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Professora é substituída após dar aula sobre religião africana em escola no Ceará

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Professora é substituída após dar aula sobre religião africana em escola no Ceará (Foto: Arquivo pessoal)

Secretaria da Educação de Juazeiro diz que a docente continua nas funções, mas ela está sem dar aulas em escola pública desde 20 de abril.

Publicado no G1

professora de história Maria Firmino, 42, foi afastada da sala de aula na Escola de Educação Infantil e Fundamental Tarcila Cruz de Alencar, em Juazeiro do Norte, no Ceará, após ter dado aula sobre “patrimônio material, imaterial e natural de matriz africana”, em 20 de abril.

A Secretaria da Educação de Juazeiro do Norte informou, por meio de nota, que não foi procurada pela docente e que a profissional continua no exercício das suas funções. Já a professora e funcionários da escola afirmam que ela está fora da sala de aula desde abril.

Maria registrou um boletim de ocorrência sobre crime contra o sentimento religioso na Delegacia Regional de Juazeiro do Norte. A delegacia da cidade apura o caso.

Caso ocorreu na escola Tarcila Cruz Alencar (Foto: Divulgação)

Durante a aula, três alunos alegaram terem sentido mal-estar com o conteúdo da aula. Conforme Maria, o episódio foi uma “trama” feita por outros servidores da escola por não aceitarem uma professora de religião africana na unidade.

“Fiquei assustada, chocada e de coração partido de ter visto aquilo, alunos fazerem parte do que parecia uma trama”, completa Maria.

Segundo a professora, os alunos deixaram a sala dizendo sentir mal-estar e forte dor de cabeça. Nenhum atendimento médico foi solicitado pela escola, segundo a professora. O caso gerou uma manifestação dos pais dos estudantes.

“Quando eu ia saindo na calçada comecei a ouvir gritos de ‘sai satanás’, ‘vou pegar essa feiticeira’, ‘ninguém pode mais do que Deus’. Só via gente descendo de carro, gente olhando, populares vindo”, conta a professora.

Maria afirma que não recebeu apoio da direção ou de funcionários durante o ocorrido.

Com o ocorrido, o advogado da professora foi avisado de que a instituição pretendia transferi-la para o setor burocrático. “Eles estão colocando que eu não tenho mais condição de estar em sala de aula, isso é uma forma de punição. Eu posso até ir [para o setor burocrático], desde que a minha função seja fazer com que as escolas coloquem em prática a Lei de Diretrizes e Bases, que diz que a educação tem obrigatoriedade de ensinar a cultura africana”, ressalta Maria.

Repercussão

O advogado e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Juazeiro do Norte, Rafael Uchôa, acompanhou a educadora até a delegacia regional para registrar o fato. Ele confirma que o caso ganhou repercussão na cidade.

Ao G1, a Secretaria da Educação de Juazeiro alegou não ter tomado conhecimento do ocorrido até o contato da reportagem. No entanto, no boletim de ocorrência registrado pela professora, ela afirma que a secretária da Educação de Juazeiro do Norte, Maria Loreto, compareceu à escola para reunião com o colegiado.

A agente administrativa da escola, Adriana Ricarter, estava no local no dia do ocorrido e foi quem deu assistência às estudantes. Pelo relato dela, a diretora não estava na instituição quando tudo ocorreu, mas um outro responsável, identificado como Cícero, chegou ao local momentos depois. Segundo Adriana, Cícero repassou os fatos à Secretaria da Educação.

Também de acordo com a agente, na segunda-feira seguinte ao caso, um professor substituto foi enviado pela secretaria passou a dar aulas na escola.

Boletim de ocorrência referente a crime contra o sentimento religioso é registrado por professora na Delegacia Regional de Juazeiro do Norte. (Foto: Maria Firmino/ Arquivo Pessoal)

Cultura afro-brasileira

Lembrando a lei federal 11.645, sancionada em 2008, que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena em escolas de ensino fundamental e médio, públicas e privadas, Maria faz críticas à escola por não cumprir as diretrizes.

“Na aula anterior eu trabalhei a cultura indígena e marquei pra trabalhar as heranças de matriz africana naquele dia. Eu trabalho dentro da lei 11645/08, porém, as escolas não. Aí quando chega no Dia do Índio e da Consciência Negra fazem três desenhos e pregam na parede.”

Maria segue a religião africana candomblé de Angola e tem 20 anos de magistério.

