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Posts tagged Escritor Argentino

Visite a biblioteca pessoal de Julio Cortázar

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Publicado no Marca-Página

Comparável a Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe em termos de inovação e originalidade, o argentino Julio Cortázar possuía uma biblioteca com mais de 4 mil livros.

Por meio do projeto La Biblioteca del Escritor Argentino, o Centro Virtual Cervantes organizou um dossiê com parte desse material e o disponibilizou gratuitamente na internet.

O acervo é classificado em livros autografados, com dedicatórias, com objetos, formatos curiosos e com anotações.

Entre as principais obras do escritor estão Bestiário (1951), Las armas secretas (1959), Rayuela (1963), Todos los fuegos el fuego (1966), Ultimo round (1969), Octaedro (1974), Pameos y Meopas (1971), Queremos tanto a Glenda (1980), Salvo el crepúsculo (1984, publicação póstuma) e Papéis inesperados (2010, publicação póstuma).

“O escritor não transcreve a vida, inventa a vida”

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Simone Duarte, no Público

Milton Hatoum com o poeta sírio Adonis na Gulbenkian daniel rocha

Milton Hatoum, o escritor brasileiro de origem libanesa, veio a Lisboa conversar com o poeta sírio Adonis na Gulbenkian. Falaram de política, mas sobretudo como a literatura e a poesia podem fazer a ponte entre Ocidente e Oriente

Aos 61 anos, o escritor brasileiro Milton Hatoum não tem pressa. Na era em que os livros parecem ser fabricados em série, publicou apenas seis em quase 25 anos de carreira – e escreve-os à mão.

Vencedor dos prémios Jabuti e Portugal Telecom de literatura defende que o escritor tem de ter coragem para escrever e mais ainda para ficar em silêncio.

Ele, que acredita nos bons leitores, diz que é assustador ver um presidente culto como Barack Obama em visita ao Brasil citar Paulo Coelho e não Machado de Assis ou Clarice Lispector.

Sobre o Brasil e o futuro do país do futuro? Votou em Dilma Rousseff – “as outras opções eram assustadoras” – e acha que ela vai ganhar de novo. As manifestações nas ruas da cidades brasileiras eram contra tudo: “O que a imensa maioria queria era uma política pública mais eficaz, porque há dinheiro para isso.”

Costuma dizer que “um dos enigmas da literatura é a passagem da experiência para a linguagem” – justamente o tema da conferência que veio fazer na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. É possível desvendar este enigma?

O enigma nunca é decifrado. Na literatura, o estético, como disse o Borges [o escritor argentino Jorge Luis Borges], é o lugar do enigma. O que é fascinante na literatura é justamente esta possibilidade de inventar aquilo que poderia ter existido ou aquilo que pode existir. O enigma que nunca é decifrado irradia possibilidades de leitura e de interpretação. Esta é a verdade da literatura, é a verdade das relações humanas, não é uma verdade científica nem das respostas definitivas. Ao contrário, ela coloca questões o tempo todo. No meu romance Dois Irmãos (lançado há 12 anos com mais de 140 mil cópias no Brasil e que agora vai ser adaptado para a televisão), o grande enigma é saber quem é o pai do narrador.

O grande desafio do escritor é transformar a sua experiência em linguagem. Todo mundo tem uma experiência, que pode ser mais rala, mais livresca, que pode ser uma experiência de leitura, de vida aventureira ou não. A questão da literatura é como isto se transforma em linguagem. A imaginação, que é o que para mim dá força à literatura, tem que traduzir esta experiência. O valor da arte está ligado à força da imaginação.

Escreve todos os seus livros à mão. Não usa o computador. Porquê?

