Posts tagged Época

A pátria que deseduca

1

A língua portuguesa é achincalhada por presidentes, governadores – e a população em geral

educa_o2Ruth de Aquino, na Época

A quem interessa um povo que não sabe raciocinar, não sabe ler, não sabe escrever, não sabe argumentar? A ninguém, apenas a ditadores. Por isso, até em benefício próprio, para marcar seu nome na História, a presidente Dilma Rousseff escolheu um slogan apropriado para seu segundo mandato: “Brasil, pátria educadora”. Ela ainda não sabia que o resultado do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2014 mostraria o fracasso de seu primeiro mandato na Educação, quando teve três ministros na Pasta. Mais de meio milhão de jovens tirou nota zero na redação – cuja nota máxima era 1.000.

A palavra para definir a nota zero da redação, nessa escala, é “catástrofe”. De 2013 para 2014, o número de zeros na dissertação do Enem quase quintuplicou. Não relativizem o resultado. Uns dizem que o tema “ética na publicidade infantil” era difícil. Outros, que os corretores foram rigorosos demais. Ainda há os que não acham importante uma dissertação no Enem. O ministro da Educação, Cid Gomes, minimiza a queda nas notas de português e matemática: “O que é importante é a média. Na média, menos 1% está na margem de erro”. A média é um recurso medíocre para justificar o injustificável. Quando viu o resultado pior dos alunos de escolas estaduais, Cid Gomes admitiu: “Não dá para fugir, camuflar ou tentar dizer que o ensino público é bom. O ensino público brasileiro está muito aquém do desejável”.

O vexame não surpreende a quem vive da palavra escrita e oral. A língua portuguesa é achincalhada por nossos presidentes, ministros, governadores, senadores, deputados, executivos, empresários e, claro, pela população em geral. Ortografia, concordância e regência verbal erradas, vocabulário pobre e ausência de um pensamento coerente. Não é preciso ir à Europa para encontrar povos que se expressam direito em sua língua materna. Basta ir à Argentina. Com toda a crise de nossos hermanos e a decadência de suas universidades, ali está um povo articulado, que sabe ler e escrever, e tem um raciocínio com começo, meio e fim. Não há analfabetos funcionais concluindo o ensino médio.

O que aconteceu no Enem de 2014? Ao todo, 8,7 milhões de alunos da última série do ensino médio inscreveram-se no concurso. Mas só 6,2 milhões apareceram no exame. A nota máxima de cada prova é 1.000. Só 250 tiraram a nota máxima na redação e 529.374 alunos tiraram zero. Desses, 280.903 entregaram a prova em branco porque não faziam a menor ideia de nada. Dos outros zeros, 217.300 fugiram do tema (talvez inspirados em nossos políticos, que fazem o mesmo nos debates), 13 mil copiaram o texto motivador, 7.800 escreveram menos de sete linhas, 3.300 incluíram textos desconectados, 955 ofenderam os direitos humanos. A média em matemática também ficou abaixo da metade, 476,6 pontos. No meu tempo, abaixo de 5 significava reprovação. Mas “reprovação” virou tabu na pátria do PT, desde Lula, que nunca achou grande coisa saber português ou gostar de ler.

Em artigo para o jornal O Globo, a filósofa Tânia Zagury diz: “Só de ouvir falar em reforma na educação, eu me arrepio”. Após mais de 40 anos de trabalho na área, ela afirma que cada programa reativa o que foi banido, joga no lixo as cartilhas, abandona boas ideias, mas mantém algo sempre: a queda da qualidade no ensino. A última “revolução” foi a “progressão continuada”, o que, traduzindo em bom português, significa aprovação automática. Para “camuflar” a repetência no 1o ano e evitar evasão escolar. A repetência aumentou no 6o ano, quando acabava a aprovação automática. O que foi feito para resolver “o probrema”? Os professores são pressionados a não reprovar. “Teria sido lindo aprovar todo mundo se não tivesse sido à custa do saber”, diz Tânia. Todos se formam, ficam felizes, o governo de Dilma ainda mais porque exibe estatísticas infladas. E não se aprofunda nenhum conhecimento.

Esse não é um destino inescapável. Slogans e discursos não bastam para educar crianças e jovens. Menos roubo e desvios na verba para escolas, uma gestão responsável e focada no ensino fundamental, base de tudo, a valorização do professor em salário e autoridade e maior participação da família. A receita é conhecida. O Brasil só não a adotará se houver a intenção oficial de tirar proveito de um povo sem instrução. Escolas não são fábricas. Dói imaginar que o objetivo seja formar cidadãos que não pensem, não leiam, não escrevam, não critiquem. Uma triste linha de montagem destinada a ser manipulada.