Ela conta que há quatro anos trabalhou na escola Tarcila Cruz de Alencar e pediu transferência após outros professores levantarem um abaixo-assinado contra a permanência dela na instituição. O retorno à escola se deu pela localização mais favorável. A professora mora em Missão Velha, a cerca de 30 km de Juazeiro do Norte.

Tive uma ‘vibração de santo’ dentro da sala de professores. Eles me mandaram procurar um psiquiatra, disseram que eu não tinha capacidade de trabalhar, chamaram o colegiado e assinaram abaixo-assinado pra eu sair de lá”, relata.

Segundo ela, a vibração de santo consiste em receber uma energia que causa estremecimento no corpo e deixa a pessoa sem fala, sem consciência de si e do lugar por um determinado tempo. A docente diz também ter explicado previamente aos colegas de trabalho que poderia passar por isso, já que sentia mal-estar naquele dia.

Antes dos dois episódios na escola de Juazeiro, Maria nunca havia passado por situações semelhantes, mas afirma estar acostumada a lidar com o “preconceito velado”, já que costuma usar adereços que identificam sua ligação com a religião africana, como colares de conta. “Venho sentindo a rejeição nas escolas por onde passo, as piadinhas, o isolamento…”

Criança de Vitória já leu mais de 100 livros, sabe capitais de todos os países e sonha em jogar futebol

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Igor Pinheiro, de sete anos (Foto: Reprodução/ TV Gazeta)

Igor Pinheiro, de sete anos (Foto: Reprodução/ TV Gazeta)

Igor Pinheiro, de 7 anos, cursa o segundo ano do ensino fundamental em uma escola pública de Vitória e foi identificado como ‘aluno com altas habilidades’.

Rodrigo Maia, no G1

Aos sete anos de idade, ele já leu mais de 100 livros, sabe as capitais de todos os países – “São 193 reconhecidos pela ONU”, disse o menino -, lê em espanhol e italiano e sonha em ser jogador de futebol. Igor Pinheiro cursa o segundo ano do ensino fundamental em uma escola pública de Vitória e foi identificado como ‘aluno com altas habilidades’, ou seja, superdotado.

No colégio onde Igor estuda há um núcleo para alunos com altas habilidades, com inteligência acima da média. Eles têm uma sala específica, onde podem encontrar livros, revistas, material lúdico e pintura. O professor especialista em altas habilidades Israel Scardua, disse que é importante desenvolver a criatividade dessas crianças.

“Todos nós temos habilidades de memorizar coisas, mas o aluno com altas habilidades tem um potencial maior para isso. No caso do Igor, ele tem altas habilidades na aula de humanas, tem muita facilidade em aprender línguas, lê com facilidade o espanhol e o italiano. A língua portuguesa ele lê melhor do que muitos alunos do ensino médio”, contou.

A mãe de Igor, Veruska Pinheiro, lembra que percebeu a facilidade do filho para aprendizado quando ele tinha apenas dois anos de idade.

“Aos dois anos, ele já sabia todo o alfabeto, já sabia números até 10 e aí a própria Secretaria de Educação de Vitória me chamou atenção para levá-lo ao núcleo de altas habilidades. Fui catalogar as palavras e símbolos que ele sabia e, quando me dei conta, ele já sabia mais de 200”, disse.

Depois disso, Veruska logo começou a pesquisar sobre crianças com super habilidades. “Fiquei orgulhosa, mas, por outro lado, pensei: ‘como a gente vai lidar com isso?’. Dá um frio na barriga, mas assustar mesmo, não”, falou.

No colégio, Igor tem aulas normais, como qualquer criança. Rogeovânia Chistê deu aulas para o menino até 2016 e disse que ainda se surpreende com ele.

“Eu não soube pronunciar uma palavra, uma cidade. Ele falou a pronúncia, falou de onde era. Eu achava que era até um país da Europa e ele me corrigiu dizendo que era nos Estados Unidos. Todas as vezes que ele fala alguma coisa assim, eu falo que ele sabe mais que a professora”, contou.

O pai de Igor é músico e, desde 2016, o menino começou a estudar na Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames). A flauta é o instrumento preferido dele. “Eu sei a partitura”, disse.

O potencial de Igor chama tanto a atenção que, hoje, o menino é visto como um desafio para a direção do colégio.

