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Como a pobre Brejo Santo, no Ceará, construiu as melhores escolas públicas do Brasil

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Escola em Brejo Santo, no Ceará. Ana Carolina Cortez

Escola em Brejo Santo, no Ceará. Ana Carolina Cortez

 

Cidade desafia todos os estereótipos e teorias pedagógicas para conquistar o maior Ideb nacional

Ana Carolina Cortez, no El País

Sob um sol forte e um calor de mais de 30 graus, começam a descer das vans escolares, às 7 horas da manhã, os alunos da escola de ensino fundamental Maria Leite de Araújo, na zona rural de Brejo Santo, cidade a 70 quilômetros de Juazeiro do Norte, no Ceará, e a mais de 500 km da capital do Estado, Fortaleza. O verde das paredes da escola, uma construção simples de tijolos, contrasta com a paisagem ao redor, dominada pelo marrom das estradas de terra, pelo amarelo das plantações acostumadas à escassez de chuva e pela magreza do gado, castigado pela seca.

A escola tem somente cinco salas e 180 alunos, dos quais mais de 90% dependem de programas sociais do Governo, como o Bolsa Família. A renda per capita da região não passa de 350 reais mensais (contra pouco mais de 1.000 reais no Brasil), dinheiro que vem principalmente da agricultura familiar. Com essas características, que são bastante comuns na rede de ensino de um Brasil tão desigual, a escola Maria Leite desafia todos os estereótipos e teorias pedagógicas de um colégio modelo: é a melhor instituição pública de ensino fundamental do país.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), apurado pelo Ministério da Educação (MEC), é quem constata o fato. A escola Maria Leite de Araújo possui a maior nota do Brasil, 9,6, para o primeiro ciclo do fundamental. A média para o país, inclusive, é quase a metade (5,2). O indicador mede o desempenho em português e matemática dos alunos da rede pública.

O segredo para tal desempenho, segundo a secretária municipal de Educação, Ana Jacqueline Braga, não se esconde em uma fórmula mágica mirabolante. “Não é preciso muito dinheiro. Basta fazer um feijão com arroz bem feito. Se tiver recurso sobrando, faz também um bifinho à milanesa, claro. Mas é o básico que precisa ser feito primeiro”, conta. A secretária foi percebendo os desafios educacionais do município durante seus mais de 20 anos de experiência como professora da rede.

Um exemplo do “básico” que precisava ser feito parece um reles detalhe, mas fez toda a diferença num município predominantemente pobre. Desde 2009, as crianças tomam um café da manhã quando chegam para assistir às aulas, uma medida fundamental quando grande parte delas tem na escola a principal fonte de alimentação (às vezes, a única). Além dessa refeição, contam com um almoço bem reforçado no recreio. A matéria-prima vem dos agricultores familiares do município, uma iniciativa que garante a qualidade das frutas e verduras no prato das crianças e movimenta a economia local.

Outra iniciativa importante para elevar a qualidade de ensino do município foi o acompanhamento pedagógico constante dos alunos. Antes de todo ano letivo, cada criança é avaliada por suas competências. Aquelas que não aprenderam o conteúdo esperado, assistem a aulas de reforço fora do horário no qual foram matriculadas. Ao longo de todo o ano, as crianças também são acompanhadas por coordenadores pedagógicos. Quando têm dificuldades em alguma disciplina, os professores são orientados sobre como trabalhar com aquela criança para nivelá-la em relação àquilo que é esperado da turma.

A guinada na qualidade do ensino de Brejo Santo, com cerca de 45 mil habitantes, não é um caso isolado do Ceará. Foi durante o governo de Cid Gomes, entre 2007 e 2014, que o Estado começou a implantar um projeto educacional para todos os municípios da região, com destaque para o Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic). Em 2007, 39% das crianças entre 7 e 8 anos saíam dos primeiros anos do ensino fundamental sem saber ler nem escrever, percentual de analfabetismo que caiu para 6% em 2014. Foram iniciativas como acompanhamento pedagógico de professores e de alunos e meritocracia, como as feitas em Brejo Santo, que o Estado viu o seu Ideb evoluir de 3,5 para 5,2 nos estágios iniciais do ensino fundamental em menos de sete anos. O projeto educacional do Estado, contudo, foi inspirado em uma experiência na cidade natal da família Gomes, Sobral.