Tem a ver com os gestos, com algo corporal, com o hábito do arquitecto de fazer desenhos. Eu fui arquitecto [é formado em Arquitectura pela Universidade de São Paulo] muito antes dos programas de computador. Na minha época, para entrar numa faculdade de Arquitectura, você tinha que dominar o desenho. E eu me acostumei a escrever à mão – com aquilo que a gente ligava o projecto ao desígnio, ao desejo. O Roland Barthes tem um texto bonito sobre isso, sobre os manuscritos dos escritores franceses, compara o manuscrito do Balzac a uma espécie de fogo-de-artifício onde há muitas correcções, uma coisa meio arbórea. Eu me sinto mais livre escrevendo à mão. Acho que meu pensamento flui. As ideias também fluem mais com a caneta do que na tela. Eu posso passar horas escrevendo e não cansa porque também não escrevo copiosamente. Em 25 anos – o meu primeiro romance, Relato de Um Certo Oriente, vai fazer 25 anos em Abril do ano que vem – eu publiquei seis livros.

Afirmou em algumas entrevistas que um escritor tem de ter coragem de escrever e também coragem de silenciar para não escrever asneiras. A sua coragem para silenciar é maior do que a de escrever?

Não vejo nenhuma importância em publicar coisas supérfluas. O leitor é esperto. Há bons leitores. O leitor percebe quando a coisa não é trabalhada, quando você não diz uma verdade íntima. Isso é muito claro. Se eu fosse mais rápido, teria publicado mais coisas de que gosto. E não prejudiquei ninguém com isso.

Agora é impressionante a quantidade de livros. É curioso, quando eu morava na França, ouvi uma conversa sobre literatura entre o Maurice Nadeau e o Roland Barthes (que depois foi publicada – Sur la Littérature). O Nadeau perguntou ao Barthes sobre a crise da literatura. “Não há crise da literatura” – disse o Barthes. “Há excesso de livros.” Isso em 1980. Então hoje a literatura virou outra coisa.

O Presidente Obama, um homem culto, que se formou em Harvard, uma das melhores universidades americanas, quando visitou o Brasil não falou do Machado de Assis, da Clarice Lispector, do Guimarães Rosa, do Graciliano Ramos. Ele citou Paulo Coelho. Então é um desprestígio enorme para a literatura brasileira. Uma coisa assustadora, a assessoria do Presidente culto – vamos dizer assim -, uma assessoria que não conseguiu transmitir o básico. Ainda bem que ele não falou Isabel Allende [risos]. Se fosse o Bush… teria dito qualquer asneira. Na literatura a quantidade não interessa. Há dois grandes exemplos de escritores que publicaram pouco e não precisam publicar mais. O mexicano Juan Ruffo, que só escreveu um romance, e o brasileiro Raduan Nassar, que escreveu o Lavoura Arcaica, O Copo de Cólera e um livrinho de contos. Isso é coragem.

Está a trabalhar num novo romance?

Estou escrevendo um romance há quatro anos, que são dois volumes. Na verdade, eu não sei se vou juntar num só. É um romance que tem muito a ver com a minha experiência. O leitor comum pensa que você transcreve a vida. Não é verdade. Você inventa a vida ou transcende a vida. Este é um romance que acompanha de perto a minha trajectória: desde que eu saí de Manaus, fui sozinho para Brasília, em Dezembro de 1967. Tem algo de autobiográfico, mas a partir do momento em que a vida é incorporada ao texto, a vida se torna texto, se torna literatura.

O romance é muito inventado, claro, mas tem uma parte em Brasília onde eu presenciei o biénio de horror [época da ditadura militar]. Eu tinha 15, 16 anos. Morei dois anos em Brasília. Entrei de cara no movimento estudantil. Não aguentei a barra em Brasília e fui para São Paulo. Entrei na Faculdade de Arquitectura, fiz uma revista de poesia com amigos.

E quando é que decidiu largar a arquitectura e ser escritor?

Escrevi alguns contos nos anos 1970. Rasguei todos. Uma editora do Rio leu e gostou, mas eu era muito inseguro (ainda sou). Achei que foi generosa de mais e não acreditei. Desconfio de todo o tipo de elogio rasgado. Eu queria muito ser poeta. Publiquei um livro de poesias naquela época, 1978, com fotos do Amazonas de amigos meus. Chamava-se Amazonas, um Rio entre Ruínas (está esgotado).

Mas eu só comecei a escrever o primeiro romance aqui na Europa. Foi na Espanha.

Este novo romance tem título?