“A gente chegou a discutir a questão de avançar o Igor, talvez, porque ele tem possibilidade, potencial para cursar até o quinto ano. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem uma preocupação grande de avançá-lo e privá-lo de vivenciar parte da infância, as brincadeiras de criança e também questões da sua formação integral enquanto cidadão. Mas, lá na frente, acredito que ele vai ser um aluno que precisará ser avançado”, explicou o professor.

‘Não há mais leitores porque escola pública não forma’, diz autor de ‘Dois Irmãos’

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Palestra com Milton Hatoum em Poços de Caldas, MG, acontece no dia 30 de abril, às 19h30 (Foto: Flavio Moraes/G1)

Palestra com Milton Hatoum em Poços de Caldas, MG, acontece no dia 30 de abril, às 19h30 (Foto: Flavio Moraes/G1)

 

Milton Hatoum é patrono da edição 2017 do Festival Literário de Poços de Caldas, MG, que começa em 29 abril.

Daniela Ayres, no G1

A menos de três semanas do início do Festival Literário de Poços de Caldas (MG), o premiado escritor amazonense Milton Hatoum está animado em retornar ao Sul de Minas. Há cerca de 10 anos, o autor do romance “Dois Irmãos” participou pela primeira vez da Flipoços. Patrono da 12ª edição do evento, que começa no dia 29 de abril, Hatoum aguarda a oportunidade de falar sobre o que mais gosta de fazer, literatura, e demonstra preocupação com a qualidade do ensino público no Brasil. “Não há mais leitores porque a escola pública não forma bons leitores”, observa em entrevista ao G1.

Aos 64 anos de idade, o escritor amazonense é considerado um dos mais importantes nomes da literatura contemporânea, com obras premiadas no Brasil e no exterior. A história dos encontros e desencontros dos gêmeos Omar e Yaqub, contada em “Dois Irmãos”, seu segundo romance, lançado em 2000, é leitura obrigatória em muitos vestibulares pelo país. Além de escritor, Hatoum tem formação em arquitetura, é tradutor e professor.

Eu me formei no ensino público. Não posso reclamar, que os ‘Dois Irmãos’ e o ‘Cinzas do Norte’, principalmente, são muito lidos por causa dos professores. Mas não há mais leitores porque a escola pública não forma bons leitores. A escola é precária. A culpa não é dos professores, é do sistema e, sobretudo, dos políticos. Um país que não investe em educação não tem futuro mesmo. Não adianta.

Hatoum manifestou sua preocupação com a qualidade do ensino público do Brasil durante entrevista aos G1 Sul de Minas, como parte de uma série de reportagens sobre a edição 2017 da Flipoços. Confira a seguir os principais trechos desse bate-papo.

G1: Como surgiu o convite para ser patrono da Flipoços e que o senhor planeja para a sua palestra, no domingo, 30 de abril?

Milton Hatoum: Eu fui a Poços há uns oito anos. Gostei muito da feira e fui convidado pela Gisele Ferreira [idealizadora do festival] a voltar, agora como patrono. Eu aceitei porque gosto de Minas, gosto de Poços, tenho ótimos leitores em Minas. Para mim, é uma honra ser o patrono da feira. Eu vou falar sobre o meu trabalho, sobre literatura. Vão exibir um filme baseado no meu romance ‘Órfãos do Eldorado’ [dirigido por Guilherme Coelho]. O filme vai ser exibido às 10h. O Amazonas vai ser homenageado, então eles vão exibir esse filme, que se passa no Amazonas e tem algumas locações no Pará. Eu tô animado para ir. Esse caminho para Poços lembra um pouco minha infância. Eu vinha às vezes passar as férias em São Paulo com minha mãe e ela gostava do circuito de águas.

G1: Por falar em “Órfãos do Eldorado”, seus livros ganharam nos últimos anos versões bastante aclamadas. Teve o filme em 2013 e, em 2016, seu segundo romance, “Dois Irmãos”, virou história em quadrinhos, com direito ao Prêmio Eisner, o “Oscar” da categoria. No início deste ano, o mesmo livro deu origem à minissérie de tv homônima exibida pela Rede Globo.

Hatoum: Primeiro lugar, eu tive sorte porque os cineastas e os quadrinistas são artistas muito talentosos, têm uma sensibilidade artística muito apurada. No caso dos quadrinistas, o trabalho é, de fato, muito bonito. Eu acho que 80% do livro está nos quadrinhos. Eles foram a Manaus, pesquisaram, há momentos de silêncios no trabalho deles. É um livro que já tem quatro reimpressões. Eu nem sabia que havia um público tão grande de quadrinhos. Eu não li o livro [se referindo a ‘Dois Irmãos’]. Então, para mim foi uma surpresa.