No caso da cidade visitada pelo EL PAÍS, os 921 professores da rede municipal fazem treinamentos semanais na secretaria de Educação, como parte de um programa de educação continuada do município. O piso salarial é superior ao nacional, que hoje soma 2.135 reais. Os magistrados também recebem bônus de final de ano, um 14 salário que acompanha o desempenho da sua escola no Ideb e no Spaece, prova que mede o conhecimento dos alunos no Estado do Ceará. “Quem faz acontecer, na verdade, é o professor. Então a sua profissão deve ser valorizada”, explica Jacqueline.

Rua onde fica a escola Maria Leite de Araújo, a melhor do país. Ana Carolina Cortez

Rua onde fica a escola Maria Leite de Araújo, a melhor do país. Ana Carolina Cortez

 

Nos últimos anos, a rede toda foi reformulada, e a maior parte das 42 escolas de ensino básico foram segregadas por séries. Algumas escolas oferecem matrículas do ensino infantil, outras do primeiro ao quinto ano do fundamental e, outras, do sexto ao nono. Diferentemente da tentativa de reorganização escolar aplicada no Estado de São Paulo, as crianças que foram transferidas contam com transporte escolar e, ainda que tudo seja muito perto na zona urbana da interiorana Brejo Santo, não precisam se preocupar com a distância entre o novo colégio e as suas casas. Na zona rural, onde as distâncias são de fato um problema, as escolas costumam oferecer vaga para todos níveis de ensino. Mesmo assim, o transporte escolar é obrigatório.

Antes de 2009, o ensino em Brejo Santo era multisseriado, ou seja, na mesma sala de aula encontravam-se alunos de séries diferentes. O modelo, que funciona bem na Escola da Ponte, em Portugal, parece não se adaptar a Brejo Santo. “Modelos muito construtivistas são ótimos quando os alunos têm boa estrutura familiar, conhecimentos prévios para serem trabalhados. As crianças aqui não vivem essa realidade e eu não posso simplesmente ignorá-las, nem esperar que elas estejam preparadas para as pedagogias modernas”, defende Jacqueline.

Dados comprovam a evolução do município após a reestruturação, rede de ensino que já esteve entre as piores do país. O Ideb médio de Brejo Santo passou de 3 em 2007 para 7,2 em 2013. Há alguns anos, a evasão escolar era uma das maiores do Brasil e, o número de matrículas, baixo. Atualmente, 99% dos alunos em idade escolar estão, de fato, na escola, o que corresponde a 12.325 estudantes. Tudo o que foi conquistado pela cidade, contudo, provém de poucos recursos. Além dos repasses do Fundeb, fundo de educação básica distribuído pelo Governo federal para todos os municípios do país, Brejo Santo aplica no segmento 27,5% de suas receitas com tributos, pouco mais de 13 milhões de reais por ano. A cidade conta com cerca de 47 mil habitantes, dos quais 11 mil dependem de bolsas assistenciais do Governo.

Sucesso na simplicidade

Jaílson Cosmo faz questão que os filhos estudem para que "tenham uma vida melhor" Ana Carolina Cortez

Jaílson Cosmo faz questão que os filhos estudem para que “tenham uma vida melhor” Ana Carolina Cortez

Diferentemente de uma escola de primeiro mundo, os estudantes da zona rural de Brejo Santo não têm muito contato com as novas tecnologias. Nunca viram um drone, não desenvolvem robôs em sala, não aprendem com o auxílio de tablets e, antes de 2014, nem tinham acesso à internet. De acordo com Maria das Graças Bezerra, diretora da escola Maria Leite, nada disso faz falta para o processo de aprendizagem de seus alunos. “Fazemos tudo de forma muito simples, e o simples dá trabalho”, afirma. Para a diretora, o foco da escola não é trabalhar a tecnologia, mas sim o conhecimento e a leitura. “Quem interpreta bem um texto consegue interpretar bem e executar bem qualquer coisa”, complementa. No intervalo, todos os dias os alunos vão para debaixo da sombra de um grande juazeiro que fica no pátio da escola. Em roda, contam histórias e interpretam contos com fantoches.

