Contando e Cantando (Volume 2)

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Por que é tão penoso lançar um livro no Brasil?

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O escritor tem a impressão de que perpetrou um imperdoável embuste

Fernando Dourado Filho, na Revista Amanhã

Lançar um livro é um dos eventos mais angustiantes que podem acometer nossa frágil individualidade. O estresse é o mesmo das festas de fim de ano, quando as UTIs ficam coalhadas de pais atordoados com as demandas de uma família insaciável. Nos dias que antecedem a primeira noite de autógrafos, no caso de o autor ousar organizar uma, as coisas pioram muitíssimo e o escritor tem a impressão de que, no fundo, cometeu um ato de impostura, de soberba, de falsidade ideológica, enfim, que perpetrou um imperdoável embuste.

Por mais que ele saiba que duas dezenas de almas caridosas estarão presentes e lhe lançarão olhares benevolentes enquanto ele rabisca autógrafos empolados para esticar o tempo, a sensação inelutável é a de que ele tirou da paz de suas casas aquelas pessoas. E o autor, justo ele, que odeia vida social e já sonhou em viver isolado numa ilha do mar Egeu, se sentirá mais do que nunca uma fraude. Com que direito expor aquela brava gente às balas perdidas da vida urbana brasileira?

A bem da verdade, se pudesse, ele subiria na mesa e, patético, pediria desculpas públicas pelo deslize, daria um exemplar para cada um dos presentes graciosamente e ainda os mandaria de volta para casa de Uber às suas expensas, sob juramento solene de que jamais voltaria a escrever um livro. Mas agora já é tarde. As engrenagens da máquina já estarão rodando e só lhe competirá encarar a realidade dos fatos.

Se a recepção aos passantes está marcada para as 7 horas de uma quinta-feira, ele poderá tomar um Lexotan de 3 miligramas às 5 horas e, a caminho da livraria, emborcar uma dose de conhaque de alcatrão para fazer face à desventura que semeou na vida alheia. Sim, é isso que lhe passa pela cabeça na noite do domingo que antecede o primeiro de tantos eventos similares. Mas por que será? Vamos arriscar algumas explicações.

a) Ora, um livro é um projeto autoral por excelência. É fruto de uma sobreposição de impressões que vão tomando forma até o dia em que traduzem – ou tentam – um todo coerente. Não, ninguém desperta um belo dia e diz para si mesmo: “Hoje eu vou escrever um livro”. Assim sendo, dado o caráter intimista, o grande desafio é saber se ele vai perpassar o crivo alheio e encontrar um pequeno espaço no coração do leitor. A esmagadora maioria, contudo, quase a totalidade dos livros publicados diariamente, morre de inanição. Poucos serão os leitores que chegarão ao fim da leitura e infinitamente menos numerosos serão os que o comprarão. Um livro é como um filhote de tartaruga que escorrega pela areia até o mar nas praias da Bahia. Poucos chegarão à vida adulta;

b) Mas digamos que um dia você tenha em mãos o que outrora se denominava os originais e que você, num momento de soberba e amor pela humanidade, os enviou a uma editora. Como a maioria delas sabe que os ditos escritores se disporão a qualquer acordo para ser editados, elas se permitirão fazer o básico ou pouco mais. Tentarão impor um modelo de negócios blindado contra surpresas e em que a pressão recairá sobre o autor. Ademais, se eximirão previamente de erros de revisão. Dentro de uma faixa mínima, como se temessem deparar tubarões com água pela cintura, se arriscarão, mas, é claro, vão rir com discrição dos devaneios do escritor amalucado que, siderado por um lampejo de glória fugaz, falará de sua obra com ares de patriarca bíblico, ao passo que a editora, benevolente, o puxará para a terra com a força de um cabo de amarração, daqueles que aprisionavam o Zeppelin no alto das torres de atracação;

c) Vamos agora admitir que você tenha couraça de paquiderme, como dizem outros atores dessa comédia e, depois de apontar falhas de revisão às pencas, pois bem, digamos que você queira falar sobre as etapas subsequentes. Não porque você seja açodado ou inexperiente. Pelo contrário. Mas porque você roda mundo com frequência e acha que o planejamento tem suas virtudes, apesar de abominar o discurso conservador. Ademais, cá entre nós, em encarnações passadas, você já comandou áreas que equivalem a 20, 30 vezes o faturamento de sua editora. Sabe o que você vai ouvir? “Nananinanão”. Como uma criança flagrada afagando o suspiro ainda no forno, você será alvo de um peteleco nas falanges e de uma preleção sobre o “modus operandi” da casa. E, como se obedientes aos caprichos de um oráculo, até seus mais próximos dirão que as coisas nesse mundo “funcionam assim”. Ora, como obter resultados diferentes se o método é o mesmo?;