G1: O senhor não leu seu próprio livro?

Hatoum: Eu não leio o livro. Nunca. Eu não aguento. Vou querer mudar, vou ficar fazer várias alterações.

G1: Como é para o senhor o processo de criação de um livro?

Hatoum: Eu preciso encontrar a forma do livro na minha cabeça, a estrutura do que eu quero escrever. A estrutura é a forma. O que eu vou narrar, quem que vai narrar. Então, eu começo a escrever mesmo. Faço esquema, esboço. Eu escrevo a mão, depois passo para o computador, depois eu imprimo e vou corrigindo. Isso que dá muito trabalho. Escrever é um grande prazer. O que dá muito trabalho é a revisão. É mais cansativo, vamos dizer assim. Agora escrever é um prazer, eu não sofro não. Alguns escritores dizem que sofrem, né? Se eu sofresse, eu iria sofrer 8h por dia.

G1: E o que o estimulou a se tornar um escritor?

Hatoum: Foi a leitura. A leitura de romances em Manaus [cidade onde nasceu], ainda no ginásio. Eu tinha um avô, que era um libanês. Um ótimo contador de histórias, muito imaginativo. A voz dele atraía. E essas histórias também ficaram na minha cabeça. Eu tive bons professores e eu gostava mesmo de escrever poesia. Eu queria ser poeta na verdade. Eu estudei arquitetura, não deu muito certo. Depois eu achei a poesia muito difícil. Um bom poeta é dificílimo. Aí eu comecei a escrever contos. Foi a partir de um conto que escrevi meu primeiro romance, ‘Relatos de um certo oriente’.

G1: Esse ambiente em que o senhor cresceu acabou se tornando uma presença constante em seus romances.

Hatoum: Foi muito rico pra mim ter convivido com estrangeiros na própria casa. Meu pai falava português e a minha mãe era brasileira, mas falava português com a gente e árabe com os pais. Minha avó materna falava francês comigo porque ela era uma libanesa cristã, e, portanto, um pouco metida, foi educada em um liceu francês e queria que eu estudasse francês a todo custo, o que acabou acontecendo. E tem o lado que é o mais bruto da sociedade brasileira: as empregadas da minha casa e da vizinhança. Algumas eram índias, algumas nem falavam português corretamente e eram bastante humilhadas também. Eram moças que tinham sido educadas pelos missionários, depois se tornavam empregadas com a vida muito dura na cidade de Manaus. Isso me incomodou muito. E daí surgiu a Domingas de ‘Dois Irmãos’, de mulheres que trabalhavam não só na minha casa, mas em todas as casas de classe média de Manaus. Eu percebi uma estranheza na língua das mulheres, na língua dos meus avós, a música árabe, a comida árabe, a comida inglesa, que a minha mãe misturava com a comida amazonense. Era um pequeno Líbano amazonense caboclo em Manaus. Isso certamente foi forte para mim. A infância e a juventude são decisivas para quem quer escrever porque a literatura evoca o passado e reinventa também o passado.

G1: Suas histórias transitam por diversos meios de comunicação. O que o senhor acha da internet? De que forma o senhor acha que ela afeta a literatura?

Hatoum: A internet está acabando com as livrarias, não com a literatura. O comércio eletrônico prejudica as livrarias, sobretudo os pequenos livreiros. Minha questão é outra. Não é internet e literatura. É escola pública e literatura. É a formação da criança e do jovem brasileiro. Essa é a grande desfaçatez dos nossos dias. É a falta de vontade política para melhorar a qualidade de ensino público. Eu me formei no ensino público. Não posso reclamar, que os ‘Dois Irmãos’ e o ‘Cinzas do Norte’, principalmente, são muito lidos por causa dos professores. Mas não há mais leitores porque a escola pública não forma bons leitores. A escola é precária. A culpa não é dos professores, é do sistema e, sobretudo, dos políticos. No país dos ‘Crivellas’, ‘Malafaias’, ‘Felicianos’ e dos ‘Bolsonaros’, é impossível, é muito difícil melhorar a escola. Há prefeitos, políticos se esforçando, os professores também. Todos os meus livros são conhecidos graças aos professores e a muitos estudantes de pós-graduação. Um país que não investe em educação não tem futuro mesmo. Não adianta. Os festivais têm um alcance limitado. Não revertem a qualidade da educação. Só uma política faz isso. Os festivais são um estímulo, atraem públicos e, às vezes, alcançam os professores da região. Acho importante envolver professores no festival.