A diretora também “pega no pé” dos alunos no quesito frequência escolar. Cada falta deve ser justificada pelos pais e se necessário vai na casa dos alunos entender o que está acontecendo. Maria das Graças acredita que a frequência escolar também sofreu uma influência positiva do Bolsa Família. “Esse programa fez muita diferença para as famílias da região. Hoje não vemos mais alunos desmaiarem de fome. Eles vêm mais arrumadinhos, têm material para estudar. Vem com mais autoestima”, complementa.

O pecuarista Jaílson Cosmo, de 46 anos, é um dos beneficiário do programa na região. Somando o auxílio do Governo, a renda da família, composta por cinco pessoas, chega a 1.000 reais por mês. Seus três filhos, os gêmeos Jeferson e Jardel, de 9 anos, e Cícera, de 14 anos, estão matriculados na E.E.F. Maria Leite de Araújo, “a melhor escola do país”, como se orgulha em dizer. Ele, que vende leite e gado para abate, largou os estudos na terceira série do fundamental. “A escola era muito longe, eu tinha que caminhar 6 quilômetros por dia. Também precisava trabalhar para ter o que comer”, conta. “Quero que meus filhos tenham um futuro melhor, quero que aprendam, que estudem muito. Eles que vão escolher o que querem ser. Se quiserem ser agricultores, como eu, tudo bem. Mas se quiserem ser outra coisa, terão essa opção”, complementa.

Quando foi entrevistado, o pai estava de passagem na escola. Tinha visitado um amigo ali perto e resolveu “dar uma olhadinha nos meninos”. A cobrança de Jaílson é constante e, ainda que não consiga mais acompanhar a lição de casa dos filhos, que já passaram da série na qual ele parou de estudar, pede para a filha mais velha “checar os cadernos” dos irmãos mais novos, para “saber se fizeram tudo direito”, explica. Outra “ferramenta” que auxilia Jaílson na cobrança é a memória fotográfica. “Sei se eles escreveram no caderno porque guardei a última página”.

De volta à escola

Sala de aula da Nobilino Alves de Araújo. Ana Carolina Cortez

Sala de aula da Nobilino Alves de Araújo. Ana Carolina Cortez

A presença dos pais na vida escolar dos filhos é fundamental, na opinião de Maria Auxiliadora Moura, diretora da Nobilino Alves de Araújo, outra escola rural de Brejo Santo com um Ideb invejável (9,2). “Educação de qualidade é um processo e depende da dedicação da equipe, da construção de um ambiente favorável ao aprendizado e do envolvimento ativo da comunidade”, afirma.

Para engajar os alunos, a escola promove diversas competições, que vão desde “olimpíadas” de matemática, concursos de redação e até gincanas de astronomia. Em maio, por exemplo, o professor de física da escola inspirou os alunos a construírem um foguete de material reciclado. Ganhava o grupo que desenvolveu o foguete que voava mais alto.

A instituição tem salas de ensino infantil à EJA (Educação de Jovens e Adultos), pois é a única do bairro onde atua. Ainda que esteja situada na zona rural, Nobilino está no meio de uma região industrial em Brejo Santo, perto de fábricas de tijolos e até das obras da ferrovia Transnordestina, projeto que vai ligar o Porto de Pecém (CE), o Porto de Suape (PE) e o município de Eliseu Martins (PI) em uma rota de produção mineral.

Aproveitando a demanda dessas empresas por funcionários locais, a escola buscou fazer parcerias com elas, para diminuir a evasão dos alunos da EJA e atrair mais adultos para concluírem os estudos. “Deu super certo, pois eram companhias que pediam diploma de ensino fundamental para contratação”, diz.

Programa de inclusão

Outro projeto de inclusão que as “escolas-modelo” de Brejo Santo vem implementando é o de crianças com necessidades especiais. A cidade, que recebe (mais…)

Antes de entrar na Uerj, aluna negra ouviu que não tinha ‘cara de médica’

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"Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: 'ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'", diz a estudante Mirna Moreira

“Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: ‘ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'”, diz a estudante Mirna Moreira

 

Janaína Garcia, no UOL

O relato de uma jovem negra estudante de medicina na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) viralizou nas redes sociais, no último fim de semana, ao expor as condições sociais da jovem em contraste com o ambiente acadêmico.