d) Você então bota a viola no saco e vai tocar sua vida, duvidando até que aquele projeto exista. Na solidão do confinamento, o tempo passa. Até o dia em que alguém telefona e diz que os exemplares estão saindo da gráfica. A essa altura, você terá colecionado 20 ou 30 “nãos”. Na verdade, você estará cansado, exausto. Mesmo porque a parte nobre do trabalho, aquela que agora poderia se traduzir em real expectativa de mercado, já não pode mais ser feita. É tarde. Isso porque ninguém terá integrado o processo a contento. O modelo matricial não dialogou entre si. Nada de Drücker, muito de Ionesco. A toda hora se apresentará um interlocutor novo com funções auto-atribuídas de logística, comércio, marketing, divulgação, comunicação e afins. Cada um dará uma pitadinha de sal no refogado e, cumprida a tabela (no entender dele), desaparecerá na nebulosa matricial. A maioria de suas perguntas ficará sem resposta;

e) Se você é o autor e sobreviveu a tudo isso, parabéns. Não é raro que você esteja vivendo os dias mais pungentes de sua vida, só comparáveis aos do infarto que seu pai sofreu quando você ainda tinha 13 anos e os médicos olhavam-no com benevolência e diziam: “Temos que rezar, meu filho”. Qualquer sugestão ainda não atendida – a imensa maioria delas – é facilmente atribuída à bufoneria e aos devaneios do ego. “A vaidade dele é tão grande quanto a barriga de um cervejeiro”, você lerá na correspondência interna que um incauto vazou. O que menos conta é a qualidade do que você escreveu. Qualquer sugestão de capa, formato, fonte ou papel será tida como desvario, quando não como voluntarismo e arbítrio. “Grande escravocrata, será que a Lei Áurea não chegou a vossa remota província?” – dirão os arautos da ordem às suas costas. Pois para essa indústria, o escritor é satanizado. Mesmo que ele professe a mais franciscana das humildades, ele é pré-condenado em todas as instâncias. Pois todos estão imbuídos da convicção de que ele é o elo vulnerável, o ser frágil a ser espezinhado, o nefelibata, o bobo de corte que estará no centro do ridículo. Até seus amigos dirão que as fotos estão péssimas, o “timing” foi perdido e você tem encontro marcado com o fracasso. Quando muito leais, dirão que é tempo de tirar lições para não repetir os mesmos erros no futuro. E isso tudo porque você ainda está longe do tal lançamento;

f) Nos dias que o antecedem, data crucial para que a livraria dê (ou não) algum a sobrevida de visibilidade a seus escritos, o que acontece? Tudo, rigorosamente tudo, que você teceu com mãos operosas, muito além do que todos os atores até então envolvidos jamais sonharam, está à beira do esgarçamento e destruição. Por qual razão? Porque os vasos não se comunicaram; porque todos os elos tiraram dias de férias no pior dos momentos e outros tantos decretaram operação-tartaruga porque se sentiram “inseguros”, quando não “desconfortáveis” com o rumo do projeto. Seja com a pressão, seja com as condições pactadas. E lá está você, o alvo silente da peçonha alheia, todos a querer ver a nave submergir para poder gritar em uníssono: “eu não disse?”;

g) Ora, as chances de ganhar algum dinheiro com o livro são quase nulas. Se ele vender muito bem – metade de seus amigos mais 100 unidades –, é possível que o chamem para um convescote literário em Itacaré, com direito a uma passagem de ônibus e R$ 500 de cachê. Isso se você preencher um formulário que nem uma matrícula em Harvard pediria tanto. Perder, contudo, é matematicamente certo. Pelo que já se viu, aliás, se perdem primeiro os amigos que têm alguma veleidade literária. Dirão que o que você escreveu é puro lixo e se esbaldarão de rir com uma passagem truncada. Se serve de consolo, quando isso acontecer, sorria. Pode ser, muitas vezes, que você esteja no bom caminho. Mas o bom do auto da fé ocorrerá pelas suas costas;