G1: Atualmente, o senhor está trabalhando em algum livro?

Hatoum: Eu escrevo um livro há quatro anos. O título provisório é ‘O lugar mais sombrio’. Não é um romance político, mas de jovens secundaristas e universitários que cresceram na época da ditadura militar e, mesmo não sendo um romance político- ao contrário, é um romance que tem uma história de humor-, é impossível não falar de política, no meu ponto de vista, de quem vivenciou aquele momento. São dois volumes. Eu terminei o que viria ser a sequência desse livro. Eu fiz o segundo volume primeiro.

Negra, pobre e da rede pública fica em 1º em curso mais concorrido da Fuvest

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Moradora de um conjunto habitacional na periferia de Ribeirão Preto, Bruna diz que a opção pela medicina veio há apenas um ano. Foto: Reprodução/Facebook

Bruna Sena, 17, comemora o 1º lugar em medicina da USP de Ribeirão, o mais concorrido da Fuvest

 

Jairo Marques, na Folha de S.Paulo

É com uma frase provocativa estampada em uma rede social que Bruna Sena, 17, primeira colocada em medicina da USP de Ribeirão Preto, carreira mais concorrida da Fuvest-2017, comemora e passa um recado de sua conquista: “A casa-grande surta quando a senzala vira médica”.

Negra, pobre, tímida, estudante de escola pública, criada apenas pela mãe, que ganha R$ 1.400 como operadora de caixa de supermercado, Bruna será a primeira da família a interromper o ciclo de ausência de formação superior em suas gerações. Fez em grande estilo, passando em uma das melhores faculdades médicas do país.

A mãe, Dinália Sena, 50, que sustenta a casa desde que Bruna tinha nove meses e o pai deixou o lar, está entre a alegria e o pavor. Tem medo que a filha seja hostilizada. “Por favor, coloque no jornal que tenho medo dos racistas. Ela vai ser o 1% negro e pobre no meio dos brancos e ricos da faculdade.”

Já a filha mostra-se tranquila. Acredita que será bem recebida e tem na ponta da língua a defesa de sua raça, de cotas sociais e da necessidade de mais oportunidades para os negros no Brasil. “Claro que a ascensão social do negro incomoda, assim como incomoda quando o filho da empregada melhora de vida, passa na Fuvest. Não posso dizer que já sofri racismo, até porque não tinha maturidade e conhecimento para reconhecer atitudes racistas”, diz a caloura.

“Alguns se esquecem do passado, que foram anos de escravidão e sofrimento para os negros. Os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidade de vida iguais.”

GEORGE ORWELL

Para enfrentar a concorrência de 75,58 candidatos do vaga, Bruna fez o básico: se preparou muito, ao longo de toda sua vida escolar. “Ela só tirava notas 9 ou 10. Uma vez, tirou um 7 e fui até a escola para saber o que tinha acontecido. Não dava para acreditar. Falei com o diretor e ele descobriu que tinham trocado a nota dela com um menino chamado Bruno”, orgulha-se a mãe.

George Orwell, autor do clássico “A Revolução dos Bichos”, fábula que conta a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos, está entre os favoritos da garota, que também gosta de romance e comédia e é fã da série americana “Grey’s Anatomy”, um drama médico.

No último ano do ensino médio, que cursou pela manhã na escola estadual Santos Dumont, conseguiu uma bolsa de estudos em um cursinho popular tocado por estudantes da própria USP, para onde ia à noite. “Minha escola era boa, mas, infelizmente, tinha todas as dificuldades da educação pública, que não prepara o aluno para o vestibular. Falta conteúdo, preparo de alguns professores. Sem o cursinho, não iria conseguir.”

Segundo Bruna, que mora em um conjunto habitacional na periferia de Ribeirão Preto, vários de seus colegas de escolas nem “nem sabem que a USP é pública e que existe vestibular para passar”.

Com ajuda financeira de amigos e parentes, Bruna fazia kumon de matemática, mas o dinheiro não deu para seguir com o curso de inglês. “Tudo na nossa vida foi com muita luta, desde que ela nasceu, prematura de sete meses, e teve de ficar internada por 28 dias. Não tenho nenhum luxo, não faço minhas unhas, não arrumo meu cabelo. Tudo é para a educação dela”, declara a mãe.

