ernest hemingway

Hemingway, sempre tão fotogênico, com sua máquina de escrever. / Kurt Hutton/Getty Images

O que autores como Hemingway, Plath, Lorca e Faulkner escreveram antes de morrer

Eduardo Laporte, no El País

Estes escritores alcançaram a imortalidade com suas obras, mas isto não impediu que sua hora chegasse. Antes houve uma última carta, um efêmero legado que todo escritor inevitavelmente deixou e do qual recuperamos uma pequena seleção.

A paisagem é linda por aqui, e tive a oportunidade de ver parte do maravilhoso campo ao longo do Mississippi, onde costumavam transportar os troncos nos velhos tempos da indústria madeireira, e as rotas por onde chegaram os primeiros colonos do norte. (…) Não sabia nada do alto Mississippi até agora, e realmente é um país maravilhoso, que se enche de faisões e patos quando o outono chega.

(…)

Meus melhores desejos para toda a família. Estou bem e muito contente pelas coisas em geral, com vontade de ver todos vocês em breve.

Papai

Extrato das 210 últimas palavras que Ernest Hemingway enviou pelo correio pela última vez. Dirigiam-se ao filho de um amigo, de 9 anos, doente do coração. Foram escritas 17 cartas antes de seu suicídio e, segundo Paul Hendrickson – que explora o tema em seu livro Hemingway’s Boat: Everything He Loved in Life, and Lost – são uma prova de beleza, coragem e lucidez.

4 de fevereiro, 1963

Querida mãe,

(…) Eu jamais poderia ser autossuficiente nos Estados Unidos; aqui tenho os melhores médicos completamente grátis e, com crianças, isto é uma verdadeira bênção. Além disso, Ted [Hughes] vê as crianças uma vez por semana e isto faz com que se sinta mais responsável na hora de pagar a pensão. Simplesmente, terei que continuar aqui me virando sozinha.

(…) Agora as crianças precisam de mim mais do que nunca, de modo que durante mais alguns anos tentarei continuar escrevendo de manhã e dedicando-me a elas durante a tarde, e verei meus amigos ou lerei e estudarei de noite.

Começarei a ir à consulta de uma doutora, também a cargo da Seguridade Social, que me recomendou um médico do bairro muito bom que conheço, e confio que me ajudará a superar esses tempos difíceis. Mande meu beijo carinhoso a todos.

Sivvy

Uma semana separa a última carta de Sylvia Plath (1932-1963) da noite, segunda-feira, lua quase cheia, em que abriu a válvula de gás do forno e enfiou ali a cabeça até morrer intoxicada. Seu ex-companheiro, o poeta Ted Hughes, havia definido a escritura de cartas como “um excelente treinamento para aprender a conversar com o mundo”. Não sabia que também servia para se despedir dele. Excelente escritor de cartas, Hughes redigiu textos secos e frios para comunicar a notícia fatal:

Querida Olwyn:

Na segunda-feira de manhã, às 6 da madrugada, Sylvia se suicidou asfixiando-se com gás. O funeral será em Heptonstall na segunda que vem. Ela me pediu ajuda, como muitas vezes fazia. Eu era a única pessoa que podia tê-la ajudado, e a única tão cansada de suas exigências que não foi capaz de reconhecer quando realmente precisava de ajuda. Escreverei mais para você depois.

Com carinho,

Ted

[Cartas de Arthur Rimbaud, extraídas, respectivamente, dos livros Cartas a mi madre, Mondadori, 2000, e Postdata: historia curiosa de la correspondencia, de Simon Garfiel, Taurus, 2015]

Áden, 30 de abril de 1891

Minha querida mamãe,

(…)

Estou prostrado, com a perna vendada, atado, amarrado, acorrentado para que não possa mexê-la. Me transformei num esqueleto: dou medo. A cama acabou provocando feridas na minhas costas: não consigo dormir nem um minuto. E aqui o calor é muito forte. A comida do hospital, apesar do preço que pago por ela, é muito ruim. Não sei o que fazer.

(…)

Não se assustem com tudo isso. Dias melhores virão. É uma triste recompensa depois de tanto trabalho, privações e penas. Ai, que miserável é nossa vida!

Rimbaud

Três semanas depois, o autor de Uma Temporada no Inferno sofreria a amputação de sua perna doente, após chegar a Marselha. Mas cortar o mal pela raiz não surtiu efeito no seu caso, porque a infecção cancerosa se alastrou e ele morreu meses depois, em novembro de 1890. Na véspera, em pleno delírio, deixou uma nota dirigida ao diretor do correio marítimo de Marselha, que dizia:

Estou completamente paralisado. Portanto, desejo estar a bordo ao raiar do dia. Diga-me a que horas devem me levar a bordo.

[Cartas extraídas de Cartas de África, Gallo Nero, 2012]

Paris, 15 de março de 1938.

Meu prezado e recordado amigo:

Um terrível abatimento me deixou prostrado de cama há um mês, e os médicos não sabem quanto ainda conseguirei seguir assim. Preciso de um longo tratamento e, como estou sem recursos para prossegui-lo, pensei no senhor, don Luis José, no grande amigo de sempre, para pedir a sua ajuda a meu favor. Em nome de nossa velha e inalterável amizade, permito-me esperar que o querido amigo de tantos anos me estenderá a mão, como uma nova prova deste nobre e generoso espírito que sempre o animou e que todos conhecemos.

Agradeço de antemão, com um abraço apertado, seu firme e invariável amigo.

César Vallejo.

Autor de Trilce, o peruano César Vallejo deixou uma última carta que revela suas dificuldades econômicas, graves a ponto de ter que (mais…)