h) E aqueles amigos, ditos admiradores incondicionais, que o bombardearam por meses a fio em jornais, revistas e redes sociais, dizendo que você deve um livro à humanidade? E que, indo além do que recomenda a gentileza, se comprometem a adquirir seu livro para dar de presente aos amigos e clientes? Simples: todos sumirão. Todos alegarão que um brinde de R$ 30 é uma miséria e, ademais, que a crise os leva a contenções de despesas. Coerência, portanto, zero. O que é pior: acaso o pobre autor cobrou o cumprimento de alguma promessa? Nada, sequer disse que estava lançando o tal livro, na verdade. É bem da natureza humana, não há dúvida. Enquanto é hipótese, o sonho alimenta. Se vira realidade, esvanece. Lembram de quando Vinícius, o poetinha, insistia em levar Elizeth Cardoso para a cama? Alguém recomendou que “a Divina” lhe respondesse: “Pois só se for agora, Vinícius. Estou pronta…” Sem palavras, ele tergiversou e nunca mais falou no assunto;

i) São reações muito divertidas, se pensarmos bem. Os elos mais simples de ser estabelecidos, não o são. Não há o menor espaço para a pro-atividade e todos, quase todos, esperam palavrinhas de afago por ter feito exatamente um pouco aquém do se esperava deles. Quem surpreendeu foi você, o rebotalho do escritor. As boas ideias que germinaram saíram, no mais das vezes, de sua cabeça, apesar da interdição absoluta ao direito de pensar. Não obstante tanto, não esqueça: agradeça penhoradamente todos os que se pautaram pela lei do menor esforço e deram forma concreta a algum “insight” que você tenha tido, apesar de a maioria deles ter ido para o lixo;

j) Para finalizar esse arrazoado, não esqueça, sob quaisquer hipóteses, que é de péssimo tom você acalentar um projeto bojudo, espraiado ao longo de meia dúzia de anos, mesmo que você deixe a obra pronta e sequer cogite de viver tanto tempo. Não, isso é soberba. É “hubris”. Todos dirão em uníssono que nos pautamos por marcos regulatórios e sua solidão é absoluta. Com quem falar a respeito? Ninguém. Os que lhe são próximos dirão que não querem se acumpliciar com um sumidouro de dinheiro. Os que estão a meia distância, acharão ridícula sua pretensão. Os mais distantes dirão: “Quem sabe? Tente”.

Não há ser mais isolado no mundo do que um escritor às vésperas de lançar um livro. É um infeliz no sentido mais estrito da palavra. A malignidade de sua enfermidade é um truísmo. Nem o prazer incomparável de frequentar livrarias lhe restará por que ele só terá olhos para a gôndola onde seu livro morou durante alguns dias, antes do repouso eterno num depósito empoeirado. Mas lute, amigo. Nem que seja por você mesmo. Trave o bom combate.

“Leitura profunda é tudo aquilo que desafia o seu cérebro a pensar”

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Confira entrevista com Susan Reynolds, escritora da área científica

Irinêo Baptista Netto, na Gazeta do Povo

Susan Reynolds é escritora com experiência em temas científicos. O livro mais recente dela, “Fire Up Your Writing Brain” (“Acione seu cérebro de escritor”), cita pesquisas de neurociência para falar sobre o que se sabe a respeito de criatividade e escrita. Ela é colaboradora da revista “Psychology Today” e vive em Boston, no estado de Massachusetts (EUA). Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ela faz uma defesa da escrita feita à mão com letra cursiva para estimular o cérebro.

O que acontece com o cérebro de uma pessoa que nunca pratica “leitura profunda”?

Não acontece nada, mas neurocientistas sabem que aqueles que a praticam têm vários benefícios, sobretudo uma habilidade maior para ser empático e compassivo. Ler textos complexos – como poesia, ficção de qualidade e não ficção desafiadora, ou mesmo análises aprofundadas – ajudam o cérebro na habilidade de pensar em níveis mais complexos. Diferente da leitura superficial ou leve – como a que a gente faz quando só passa os olhos pelas chamadas de um site ou lendo textos curtos, ou lendo apenas ficção mais leve e “fofa” (ficção sem substância) –, a leitura profunda põe para funcionar as funções cognitivas complexas do córtex cerebral [ligado ao pensamento, à memória e à consciência]. Qualquer leitura que faça você pensar constrói, cria estruturas e reforça as conexões neuronais no córtex cerebral. Leituras rasas basicamente “entram por um ouvido e saem pelo outro”, com pouco ou nenhum impacto duradouro. É só um passo além de assistir à televisão, que não gera nenhum benefício para o cérebro.