O resultado da falta de educação é, além do subemprego, essa multidão de menores carentes que depredam ônibus, assaltam e matam, rindo, sem dar valor ao patrimônio e à vida. Por enquanto, o Brasil é uma pátria que deseduca.

A importância da participação dos pais na educação escolar

0

Duas pesquisas mostram que os pais fazem mais diferença na vida escolar dos filhos quando passam a mensagem de que a educação importa

PRESENÇA Daniela e Ricardo, com seus três filhos no colégio, em São Paulo. Eles acreditam que só uma escola de qualidade não garante o melhor ensino. Querem participar (Foto: Letícia Moreira/ÉPOCA)

PRESENÇA
Daniela e Ricardo, com seus três filhos no colégio, em São Paulo. Eles acreditam que só uma escola de qualidade não garante o melhor ensino. Querem participar (Foto: Letícia Moreira/ÉPOCA)

Camila Guimarães, na Época on-line

Mãe de três crianças que estudam no mesmo colégio, Daniela Khauaja se desdobra para acompanhar a vida escolar dos filhos. Professora e coordenadora de pós-graduação em São Paulo, há dez anos ela decidiu mudar de carreira (era executiva numa grande empresa) para ter mais flexibilidade de horário e estar mais perto da rotina de Luiza, de 13 anos, Carolina, de 7, e do pequeno Bernardo, de 6.

Seu marido, Ricardo, consultor, é seu companheiro nas idas e vindas entre trabalho, casa e escola. São quatro reuniões bimestrais por filho, por ano. Mais as reuniões individuais com cada professora, um total de 15. Daniela e o marido também frequentam um grupo de mães e pais que se encontram para assistir a palestras e discutir temas que envolvem a educação dos filhos. São mais duas ou três horas mensais.

O envolvimento do casal vai além da escola. Em casa, conferem a lição de casa e sabem o dia da próxima prova dos filhos mais velhos – para também olhar se a matéria foi estudada. “Apenas matriculá-los numa boa escola não garante um bom desempenho”, afirma Daniela. “Nos preocupamos em mostrar a importância da educação e o valor da escola para a vida deles.”

Daniela e Ricardo não estão sozinhos no esforço de ajudar a vida escolar dos filhos. A participação dos pais na educação formal está em alta. Há um consenso entre educadores, professores e estudiosos sobre os efeitos no desempenho dos alunos. Quanto mais ativos os pais, maior a chance de o filho tirar boas notas no boletim e terminar uma faculdade.

Nas últimas décadas, os pais passaram a ser estratégicos para políticas públicas de educação em diversos governos. Nos Estados Unidos, a participação das famílias virou assunto de uma secretaria exclusiva, que planeja como envolver os pais na escola para ajudar a diminuir as diferenças de aprendizado entre os mais ricos e os mais pobres.

Do lado das escolas, os esforços para engajar os pais não são menores. “A presença dos pais legitima a educação que oferecemos”, afirma Bartira Rebello, psicóloga do Colégio Miguel de Cervantes, de São Paulo, onde estudam os filhos de Daniela e Ricardo. “A parceria reforça o vínculo entre o aluno e o ambiente escolar”, afirma Patrícia Motta Guedes, da Fundação Itaú Social.

A concordância é generalizada, mas nunca houve tantos pais desorientados sobre como ajudar seu filho a ser um bom aluno. Muitos se atrapalham na hora de ajudar com a lição de casa, outros trabalham demais, e falta tempo para participar de todas as atividades, reuniões e apresentações escolares. Quem não conhece uma mãe que se afoga em culpa por perder uma apresentação do filho na escola? Quantas não se perguntam o que fizeram de errado para seus filhos odiarem tanto as aulas?

Não é fácil medir em que medida o envolvimento da família ajuda na nota. O desempenho escolar é afetado por muitos fatores. Passa pela qualidade do professor, do ambiente da sala de aula, do material didático, da vizinhança em que a escola está, das condições econômicas da família, e por aí vai.

Saber a parcela exata da ajuda dos pais e o tipo de atitude que funciona é um desafio antigo dos pesquisadores da área. Por isso, nas pesquisas atuais, tenta-se entender como o comportamento dos pais pode influenciar não só o desempenho acadêmico, relacionado ao boletim, mas o desempenho escolar como um todo, que envolve o comportamento do aluno na escola.

“O bom aluno tem algumas posturas em relação a sua educação, como capacidade de concentração, disciplina e perseverança. Elas ajudam a estudar e aprender melhor”, afirma Priscila Cruz, diretora do Todos Pela Educação, movimento da sociedade civil que atua para a melhoria do ensino público básico.

