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Escrever bem é escrever como música: o conselho viral que circula há 30 anos

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Escritor americano dá dicas de como escrever bem e e um de seus conselhos virou um viral na internet

Jaime Rubio Hancock, no El País

“Esta frase tem cinco palavras.” Assim começava o texto que o jornalista argentino Axel Marazzi compartilhou no Twitter nesta segunda-feira. Marazzi dizia que nada na sua vida havia lhe ensinado tanto sobre a escrita quanto esses três parágrafos. Dois dias depois, a mensagem havia sido replicada mais de 5.000 vezes.

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Trata-se dos três parágrafos muito curtos abaixo, que há anos vêm sendo compartilhados nas redes sociais. Além de pipocar no Twitter, os vemos também no Imgur, Pinterest, Flickr e Tumblr, por exemplo. E alguns blogs e sites sobre escrita, como o Antorquía, o traduziram ao espanhol.

Esta frase tem cinco palavras. Aqui há mais cinco palavras. Usar cinco palavras é legal. Mas várias juntas ficam monótonas. Escute o que está acontecendo. A leitura se torna tediosa. O som começa a zumbir. É como um disco riscado. O ouvido pede mais variedade.

Agora ouça. Vario o comprimento de cada frase, e crio música. Música. A escrita canta. Tem um ritmo agradável, uma cadência, uma harmonia. Uso frases curtas. E uso frases de comprimento intermediário. E às vezes, quando estou certo de que o leitor está descansado, o envolvo com uma frase de comprimento considerável, uma frase que arde com energia e que sobe com todo o ímpeto de um crescendo, do rufar de tambores, do choque dos címbalos – sons que dizem: ouça isto, é importante.


Portanto, escreva com uma combinação de frases curtas, médias e longas. Crie um som que agrade ao ouvido do leitor. Não escreva apenas palavras. Escreva música.

O texto é assinado por Gary Provost, um escritor norte-americano que viveu entre 1944 e 1995. Escreveu livros para jovens, três deles com sua esposa, Gail. Também é autor de livros sobre crimes reais: um dos quais serviu de base para o telefilme Fatal Judgement (1988).

Mas o fragmento de que estamos falamos foi extraído de 100 Ways To Improve Your Writing (“100 maneiras de melhorar sua escrita”), publicado em 1985. É um das seis manuais de escrita que Provost publicou em vida.

Os 100 conselhos de escrita são distribuídos em 10 capítulos. Neles se fala sobre erros gramaticais e de pontuação. Também se ensinam alguns métodos para evitar que o leitor nos odeie, e são dadas recomendações para que os leitores sejam fisgados pelo texto desde o começo. Aliás, a primeira frase do livro é um bom exemplo de início poderoso: “Este livro vai ensinar você a escrever bilhetes de sequestro melhores”. Em seguida esclarece que também serve para escrever livros, artigos, sermões, canções, trabalhos escolares e até listas de compra.

O fragmento que é compartilhado há anos na Internet tem como título “Varie o comprimento das frases”. É a quarta recomendação do quinto capítulo, no qual Provost explica 10 formas de desenvolver seu estilo.

No texto original são só dois parágrafos em vez de três (o primeiro vai até “é importante”). Mas isso provavelmente não importaria a Provost, porque o livro também recomenda o uso de parágrafos curtos – é o terceiro conselho do quarto capítulo (“Como poupar tempo e energia”).

Nem todos os conselhos são escritos de forma tão engenhosa, claro: são na maioria propostas mais ortodoxas, num estilo muito claro e direto. Mas há um ou outro trecho semelhante. Por exemplo, o segundo conselho do décimo capítulo, “evite os clichês”:

Clichés are a dime a dozen. If you’ve seen one, you’ve seen them all. They’ve been used once too often. They’ve outlived their usefulness. Their familiarity breeds contempt. They make the writer look as dumb as a doornail, and they cause the reader to sleep like a log. So be sly as a fox. Avoid clichés like the plague. If you start to use one, drop it like a hot potato. Instead, be smart as a whip. Write something that is fresh as a daisy, cute as a button, and sharp as a tack. Better safe than sorry.

