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‘A educação deve ser pensada durante a vida inteira’, diz Zygmunt Bauman

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Criador do conceito de ‘modernidade líquida’, filósofo vai palestrar no encontro Educação 360

bauman

Bruno Alfano, em O Globo

Criador do conceito de ‘modernidade líquida’, forjada pelas relações efêmeras do presente, o célebre filósofo fará uma conferência magna no encontro Educação 360. Nesta entrevista, ele reflete sobre o aprendizado e os desacertos da sociedade em relação ao ensino

Qual a diferença entre educar na era pré-moderna e na modernidade líquida dos dias atuais?

Muita coisa se transformou no trabalho dos professores. Como o educador E. O. Wilson observou, “estamos nos afogando em informação e, ao mesmo tempo, famintos por sabedoria”. A cada dia, o volume de novas informações excede milhões de vezes a capacidade do cérebro humano de retê-las. A mudança da sociedade moderna de sólida para um estágio líquido coincide, segundo a terminologia de Byung-Chul Han (teórico sul-coreano), com a passagem da “sociedade da disciplina” para a “sociedade de desempenho”. Esta última é, principalmente, a sociedade de desempenho individual e da “cultura de afundar ou nadar sozinho”. Mesmo indivíduos emancipados descobrem que eles mesmos não estão à altura das exigências da vida individualizada.

Então, é preciso mudar esse pensamento individualizado?

Nosso sistema educacional é um poderoso mecanismo de, cada vez mais, reproduzir os privilégios entre gerações. Nos Estados Unidos, 74% dos estudantes que frequentam as universidades mais competitivas vêm das famílias mais ricas, e 3%, das mais pobres. Além disso, muitas escolas e universidades induzem à fácil ideologia de que empregos bem remunerados são os únicos objetivos da universidade. Esses são apenas uns dos desafios, erros e negligências da educação contemporânea.

E como será no futuro?

Uma coisa certa é que, num cenário líquido, rápido e de mudanças imprevisíveis, a educação deve ser pensada durante a vida inteira. O resto vai depender de nossas escolhas dentro do que é possível para essa obrigação. E deixa eu enfatizar que esse “nós” que faz as escolhas não é limitado aos profissionais de educação. Para citar Will Stanton (professor australiano), que nos mantém alerta de que há muitos que pretendem ensinar nossos filhos apenas a obedecer: “Devemos aceitar autoridade como verdade em vez da verdade como autoridade”. Ele ainda diz: “O que é a mídia mainstream se não outra plataforma de ‘educação’ defendendo a autoridade como verdade? Nós sentamos em frente ao noticiário noturno e escutamos âncoras e repórteres nos dizendo o que pensar, a quem apontar nossos dedos, porque nosso país precisa ir para a guerra e com o que a gente deve se horrorizar”. Considere ainda o tremendo impacto da indústria da publicidade em nós mesmos ou no que as crianças aprendem ou no que elas foram levadas a esquecer. Por exemplo, crianças não nascem inseguras. A publicidade é que as deixa apavoradas com o que as outras pessoas pensam delas.

O sucesso mundial das redes sociais é um produto da modernidade líquida ou aspecto transformador dela?

As duas coisas. Nós estamos seduzidos pelos recursos das mídias digitais por causa do nosso medo de sermos abandonados. Mas uma vez imerso na rede de relações on-line, que tem uma falsa ideia de ser facilmente manuseada, nós perdemos ou não adquirimos habilidades sociais que poderiam (e deveriam) nos ajudar a extirpar as causas dos medos que vêm do mundo off-line. Assim, as redes sociais são, simultaneamente, produto da modernidade líquida e a sua válvula de escape.

O senhor afirma que o fato de a educação superior não garantir mais ascensão social é um problema para a educação tal qual conhecemos. Qual a solução para esse problema?

Ascensão social é uma sinfonia, não um canto gregoriano monofônico. A educação superior é apenas um dos muitos sons que se fundem na melodia, e um dos muito poucos instrumentos que contribuem para sua evolução. Nós configuramos o problema e torcemos por soluções, como o ensino superior, porque alguns desses “nós” que se preocupam, pensam e escrevem sobre o problema têm ensino superior e passaram anos sendo ensinadas que vivemos em uma “sociedade do conhecimento” que continua sendo transformada pelo tipo de conhecimento definido, armazenado e distribuído por universidades. Isso não é necessariamente correto — pelo menos até quando isso permanecer sem ressalvas. O que nós percebemos como ascensão social é um rio cuja trajetória resulta de vários afluentes. Mais e mais pessoas por trás das mudanças sociais que chamamos de “ascensão” desistiram da universidade ou nunca entraram nela.