O Todos Pela Educação fez um estudo inédito no Brasil, com famílias de estudantes de escolas públicas. Conseguiu identificar as atitudes comuns às famílias de crianças e jovens que se destacam na escola (leia no quadro abaixo). São atitudes simples – como colocar a escola nas conversas do dia a dia e valorizar o conhecimento. Elas não se traduzem necessariamente em ajudar o filho a resolver uma equação matemática. Para famílias de baixa renda, essas atitudes podem fazer diferença no potencial acadêmico dos alunos.

Tatiane da Silva, de 34 anos, é mãe de Thaís, de 7, e de Gustavo, de 13. Ambos estudam em escolas públicas de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Tatiane estudou até o ensino médio. Seu marido, que trabalha como segurança, fez apenas as séries iniciais do fundamental. Ela acredita que a educação é o único caminho para que seus filhos vivam melhor. Além de ir a todas as reuniões  e conferir os cadernos, Tatiane conversa com frequência com o mais velho sobre o que ele escolherá como profissão, que faculdade fará.

Com a mais nova, treina a leitura, leva a bibliotecas e livrarias (mesmo se não pode comprar o livro) e lê em voz alta as historinhas que tem em casa. Thaís ainda não é alfabetizada e fica ansiosa quando não consegue decifrar as letrinhas. A atitude da mãe a ajuda a superar a insegurança. “Sinto que ela se acalma quando digo que é capaz de aprender, que ela conseguirá”, diz Tatiane. (mais…)

Por que seu filho deveria entrar na escola mais tarde

0

Um novo estudo da Academia Americana de Pediatria recomenda que as aulas comecem mais tarde, para que as crianças durmam mais. Privação de sono traz prejuízos para o corpo e para a mente

Rafael Ciscati, na Época

Os adolescentes dormem mal  - e a escola pode é uma das culpadas (Foto: FreeImages)

Os adolescentes dormem mal – e a escola pode é uma das culpadas (Foto: FreeImages)

Quando eu era pequeno, estudava pela manhã. Antes das sete horas, já estava na frente do colégio, devidamente penteado, munido de livros e lancheira – e morrendo de sono. Tive dificuldades para acordar cedo a vida toda,e elas apenas se agravaram com o passar dos anos. De acordo com a Academia Americana de Pediatria (AAP), o problema não estava em mim: o sistema escolar é que errava. Ir para a escola antes das 8:30 faz mal. É o que diz um novo comunicado divulgado pela Academia nesta segunda-feira (25). No texto, os especialistas recomendam que as aulas comecem mais tarde que o usual para as crianças entre 10 e 18 anos. A privação de sono nessa fase da vida, segundo eles, traz prejuízos para o desempenho acadêmico dos alunos e faz mal à saúde física e mental. Aulas que começam mais tarde, por outro lado, se ajustam melhor ao relógio biológico dos estudantes.

As noites mal dormidas preocupam os especialistas: “Nós enfrentamos uma epidemia de privação do sono”, afirma a neurologista Rosana Alves, membro da Associação Brasileira do Sono (ABS). Segundo ela, as pessoas de todas as idades dormem pouco e dormem mal. O problema é mais grave entre os adolescentes. São eles que mais carecem de sono – em torno de 9 horas por noite. Não dormem por diferentes razões. Alguns hábitos sociais contribuem para isso: lição de casa, atividades extracurtriculares, programas de televisão e o bate-papo com os amigos no whatsapp mantêm os adolescentes acordados até mais tarde. Os hábitos dos pais também atrapalham o sono dos filhos: “Os pais chegam mais tarde do trabalho em casa, e querem conviver com os filhos. Isso é saudável, mas faz o adolescente ir para a cama mais tarde”, diz Rosana.

Há também razões biológicas. A adolescência é marcada por uma mudança nos hábitos noturnos. Um mecanismo biológico, conhecido como Atraso da Fase do Sono, torna a pessoa propensa a ir para a cama em torno de duas horas mais tarde do que tinha por hábito quando mais jovem. Quando a pessoa envelhece, e deixa as espinhas para trás, o relógico biológico torna a mudar. Ir para a cama cedo se torna algo novamente atraente. “Esse atraso costuma durar algo em torno de três anos” diz Rosana. “E você tem uma combinação perigosa se a pessoa tem de acordar cedo no dia seguinte.”

Segundo ela, as escolas não contribuem para evitar esse problema. No mundo inteiro, as crianças passaram a entrar mais cedo na aula nas últimas três décadas. A tendência acompanhou as necessidades profissionais dos pais: “Os pais querem deixar os filhos na aula antes de ir para o trabalho. É mais cômodo e permite que pais e filhos convivam mais”, diz a neurologista. De acordo com a AAP, esse é um erro reversível: “Privação crônica de sono em crianças e adolescentes é um dos problemas de saúde pública mais comuns – e mais fáceis de corrigir – nos EUA hoje”, disse a pediatra Judith Owens, a especialista líder entre aqueles que assinaram o comunicado da AAP. Basta mudar o horário da aula.

