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Posts tagged escritor norte-americano

Livro explora capacidade narrativa das HQs com adaptações de clássicos

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Imagem da adaptação de 'A Divina Comédia', de Seymor Chwast, no livro 'Cânone Gráfico'

Imagem da adaptação de ‘A Divina Comédia’, de Seymor Chwast, no livro ‘Cânone Gráfico’

Fabio Marra, na Folha de S.Paulo

O editor e escritor norte-americano Russ Kick teve uma ideia que lhe pareceu óbvia. Criar “um livro com a espessura de um tijolo que abrangesse séculos, países, línguas e gêneros” e que incluísse “romances, contos, poemas, peças, autobiografias, discursos e cartas”.

Assim produziu a coletânea “Cânone Gráfico – Clássicos da Literatura Universal em Quadrinhos”, cujo primeiro volume acaba de ser lançado pela editora Barricada. Em três volumes, a obra reúne releituras visuais de clássicos desenhadas por importantes quadrinistas.

Este primeiro volume traz 51 trabalhos –da obra literária mais antiga do mundo a peças do século 18– em adaptações com impressionante variedade de estilos e traços.

Estão presentes no livro desenhistas e cartunistas como Will Eisner, um dos pais dos romances gráficos, com “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes; Hunt Emerson, que consegue ver humor no “Inferno”, de Dante Alighieri; Peter Kuper e a versão para “Uma Proposta Modesta”, de Jonathan Swift; e até o lendário Robert Crumb.

Kick pediu aos artistas que fossem fiéis aos originais, sem deslocar as histórias a tempos futuros ou criar novas aventuras, mas lhes deu total liberdade para a abordagem e o estilo gráfico.

“A Epopeia de Gilgamesh”, mais antiga obra literária do mundo, abre o volume. Foi escrita em 12 tábuas de argila na Babilônia, por volta de 1000 a.C. e ficou soterrada por cerca de 2.500 anos.

Nelas estão as histórias do tirano e arrogante semideus Gilgamesh, rei de Uruk, atual Iraque. O cartunista Kevin Dixon já tinha adaptado a íntegra da epopeia e, neste livro, narra o episódio do Touro Celeste, quando Gil é levado depois de uma batalha.

A versão em inglês foi feita pelo escritor Kent Dixon, pai de Kevin, que precisou estudar escrita cuneiforme e o silabário assírio para realizar o trabalho. É um excelente começo para as viagens visuais que seguem: “Eneida”, de Virgílio; “Sonho de uma Noite de Verão” e “Rei Lear”, de Shakespeare; “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift.

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SEXO E JOGOS
O traço marcante de Crumb aparece na parte final do livro com “Diário Londrino”, de James Boswell. A história remete ao próprio escritor –um advogado, intelectual e libertino, que passou a vida toda cometendo excessos com bebidas, sexo e jogos.

Na contramão da vida de Boswell, a antologia traz também adaptações de obras religiosas: “O Livro de Daniel”, da Bíblia hebraica, e “Apocalipse”, do Novo Testamento, além de poemas sufistas de Rumi, do “Mahabharata” hindu e “Popol Vuh”, livro sagrado dos maias.

Como escreve o organizador na apresentação, “cada peça vale por si, mas juntas formam um vasto caleidoscópio de arte e literatura”.

Para os não familiarizados com os textos, o editor faz um breve comentário explicativo sobre o conteúdo, seu autor e o recorte dado à releitura.

Além da fascinante experiência pelo mundo da narrativa dos quadrinhos, o livro é um incentivo à leitura das versões originais das obras.

O editor tem razão, a ideia pode parecer óbvia. Mas tem profundidade. O livro reúne os maiores clássicos da literatura mundial com a qualidade e genialidade dos principais cartunistas e artistas gráficos da atualidade.

Um brinde ao velho Bukowski!

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Objetividade, muitos litros de álcool e uma boa dose de grossura. Essa pode ser uma, entre muitas, a definição do escritor norte-americano Charles Bukowski. Ele reduziu o sonho americano a personagens enlouquecidos em quartos imundos de hotéis. Em uma existência recheada de desventura, traumas, amores fracassados e prisões inesperadas, o escritor mergulhou em viagem metafísica na noite de sua amada cidade de Los Angeles.

Fernando do Valle, no Homo Literatus

Charles Bukowski nasceu na pequena Adernach (Alemanha) em 16 de agosto de 1920 e morreu há 20 anos, em 9 de março de 1994, por complicações de uma leucemia.

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Vinho, dúzias e mais dúzias de cervejas e discos de música clássica acompanham o escritor na decadente Hollywood dos cafetões, aspirantes a superstars e alcoólatras inveterados. A literatura de Bukowski parece gritar: “já que não gosto do que vejo, então encho a cara, escrevo e mando tudo à merda”.