No texto, a estudante Mirna Moreira, 22, falou também do preconceito enfrentado antes de ela entrar na universidade, onde cursa o segundo ano após ingressar pelo sistema de cotas. “Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: ‘ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'”, escreveu.

Moradora do Complexo do Lins, na zona norte do Rio, Mirna definiu que seu “maior acerto” foi ter assumido a estética de mulher negra, nos cabelos soltos. “Antes de entrar nesse espaço da universidade, eu entendi que é muito importante estar ali porque existe a questão da representatividade, que se estende para fora da academia também. Quando eu visto meu jaleco branco e subo o Morro dos Macacos representando a instituição Uerj, como fiz em uma ação sobre sexualidade na adolescência numa escola pública, e as meninas negras dessa escola pedem para tirar fotos comigo, elogiam meu cabelo crespo, e de alguma forma me veem como referência, eu só tenho mais certeza disso”, definiu.

“Por isso, principalmente nos espaços acadêmicos, eu faço questão de afirmar que sou do Complexo do Lins. Esse lugar faz parte da minha identidade. Sei da onde eu vim, quem me ajudou a chegar até aqui, e não foi nenhum médico de formação, foi minha mãe que trabalhou como diarista por muitos anos, meu pai que já trabalhou como pedreiro, e que sempre priorizaram meus estudos. Eu sei quem são os pretos que construíram a base para que hoje eu esteja aqui hoje”, escreveu.

Jovem quer “devolver à sociedade” como médica do SUS

Em entrevista ao UOL, a jovem contou que já passou por situações nas quais ela vê um viés racista — como a “surpresa” de alguns colegas quando, ano passado, ainda no primeiro bimestre de aulas, ela gabaritou em uma prova de anatomia prática.

“Apenas duas alunas gabaritaram: eu e uma colega, branca. Houve uma surpresa muito grande da sala somente em relação a mim, e com perguntas do tipo: ‘Você escondeu o jogo?’, já que era o primeiro mês, ainda, de aula. Mas a outra aluna passou pelo mesmo processo de seleção e não houve esse tipo de questionamento; não tenho dúvida de que foi racismo”, atestou.

Mirna fez o ensino fundamental em escola pública, mas seguiu os estudos em escola particular graças à ajuda da madrinha, que vive nos Estados Unidos. “Já questionaram minha cota, já alegaram que eu tenho um tablet… como se eu não tivesse o direito de ter, me esforçando para isso”.

A jovem milita na causa negra também em um coletivo da universidade. É ali o espaço, ela aponta, onde vários outros relatos semelhantes ao que ela diz ter ouvido são apresentados, mas de outros cursos. “Isso de ‘não ter cara’ de uma profissão’ é quase unânime entre os negros da faculdade que estão nos cursos tradicionais”.

Para o futuro, a aluna de medicina quer “devolver à sociedade” o que ela chama de investimento — seja por projetos sociais ou pelo trabalho no SUS (Sistema Único de Saúde). “Eu tenho noção de que o meu estudo sai do bolso da sociedade”, justificou.

Hoje, a mãe de Mirna é telefonista, e o pai, bombeiro. A filha integra um grupo de dez negros em uma sala de 104 alunos na medicina.

Mais jovens negros nas universidades

Dados da SIS 2015 (Síntese de Indicadores Sociais), pesquisa produzida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgada em dezembro passado, mostraram que, em uma década, foi constatado crescimento na proporção de universitários na faixa etária de 18 a 24 anos –de 32,9%, em 2004, para 58,5%, em 2014–, com destaque para o recorte por cor ou raça, de acordo com os critérios de classificação do instituto.

Do total de estudantes pretos ou pardos de 18 a 24 anos, 45,5% estavam na universidade no ano passado. Há dez anos, essa proporção era de 16,7%. Entre os brancos, também houve aumento –de 47,2%, em 2004, para 71,4%, em 2014.