Ignorar o relógio biológico e obrigar o adolescente a acordar cedo traz efeitos negativos: nos EUA, onde a pessoa pode dirigir a partir dos 16 anos, a privação de sono aumenta a ocorrência de acidentes no trânsito. Ela também faz cair as notas, aumenta os riscos de depressão e de obesidade. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Nacional do Sono, uma instituição americana, concluiu que 59% dos estudantes entre a sexta e oitava séries, e 87% dos alunos do ensino médio americanos dormem menos do que o período recomendado, de 8 a 9,5 horas por noite. “O prejuízo maior acontece na atenção, nos mecanismos de memória e de aprendizado. Algumas crianças ficam mais agitadas também”, afirma Rosana.

Mas, se mandar as crianças para escola mais tarde não for opção, não há jeito: “A rotina precisa ser mais regrada, ao menos durante a semana, e os filhos tem de ir para a cama mais cedo”, diz Rosana. Não que essa seja uma tarefa simples. Dormindo bem, as crianças terão mais energia para chiar.

Os livros longos e a promessa do autor

1

tumblr_mq2mynHsO11ql54sbo1_1280

Quem, nos dias de hoje, tem tempo para ler um romance de 800 páginas?

Danilo Venticinque, na Época

Na era da informação fragmentada, escrever um romance é uma atitude no mínimo questionável. Escrever um romance de 800 páginas, ainda por cima, é um evidente sintoma de megalomania. Quem hoje em dia consegue separar tempo para ler um livro desse tamanho e perder preciosas horas dedicadas à efervescência das redes sociais?

Foi a indefensável pretensão literária da neozelandesa Eleanor Catton, a mulher de 28 anos mais antiquada do planeta, que deu origem a Os luminares, um dos livros mais elogiados dos últimos anos. Trata-se de uma obra obviamente fora de moda. Paródia dos romances vitorianos, o livro conta a história de um assassinato durante a corrida do ouro na Nova Zelândia do século XIX. Foi o livro mais longo (e a autora mais jovem) a ganhar o cobiçado Man Booker Prize. Críticos o descreveram como um trabalho vivo e extraordinário, cujas páginas parecem virar sozinhas. São comentários de gente que não tinha absolutamente nada para fazer e, mergulhada no mais profundo tédio, decidiu que ler um romance de 800 páginas seria uma boa maneira de passar o tempo.

Antes que eu me junte a eles numa apaixonada defesa da leitura antiquada em tempos modernos, preciso fazer uma confissão: não li Os luminares. Como muitos outros jornalistas, diante de um prazo exíguo para escrever sobre uma obra nada enxuta, tive de recorrer a alguns truques da profissão para tornar viáveis as leituras inviáveis. Cada crítico tem suas artimanhas. Alguns leem diversas reportagens de outros jornalistas (que talvez também não tenham lido o livro) para assim descobrir tudo sobre a obra. Outros entrevistam o autor e confiam em sua capacidade de resumir centenas de páginas em poucos minutos de conversa. E há os que arriscam uma leitura apressada e incompleta, num misto de otimismo excessivo e desencargo de consciência. Ler cinquenta páginas de um livro de 800 é uma vergonha, mas é melhor do que não ler nenhuma.

Consegui terminar minha reportagem sobre Catton graças a uma mistura dessas três técnicas. Mas senti que não havia esgotado o tema. Decidi escrever mais um texto sobre Os luminares. Ainda sem ler o livro, evidentemente.

Resolvi aproveitar esta coluna para pensar um pouco nos motivos que levam um autor a escrever um livro tão longo quanto Os luminares — e, também, no que leva um leitor a enfrentá-lo.

A desculpa de Catton para escrever um romance vitoriano de 800 páginas é surpreendentemente contemporânea: distração diante do computador. Ela diz que escreveu o livro no Word, não se atentou à quantidade de páginas e só se deu conta da extensão do livro quando viu a primeira prova da versão impressa. Mesmo assim, continuou acreditando que seu livro cativaria os leitores apesar da extensão. O sucesso de crítica e público (mais de 500 mil cópias vendidas em todo o mundo) mostra que ela estava certa.

Catton descreve um livro longo como um contrato entre autor e leitor. “O autor promete ocupar mais tempo do leitor e entregar em troca uma experiência digna do tempo investido. Quanto maior o livro, maior a promessa. Levei isso muito a sério. Quis criar um livro de mistério que cumprisse essa promessa”, disse ela em entrevista na Festa Literária Internacional de Paraty.

