu não tenho um nome específico. Na verdade, eu gosto dos que são ruins, aqueles que eu realmente não gosto do que li, porque eles me encorajam a pensar ‘Eeu preciso fazer algo melhor do que isso’. Enquanto os autores muito bons, às vezes desencorajam a gente, pois não sei se conseguiria fazer algo tão bom quanto eles (risos).

Você fica incomodado quando as pessoas o chamam de “o autor de Trainspotting? (Risos) Não. Eu vejo isso de uma forma positiva. Eu me sinto lisonjeado que meu livro ainda seja tão lembrado.

Você está envolvido de alguma maneira com a sequência produzida por Danny Boyle? Ah, claro. Eu sou o produtor executivo do filme. Outro dia mesmo estive nos sets de filmagem conversando com os atores.

O roteiro do filme é realmente baseado em Pornô? Um pouco. Mas é mais evoluído, pois Pornô já está um pouco velho, tem quase 15 anos. Tivemos que atualizá-lo e torná-lo mais contemporâneo. O filme trará os principais elementos do livro, mas também tem muita coisa nova e mudanças grandes. O que eu acho que ficou mais interessante, pois eu não quero ver exatamente a mesma história que criei, prefiro ver algo novo.

Que outros livros seus você gostaria de ver no cinema? Eu gosto de Filth, que já ganhou um filme em 2013, e acho que fizeram um bom trabalho nele. Eu já fui procurado sobre uma adaptação de A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas, mas ainda estou avaliando. Há ideias para transformar Skagboys e Crime em séries de TV, também.

George R.R. Martin questiona como Stephen King escreve tão rápido

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Autor d’As Crônicas de Gelo e Fogo se impressiona com eficiência do escritor

Arthur Eloi, no Omelete

George R.R. Martin, autor d’As Crônicas de Gelo e Fogo, recentemente questionou Stephen King sobre sua eficiência em escrever romances: “Como é que você escreve tão rápido? Em seis meses eu escrevi três capítulos enquanto você terminou três livros nesse período!”, perguntou Martin em tom cômico – veja abaixo:

Entre risadas, King respondeu que escreve “entre três e quatro horas por dia” e tenta produzir “meia dúzia de páginas” nesse período. “Se o manuscrito tem 360 páginas, por exemplo, isso dá uns dois meses de trabalho”, concluiu o autor.

Martin, cuja obra serve como base para o programa Game of Thrones, é conhecido por estar produzindo “The Winds of Winter”, sexto livro da saga, desde a publicação de “A Dança dos Dragões” em 2011. Já Stephen King tem mais de 50 romances publicados em diversos gêneros, alguns dos quais foram adaptados para filmes como O Iluminado e séries como Under the Dome.

Entrevista inédita com Borges: “Sou um anarquista conservador”

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Claudio Pérez Míguez e Jorge Luis Borges em 1982 em Buenos Aires.

Claudio Pérez Míguez e Jorge Luis Borges em 1982 em Buenos Aires.

 

Em 1982, por conta de um trabalho escolar, um menino de 15 anos pediu um encontro com o escritor, que, para sua surpresa, aceitou o convite

Claudio Pérez Míguez, no El País

Quando eu cursava o terceiro ano do ensino secundário, em Don Bosco, distrito de Quilmes, na província de Buenos Aires, com quinze anos de idade, a professora de literatura, uma espanhola radicada desde pequena na Argentina e grande admiradora da obra de García Lorca, Josefa Iglesias de Fanelli, deu como trabalho prático que escolhêssemos alguém para entrevistar.

A literatura e a figura de Borges, tão polêmica naqueles anos, já tinham chamado a minha atenção, por isso tive a ideia de fazer a reportagem com ele. Nem eu nem as pessoas com quem eu convivia tínhamos contatos no meio literário, daí a ideia de ver se encontrava o número dele na lista telefônica. Procurando por Borges, vi que o telefone ainda estava em nome da mãe dele, Leonor Acevedo de Borges, que já era falecida. Lembro-me do número até hoje: 42-2801. Liguei imediatamente e fui atendido por Fanny Úbeda, a mulher que cuidava da casa, que me disse que Borges estava em viagem.