Também ano passado, outro estudo do IBGE revelou que os negros representavam apenas 17,4% da parcela mais rica do país, em 2014 – apesar de a população que se identifica como preta ou parda ter crescido entre a parcela 1% mais rica da população brasileira, cuja renda média é de R$ 11,6 mil por habitante.

Segundo o IBGE, os negros (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira em 2014, representando 53,6% da população. Os brasileiros que se declaravam brancos eram 45,5%.

Aluna de escola pública formada em Harvard lista mitos sobre estudar fora

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Tabata Amaral Pontes, de 22 anos, se formou em ciências políticas e astrofísica em Harvard (Foto: Marcelo Brandt/ G1)

Tabata Amaral Pontes, de 22 anos, se formou em ciências políticas e astrofísica em Harvard (Foto: Marcelo Brandt/ G1)

 

Filha de ex-vendedora de flores colecionou medalhas em olimpíadas estudantis. Agora, vai trabalhar com educação em multinacional no Brasil.

Vanessa Fajardo, no G1

Mais do que sorte e talento, Tabata Amaral de Pontes, de 22 anos, atribui suas conquistas às oportunidades. Foram as bolsas de estudo e mentorias que abriram de vez as portas para que a aluna esforçada de escola pública na periferia de São Paulo conseguisse na Universidade Harvard , nos Estados Unidos, seu diploma de graduação em ciências políticas e astrofísica.

A convite do G1 , Tabata reavaliou sua trajetória para listar os cinco maiores mitos sobre estudar fora do país.

Desde junho de volta ao Brasil, a filha de ex-vendedora de flores está envolvida em um projeto social que ajudou a fundar, o Mapa Educação , que busca mobilizar os jovens para que a educação seja prioridade no debate político. Em agosto, começará a trabalhar em um fundo de educação de uma empresa multinacional em São Paulo.

Trajetória olímpica
Bem antes da vaga de emprego em uma multinacional, ainda quando estudava na rede pública e tinha 12 anos, Tabata começou uma carreira como “atleta” do conhecimento. Ao todo, colecionou mais de 30 medalhas em olimpíadas de física, química, informática, matemática, astronomia, robótica e linguística.

A possibilidade de morar e estudar no exterior começou a se desenhar quando Tabata teve a oportunidade de deixar a rede pública. À época ela tinha sido destaque na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e ganhou uma bolsa no Colégio Etapa.

O colégio também bancou moradia e alimentação da estudante porque sua casa ficava distante, e os pais não podiam arcar com a despesa. Lá viu os horizontes se alargarem e ouviu pela primeira vez sobre a possibilidade de fazer faculdade fora do país.

Neve era a diversão quando a temperatura baixava e chegava até 27 graus negativos (Foto: Arquivo pessoal)

Neve era a diversão quando a temperatura baixava e chegava até 27 graus negativos (Foto: Arquivo pessoal)

 

Quando estava no segundo do ensino médio ganhou uma bolsa da escola Cellep para estudar inglês e contou com a ajuda de instituições para cobrir os gastos do application (processo de candidatura às vagas das universidades norte-americanas).

Quando enfim escolheu Harvard, há quatro anos, Tabata também tinha sido aceita por outras cinco universidades americanas, entre elas, Caltech, Columbia, Princeton e Yale.

CINCO MITOS SOBRE ESTUDAR FORA
Tabata selecionou e deu sua opinião sobre conceitos que “perseguem” os candidatos:

1) É preciso ser gênio
Para ser aceito em uma universidade americana, é preciso ser mais que bom aluno. As atividades extracurriculares são muito bem vistas pelos avaliadores. O diferencial de Tabata foi a paixão pelas ciências e pelas olimpíadas. Para ela, não há nada de genialidade por trás das aprovações.

“Tem pessoas que gostam muito de algumas áreas e são dedicadas, por isso acabam indo bem. Harvard vai valorizar que você tenha uma paixão, que se dedique e faça alguma coisa bacana com isso para a sociedade.”

2) Só ricos estudam lá
Fazer graduação em uma universidade americana de ponta pode custar até R$ 500 mil, incluindo mensalidades, hospedagem e alimentação durante os quatro anos. As bolsas são concedidas a partir da situação socioeconômica da família, e não por mérito. Se o aluno foi aceito, a instituição vai dar as condições para que ele estude, independentemente de sua condição financeira.