Não duvido que muitos acreditem na promessa do autor e de fato leiam o livro até o final. A julgar pelas críticas que o livro recebeu, o esforço vale a pena. Mas para entender o sucesso do livro, sobretudo as expressivas vendas, é preciso lembrar também de outra promessa — feita não do autor para o leitor, mas sim do leitor para si mesmo.

Compramos um livro de 800 páginas na esperança de que seremos capazes de abrir mão de todos os nossos compromissos para lê-lo. Acreditamos nessa promessa. Poucas páginas depois, porém, as distrações do cotidiano reassumem o controle de nossas vidas e a leitura perde espaço. Passamos a encarar o livro longo não como um desafio a ser vencido, mas como uma lembrança do tempo em que acreditávamos que seríamos capazes de tal proeza de leitura. Um tributo ao que poderíamos ser.

Não há motivo para abandonar o otimismo, mesmo que nossos hábitos deponham contra nós. Conversei ontem mesmo com um amigo que também comprou Os luminares. Batizou-o carinhosamente de “chaproca”. Ele confidenciou que não conseguiu avançar muito na leitura nos últimos dias, mas acredita que irá retomá-la. “Estou só esperando a internet de casa sair do ar”, disse. É uma atitude admirável, que todo leitor deveria tomar como exemplo. Esqueçam o péssimo exemplo dos críticos que viram as páginas apressadamente e tentam ludibriar os autores de romances monumentais. Ler um livro de 800 páginas é uma tarefa para semanas, meses. Talvez até a vida inteira. E, se o autor cumprir sua promessa, cada hora da jornada terá válido a pena.

Agora, se me dão licença, tenho um livro para ler. Até a próxima semana.

***

Atualização:

Ok: quando quase nenhum dos leitores entende a piada, a culpa obviamente é de quem escreveu.

Achei que todos os leitores perceberiam que frases como “(…) escrever um romance é uma atitude no mínimo questionável” ou “São comentários de gente que não tinha absolutamente nada para fazer e, mergulhada no mais profundo tédio, decidiu que ler um romance de 800 páginas seria uma boa maneira de passar o tempo” são irônicas. Os leitores habituais da coluna entenderam. Eles sabem que eu gosto de livros. Se eu não gostasse, não dedicaria uma coluna semanal ao tema.

Como vocês podem imaginar, uma coluna sobre livros não é exatamente um estouro de audiência. Em contrapartida, felizmente, os leitores costumam ser bastante fiéis. Estou tão acostumado a escrever para o público de sempre que fiz uma piada interna e me esqueci do óbvio: nas redes sociais, os textos às vezes se espalham. Até mesmo os textos sobre livros, vejam só. E, para muita gente, o texto desta semana foi o primeiro contato com a coluna. Acharam, justificadamente, que eu sou um tremendo ignorante que odeia a leitura.

Não tenho lá grandes provas contra a minha ignorância, mas posso provar que gosto de livros. Quem navegar pelos links que acompanham a coluna desta semana verá que escrevo sobre livros há mais de um ano, num dos poucos espaços dedicados exclusivamente ao tema em sites de notícias.

Sobre não ter lido o livro da Catton até o fim antes de escrever a reportagem sobre ele: nem sempre os prazos para publicação de um texto permitem que você leia toda a obra. Isso vale especialmente para romances extensos como o dela. Não conheço nenhum ser humano que seria capaz de lê-lo em dois dias. Li o que consegui ler, entrevistei a autora e pesquisei sobre a vida dela para fazer o melhor trabalho possível. Depois, em vez de fingir que terminei o livro, resolvi ser sincero e brincar com o fato de que um romance de 800 páginas toma muito tempo. Diante da reação negativa de tantos leitores, não dá para não reconhecer que a brincadeira foi infeliz.

Peço desculpas aos leitores que ficaram ofendidos com o texto e torço para que eles deem outra chance à coluna.