Escrever pode ajudar alguém a ser um humano mais completo? Ou é melhor deixar a escrita para os escritores?

Já mostraram que escrever é um meio eficiente de curar feridas emocionais. O processo de colocar suas emoções numa página por meio da escrita parece diminuir a atividade cerebral relacionada ao estresse e aumentar a liberação de neurotransmissores que acalmam o cérebro. Escrever pode servir como uma meditação para todo mundo, particularmente se você adotar introspecção e usar letra cursiva – está provado que ela desacelera o processo de raciocínio e ajuda a acessar sentimentos reprimidos. Assim como é muito mais impactante ver a versão de um poema escrito à mão pelo poeta, é mais impactante para o cérebro se você escreve à mão usando letra cursiva e de modo reflexivo. É uma ótima forma de explorar sentimentos mais profundos e com clareza. E também se você pesquisa um tópico, estuda e reflete sobre as informações que acumula, e depois escreve algo original como resultado desse processo, você está ampliando a habilidade que o seu cérebro tem para pensar.

Você pode explicar o que é “leitura profunda”?

Leitura profunda é tudo aquilo que desafia o seu cérebro a pensar, a refletir, que faz você lutar para assimilar a informação, para aprender. Podem ser poemas (que se relacionam com sentimentos e estimulam introspecção e reflexão), artigos científicos (que engajam o córtex cerebral), trabalhos literários de ficção – especialmente aqueles que lidam com sentimentos profundos, que têm pensamentos e frases complexos, e que exigem mais do cérebro (algo que faça você procurar palavras no dicionário, por exemplo) –, ou algo que faça você prestar muita atenção e parar para pensar. Se você estuda uma língua estrangeira, ler livros nessa língua pode ser um grande desafio. Se você tem dificuldade de entender matemática ou ciência, ler artigos ou livros sobre esses assuntos que façam você diminuir o ritmo o suficiente para assimilar o que está sendo dito seriam ótimas formas de “leitura profunda”.

Cada vez mais, as pessoas vivem no Facebook, buscando informações, notícias e conhecimento no feed de notícias. Você acha que isso é perigoso de alguma forma – ler apenas o que é publicado em redes sociais?

Existem exceções, mas a maioria dos sites na internet não se detém muito em nenhum tópico. Geralmente, os agregadores de notícias (Google News é um exemplo) oferecem destaques sem muita profundidade. É preocupante que cada vez mais as pessoas estejam só passando os olhos em manchetes, o que certamente pode distorcer a percepção do que é verdade ou não é, e pouco é guardado na memória a menos que o córtex cerebral seja usado. O melhor é ler ampla e profundamente, sobretudo em relação a tópicos de relevância. Busque publicações que você sabe que fazem reportagens com profundidade e que oferecem análises confiáveis.

Conto resgata os primórdios da escrita de J.R.R. Tolkien

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Ilustração feita por Tolkien representa Kullervo, personagem adaptado de uma narrativa finlandesa

Ilustração feita por Tolkien representa Kullervo, personagem adaptado de uma narrativa finlandesa

 

Debora Rezende, no A Tarde

O hobby de J.R.R. Tolkien era criar idiomas. Conhecido pelo seu dinamismo como professor em Oxford, o linguista tinha como especialidades inglês e nórdico antigo, estudou grego, latim, finlandês e, não satisfeito, brincava com sons, letras e formas para fundar novas línguas, passatempo que serviu como base para criar um verdadeiro universo.

Hoje, mesmo depois de mais de 40 anos da morte do escritor da épica trilogia O Senhor dos Anéis, ainda são encontrados novos escritos. Nas tramas, mais do que uma estética característica, Tolkien desenvolve um mundo, com direito a fauna, flora e, é claro, idiomas específicos.

As habilidades criativas do escritor, muito antes de O Hobbit, de 1937, e O Senhor dos Anéis, da década de 1950, foram experimentadas no conto A História de Kullervo, adaptado por ele da mitologia finlandesa no ano de 1914.

Organizado e com comentários de Verlyn Flieger e traduzida por Ronald Kyrmse, a obra é lançamento da editora Wmf Martins Fontes, mesma responsável pela publicação dos demais livros do autor no Brasil, e apresenta um de seus personagens mais trágicos.