Tabata na Índia, onde esteve em 2013, para pesquisar o sistema de ensino (Foto: Arquivo pessoal)

Tabata na Índia, onde esteve em 2013, para pesquisar o sistema de ensino (Foto: Arquivo pessoal)

 

Tabata é filha de uma ex-vendedora de flores e tem um irmão, mais novo, universitário. O pai trabalhava como cobrador de ônibus e faleceu pouco antes de ela embarcar para o exterior. A família não poderia arcar com nenhuma despesa. Ela recebeu bolsa integral da universidade e ajuda de custo para transporte, passagens aéreas para o Brasil e compra de livros, mas trabalhou durante o curso para poder ajudar a mãe no Brasil. “Nada que atrapalhasse meus estudos.”

Para ela, falta de dinheiro não é impeditivo. “Se você tem um sonho grande de estudar nos Estados Unidos e não tem como pagar, não desista por isso. Eu realmente não poderia pagar um centavo e consegui.”

3) Inglês tem de ser fluente
O application exige um teste que mede da proficiência do aluno no inglês (Toefl) e uma prova chamada SAT, uma espécie de Enem americano, toda em inglês. A ideia é medir o quanto o aluno domina o idioma. No entanto, para ser aprovado, no processo como um todo, a fluência no inglês não é determinante.

Tabata aprendeu inglês em um ano, depois que ganhou a bolsa do Cellep. Ela conta que conseguiu ter notas suficientes nas provas do application , mas não era fluente.

“Tinha um inglês muito ruim. Chegando em Harvard tive dificuldade de me comunicar com os americanos, tanto que meus melhores amigos são os latinos e os indianos. Fui sentir que estava fluente só depois do meu primeiro ano, quando fui entender música e filme.”

Ela conta que só foi fazer piadas em inglês no último ano de curso. “Lembro da primeira vez que alguém falou para mim: a Tabata também está engraçada em inglês. Não lembro o que eu disse, mas um amigo falou: nossa ‘ up grade ’!”

4) Quem estuda nos Estados Unidos não volta para o Brasil
Ficar nos Estados Unidos nunca foi um projeto, mesmo com as pessoas dizendo que retornar ao Brasil seria uma “burrice.” Ela elenca pelo menos dois motivos: o contexto político pelo qual o país atravessa e a vontade de impactar a educação.

“Eu estudei ciências políticas, sou fascinada por esse tema. A gente está passando por um contexto histórico muito importante para o Brasil. Então, quer laboratório mais bagunçado e mais interessante para quem gosta de aprender como esse?”

Tabata diz que se ficasse nos Estados Unidos seria mais difícil voltar depois ao Brasil. “Lá a vida é mais fácil, mais segura e mais meritocrática. Só que eu quero ter impacto aqui, entrar para a política. Nunca considerei ficar.”

5) Meritocracia: quem quer consegue
A história da brasileira inspira muitos comentários do tipo “quem quer consegue”, mas para ela, suas conquistas não têm a ver com mérito.

“Vivemos em um país muito desigual e injusto. Tive a benção de ter muitas oportunidades bacanas e aproveitar. Esforço é muito importante, mas se eu não tivesse tido essas oportunidades eu não estaria aqui.”

Ela diz que sua trajetória prova o quanto a educação pode transformar e servir de inspiração. “Se você pegar a população brasileira e der uma educação de qualidade, boas oportunidades, nosso país vai ser mais justo e mais bacana. Não dá para falar ‘quem quer consegue’ porque não é assim. Quem quer e está em uma escola pública de baixa qualidade em uma cidade pequena, não consegue. Sinto muito, mas é verdade.”

Tabata com ao lado do irmão Alan e da mãe Reni na formatura em Harvard, no fim do mês de maio (Foto: Arquivo pessoal)

Tabata com ao lado do irmão Alan e da mãe Reni na formatura em Harvard, no fim do mês de maio (Foto: Arquivo pessoal)

 

Dificuldades e lições
A adaptação em Harvard não foi fácil. Ela embarcou logo após perder o pai, teve dificuldades com idioma, com a “comida sem sabor” e com o frio, que chegava até 27 graus negativos. “Me senti sozinha e cheguei a me questionar se aquele era realmente meu lugar.”