Khaled Hosseini: “Não gosto de ler ‘O caçador de pipas'”

0

Dez anos depois de lançar seu romance de estreia, o escritor afegão fala sobre sua carreira literária, sua infância e o futuro de seu país

Danilo Venticinque, na Época

DUAS CASAS Khaled Hosseini em seu escritório, na Califórnia. Ele vive nos Estados Unidos desde a adolescência, mas sempre escreve sobre o Afeganistão (Foto: Steve Schofield/Contour by Getty Images)

DUAS CASAS
Khaled Hosseini em seu escritório, na Califórnia. Ele vive nos Estados Unidos desde a adolescência, mas sempre escreve sobre o Afeganistão (Foto: Steve Schofield/Contour by Getty Images)

Ao vê-lo caminhar pelas calçadas de Milão, onde circula sem ser reconhecido, poucos notariam que Khaled Hosseini, de 48 anos, é um escritor afegão. O terno azul-marinho sem gravata e os sapatos sociais o camuflam entre os executivos que visitam a cidade. Com seu inglês impecável, idioma em que escreve seus livros, poderia se passar por americano. É preciso sentar diante dele e ouvi-lo por alguns minutos para notar as inflexões de um contador de histórias do Oriente e o leve desconforto de quem está longe de casa, cercado por estrangeiros. Como o protagonista de O caçador de pipas, Hosseini deixou o Afeganistão na adolescência, mas o país define sua carreira e sua vida adulta.

ÉPOCA – Para muitos leitores, O caçador de pipas foi a primeira referência ao Afeganistão fora do noticiário sobre o terrorismo. Quanto ele mudou a imagem do país?
Khaled Hosseini –
Existe uma diferença entre o que o autor espera e a vida que o livro acaba tendo. Minha ideia era escrever uma história leve. Estava interessado na vida dos dois protagonistas. Em particular Amir, o personagem principal. Não tinha a intenção de educar o público, até porque não imaginei que o livro seria publicado. Mas era impossível contar a história dos personagens sem explicar o que aconteceu no Afeganistão. A vida dos personagens foi impactada pelo Taleban, como a de outros habitantes do país. Qualquer história ambientada no Afeganistão teria como pano de fundo a guerra, a política e a perda. A situação do país era dramática. Quando meus editores leram o livro, perceberam que havia mais que uma história de dois garotos. Era uma janela para a vida no país. Não sentei para escrever com essa intenção, mas o livro cumpriu essa missão mesmo assim. O lado humano do Afeganistão não aparece no noticiário, só há guerra e violência.

ÉPOCA – Como avalia o livro dez anos depois do lançamento?
Hosseini –
Como afegão, vejo o livro como uma janela para a sociedade do país. Algo que não existia antes. O livro serviu como ponte entre os leitores ocidentais e a vida no Afeganistão. O país se tornou mais real para os leitores. Como escritor, tenho uma relação complicada com o livro. Mudei desde que o escrevi. Estou mais velho, vejo a escrita com outra sensibilidade. Acho difícil ler O caçador de pipas, porque fico tentado a pegar uma caneta vermelha e editar todo o texto. Sou muito crítico. Passaria a leitura inteira pensando em tudo o que poderia ser diferente. Por que fiz isso? Por que fiz aquilo? Melhor deixar o livro em paz.

ÉPOCA – Assim como o protagonista de O caçador de pipas, o senhor nasceu no Afeganistão e se mudou ainda jovem para os Estados Unidos. A adaptação foi difícil?
Hosseini – Cheguei aos Estados Unidos sem dinheiro. Minha família teve de começar a vida do zero. A experiência de ser exilado, de ser um imigrante, de ser desalojado e de perder as raízes é algo que revisito sempre em meus livros. Existe uma tensão permanente entre o exilado e sua terra natal. Por muito tempo, minha família e eu sentíamos que não pertencíamos a lugar algum. Não sinto mais isso. Muitos anos se passaram. Trinta e três anos. Tenho uma casa nos Estados Unidos agora e me sinto confortável lá. E me sinto como um americano quando estou no Afeganistão. Embora tenha nascido lá, saiba ler e escrever no idioma e falar com todos, a realidade de minha vida é muito diferente. Dizer que sou um deles seria ingênuo.

ÉPOCA – Os afegãos o veem como um americano?
Hosseini –
Nunca serei visto por eles como igual. Sempre que visito o país, reconheço isso e me comporto de acordo com essa percepção. Vivo nos Estados Unidos. Não enfrentei o que outros afegãos enfrentaram. Não posso fingir que isso não importa. É parecido com o que eu sentia quando era criança. Havia uma questão de classe. Eu era filho de diplomatas e tinha consciência de que vivíamos uma vida confortável, mas havia pessoas miseráveis nas redondezas. Eu escrevia sobre isso desde a infância.

ocacadordepipas_grdÉPOCA – Qual foi sua sensação ao retornar ao Afeganistão depois de escrever o livro?
Hosseini – O país mudou muito, e mudou de maneiras boas e ruins. As pessoas parecem ser mais realistas em relação ao futuro. As expectativas estão mais baixas. Elas estão desapontadas com o governo, com a velocidade da reconstrução do país, com a pobreza e o desemprego. Estão preo­cupadas com o tráfico de drogas e a corrupção. Mas algumas coisas melhoraram. Em 2001, havia só 1 milhão de crianças na escola. Quase todos eram meninos e recebiam educação religiosa. Agora, temos mais de 7 milhões de crianças na escola, e 35% delas são meninas. A mortalidade infantil diminuiu, e a expectativa de vida cresceu. Escolas e ruas foram reconstruídas. Não é o suficiente para mudar profundamente o país, mas é significativo.