Primeiro conto

O cenário de A História de Kullervo não se relaciona com a mitologia pela qual J.R.R. Tolkien se consagrou. “É uma reescrita de uma lenda finlandesa. Praticamente a primeira ficção grande que escreveu”, explica Ronald Kyrmse, tradutor desta e das demais publicações relacionadas ao autor no Brasil.

A trama gira em torno de um protagonista, o Kullervo, órfão e com a vida marcada por tragédias – seu tio assassinou o pai, foi escravizado e, sem saber, praticou incesto.

A obra, segundo Kyrmse, foi uma escola para que ele desenvolvesse estilo próprio. De fato, o Kullervo de Tolkien serviu como base para o também infeliz Túrin Turambar, personagem de Os Filhos de Húrin.

A nova edição de A História de Kullervo traz uma completude maior em relação às anteriores graças às observações de Verlyn Fliger e das notas de tradução do próprio Kyrmse, que guiam o leitor pelos dramas do conto. O que fica, para além do problemático protagonista, é um quê da estética fantástica do autor.

Mitologia tolkieniana

Nascido na África do Sul e criado na Inglaterra, Tolkien fincou sua marca na literatura fantástica. “Ele deve ter sido o primeiro autor de fantasia que criou um mundo tão complexo. Costumo dizer que atentou para muitos detalhes: os povos, idiomas, geografia, clima. Tem milênios de histórias contadas por ele nas suas várias obras”, esclarece Kyrmse.

O trabalho de John Ronald Reuel Tolkien vai muito além da trilogia O Senhor dos Anéis. A dimensão das suas criações alcançou a esfera de mais de 30 idiomas, e até seus rascunhos foram transformados em obras após sua morte.

“A dedicação de uma vida toda”, lembra Kyrmse, que conheceu os escritos de Tolkien na década de 1980, quando ainda não havia edições brasileiras para os livros e, posteriormente, foi convidado pela editora a atuar como consultor e tradutor dos livros. “Muita gente que escreveu ficção fantástica depois dele bebeu nessa fonte do Tolkien”.

“Tolkien criou toda uma família de línguas élficas, cada uma com a sua característica especial”, reflete o tradutor. Segundo ele, O Senhor dos Anéis foi escrito para que os elfos tivessem um ambiente no qual falar seu idioma.

O conhecimento de Kyrmse sobre o universo do escritor – gerado depois de dezenas de leituras – resultou no seu próprio livro, Explicando Tolkien (Wmf Martins Fontes, 2003), em que ele esclarece dúvidas comuns sobre o universo mitológico da Terra-Média.

A vida depois de… usar a escrita para sobreviver na cadeia

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Felipe Menezes/Metrópoles

Felipe Menezes/Metrópoles

 

Mauro Moncks passou 2190 dias no Complexo Penitenciário da Papuda, em uma cela de três metros por um e vinte, junto com 20 homens. Com a poesia, transformada em livros, ele sobreviveu a tudo e encontrou uma nova vida

Bruna Sabarense, no Metropoles

O encontro com Mauro Moncks, 55 anos, foi marcado em um dos seus locais de trabalho: o Beirute da Asa Sul. Desde outubro do ano passado, sua realidade consiste em trabalhar de motoboy durante o dia e vender livros de bar em bar à noite.

Até aí, nada muito diferente das centenas de pessoas que, como ele, trabalham durante o dia e vendem flores, DVDs, bombons em comércios noite adentro.

O diferencial está no fato dele ser o autor dos livros que carrega em uma bolsa lateral. Os exemplares contam, em forma de poesia, um pouco do que viveu – ou deixou de viver – durante os oito anos em que esteve preso no Complexo Penitenciário da Papuda.

“Cem dias de reclusão/ sem palavras para explicar/ A angústia que eu sinto, irmão/ Como é difícil aguardar/ De novo o renascimento/ Que se chama alvará/ Esperado a qualquer momento/ Eu sei que ele vai chegar/ E como um recém-nascido/ Do cárcere eu vou sair/ Será cortado o meu umbigo/ Em vez de chorar, vou sorrir”.

O trecho acima faz parte de um dos 152 poemas escritos por Monck e publicados na obra “Eu te amo, Liberdade“. Os textos foram fluindo e as palavras conseguiram salvar e libertar a mente, enquanto o corpo continuava atrás das grades.