Naturalmente, tudo aqui é um tremendo lugar-comum. Tento traduzir:

Clichês são carne de vaca. Se viu um, viu todos. Já foram usados demais da conta. O prazo de validade deles venceu. Eles são um arroz de festa. Por causa deles o escritor parece burro feito uma porta, e o leitor dorme a sono solto. Então, seja astuto feito uma raposa. Fuja dos clichês como da peste. Se você sentir que vai usar um, caia fora; é uma batata quente. Fique esperto! Escreva algo que seja fresco como a rosa, lindo de morrer, e ardido feito pimenta. É melhor prevenir do que remediar.

Esta recomendação recorda a lista de conselhos irônicos que, em diferentes versões, circula pelo menos desde os anos 1970. Ela recomenda “ser mais ou menos específico” e evitar os exageros, porque “exagerar é um milhão de vezes pior do que minimizar”. A versão de William Safire diz, com relação aos lugares comuns: “Finalmente, mas não menos importante, fuja dos clichês como da peste. Eles são mais velhos que Matusalém. Procure alternativas viáveis”.

Provost também recomenda o uso ocasional de citações, num texto que começa assim:

As citações conhecidas – escreveu Carroll Wilson no prefácio a um livro de citações – são mais que conhecidas, são parte de nós.

Um último conselho de Provost que também vale a pena ler é o que fecha o livro: “Use o bom senso”. Ele recorda que “escrever é uma arte, não uma ciência, e quando termino um texto não reviso cada um de meus conselhos. Eu me pergunto se comuniquei bem o que queria dizer, se os meus leitores gostaram, se lhes dei algo agradável de ler. Eu os diverti, informei, persuadi ou deixei claras as minhas ideias? Dei a eles o que queriam? E estas são as perguntas que você deveria se fazer sobre tudo o que escrever”.

Escritores iniciantes: 5 dicas para não errar em sua primeira obra

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Publicado no Autografia

Qualquer leitor assíduo com certeza já sonhou com a possibilidade de escrever seu próprio livro. Mas, para que esse sonho se torne realidade, é necessário fazer as coisas acontecerem. Além disso, não existe uma fórmula mágica: é preciso muita dedicação, vontade de aprender e paciência para que as coisas deem certo.

Entretanto, algumas estratégias podem ajudar a dar o pontapé inicial nesse processo e fazer com que você veja essa possibilidade com outros olhos.

Por isso, separamos algumas dicas para escritores iniciantes que darão uma nova visão sobre o assunto. Fique com a gente e confira!
1. Leia muito e de tudo

Não tem como alguém escrever um conteúdo inovador e de qualidade sem repertório e bagagem cultural. E para obter essa carga de conhecimento é preciso ler – e muito!

Escritores iniciantes devem ler de tudo: romances, biografias, ficções, revistas, blogs e até bula de remédio se for preciso!

É interessante que a leitura seja rica e diversificada para que você tenha contato com os mais diferentes gêneros e amplie seu vocabulário. Dessa forma, você não só terá convívio com bons escritores, mas também com os maus. E acredite: você aprenderá muito com os dois.

A leitura também melhora a escrita na medida em que você assimila estilos diferentes, aprende novas formas de relatar um assunto e expande sua gramática e vocabulário.
2. Escreva muito

Além de ler, é imprescindível que você também escreva um pouco todos os dias, pelo menos. Afinal, o exercício de escrita é fundamental para quem está pensando em escrever um livro!

Ao contrário do que muitos pensam, não existe essa história de dom ou inspiração.

A boa escrita é fruto de técnica, muito exercício e dedicação. Ou seja, para que você tenha uma escrita de qualidade, é preciso que treine e escreva da melhor forma que puder, sendo honesto com você mesmo e buscando sempre se aperfeiçoar.
3. Comece aos poucos

Um dos principais erros dos escritores iniciantes é dar passos maiores que as pernas. Não queira escrever uma trilogia logo de cara: dê um passo de cada vez e comece por histórias curtas. Nesse sentido, os contos são uma ótima opção para quem está começando.

Com eles você terá espaço para se conhecer melhor e entender seus erros e dificuldades. Treinando bastante e aos poucos, você pode desenvolver histórias mais complexas e mais longas — até a hora em que conseguir escrever um romance completo.
4. Pense sobre o que será sua obra

Procure sempre escrever sobre aquilo que você gosta e que seja coerente com o seu mundo. Independentemente de qualquer moda, busque estar alinhado ao que você é e ao que você realmente pensa e acredita.