ÉPOCA – Muitos autores escrevem sobre regiões de conflito, mas não se envolvem com o assunto na vida real. O senhor poderia escrever sobre o Afeganistão e viver tranquilamente nos Estados Unidos. Por que decidiu agir de outra maneira?
Hosseini –
Eu dirigia em Cabul, em 2007, e vi comunidades em que as pessoas viviam nas ruas. A situação dos refugiados era desesperadora, e fiquei comovido. Quando entrei no avião para voltar aos Estados Unidos, percebi que me esqueceria logo daquilo. Em poucos dias, aquela memória não seria mais tão chocante. Conversei sobre isso com minha mulher quando cheguei em casa, e surgiu a ideia de fazer algo por essas pessoas, muito parecidas com os personagens de meus livros. Tive muita sorte em minha vida. Quero compartilhar essa sorte com outros afegãos. São algumas das pessoas marginalizadas do mundo. Nosso principal projeto é construir abrigos para refugiados. Também temos programas para ajudar crianças e mulheres, ainda mais marginalizadas. Fazer algo por elas é uma obrigação humana.

ÉPOCA – O senhor sente culpa por ter uma vida tão diferente dos outros afegãos de sua geração?
Hosseini –
Sim, claro. É uma emoção incômoda e inútil, mas pode ter algum efeito positivo. Ela me incentiva a fazer algo.

ÉPOCA – O senhor já escreveu que os afegãos são otimistas. É um traço irreversível da personalidade afegã ou isso pode mudar?
Hosseini –
É por isso que não gosto de ler O caçador de pipas. (Risos.) Discordo dessa frase! O oposto é verdade. Não que os americanos sejam pessimistas, mas os afegãos são extraordinariamente otimistas. Essa frase foi um erro. E isso foi provado em pesquisas. Perguntaram a pessoas de 30 províncias do Afeganistão o que esperavam para o futuro do país. Elas não são ingênuas. Entendem muito bem o tamanho dos problemas que o Afeganistão enfrenta. Mas acreditam que o país está indo na direção certa e que amanhã será melhor que hoje.

ÉPOCA – Hoje a Síria aparece no noticiário com a mesma frequência que o Afeganistão há dez anos. Aprendemos a enxergar melhor o Oriente ou cometemos os mesmos erros?
Hosseini –
O Ocidente continua noticiando as bombas e os protestos. Seria importante olhar também para o custo humano da guerra. O número de refugiados dobrou desde março. São 2 milhões. Eles vivem em países que têm seus próprios problemas. Há 250 mil morando no Líbano. O país não consegue receber essa quantidade de pessoas. O Ocidente tem visto isso como um problema de países vizinhos, mas é um problema internacional. Não vivemos mais num mundo em que o que acontece na Síria não nos diz respeito. É um dos legados do 11 de setembro.

ÉPOCA – Muitos ocidentais ainda acreditam que a democracia é incompatível com o islã…
Hosseini –
Os países do Oriente Médio têm instituições frágeis e muito jovens. São sistemas políticos falhos. Dizer que o povo muçulmano não pode viver numa democracia é uma atitude colonialista e condescendente. As pessoas querem ser ouvidas.

ÉPOCA – A história de Malala, a garota baleada pelo Taleban por tentar ir à escola, não é um exemplo de choque entre islã e democracia?
Hosseini –
Não diria que o Taleban é um representante do islã. Milhões de muçulmanos discordam disso. O Taleban é uma entidade cultural, movido primariamente por motivações étnicas. São religiosos, mas, em sua raiz, o movimento é étnico. Nada no islã diz que as mulheres não podem ser educadas. Nenhum muçulmano informado e digno de respeito acredita nisso. Dito isso, a história de Malala é um símbolo poderoso para quem acredita na democracia. É uma voz para jovens mulheres que querem ter um papel ativo, aprender e contribuir para a sociedade. Certamente, incentivará outras garotas a seguir o mesmo caminho.

ÉPOCA – O que o Afeganistão poderia aprender com a Turquia, um país próximo em que a democracia é mais madura?
Hosseini –
O passado da Turquia a preparou para a consolidação da democracia. É um caminho que o Afeganistão ainda não percorreu e está longe de percorrer. Mas isso pode acontecer. O grande mérito da Turquia foi preservar o Estado laico. Eu ficaria muito preocupado se a Suprema Corte do Afeganistão decidisse adotar a lei islâmica. A religião pode ser uma grande força construtiva e positiva, mas a Constituição não é seu lugar. Nossa Constituição atual dá margem a isso.