Mauro Moncks com a obra “Eu te amo, Liberdade” em mãos. As poesias do livro salvaram o autor enquanto esteve preso por oito anos

Mauro Moncks com a obra “Eu te amo, Liberdade” em mãos. As poesias do livro salvaram o autor enquanto esteve preso por oito anos

 

Nascido em Pedro Osório (RS), Mauro casou-se quatro vezes. Com a última esposa, Marilene, continua junto até hoje. O primeiro casamento foi aos 16 anos e desse relacionamento nasceu a filha mais velha, Flor da Paz, que morreu apenas três anos depois. No total, ele tem quatro filhos.

Moncks traficava maconha em grande quantidade. Fazia a rota Brasil/Paraguai, quando foi preso pela Polícia Federal em 2006. Foram seis anos no regime fechado e dois no semiaberto. Grande parte das lembranças são negativas, mas por um aprendizado ele agradece:
Antes de entrar na cadeia eu tinha a mania horrível de reclamar muito. Foram 45 anos me queixando de tudo. Do trânsito, mulher, filhos, falta de dinheiro. Ao cair na cadeia eu falei: ‘bicho, do que eu estava reclamando? Eu era feliz, vivia no paraíso e não sabia’. Porque o sistema carcerário brasileiro é, literalmente, a instituição mais falida que existe. É um depósito de homens.”
Mauro Moncks

A cela onde ficou por 2.190 dias mede três metros por um e vinte, abrigava 20 homens, seis camas e um banheiro. Era nesse cenário que passava 22 horas por dia, as outras duas eram de banho de sol. “Muitos presos não representam perigo ao entrarem no presídio, mas sim ao sair. Porque o pior da cadeia não é a prisão física, é a mental”, conta Mauro.

Dentro do presídio existem os “corres” (forma que os presidiários encontram para ganhar dinheiro enquanto estão presos). Alguns atuam como agiotas, outros vendem drogas, pedaços de espaço no banho de sol e “terrenos” para receber visitas.

“Lá dentro a droga vale ouro, vale muito dinheiro. Então, as mulheres arriscam suas liberdades para garantir dinheiro para o marido. Esse para mim é o ‘corre’ mais pesado. Eu jamais faria esse tipo de coisa, não arriscaria a liberdade da minha mulher e não queria aumentar meu tempo”, explica.

Foi então que o escritor começou a fazer faxina nas celas, lavar roupa dos outros presos, tudo por dinheiro. Até que um dia, um dos presidiários o procurou para contar que estava com 40 anos, sendo que 20 saindo e voltando para o presídio, e a mulher havia cansado, resolveu largá-lo. “Ele me disse que estava querendo reconquistá-la e me passaria o perfil dela para que eu escrevesse uma carta. Alguns dias depois ele me procurou dizendo que o plano tinha funcionado e a mulher voltou para ele graças à minha carta”, conta rindo.

O fato o deixou famoso entre os companheiros de cárcere e logo Mauro estava cobrando um real por carta para reconciliar os presos com suas esposas. Nos dias bons, chegava a escrever 20 e conseguia entregar para a esposa de R$600 a R$700 por mês. A nova função fez com que ele parasse de fazer as outras atividades de limpeza.

“Minha esposa era dona de casa, estava sustentando nossos quatros filhos, não podia deixar ela na mão. As pessoas acham que todos os presos recebem auxílio reclusão, mas só as pessoas que estão contribuindo com o INSS até o dia da prisão têm esse direito para os dependentes. Eu não estava, mas descobri depois que o meu pai estava pagando para mim lá do Rio Grande do Sul”, conta.

Nasce o “semeador de palavras”
Batizado na igreja católica aos 11 anos, Mauro não tinha religião. Ele não acreditava que a salvação de um ser humano estava dentro de uma igreja e achava que a Bíblia era o livro dos ignorantes.

No presídio, sempre ao final do dia, os evangélicos realizavam um culto, onde os irmãos de cada cela liam um trecho da Bíblia. Ninguém se via, mas a oração era em conjunto.

“Eu comecei a escutar aquelas palavras: ‘E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’, ‘Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz’, e a passagem de Coríntios 13 que fala sobre o amor, e comecei a me inspirar e escrever poemas através dos meus sofrimentos. Eu precisava descarregar em alguma coisa”, diz Mauro.

O escritor deixa claro que sua publicação não é religiosa, apenas inspirada na Bíblia, que realmente é um livro poético. Apesar disso, garante que Deus é seu parceiro e pegava em sua mão em todos os momentos que escrevia.