Tem um título provisório que é O Lugar mais Sombrio. Está ficando muito grande… não sei quando vou acabar.

Veio a Lisboa para o programa Futuro Próximo da Gulbenkian em que conversa com o poeta sírio Adonis. O que é que Adonis tem que o Milton não tem?

O que ele tem e eu invejo é o domínio pleno e íntegro da língua árabe. Eu sou filho de libanês. Meu pai era libanês, morreu, e minha mãe era brasileira – filha de libaneses -, mas era uma brasileira amazonense típica. E não falava árabe comigo. A língua materna era a língua portuguesa. É incrível que estes 12 milhões de brasileiros de origem árabe não falem árabe. Isso também aconteceu com os italianos, os filhos não falam italiano. O Brasil é peculiar. Os imigrantes queriam que os filhos se integrassem. Isso facilitou a mestiçagem. Na minha família ninguém se casou com filho de árabe. Ninguém. É fantástico isso.

Agora o Adonis é um dos grandes poetas vivos. Ele foi e é uma figura central na poesia árabe contemporânea. Saiu de Damasco, foi para o Líbano ainda jovem e se exilou. Renovou a poesia árabe e trabalhou com versos livres. Mostrou ao Oriente e ao Ocidente a ponte que já existia e que estava oculta entre a poesia destes dois mundos. O Adonis recuperou muita coisa da poesia árabe que estava escondida: a poesia pré-islâmica, ele fez uma bela antologia, a poesia sufi.

Tem um livro que relaciona o surrealismo, Rimbaud, e a poesia sufi. E tem tudo a ver. Há ligações profundas, como se fossem correntes subterrâneas da imaginação livre, solta. O Adonis procurou estas confluências da poesia árabe e da poesia do Ocidente. A questão do duplo, dos sonhos, desta imaginação solta, do êxtase do Rimbaud, o êxtase dos poetas sufi.

O Adonis é uma inspiração?

É. Ele, o Edward Said. Pessoas que não separam uma cultura da outra. Uma cultura morre quando você a separa ou se você dá um status para ela, um significado de superioridade falsa. Não há culturas superiores.

Se pudesse ter uma conversa imaginária com o seu pai, como explicaria o que está a acontecer no Médio Oriente?

Acho que ele é que me explicaria. Ele viveu o período colonial francês em Beirute. Era funcionário do Ministério da Justiça. Ele diria que o mundo árabe é um mundo desagregado. Era o que ele dizia para mim, que a colonização deixou este mundo desagregado. E com o agravante de que o mundo árabe não alcançou a modernidade talvez pelas próprias condições do colonialismo, como a África não alcançou, menos ainda. O sentido do clã, das religiões, o sectarismo, isso tudo é uma loucura.

E como vê a Primavera árabe?

É um processo que está começando. Seria muito difícil dizer “a Primavera Árabe aconteceu naquele mês de Julho”. É um processo longo. Vai demorar muito porque os anos, as décadas de autoritarismo, de ditaduras praticamente em todo o mundo árabe, este tempo longo criou também mentalidades arcaicas, conservadoras, com o agravante de que o país mais conservador, mais autoritário do mundo árabe, a Arábia Saudita, é o maior aliado político e militar dos Estados Unidos. Por que não se diz isso? Por que o Obama – ou o Bush – não tenta democratizar a Arábia Saudita? Esta é uma pergunta interessante. Por que levar a democracia só ao Iraque? A que custo? Todas estas intervenções foram criminosas.

Eu não tenho esperança. Também não sei qual é a importância de ter esperança. Também não sou religioso. Acho que as pessoas devem lutar por causas mais justas. Isso não me dá esperança, mas me dá uma vontade de viver. Agora é difícil ter esperança quando você vê o que está a acontecer na Síria, os bilhões que são gastos em armas.

O Saramago dizia que a democracia acabou. De certo modo ele tem razão. Tudo está contaminado pelo poder económico.