Dessa forma, antes de sair escrevendo sobre tudo o que vem à cabeça, pense no que sua obra será, qual seu significado e o sentido que ela terá. Somente depois disso faça um esqueleto, tendo bastante claro qual serão o começo, o meio e o fim da sua história.

É claro que você não precisa ser muito rígido, mas uma história bem contada precisa ser estruturada de forma coerente e completa.
5. Escreva com segurança e confiança

Escreva sempre de forma convicta e determinada, não tendo medo de errar. Afinal, o erro é inevitável e não tem problema nenhum cometê-lo.

Os erros são fundamentais para a construção de uma carreira sólida na escrita. Eles apontarão (nem sempre da melhor forma possível) em que você precisa melhorar e farão com que você evolua, mude de opinião e aprenda com suas falhas.

É evidente que não é fácil escrever um livro. Os escritores iniciantes vão encontrar muitas dificuldades que precisam ser superadas, além de muita paciência até perceber que as coisas estão de fato dando certo. Porém, com o planejamento e a orientação adequados, a escrita ficará mais segura, fluida e interessante.

Por que é tão penoso lançar um livro no Brasil?

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O escritor tem a impressão de que perpetrou um imperdoável embuste

Fernando Dourado Filho, na Revista Amanhã

Lançar um livro é um dos eventos mais angustiantes que podem acometer nossa frágil individualidade. O estresse é o mesmo das festas de fim de ano, quando as UTIs ficam coalhadas de pais atordoados com as demandas de uma família insaciável. Nos dias que antecedem a primeira noite de autógrafos, no caso de o autor ousar organizar uma, as coisas pioram muitíssimo e o escritor tem a impressão de que, no fundo, cometeu um ato de impostura, de soberba, de falsidade ideológica, enfim, que perpetrou um imperdoável embuste.

Por mais que ele saiba que duas dezenas de almas caridosas estarão presentes e lhe lançarão olhares benevolentes enquanto ele rabisca autógrafos empolados para esticar o tempo, a sensação inelutável é a de que ele tirou da paz de suas casas aquelas pessoas. E o autor, justo ele, que odeia vida social e já sonhou em viver isolado numa ilha do mar Egeu, se sentirá mais do que nunca uma fraude. Com que direito expor aquela brava gente às balas perdidas da vida urbana brasileira?

A bem da verdade, se pudesse, ele subiria na mesa e, patético, pediria desculpas públicas pelo deslize, daria um exemplar para cada um dos presentes graciosamente e ainda os mandaria de volta para casa de Uber às suas expensas, sob juramento solene de que jamais voltaria a escrever um livro. Mas agora já é tarde. As engrenagens da máquina já estarão rodando e só lhe competirá encarar a realidade dos fatos.

Se a recepção aos passantes está marcada para as 7 horas de uma quinta-feira, ele poderá tomar um Lexotan de 3 miligramas às 5 horas e, a caminho da livraria, emborcar uma dose de conhaque de alcatrão para fazer face à desventura que semeou na vida alheia. Sim, é isso que lhe passa pela cabeça na noite do domingo que antecede o primeiro de tantos eventos similares. Mas por que será? Vamos arriscar algumas explicações.

a) Ora, um livro é um projeto autoral por excelência. É fruto de uma sobreposição de impressões que vão tomando forma até o dia em que traduzem – ou tentam – um todo coerente. Não, ninguém desperta um belo dia e diz para si mesmo: “Hoje eu vou escrever um livro”. Assim sendo, dado o caráter intimista, o grande desafio é saber se ele vai perpassar o crivo alheio e encontrar um pequeno espaço no coração do leitor. A esmagadora maioria, contudo, quase a totalidade dos livros publicados diariamente, morre de inanição. Poucos serão os leitores que chegarão ao fim da leitura e infinitamente menos numerosos serão os que o comprarão. Um livro é como um filhote de tartaruga que escorrega pela areia até o mar nas praias da Bahia. Poucos chegarão à vida adulta;