Como havia um prazo para entregar o trabalho, tentamos outras pessoas para cumprir a tarefa, mas, quando faltavam dois dias, ocorreu-me a ideia de tentar novamente. Fui de novo atendido pela senhora Fanny, e quando já esperava falar com alguma outra pessoa para explicar minha ideia para que esta então a transmitisse para Borges, ela passou o aparelho diretamente para ele, que, depois de ouvir a minha solicitação, disse: “Venha amanhã ou depois de amanhã, entre 10 e 10 e meia”. Naquela mesma noite, preparei as perguntas. Mostrei-as ao meu pai, para que me desse a sua opinião sobre o questionário, e ele me sugeriu que eu, em vez de tentar fazer uma entrevista imitando as que eram feitas pelos jornalistas em busca de uma declaração bombástica para dar um bom título, tentasse encará-la do meu ponto de vista, focando naquilo que poderia ser do meu interesse, com a idade que eu tinha. Pareceu-me um bom conselho, e procurei mudar as perguntas nesse sentido.

Como se tratava de um trabalho em grupo, convidei meus colegas e vários deles me acompanhavam quando cheguei à casa de Borges, é claro, às 10 horas da manhã do dia seguinte.

Esse encontro possibilitou que eu passasse a visita-lo com frequência na sua casa, levando-o a falar com os alunos na minha escola, a visita a minha casa, em um grande número de encontros que certamente moldaram o meu gosto pelos livros e pelo universo da literatura. Mas isso já outra história. Voltando ao que nos diz respeito: a entrevista foi feita no apartamento de Borges, na rua Maipú, 994, em Buenos Aires, no dia 29 de julho de 1982, mais de um ano antes da volta da democracia à Argentina. O resultado é este que transcrevemos a seguir e que permanecia inédito até agora. “Para mim, nem parece” que já se passaram mais de três décadas desde a sua morte. “O tempo que os mármores desgasta” muda muitas coisas, outras não. Suas palavras continuam a iluminar o meu caminho.

Poderia nos contar como era formada a sua família?

Sim. Minha mãe era descendente de europeus, católica, mas católica da maneira argentina, ou seja, mais por uma questão social do que teológica. Minha avó inglesa era de tradição protestante, de pastores metodistas. Sabia a Bíblia de cor. Você recitava um versículo qualquer, e ela dizia, sim, Livro de Jó, capítulo tal, versículo tal, e assim em diante. Entre os protestantes, tem muita gente que conhece a Bíblia de cor. Nos hotéis, por exemplo, na Inglaterra, na Escócia e também em Nova York, tem sempre uma Bíblia na gaveta do criado-mudo. Além, disso, as citações bíblicas, que podem soar pedantes em castelhano, são muito comuns em inglês. As pessoas estão sempre fazendo citações de versículos da Bíblia ou de frases bíblicas, e não soa nada pedante. Em contrapartida, nos países católicos, pareceria uma coisa forçada. De forma que minha avó era muito religiosa, metodista.

A família de minha mãe era católica, como eu dizia, à maneira dos países latinos, de uma forma superficial. Meu pai era agnóstico, quer dizer, um livre pensador, e todos nos dávamos muito bem; isso jamais foi motivo de discórdia.

O que mais posso dizer sobre a minha família? Meu pai era professor de Psicologia no Colégio de Línguas Vivas, e lembro muito bem o quanto ele ganhava, era também advogado, assessor cível. Tinha de dar duas aulas de Psicologia por semana no Colégio e lhe pagavam 100 pesos por mês. Cem pesos por mês era um bom dinheiro na época, sendo que hoje em dia diz mais respeito à literatura fantástica. Hoje, 100 pesos não significam nada. Naquele tempo sim; tudo era muito mais barato do que agora. Lembro que o dólar valia 2 pesos e cinquenta centavos. Acho que hoje o valor dele subiu bastante, não? Acho que a nossa moeda é a mais barata do mundo.

Do lado do meu pai e minha mãe, era uma família militar. Meu avô, o Coronel Francisco Borges, morreu, realmente, na batalha de La Verde, que aconteceu perto do vilarejo de 25 de Maio, na província de Buenos Aires. Meus avós participaram da campanha pela independência, depois das guerras civis, da guerra com o Brasil, tudo isso.

Agora, do lado da minha avó inglesa, não. Eram pastores e professores.

Quais estudos o senhor fez?

Poucos. Estudei no Collège de Genebra, estudei e tenho o meu diploma. Ali havia duas matérias principais, que eram o francês e o latim. Eu logo percebi que, se estudasse bastante o francês e o latim, poderia prescindir das outras matérias, o que fez com que me tornasse uma pessoa extremamente ignorante, pois tive aulas de física, botânica, mineralogia, zoologia, música, ginástica, química, e não sei absolutamente nada sobre esses assuntos. História, sim, disso eu gosto. Mas, na Suíça, a aula de história não era obrigatória, e sim opcional. Se quiser, você pode estudar História suíça, se não quiser, não estuda. Eu tinha muito interesse em conhecer a história da Suíça, pois vivia ali, , por isso estudei. São obrigatórias a história antiga, a moderna etc; mas a suíça, não.