Em seu novo livro, “A riqueza de poucos beneficia todos nós?”, o senhor reflete sobre as desigualdades sociais. Qual é o papel da educação nesse contexto?

O sistema universitário de hoje foi incorporado pela economia de mercado capitalista. Ele serve como um outro mecanismo na reprodução de privilégios e aprofundamento das desigualdades sociais. Como diz Fareed Zakaria (escritor americano), enquanto um rapaz de 18 anos da Califórnia recebia a melhor educação possível nos anos 60 “sem qualquer custo”, no ano passado os alunos precisavam pagar uma taxa de matrícula de US$ 12.972 se tivessem nascido no estado; se não, o valor sobe para US$ 22.878 (sem incluir custo de moradia e alimentação; o valor total do momento da matrícula até o diploma ficaria perto de US$ 50 mil por ano para não residentes). Poucos entre os milhões de pais amorosos e cuidadosos têm possibilidades de garantir um valor dessa magnitude. (*Do “Extra”)

Cartas escritas por Jack Kerouac quando jovem são descobertas

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Publicado na Folha de S.Paulo

Cartas inéditas do escritor americano Jack Kerouac (1922-1969), autor da obra-prima da geração beatnik “On the Road”, foram descobertas recentemente nos Estados Unidos. De acordo com o jornal “The Guardian”, ao todo 17 cartas, dois cartões postais e sete fragmentos de texto foram encontrados pela filha de um amigo de infância do escritor.

Nos textos, enviados por Kerouac ao amigo George J. Apostolos entre 1940 e 1941, ele se declara completamente apaixonado e fala de outras questões da juventude. Na época, Apostolos vivia em Lowell, Massachusetts, e Kerouac em Nova York, onde cursava uma escola preparatória e, posteriormente, a Universidade da Columbia.

Segundo um representante da casa de leilões Skinner, que irá vender o material em novembro, os textos mostram o escritor no “processo de se tornar Kerouac”.

“É preciso lembrar que são correspondências particulares trocadas entre dois jovens no final dos anos 1930 e começo de 1940. Kerouac faz menção a velhas aventuras colegiais, a saudades de sua casa em Lowell e descreve suas descobertas sociais, bebedeiras, festas e experiências com garotas”, diz o diretor de livros e manuscritos da Skinner, Devon Gray.

O escritor Jack Kerouac, autor de 'On The Road', em foto de 1962

O escritor Jack Kerouac, autor de ‘On The Road’, em foto de 1962. Associated Press

Em um dos textos, Kerouac narra sua paixão e desencanto pela irmã de uma amiga, com quem “pretende se casar”.

“Não há dúvidas de que nem eu nem você já vimos uma criatura tão primorosa como Jacqueline Sheresky”, escreve. “O pescoço dela tem aquela marca de sangue azul. Ele faz uma curva delicada, e como marfim, para um queijo amendoado perfeitamente moldado, e dali para lábios escarlates trementes, que cobrem uma fileira de dentes de mármore.”

O escritor continua a carta com seus planos para ganhar a atenção da garota. “O problema é que não tenho coragem para convidá-la ao baile de formatura…. Se eu pudesse levar esta deusa ao Waldorf, eu viveria o suficiente por uma noite.”

Kerouac ainda conta para Apostolos que temia que outro rapaz, chamado Sokolow, já tivesse convidado Sheresky para a festa, e depois narra como a encontrou dançando com Sokolow no baile. “Que maldito sórdido, um esquisito sem esperança, hipócrita, idealista, inseguro e babaca eu sou.” Em cartas seguintes, ele fala de encontros com outra garota.

De acordo com a casa de leilões, a amizade entre Kerouac e Apostolos nunca foi mencionada por biógrafos, uma vez que os textos nunca estiveram disponíveis para pesquisadores e para o público. A casa espera arrecadar entre US$ 2.000 e US$ 5.000 (entre R$ 4.736 e R$ 11.841) por cada carta.

Segundo Gray, a filha de Apostolos sabia que o pai tinha algumas cartas do escritor, mas achou que elas haviam sido queimadas, até encontrá-las entre as coisas do pai, após a morte do amigo de Kerouac.

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