Mas vieram os amigos e a vida, entre estudos e trabalho, foi tomando rumo. “Levou um tempo para eu me encontrar, mas Harvard passou a ser um dos meus lugares preferidos no mundo que eu sinto muitas saudades agora.”

De lá, a maior lição que fica é a importância das pessoas. “Quando você passa quatro anos com gente tão fora de série, você se sente com vontade de fazer mais. Não importa o que eu faça, vou me preocupar em estar perto de pessoas que sabem muito mais do que eu. O que te faz crescer são as pessoas.”

Filho de pedreiro em SP derrota 18 mil candidatos e passa em curso de Yale

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Janaina Garcia, no UOL

Aluno de escola pública, Henrique Ferreira Vaz, 17, derrotou 18 mil candidatos para uma vaga em Yale

Aluno de escola pública, Henrique Ferreira Vaz, 17, derrotou 18 mil candidatos para uma vaga em Yale

Filho de pais divorciados, o estudante Henrique Ferreira Vaz, 17, não visita a mãe no Amazonas há dois anos. Separados por uma distância de mais de 3 mil quilômetros, eles se viam uma vez ao ano até o adolescente começar a se preparar para tentar uma bolsa fora do País. O esforço deu certo, e Henrique, aluno de escola pública, fará um curso de três semanas na disputada Universidade de Yale, nos Estados Unidos – vaga para a qual ele deixou para trás cerca de 18 mil concorrentes.

A mãe é enfermeira, e o pai de Henrique, pedreiro. Em entrevista ao UOL, Silvano Aparecido Vaz, 39, contou que o filho deixou ano passado a cidade de Chavantes, no interior de São Paulo, onde eles viviam, para estudar e dar aulas de inglês na vizinha Bernardino de Campos, onde ele mora com a avó. Nesse domingo (3), ele viajou para as três semanas de curso nos EUA – onde deve conhecer também a Universidade de Harvard.

Esta é a segunda viagem do estudante ao território americano – ano passado, ele participou de um programa da Embaixada americana relacionado à liderança juvenil, o “Jovem Embaixador”, período em que visitou escolas públicas e assistiu a reuniões e palestras com representantes políticos e ONGs.

O programa da Universidade de Yale, o “Yale Young Global Scholars”, é composto por aulas relacionadas a relações internacionais e segurança – como as de cibersegurança, intervenções humanitárias, liderança corporativa e geopolítica. Ao todo, 200 alunos de diferentes países foram selecionados para o curso – que, no caso de Henrique, acontece durante as férias escolares de julho.

Na avaliação do estudante, o contato com líderes estudantis de outras nações deve permitir uma troca de experiências com “discussões sobre problemáticas sociais, uma área pela qual me interesso muito”. “Espero amadurecer ideias, fazer amigos do mundo todo com quem eu possa manter contato por toda a vida e assim desenvolver projetos que impactem a sociedade”, afirmou.

Para a aprovação, o aluno do 3º ano da escola estadual Miguel Priante Calderaro, em Bernardino, precisou comprovar bom rendimento escolar, conhecimento da língua inglesa, habilidade de comunicação e engajamento social.

Filho varava as madrugadas estudando, lembra pedreiro

O pai de Henrique disse ter ficado surpreso com a aprovação, face à grande concorrência para a vaga, mas observou que a conquista veio após “muitas noites em claro, estudando”.

“Várias vezes eu acordei na madrugada e disse: ‘Henrique, vai dormir’, mas ele insistia que precisava estudar para os testes que garantissem esse tipo de vaga para ele. E no outro dia ele ia para a escola e ainda dava aulas de inglês, porque é um menino muito dedicado”, observou. “Eu jamais teria condições de manter meu filho em um curso desses – somos de família simples e eu sou pedreiro. Mas estou feliz de ver que ele segue um caminho de onde não tem mais volta, felizmente”, declarou.
Coordenador pedagógico: aprovação “é inspiradora” a outros alunos

O coordenador pedagógico na escola onde Henrique estuda, José Roberto Trombeli, afirmou que o adolescente “é um garoto normal; até usa gírias”. Por outro lado, admitiu: “Ele é tão dedicado e a seleção dele entre 18 mil candidatos é algo tão gratificante que isso tem incentivado outros alunos a estudarem”, definiu. “A molecada se deu conta de que mesmo a um aluno de escola pública é possível conseguir coisas melhores e um futuro bom, promissor. Isso é inspirador.”