As palavras foram fluindo e Mauro reuniu um bom material. Foi quando começou a ter uma preocupação: como tiraria todos esses textos da penitenciária? Dentro da cadeia acontecem as invasões. Uma bomba de efeito moral é jogada, a polícia entra em todas as celas e procura armas, drogas, espalham e rasgam tudo o que encontram, e os presos são colocados seminus no pátio para serem revistados.

Com medo de perder seus pensamentos, enviava as folhas pela esposa nos dias de visita. Os visitantes são revistados para entrar, mas não para sair (raramente acontece). Se ela fosse apanhada com os escritos, só quem sofreria o castigo seria Mauro. Aos poucos, ela tirou da cadeia todo o material escrito.

Querendo se ver livre o mais rápido possível do presídio, Mauro começou a estudar e depois passou a fazer faxina para diminuir a pena. Conseguiu diminuir oito meses do tempo total.

Já no regime semiaberto, contou com o apoio da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap/DF). Foi encaminhado para a Secretaria de Cultura, onde trabalhou no projeto Mala do Livro. Lá recebeu curso e o prêmio de melhor de contador de histórias. Durante dois anos abastecia os pontos de ônibus e estações do metrô com livros, e lia para crianças em creches.

Em 2013, estava contando histórias infantis na Bienal do Livro e participou de uma matéria para uma emissora local. O dono da editora Thesaurus, Tagore Alegria, assistiu e entrou em contato. “Para lançar um livro, com diagramação boa, bem feito, como o que eu consegui publicar, é muito difícil, eu jamais faria por conta própria”, fala o autor.

Ficou combinado que Mauro trabalharia como motoboy, fazendo entregas para a editora durante o dia, e em confiança conseguiria uma tiragem de mil obras. O pagamento sairia da venda dos livros, então o autor teria que se virar para conseguir aumentar as vendas. O lançamento foi realizado no restaurante Carpe Diem, mas não deu muita gente e só foram compradas 23 unidades.

Em outubro, ele começou a peregrinação pelos bares de Brasília oferecendo seu trabalho autoral. Já está na segunda edição e conseguiu vender mais de 1.650 exemplares.

“Meu livro é uma incursão poética dentro do sistema prisional. Estou duplamente realizado, fiz bem para mim e hoje estou ajudando muitas pessoas. Outro dia fui chamado de ‘semeador de palavras’, adorei esse nome. Vou escrever uma autobiografia e vai ter esse nome”, diz sorrindo.

O material escrito por Mauro foi dividido em quatro livros. O segundo, “De férias no inferno”, deve sair ainda este ano ou no começo do ano que vem, e reúne crônicas, contos e personagens da cadeia. Os outros dois, ainda sem título, seguem a linha do “Eu te amo, Liberdade” e são poesias.

Não acabem com a caligrafia: escrever à mão desenvolve o cérebro

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Pediatra acredita que é preciso cuidado para que o mundo digital não leve embora experiências significativas que tem impacto no desenvolvimento das crianças

Publicado no UOL

As crianças que vivem no mundo dos teclados precisam aprender a antiquada caligrafia?

Há uma tendência a descartar a escrita à mão como uma habilidade que não é mais essencial, mesmo que os pesquisadores já tenham alertado para o fato de que aprender a escrever pode ser a chave para, bem, aprender a escrever.

E, além da conexão emocional que os adultos podem sentir com a maneira como aprendemos a escrever, existe um crescente número de pesquisas sobre o que o cérebro que se desenvolve normalmente aprende ao formar letras em uma página, sejam de forma ou cursivas.

Em um artigo publicado este ano no “The Journal of Learning Disabilities”, pesquisadores estudaram como a linguagem oral e escrita se relacionava com a atenção e com o que é chamado de habilidades de “função executiva” (como planejamento) em crianças do quarto ao nono ano, com e sem dificuldades de aprendizagem.

Virginia Berninger, professora de Psicologia Educacional da Universidade de Washington e principal autora do estudo, contou que a evidência dessa e de outras pesquisas sugere que “escrever à mão – formando letras – envolve a mente, e isso pode ajudar as crianças a prestar atenção à linguagem escrita”.