(mais…)

Viúva de Cortázar e Mario Vargas Llosa relembram a amizade dos três

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Aurora Bernández e o Nobel da Literatura peruano participaram de uma mesa de discussões

Aurora Bernárdez e Mario Vargas Llosa, em homenagem a Julio Cortázar CARLOS ROSILLO / EL PÁIS

Aurora Bernárdez e Mario Vargas Llosa, em homenagem a Julio Cortázar CARLOS ROSILLO / EL PÁIS

Publicado em O Globo

MADRID – Aurora Bernárdez, com seu cabelo branco, caminhou lentamento enquanto abria um caminho de sussurros. Foi até a mesa principal, sentou-se na cadeira, arrumou o vestido branco com estampas de guarda-chuvas, sapatos e mariposas para ouvir, em silêncio, Mario Vargas Llosa falar, ao seu lado, sobre o seu marido: Julio Cortázar. Escutava tranquilamente os elogios e as lembranças. Quando o Nobel da Literatura terminou de falar, ela o olhou e, após um suspiro, disse com um sorriso:

— Gostei muito de conhecer a Aurora e o Julio do relato que fez da gente.

Os risos das 67 pessoas que estavam no salão fizeram com que ambos gargalhassem também. Assim, foi oficialmente inaugurada a partida dos dois velhos amigos que se conheceram em Paris numa noite de dezembro de 1958. Agora, 55 anos depois, evocam não apenas essa amizade, mas também a do amigo mais importante até agora – aquele homem de cabeça raspada, de grandes mãos que se moviam ao falar, e de juventude implacável, que gozava da admiração de todos os que o conheciam. Naquela noite, o veterano Vargas Llosa estava conversando com um casal, surpreso com a inteligência de ambos e a facilidade deles para expressar ideias e trocar opiniões que fascinavam a todos. Só ao se despedir percebeu que se tratavam de Cortázar e sua mulher.

Com o tempo, o escritor argentino se tornaria um dos melhores amigos e um dos mentores de Vargas Llosa. E os convites que os Cortázar lhe faziam para ir à casa deles, em verdadeiros momentos de felicidade. Revelações inéditas de uma conversa entre dois amigos que, por vezes, enquanto adolescentes, se interrompiam, impulsionados pelo entusiasmo de contar o que fizeram, o que tinham andado fazendo, que memórias seguiam intactas em suas vidas. E como dois amigos, continuam se perguntando coisas que antes não atreviam, e que aproveitam a oportunidade agora na homenagem “Cortázar y el boom latinoamericano”, um dos cursos de verão de uma universidade de Madrid, organizado pela Cátedra Vargas Llosa.

As palavras abordam, por momentos, o “Jogo da amarelinha”. Entram e saem rapidamente dele. Abordam, também, como era Cortázar (“Uma das pessoas mais inteligentes que já conheci, com ideias muito originais sobre a literatura”, conta Vargas Llosa); como era a sua casa parisiense (“A entrada tinha um mural com recortes de jornais”); que autores eles tinham traduzido (Aurora traduziu Sartre).

Naquela noite de 1958, o mito e a lenda em torno de Cortázar já começavam a tomar forma. O Nobel peruano aproveitava o ensusiasmo de Aurora Bernárdez para entrar no jogo de verdade ou consequência. “É verdade que vocês foram submetidos a testes de tradutores da Unesco em Paris e conseguiram os dois primeiros lugares, e que lhes ofereceram um contrato permanente, mas que foi rejeitado, com o argumento de que preferiam ter tempo para ler a escrever?”.

— Sim. E talvez o primeiro lugar foi Julio quem conseguiu. E serviu para ele se curar do complexo de inferioridade. Embora, depois, quando fizemos o curso para obter a carteira de motorista, eu consegui primeiro.

Entre risadas, as anedotas se sucedem em Paris, Roma…

— Porque Julio, como todo argentino que se respeite, acreditava que o italiano era a sua segunda língua. Mas, não.

Sua modéstia era lendária. A viúva dele se lembra apenas de uma pitada de vaidade:

— Recém-chegado a Paris, trabalhou em uma distribuidora de livros. Um dia, chegou em casa e, muito sério, me disse: “Sou o que melhor empacota os livros”. E era verdade.