ÉPOCA – O escritor Salman Rushdie tornou-se conhecido no Ocidente por suas críticas ao islã. Sua visão de religião é semelhante à dele?
Hosseini – Nunca tive muito interesse em escrever sobre religião. Fui criado num lar quase secular. Meus pais me ensinaram que a religião é algo privado. Não éramos obrigados a rezar ou jejuar. Hoje sou um muçulmano cultural, mas não sou um muçulmano praticante. Acredito que é possível escrever sobre religião e até criticá-la de forma ponderada, sem provocar ou insultar. Mas invejo o fato de os ocidentais poderem discutir livremente o assunto, sem medo de represálias. O mundo islâmico ainda não atingiu esse estágio.

ÉPOCA – O senhor se tornou uma espécie de embaixador cultural do Afeganistão. Sente- se à vontade para criticar o país?
Hosseini –
O dever de um escritor é ser sincero. Se eu começar a escrever sobre o que os outros acham que devo escrever, minha relação com o leitor terá sido corrompida. Tento escrever sobre o Afeganistão da forma mais realista possível. Meus livros provocam reações divididas nos afegãos. Algumas pessoas já escreveram que faço uma apologia da vida ocidental, que sou um agente da CIA e que exploro as tragédias alheias em benefício próprio. Outras gostam de ver o país retratado em meus livros e reconhecem sua realidade. Entendo essas reações. Passei 33 anos sem viver no Afeganistão, depois resolvi escrever um livro sobre a vida no país. As pessoas que continuaram lá por todo esse tempo têm direito a suas opiniões.

ÉPOCA – Sua literatura é oriental ou ocidental?
Hosseini –
Quando cresci, meu livro favorito era O livro dos reis, um épico persa escrito há mais de 1.000 anos. É grandioso, dramático e cheio de mitologia. Esse livro me influenciou muito. Também cresci ouvindo histórias contadas por minha avó e meu pai. Essa tradição da narrativa oral é algo que me define como escritor. Tive algumas influências ocidentais, como os livros de James Bond e os filmes de John Wayne, e vivo no Ocidente. Mas, quando me sento para escrever, a voz e o ritmo são orientais.

ÉPOCA – Quais são seus escritores ocidentais favoritos?
Hosseini –
Alice Munro é uma mulher que admiro muito. É uma contista maravilhosa. Mereceu ganhar o Nobel de Literatura. Li tudo o que ela escreveu. Suas histórias são cheias de mistério. Ela não dá respostas fáceis. O leitor precisa se esforçar para compreender o sentido de suas histórias. Nada termina da maneira como você espera. Também gosto do dominicano Junot Diaz, que escreve com uma musicalidade linda. E convivo com muitos escritores na Califórnia. Alguns se tornaram meus amigos. Isabel Allende é alguém que sempre admirei e se tornou uma grande incentivadora.

ÉPOCA – Todos os seus livros têm personagens afegãos. O senhor se sente obrigado a escrever sobre sua terra natal?
Hosseini –
Sinto a obrigação de escrever livros verdadeiros. Se eu tiver uma história ótima na cabeça e ela for ambientada na Califórnia, não deixarei de escrevê-la só porque as pessoas esperam que eu escreva sobre o Afeganistão. Por acaso, me interessei muito pelo Afeganistão nos últimos dez anos. Talvez não tenha mais uma história a contar sobre o país. Talvez não tenha mais nenhuma história para contar. Toda vez que me sento para escrever, tenho a sensação de que o livro não irá a lugar algum, ninguém vai lê-lo e não tenho nada a dizer. Ter conseguido publicá-los é uma surpresa maravilhosa. Se as pessoas se lembrarem de mim no futuro, serei lembrado como alguém que trouxe o verdadeiro Afeganistão para os olhos do Ocidente. Nada que eu possa fazer em minha carreira mudará isso.

ÉPOCA – Se, daqui a dez anos, o senhor escrever um novo livro ambientado no Afeganistão, que país gostaria de descrever?
Hosseini –
Adoraria escrever um livro em que as guerras, o extremismo e a pobreza não aparecessem. Um livro que pudesse se concentrar apenas nos personagens, sem fazer uma crônica de tragédias e violência. É um caminho longo. Os próximos anos serão difíceis. Mas é disso que o Afeganistão mais precisa, de uma geração que não tenha nascido em meio a conflitos armados e que não veja a violência como algo cotidiano, cujos heróis não carreguem armas. Seria maravilhoso se o país estivesse em paz daqui a dez anos.

Go to Top