Acusado de machista e de praticar uma subliteratura pelos amantes da boa e limpinha literatura, o também poeta Bukowski nunca deu muita importância sobre o que se falava dele e destilava sempre sua cáustica percepção da realidade, incomodando os conformados e medíocres.

American Writer Charles Bukowski

Os detratores de Bukowski ignoram como sua literatura sempre conviveu com a indiferença e a violência (ele passou a infância sendo espancando por seu pai que o considerava um indolente sem ambição). Isso foi regurgitado em uma nova forma de expressão em que uma escrita sem rodeios sai em defesa dos fracos e desesperados em busca de algum afeto ou da próxima rodada no bar da esquina.

Com o velho Bukowski, não se tem meio-termo, sua persona literária e seus escritos despertam ódio e amor na mesma intensidade. A sua língua afiada também não perdoava. Nem o papa da geração flower power, Thimothy Leary, e um dos ícones do movimento beat, Allen Ginsberg, escapavam. O trecho é do conto O Grande Rebu da Maconha:

“O deus do ácido deles, Leary, lhes diz: desistam da luta, me sigam, aí aluga um auditório aqui na cidade e cobra cinco pratas por quem quiser ouvir ele falar. depois chega Ginsberg junto com ele, e proclama que Bob Dylan é um grande poeta . auto-propaganda dos que ganham posando de maconheiros. América”.

Bukowski emigrou para os Estados Unidos com apenas dois anos de idade. Alemão de nascimento, o escritor mergulha na alma americana e destrói em sua literatura um dos paradigmas do american way of life: o culto ao vencedor.

Adolescente brigão, problemático e triste, o que fica claro em um de seus melhores livros, Misto Quente – a juventude de Henry Chinaski (alter ego do escritor), Bukowski sofria com os abusos paternos até o dia em que o agride até nocauteá-lo e some de casa.

Em uma das passagens do livro, seu pai soldado o obriga a cortar a grama do quintal (símbolo de toda família classe média norte-americana, uma casa limpa com um belo gramado à frente) com perfeição milimétrica. Qualquer falha era motivo para que seu pai o surrasse impiedosamente.

Sobre o enterro de seu pai, Bukowski escreveu:

“Lembro que atravessamos a rua e entramos na casa mortuária. Alguém dizia que meu pai tinha sido um bom homem. Me deu vontade de contar a eles o outro lado. Que ele era um homem ignorante. Cruel. Patriótico. Com fome de dinheiro. Mentiroso. Covarde. Um impostor. Minha mãe só estava há um mês debaixo do chão e ele já estava chupando os peitos e dividindo o papel higiênico com outra mulher. Depois alguém cantou. Nós desfilamos diante do caixão. Talvez eu cuspa nele, pensei”.

Depois de abandonar sua família, o escritor vagou por quartos de motéis decadentes sobrevivendo de bicos em troca de poucos dólares. Muitas vezes, foi despedido por chegar tarde, embriaguez ou por simplesmente mandar o patrão se foder. Apostador ferrenho em corridas de cavalo, encontra o emprego da maior parte de sua vida: entregar cartas a velhotas falantes, mulheres histéricas e homens “ambiciosos” e “promissores”. Daí nasce outro livro: Post Office (editado no Brasil pela Brasiliense).

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O jornalista Jack Kroll da extinta revista semanal Newsweek escreveu como o fracasso é uma das saídas para artistas como Bukowski: “um pertubador profissional da ordem estabelecida — escreve com delirante insistência romântica, afirmando que os fracassados são menos hipócritas que os vitoriosos, e com veemente compaixão pelos perdidos”.

Crítico da indústria do cinema, Bukowski foi transportado para a sala escura duas vezes. Em uma delas, o diretor italiano Marco Ferreri escolheu a monumental italiana Ornella Muti para interpretar a prostituta Cass no filme inspirado no conto Crônica de um Amor Louco, Chinaski (Bukowski) é interpretado por Ben Gazzara.1

Em outra adaptação, Barfly, literalmente mosca de bar, traz na pele de Chinaski/Bukowski o ator Mickey Rourke em suas andanças pelos bares de Los Angeles. O filme mostra também a relação da editora da revista Harlequim, Barbara Frye, com Bukowski. Ela foi uma das primeiras a publicar o trabalho do escritor que enviava muitos de seus contos e poemas para várias publicações e era constantemente recusado.

Hoje Bukowski tem conquistado aos poucos seu lugar entre os grandes escritores norte-americanos da segunda metade do século passado. Para seus detratores e admiradores, Bukowski resmungaria, com uma long neck na mão: “não importa se me acham um gênio ou um idiota; afinal, nunca pedi nada a ninguém.”

Trecho do conto “A mais linda mulher da cidade” do livro Crônica de um amor louco:

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado mesmo. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

– MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada”.

Bukowski viaja sobre Deus, a mídia e a sorte:

Música Bukowski, da banda Modest Mouse (com legendas em espanhol):

Assista na íntegra o filme Crônica de um amor louco, de Marco Ferreri

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