Esse é o único diploma que eu tenho. Todos os outros são títulos Honoris Causa, que são apenas fruto de generosidades. Sou Doutor Honoris Causa de Tucumán, de Nova York, de universidades italianas, colombianas, mexicanas, também de Harvard, de Oxford, da Sorbonne, mas acredito que posso ser chamada do doutor, já que esses títulos de Honoris Causa são um favor que outorgam a algumas pessoas, e é claro que agradeço a eles, pois é uma honra, embora eu não saiba se realmente a mereço.

Pessoalmente, posso dizer apenas que sou formado no Collège de Calvino de Genebra.

Com que idade o senhor tomou consciência de sua vocação literária?

Eu não sei. Não me lembro de uma época em que não lesse ou escrevesse. Eu sempre estava lendo e escrevendo. Mas meu pai me disse para só ler aquilo que me interessasse, que não lesse um livro pelo sentimento de dever, porque era famoso. Que eu lesse apenas quando me interessasse, e que só escrevesse quando tivesse necessidade de fazê-lo. Que eu escrevesse muito, que descansasse muito e que não me apressasse para publicar, já que publicar não é parte necessária do destino de um escritor.

Como conseguiu publicar seu primeiro livro?

Meu primeiro livro foi publicado tardiamente. Eu tinha 24 anos. Chamava-se Fervor de Buenos Aires e foi publicado aqui, em Buenos Aires. Meu pai me deu 300 pesos, que me permitiram imprimir 300 exemplares. Não foi colocado à venda. Reparti entre meus amigos. Me agradava muito. Mas, na realidade, era o quarto livro que eu escrevi. Tinha escrito três antes que, curiosamente, destruí. Talvez devesse ter destruído esse também.

Como surgem suas obras? O senhor se senta para escrever sistematicamente ou o faz quando sente a necessidade?

Isso é muito complexo. Eu sinto que há algo que quer que eu escreva sobre (mais…)

“Há perigo em muitos livros, até na Bíblia”, diz editor que publicará Hitler

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Emediato, da Geração Editorial: edição comentada por historiadores (Foto: Rodrigo Dionisio)

Emediato, da Geração Editorial: edição comentada por historiadores (Foto: Rodrigo Dionisio)

 

Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial, comenta a polêmica sobre o relançamento da obra ‘Minha Luta’, ícone nazista

Nataly Costa, na Veja SP

Após setenta anos sob os cuidados do Estado da Baviera, na Alemanha, a autobiografia do ditador nazista Adolf Hitler, Minha Luta, caiu em domínio público no primeiro dia de 2016. Três editoras, todas de São Paulo, se interessaram em publicar a obra, o que gerou um amplo debate. Afinal, o livro tem valor histórico e deve estar disponível nas livrarias ou é um texto de pura incitação ao ódio, capaz de influenciar negativamente e disseminar ideias criminosas?

A Edipro, com sede na Bela Vista, abandonou a ideia logo após anunciá-la. “Muitos leitores ligaram afirmando que a publicação poderia ser irresponsável. Ficamos preocupados”, disse a coordenadora administrativa Maira Micales. A Centauro já tinha o texto pronto – entre 2001 e 2006, imprimiu uma edição não autorizada pelo governo alemão, que solicitou o recolhimento dos livros. Expirados os direitos autorais, a editora mandou rodar mais 5 000 cópias, mas foi proibida pela Justiça carioca de vender naquele estado. Em São Paulo, é possível encontrar sua edição na livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista.

Quem mais encampou a briga pelo direito de publicar o volume, porém, foi a Geração Editorial, na Lapa, Zona Oeste. O dono, Luiz Fernando Emediato, preparou uma edição crítica (a exemplo do que foi feito na Alemanha), com 400 páginas de comentários de historiadores, apêndices, contestações e notas de tradução.

A tiragem inicial é de 5 000 exemplares e as vendas começam em março. Confira a entrevista com o editor:

Quando a Geração Editorial começou a cogitar a publicação de Minha Luta?