Mais risadas e anedotas que chegam à obra máxima de Cortázar, “Jogo da amarelinha”, cujo êxito varreu o mundo privado que os dois tinham construído e cuidavam com zelo. Ele se tornou uma figura pública.

— O livro caiu como uma bomba. Mas também teve adversários que estavam atentos a outro Cortázar: o dos contos, que não é mais ou menos melhor, apenas tem outra visão.

Até que chega a pergunta que todos os leitores de “Jogo da amarelinha” queriam fazer a Aurora Bernárdez: “É você que é Maga?”.

— Não — ela respondeu, com a voz suave.

Varga Llosa insiste: “Mas se há uma pessoa real, ela se parece com você?”.

— Não — disse, novamente sorrindo, mas, dessa vez, categórica. — Não acredito em nada disso. A Maga é um monte de palavras num papel. Pode haver muitas. Mas talvez possa ter sido inspirada numa amiga nossa. Mas ela se ofendeu porque achou que a palavra “maga” se referia a “bruxa”.

Cortázar, segundo Vargas Llosa, é um desses autores de grande generosidade. Dava sugestões, por exemplo, sobre os manuscritos que jovens escritores lhe enviavam. “Tinha uma integridade intelectual e literária que nunca abandonou”. Mas o mundo mudou Cortázar, concordaram Bernárdez e Vargas Llosa, alguns anos depois de “Jogo da amarelinha”, por causa de viagens que fez a Cuba e à Índia, em 1968, de acordo com a viúva:

— Na Índia, tomou consciência da dor de estar vivo. Foi quando descobriu que o homem sofria demais. Ficou cada vez mais politizado. Logo foi para a Argentina, onde havia uma história política lamentável, embora agora não seja muito melhor. Ele tinha enxaquecas. Foi a um médico que, depois de examiná-lo, lhe disse que não tinha uma doença, e sim um estado de espírito.

Finalmente, Vargas Llosa pergunta: “O que você acha que será de Cortázar, o seu legado?”.

— Não tenho ideia. Temos que esperar mais 50 anos. Acho que Julio estará no repertório de outros escritores ausentes que sempre estarão presentes.

Jorge Luis Borges: os livros podem ter nos emburrecido?

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Alessandro Martins, no Livros e Afins

Procurava alguns elementos para ir adiante no texto em que o Paulo tenta responder à eterna pergunta: por que, afinal, lemos?

Buscava alguma palavra de Borges que me desse uma luz, que mostrasse algo à frente no escuro caminho de lugares comuns que ora preparo.

Afinal, um dos maiores escritores que já tivemos por aí não cansava de dizer que sua maior ambição era ser um bom leitor tão somente.

Atirei no que vi. Acertei no que não vi.

Encontrei um texto José Nêumanne em que ele descreve seu encontro com Borges.

Achava que a invenção de Gutenberg era uma das maiores responsáveis pelo “emburrecimento” da humanidade. Ele gostaria de ter vivido no tempo dos copistas, aqueles monges medievais que anotavam com sua caligrafia bem desenhada os textos que seus colegas de claustro teriam de ler. O trabalho penoso dos copistas funcionava como um rigoroso sistema de controle de qualidade, a seu ver. A facilidade da publicação de textos impressos por tipos móveis o irritava: “Veja o que ocorre por causa da imprensa: imprime-se qualquer porcaria. Qualquer idiota escreve qualquer coisa. Você não acha isso um horror?”, perguntou-me, quase exigindo a confirmação. Claro que concordei – logo eu, pobre de mim, que vivo do que imprimo.

Claro que se, por um lado, o livro democratizou a manifestação da burrice pelo lado da produção, também tornou acessível a inteligência pelo lado do consumo.

Afinal, sem ele não conheceríamos Shakespeare ou Homero ou seja lá qual for o seu escritor preferido.

(publicado originalmente em 27 de janeiro de 2008)

Talvez eu nem conhecesse Borges. Podemos dar a essa declaração a licença do exagero didático, apesar de sua boa dose de verdade.

De qualquer forma, recomendo a leitura integral desse texto que ajuda a conhecer um pouco mais da personalidade e das idéias desse escritor argentino. Achei-o precioso.

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