Aluno de escola pública vence votação de Harvard com projeto sobre câncer

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Lucas de Almeida, 17, vence votação de Harvard com projeto para baratear o diagnóstico de câncer de pele

Lucas de Almeida, 17, vence votação de Harvard com projeto para baratear o diagnóstico de câncer de pele

 

Publicado no UOL

Aos 17 anos, o estudante Lucas de Almeida, da rede estadual de ensino do Espírito Santo, tem um objetivo ousado. Ele quer baratear o diagnóstico de câncer de pele, usando o exame de sangue. A maneira como o jovem quer alcançar sua meta é, talvez, tão arrojada quanto. Ele pretende contar com a ajuda da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

E, não duvide, essa parte está cada vez mais próxima de se tornar realidade. Lucas está participando do programa “Village to Raise a Child”, de Harvard, que tem como objetivo desenvolver o empreendedorismo social entre jovens. A universidade norte-americana, reconhecida como sendo um dos principais institutos de pesquisa do planeta, vai escolher cinco projetos. Os autores passarão uma semana nos Estados Unidos e, depois, contarão com a tutela de Harvard para continuar a pesquisa, por um ano, em seus países natais.

Em uma das etapas do programa, os projetos precisaram passar por uma votação popular pela internet para avançar. Lucas conseguiu 23.423 votos, o maior número da história do programa. Agora, o jovem vai passar por uma entrevista com representantes de Harvard. O resultado final deve ser divulgado no próximo dia 25 de julho.

Lucas está ansioso para a etapa final. De férias do 3º ano do Ensino Médio na Escola Estadual Professor Agenor Roris, em Vila Velha (ES), o jovem está estudando para a entrevista.
O projeto

O estudante não tinha nenhum motivo familiar para se interessar pelo câncer de pele. No entanto, ao ler uma pesquisa do Inca (Instituto Nacional de Câncer) que dizia que 26% dos casos de câncer que serão diagnosticados no Brasil neste ano são de pele, decidiu fazer algo a respeito.

“Eu não dava tanta importância ao assunto e comecei a pesquisar na internet. Daí, vi que as pessoas ignoram manchas na pele. Isso atrasa o tratamento e a cura do câncer”, afirmou. “Pensei que se as pessoas descobrirem precocemente, a chance de cura aumenta. Por isso, tive a ideia de diagnosticar o câncer de pele por meio do exame de sangue”, completou.

Com a ajuda de professores, Lucas chegou à conclusão de que o diagnóstico pode ser feito com o uso de biomarcadores em mapeamento genético e marcadores moleculares. É possível, até mesmo, saber o estágio da doença.

A ideia de participar do “Village to Raise a Child” foi do próprio jovem, que descobriu o programa em uma rede social.

“Mandei cartas em inglês e fiz um vídeo. Fui pré-selecionado. Todos os dias, eu ficava das 14h até a meia-noite trabalhando no projeto”, contou.

Na fase da votação online, Lucas contou com o apoio de muita gente. E também percorreu vários órgãos públicos para apresentar seu projeto e conseguir ainda mais apoio.

“Ganhei apoio da população, da secretaria de Educação, das rádios. Discursei na Assembleia Legislativa e em uma comissão de saúde. Alguns médicos me procuraram para me elogiar”, disse.
Aluno de escola pública

Filho de uma vendedora e de um técnico de informática, Lucas nunca saiu do Espírito Santo, nunca voou de avião e sempre estudou em escola pública.

Segundo o jovem, parte de seu objetivo é também dar um bom exemplo a outros estudantes da rede pública que possam se sentir desmotivados.

“Quero quebrar o tabu dos estudantes escolas públicas. Muitos pensam que não vão conseguir entrar em uma faculdade por causa da qualidade do ensino. Eles não têm a expectativa de sonhar grande. É preciso acabar com esse pensamento”, afirmou.

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