b) Mas digamos que um dia você tenha em mãos o que outrora se denominava os originais e que você, num momento de soberba e amor pela humanidade, os enviou a uma editora. Como a maioria delas sabe que os ditos escritores se disporão a qualquer acordo para ser editados, elas se permitirão fazer o básico ou pouco mais. Tentarão impor um modelo de negócios blindado contra surpresas e em que a pressão recairá sobre o autor. Ademais, se eximirão previamente de erros de revisão. Dentro de uma faixa mínima, como se temessem deparar tubarões com água pela cintura, se arriscarão, mas, é claro, vão rir com discrição dos devaneios do escritor amalucado que, siderado por um lampejo de glória fugaz, falará de sua obra com ares de patriarca bíblico, ao passo que a editora, benevolente, o puxará para a terra com a força de um cabo de amarração, daqueles que aprisionavam o Zeppelin no alto das torres de atracação;

c) Vamos agora admitir que você tenha couraça de paquiderme, como dizem outros atores dessa comédia e, depois de apontar falhas de revisão às pencas, pois bem, digamos que você queira falar sobre as etapas subsequentes. Não porque você seja açodado ou inexperiente. Pelo contrário. Mas porque você roda mundo com frequência e acha que o planejamento tem suas virtudes, apesar de abominar o discurso conservador. Ademais, cá entre nós, em encarnações passadas, você já comandou áreas que equivalem a 20, 30 vezes o faturamento de sua editora. Sabe o que você vai ouvir? “Nananinanão”. Como uma criança flagrada afagando o suspiro ainda no forno, você será alvo de um peteleco nas falanges e de uma preleção sobre o “modus operandi” da casa. E, como se obedientes aos caprichos de um oráculo, até seus mais próximos dirão que as coisas nesse mundo “funcionam assim”. Ora, como obter resultados diferentes se o método é o mesmo?;

d) Você então bota a viola no saco e vai tocar sua vida, duvidando até que aquele projeto exista. Na solidão do confinamento, o tempo passa. Até o dia em que alguém telefona e diz que os exemplares estão saindo da gráfica. A essa altura, você terá colecionado 20 ou 30 “nãos”. Na verdade, você estará cansado, exausto. Mesmo porque a parte nobre do trabalho, aquela que agora poderia se traduzir em real expectativa de mercado, já não pode mais ser feita. É tarde. Isso porque ninguém terá integrado o processo a contento. O modelo matricial não dialogou entre si. Nada de Drücker, muito de Ionesco. A toda hora se apresentará um interlocutor novo com funções auto-atribuídas de logística, comércio, marketing, divulgação, comunicação e afins. Cada um dará uma pitadinha de sal no refogado e, cumprida a tabela (no entender dele), desaparecerá na nebulosa matricial. A maioria de suas perguntas ficará sem resposta;

e) Se você é o autor e sobreviveu a tudo isso, parabéns. Não é raro que você esteja vivendo os dias mais pungentes de sua vida, só comparáveis aos do infarto que seu pai sofreu quando você ainda tinha 13 anos e os médicos olhavam-no com benevolência e diziam: “Temos que rezar, meu filho”. Qualquer sugestão ainda não atendida – a imensa maioria delas – é facilmente atribuída à bufoneria e aos devaneios do ego. “A vaidade dele é tão grande quanto a barriga de um cervejeiro”, você lerá na correspondência interna que um incauto vazou. O que menos conta é a qualidade do que você escreveu. Qualquer sugestão de capa, formato, fonte ou papel será tida como desvario, quando não como voluntarismo e arbítrio. “Grande escravocrata, será que a Lei Áurea não chegou a vossa remota província?” – dirão os arautos da ordem às suas costas. Pois para essa indústria, o escritor é satanizado. Mesmo que ele professe a mais franciscana das humildades, ele é pré-condenado em todas as instâncias. Pois todos estão imbuídos da convicção de que ele é o elo vulnerável, o ser frágil a ser espezinhado, o nefelibata, o bobo de corte que estará no centro do ridículo. Até seus amigos dirão que as fotos estão péssimas, o “timing” foi perdido e você tem encontro marcado com o fracasso. Quando muito leais, dirão que é tempo de tirar lições para não repetir os mesmos erros no futuro. E isso tudo porque você ainda está longe do tal lançamento;