Ainda segundo Dinália, “alguns conhecidos ajudaram. Uma amiga minha sempre dava livros para ela. Uma vez, essa amiga colocou R$ 10 dentro de um livro para comprarmos comida e escreveu: ‘Bruna, vence a vida, não deixe que ela te vença, estude'”.

Bruna Sena, 17, estudou a vida toda em escola pública e é defensora das cotas sociais

Bruna Sena, 17, estudou a vida toda em escola pública e é defensora das cotas sociais

FUTURO

A opção pela medicina aconteceu há cerca de um ano, por influência de professores do cursinho popular que frequentou o CPM, ligado à própria Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão. “Claro que não sei ainda qual especialidade pretendo seguir, mas sei que quero atender pessoas de baixa renda, que precisam de ajuda, que precisam de alguém para dar a mão e de saúde de qualidade”, declara.

Engajada na defesa de causas sociais como o feminismo, o movimento negro e a liberdade de gênero, a adolescente orgulha-se do cabelo crespo e de sua origem, mas é restrita nas palavras sobre o pai, que não paga pensão e não a vê há anos. “Minha mãe ralou muito para que eu tivesse esse resultado e preciso honrar isso. Sou grata também a minha escola, ao cursinho. Do meu pai, nunca entendi o desprezo, me incomoda um pouco, mas agora é hora de comemorar e ser feliz.”

Estudante de escola pública descobre novos asteroides e vai à Nasa

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Mylena Peixoto, de 16 anos, é convidada para conhecer a Nasa - Divulgação

Mylena Peixoto, de 16 anos, é convidada para conhecer a Nasa – Divulgação

 

Mylena Peixoto, de 16 anos, é membro do Clube de Astronomia de Campos

Publicado em O Globo

RIO – De olho nas estrelas, a estudante Mylena Peixoto, da Escola Técnica Estadual (ETE) João Barcelos Martins, unidade da Faetec em Campos dos Goytacazes, descobriu recentemente cinco novos asteroides que orbitam entre os planetas Marte e Júpiter. A descoberta foi reconhecida pelo programa International Astronomical Search Collaboration (Iasc) e culminou no convite para uma visita técnica ao Johnson Space Center, à Nasa, e ao National Radio Astronomy Observatory (NRAO), ambos nos Estados Unidos. Mylena viaja nesta quarta-feira e volta em 30 de setembro.

— Foram horas de dedicação e observação dos objetos celestes em movimento em órbita até identificar os cincos asteroides. Para encontrá-los, analisamos, durante muito tempo, através de um programa de computação astrométrica, diversos pontinhos que se deslocavam em uma imagem preta, branca e cinza. Não foi um trabalho fácil, mas o retorno foi gratificante — comemora a estudante.

A paixão de Mylena pela ciência começou em 2015, após a estudante participar da Campanha Internacional de Busca Astronômica, proposta pelo programa Iasc, com sede nos EUA e coordenada, no Brasil, pelo Clube de Astronomia de Campos. Na ocasião, com apenas 15 anos, ela se tornou membro do clube na região. Campos é, ao lado de Heidelberg, na Alemanha, um dos melhores pontos para a observação de asteroides em todo o planeta.

A aluna do terceiro ano do ensino médio seguirá para os estados do Texas e da Virginia, onde conhecerá a sede da Nasa e realizará um curso de análise dos dados vindos das estrelas no NRAO. No programa da viagem, consta ainda um jantar na Casa Branca, em Washington. Para a estudante, a possibilidade de visitar a maior agência de pesquisa e exploração espacial do mundo será uma experiência única e a concretização de um sonho.

— Na visita à Nasa terei a chance de conhecer astronautas e participar de uma reunião de trabalho do projeto Missão X (de formação de astronautas), além de jantar com o fundador do projeto Caça aos Asteroides. Já, no NRAO, farei uma capacitação em análise dos sinais de rádio detectados por radiotelescópios. Será uma oportunidade incrível que vou agarrar com todas as minhas forças — afirma.

Os asteroides observados por Mylena Peixoto receberam provisoriamente os nomes de P10odrM, P10ovCY, P10oCwi, P10oCAs e P10ouCr. Daqui a cinco anos, a estudante terá que batizar oficialmente os corpos celestes. Ela adianta que fará uma homenagem aos familiares e ao coordenador do projeto, Patrick Miller.

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