Há uns quinze anos, quando li um artigo do professor da USP Nelson Jahar Garcia, morto em 2002, no qual ele afirmava que “Minha Luta (Mein Kampf) foi a melhor obra já escrita contra o nazismo”. Ele mesmo colocou uma tradução do livro para consulta pública no site da Unicamp. Está lá ainda hoje. Lembro que a obra não está proibida em Israel e que no Brasil vários líderes judeus já se manifestaram a favor da publicação de uma edição crítica e comentada.

Uma das críticas à edição é sobre a capa, que trará uma imagem de Hitler. Essa capa se mantém? Se sim, por que a editora achou importante colocar a foto do ditador na capa?

Essas críticas foram sobre um layout de capa que vazou. Essa capa não será usada (a nova versão, no entanto, também traz a figura do ditador). Mas a crítica é absurda: desde a derrota de Hitler, quase todos os filmes, livros e peças sobre a II Guerra e o nazismo usam imagens do ditador e os símbolos do movimento. A imagem de Hitler é tão icônica quanto as de Jesus Cristo, Stalin, Trotsky, Lenin, Mao Tse Tung, Che Guevara e o Carlitos, de Chaplin.

Qual sua opinião sobre o posicionamento de livrarias como Saraiva e Cultura (as lojas afirmaram que não venderão o livro)?

Creio que mudarão de ideia quando conhecerem nossa edição. Mas se não mudarem de ideia não tem problema, é um direito delas vender ou não.

Livro da Centauro na Martins Fontes, na Avenida Paulista (Foto: Alexandre Battibugli)

Livro da Centauro na Martins Fontes, na Avenida Paulista (Foto: Alexandre Battibugli)

Como será a edição crítica e comentada? Além dos textos de introdução, cada página terá notas de rodapé, os comentários serão por capítulo?

As notas, comentários, apêndices (há comentários que ocupam várias páginas) não estarão nos rodapés, mas entremeando o texto de Hitler, corrigindo erros históricos e mentiras, comentando e contestando ideias equivocadas e contextualizando e atualizando fatos, como por exemplo o Holocausto. São 278 comentários de dez historiadores norte-americanos para uma edição já fora do mercado, de 1939, além de 48 notas de um historiador brasileiro que atualizou e contextualizou essas notas antigas, mais 28 notas do tradutor, totalizando 354 notas, que ocuparam mais de 400 páginas.

Quem é contra a publicação do livro sustenta que a obra é medíocre como literatura e somente dissemina ideias de ódio contra minorias (judeus, negros, gays, deficientes). O que você acha?

O livro de Hitler não é elegante, nem pode ser considerado literatura. É um panfleto de propaganda política e racista raivosa, ressentida, violenta e equivocada, mas é um livro histórico que não pode ser ignorado, pela tragédia que causou. Hitler registrou neste livro todo o seu ódio, disse que faria o que estava ali escrito e fez, com apoio das elites alemãs que temiam o comunismo e depois de todo o povo, que se considerava humilhado e passou a ver nele quase um deus. A obra de um homem assim merece ser conhecida. Crime pela lei brasileira é fazer propaganda do racismo, da violência e do ódio. Nossa edição faz o contrário: critica as ideias de Hitler, alerta para o perigo delas e contesta uma por uma. Trata-se de uma edição antinazista, antiracista e antiviolência.

Outra crítica é que, como documento histórico, o livro não é imprescindível – temos amplo material sobre Hitler e o nazismo sem precisar recorrer ao “diário” do ditador. O que você acha?

Não há livros prescindíveis e imprescindíveis. Há livros que, pelo bem ou pelo mal que causam, precisam ser lidos. Quem defende tal ideia é autoritário como Hitler e a ele se iguala. Existem perigos em muitos livros, até na Bíblia – que autoriza sacrificar filhos e apedrejar adúlteras – e no Alcorão – que manda decapitar infiéis. Prega-se violência armada nos livros de Che Guevara. E contra a propriedade privada na literatura marxista. Nem por isso esses livros devem ser proibidos.

Também diz-se que Mein Kampf poderia figurar em prateleiras de bibliotecas, mas não de livrarias. Qual sua opinião sobre isso?

Visão elitista e autoritária de quem considera o leitor um idiota cujo acesso à leitura deve ser controlado.

A editora está enfrentando batalhas judiciais aqui em São Paulo contra a publicação do livro?

Nenhuma. Existe uma decisão preliminar da Justiça do Rio, que proíbe a venda apenas lá, mas essa decisão deve cair, porque é inconstitucional.

Você acha que a polêmica aguça a curiosidade em relação ao livro?

Nossa intenção é fazer uma edição de apenas 5 000 exemplares, mas se com uma repercussão imprevista os leitores pedirem mais, reimprimiremos.

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