f) Nos dias que o antecedem, data crucial para que a livraria dê (ou não) algum a sobrevida de visibilidade a seus escritos, o que acontece? Tudo, rigorosamente tudo, que você teceu com mãos operosas, muito além do que todos os atores até então envolvidos jamais sonharam, está à beira do esgarçamento e destruição. Por qual razão? Porque os vasos não se comunicaram; porque todos os elos tiraram dias de férias no pior dos momentos e outros tantos decretaram operação-tartaruga porque se sentiram “inseguros”, quando não “desconfortáveis” com o rumo do projeto. Seja com a pressão, seja com as condições pactadas. E lá está você, o alvo silente da peçonha alheia, todos a querer ver a nave submergir para poder gritar em uníssono: “eu não disse?”;

g) Ora, as chances de ganhar algum dinheiro com o livro são quase nulas. Se ele vender muito bem – metade de seus amigos mais 100 unidades –, é possível que o chamem para um convescote literário em Itacaré, com direito a uma passagem de ônibus e R$ 500 de cachê. Isso se você preencher um formulário que nem uma matrícula em Harvard pediria tanto. Perder, contudo, é matematicamente certo. Pelo que já se viu, aliás, se perdem primeiro os amigos que têm alguma veleidade literária. Dirão que o que você escreveu é puro lixo e se esbaldarão de rir com uma passagem truncada. Se serve de consolo, quando isso acontecer, sorria. Pode ser, muitas vezes, que você esteja no bom caminho. Mas o bom do auto da fé ocorrerá pelas suas costas;

h) E aqueles amigos, ditos admiradores incondicionais, que o bombardearam por meses a fio em jornais, revistas e redes sociais, dizendo que você deve um livro à humanidade? E que, indo além do que recomenda a gentileza, se comprometem a adquirir seu livro para dar de presente aos amigos e clientes? Simples: todos sumirão. Todos alegarão que um brinde de R$ 30 é uma miséria e, ademais, que a crise os leva a contenções de despesas. Coerência, portanto, zero. O que é pior: acaso o pobre autor cobrou o cumprimento de alguma promessa? Nada, sequer disse que estava lançando o tal livro, na verdade. É bem da natureza humana, não há dúvida. Enquanto é hipótese, o sonho alimenta. Se vira realidade, esvanece. Lembram de quando Vinícius, o poetinha, insistia em levar Elizeth Cardoso para a cama? Alguém recomendou que “a Divina” lhe respondesse: “Pois só se for agora, Vinícius. Estou pronta…” Sem palavras, ele tergiversou e nunca mais falou no assunto;

i) São reações muito divertidas, se pensarmos bem. Os elos mais simples de ser estabelecidos, não o são. Não há o menor espaço para a pro-atividade e todos, quase todos, esperam palavrinhas de afago por ter feito exatamente um pouco aquém do se esperava deles. Quem surpreendeu foi você, o rebotalho do escritor. As boas ideias que germinaram saíram, no mais das vezes, de sua cabeça, apesar da interdição absoluta ao direito de pensar. Não obstante tanto, não esqueça: agradeça penhoradamente todos os que se pautaram pela lei do menor esforço e deram forma concreta a algum “insight” que você tenha tido, apesar de a maioria deles ter ido para o lixo;

j) Para finalizar esse arrazoado, não esqueça, sob quaisquer hipóteses, que é de péssimo tom você acalentar um projeto bojudo, espraiado ao longo de meia dúzia de anos, mesmo que você deixe a obra pronta e sequer cogite de viver tanto tempo. Não, isso é soberba. É “hubris”. Todos dirão em uníssono que nos pautamos por marcos regulatórios e sua solidão é absoluta. Com quem falar a respeito? Ninguém. Os que lhe são próximos dirão que não querem se acumpliciar com um sumidouro de dinheiro. Os que estão a meia distância, acharão ridícula sua pretensão. Os mais distantes dirão: “Quem sabe? Tente”.

Não há ser mais isolado no mundo do que um escritor às vésperas de lançar um livro. É um infeliz no sentido mais estrito da palavra. A malignidade de sua enfermidade é um truísmo. Nem o prazer incomparável de frequentar livrarias lhe restará por que ele só terá olhos para a gôndola onde seu livro morou durante alguns dias, antes do repouso eterno num depósito empoeirado. Mas lute, amigo. Nem que seja por você mesmo. Trave o bom combate.