No ano passado, em um artigo no “Journal of Early Childhood Literacy”, Laura Dinehart, professora associada de Educação da Primeira Infância na Universidade Internacional da Flórida, discutiu várias possibilidades de associações entre boa caligrafia e desempenho acadêmico: crianças com boa escrita à mão são capazes de conseguir notas melhores porque seu trabalho é mais agradável para os professores lerem; as que têm dificuldades com a escrita podem achar que uma parte muito grande de sua atenção está sendo consumida pela produção de letras, e assim o conteúdo sofre.
Mas podemos realmente estimular o cérebro das crianças ao ajudá-las a formar letras com suas mãos?

Em uma população de crianças pobres, diz Laura, as que possuíam boa coordenação motora fina antes mesmo do jardim da infância se deram melhor mais tarde na escola.

Ela diz que mais pesquisas são necessárias sobre a escrita nos anos pré-escolares e sobre as maneiras para ajudar crianças pequenas a desenvolver as habilidades que precisam para realizar “tarefas complexas” que exigem coordenação de processos cognitivos, motores e neuromusculares.

As pessoas precisam ver as letras “nos olhos da mente” para produzi-las na página, explica ela. A imagem do cérebro mostra que a ativação dessa região é diferente em crianças que têm problemas com a caligrafia.

Escaneamentos cerebrais funcionais de adultos mostram que uma rede cerebral característica é ativada quando eles leem, incluindo áreas que se relacionam com processos motores. Os cientistas inferiram que o processo cognitivo de ler pode estar conectado com o processo motor de formar letras.

Larin James, professora de Ciências Psicológicas e do Cérebro na Universidade de Indiana, escaneou o cérebro de crianças que ainda não sabiam caligrafia. “Seus cérebros não distinguiam as letras; elas respondiam às letras da mesma forma que respondiam a um triângulo”, conta ela.

Depois que as crianças aprenderam a escrever à mão, os padrões de ativação do cérebro em resposta às letras mostraram mais ativação daquela rede de leitura, incluindo os giros fusiformes, junto com o giro inferior frontal e regiões parietais posteriores do cérebro, que os adultos usam para processar a linguagem escrita – mesmo que as crianças ainda estivessem em um estágio muito inicial na caligrafia.

“As letras que elas produzem são muito bagunçadas e variáveis, e isso na verdade é bom para o modo como as crianças aprendem as coisas. Esse parece ser um dos grandes benefícios da escrita à mão”, conta Larin James.

Especialistas em caligrafia vêm lutando com a questão de se a letra cursiva confere habilidades e benefícios especiais, além dos fornecidos pela letra de forma. Virginia cita um estudo de 2015 que sugere que, começando por volta da quarta série, as habilidades com a letra cursiva ofereciam vantagens tanto na ortografia quanto na composição, talvez porque as linhas que conectam as letras ajudem as crianças a formar palavras.

Para crianças pequenas com desenvolvimento típico, digitar as letras não parece gerar a mesma ativação do cérebro. À medida que as pessoas crescem, claro, a maioria faz a transição para a escrita em teclados. No entanto, como muitos que ensinam na universidade, eu me questiono a respeito do uso de laptops em sala de aula, mais porque me preocupo com o fato de a atenção dos alunos estar vagando do que com promover a caligrafia. Ainda assim, estudos sobre anotações feitas à mão sugerem que “alunos de faculdade que escrevem em teclados estão menos propensos a se lembrar e a saber do conteúdo do que se anotassem à mão”, conta Laura Dinehart.

Virginia diz que a pesquisa sugere que crianças precisam de um treinamento introdutório em letras de forma, depois, mais dois anos de aprendizado e prática de letra cursiva, começando na terceira série, e então a atenção sistemática para a digitação.

Usar um teclado, e especialmente aprender as posições das letras sem olhar para as teclas, diz ela, pode muito bem aproveitar as fibras que se intercomunicam no cérebro, já que, ao contrário da caligrafia, as crianças vão usar as duas mãos para digitar.

Como pediatra, acho que pode ser mais um caso em que deveríamos tomar cuidado para que a atração do mundo digital não leve embora experiências significativas que podem ter impacto real no desenvolvimento rápido do cérebro das crianças.

Dominar a caligrafia, mesmo com letras bagunçadas e tudo, é uma maneira de se apropriar da escrita de maneira profunda.

“Minha pesquisa global se concentra na maneira como o aprendizado e a interação com as palavras feitas com as próprias mãos têm um efeito realmente significativo em nossa cognição”, explica Larin James. “É sobre como a caligrafia muda o funcionamento do cérebro e pode alterar seu desenvolvimento.”

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