“Leitura profunda é tudo aquilo que desafia o seu cérebro a pensar”

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Confira entrevista com Susan Reynolds, escritora da área científica

Irinêo Baptista Netto, na Gazeta do Povo

Susan Reynolds é escritora com experiência em temas científicos. O livro mais recente dela, “Fire Up Your Writing Brain” (“Acione seu cérebro de escritor”), cita pesquisas de neurociência para falar sobre o que se sabe a respeito de criatividade e escrita. Ela é colaboradora da revista “Psychology Today” e vive em Boston, no estado de Massachusetts (EUA). Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ela faz uma defesa da escrita feita à mão com letra cursiva para estimular o cérebro.

O que acontece com o cérebro de uma pessoa que nunca pratica “leitura profunda”?

Não acontece nada, mas neurocientistas sabem que aqueles que a praticam têm vários benefícios, sobretudo uma habilidade maior para ser empático e compassivo. Ler textos complexos – como poesia, ficção de qualidade e não ficção desafiadora, ou mesmo análises aprofundadas – ajudam o cérebro na habilidade de pensar em níveis mais complexos. Diferente da leitura superficial ou leve – como a que a gente faz quando só passa os olhos pelas chamadas de um site ou lendo textos curtos, ou lendo apenas ficção mais leve e “fofa” (ficção sem substância) –, a leitura profunda põe para funcionar as funções cognitivas complexas do córtex cerebral [ligado ao pensamento, à memória e à consciência]. Qualquer leitura que faça você pensar constrói, cria estruturas e reforça as conexões neuronais no córtex cerebral. Leituras rasas basicamente “entram por um ouvido e saem pelo outro”, com pouco ou nenhum impacto duradouro. É só um passo além de assistir à televisão, que não gera nenhum benefício para o cérebro.

Escrever pode ajudar alguém a ser um humano mais completo? Ou é melhor deixar a escrita para os escritores?

Já mostraram que escrever é um meio eficiente de curar feridas emocionais. O processo de colocar suas emoções numa página por meio da escrita parece diminuir a atividade cerebral relacionada ao estresse e aumentar a liberação de neurotransmissores que acalmam o cérebro. Escrever pode servir como uma meditação para todo mundo, particularmente se você adotar introspecção e usar letra cursiva – está provado que ela desacelera o processo de raciocínio e ajuda a acessar sentimentos reprimidos. Assim como é muito mais impactante ver a versão de um poema escrito à mão pelo poeta, é mais impactante para o cérebro se você escreve à mão usando letra cursiva e de modo reflexivo. É uma ótima forma de explorar sentimentos mais profundos e com clareza. E também se você pesquisa um tópico, estuda e reflete sobre as informações que acumula, e depois escreve algo original como resultado desse processo, você está ampliando a habilidade que o seu cérebro tem para pensar.

Você pode explicar o que é “leitura profunda”?

Leitura profunda é tudo aquilo que desafia o seu cérebro a pensar, a refletir, que faz você lutar para assimilar a informação, para aprender. Podem ser poemas (que se relacionam com sentimentos e estimulam introspecção e reflexão), artigos científicos (que engajam o córtex cerebral), trabalhos literários de ficção – especialmente aqueles que lidam com sentimentos profundos, que têm pensamentos e frases complexos, e que exigem mais do cérebro (algo que faça você procurar palavras no dicionário, por exemplo) –, ou algo que faça você prestar muita atenção e parar para pensar. Se você estuda uma língua estrangeira, ler livros nessa língua pode ser um grande desafio. Se você tem dificuldade de entender matemática ou ciência, ler artigos ou livros sobre esses assuntos que façam você diminuir o ritmo o suficiente para assimilar o que está sendo dito seriam ótimas formas de “leitura profunda”.

Cada vez mais, as pessoas vivem no Facebook, buscando informações, notícias e conhecimento no feed de notícias. Você acha que isso é perigoso de alguma forma – ler apenas o que é publicado em redes sociais?

Existem exceções, mas a maioria dos sites na internet não se detém muito em nenhum tópico. Geralmente, os agregadores de notícias (Google News é um exemplo) oferecem destaques sem muita profundidade. É preocupante que cada vez mais as pessoas estejam só passando os olhos em manchetes, o que certamente pode distorcer a percepção do que é verdade ou não é, e pouco é guardado na memória a menos que o córtex cerebral seja usado. O melhor é ler ampla e profundamente, sobretudo em relação a tópicos de relevância. Busque publicações que você sabe que fazem reportagens com profundidade e que oferecem análises confiáveis.

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