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Atriz e escritora, Fernanda Torres lança o segundo romance

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O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda. Crédito: Bob Wolfenson/Divulgação. Atriz e escritora Fernanda Torres.

O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda.
Crédito: Bob Wolfenson/Divulgação. Atriz e escritora Fernanda Torres.

A obra tem um texto envolvente sobre um ator decadente: na arte, se reinventar é questão de sobrevivência

Nahima Maciel, no Correio Braziliense

Mario Cardoso é um ator acomodado, que acabou por confundir emprego com profissão depois de viver uma época de ouro da televisão brasileira. Conseguiu contrato fixo em uma grande rede, nunca mais repetiu o brilhantismo exibido no palco em uma única peça, degringolou e só se reencontrou mesmo como ator depois de uma tragédia que o jogou nos braços de Macbeth. É um personagem que já nasceu homem, conduzido por um narrador levado a pulso firme por outra atriz, Fernanda Torres. A glória e seu cortejo de horrores, segundo romance da artista, é uma prova de que a reinvenção constante pode abrir portas para universos inimagináveis.

O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda. Com personagens cujas vidas risíveis e inúteis rendiam mortes grandiosas “pela simples tragédia de que tudo é passageiro”, nasceu de um convite de Fernando Meirelles para que escrevesse um conto adaptável para uma série de televisão. Virou um dos melhores romances lançados em 2013 e esteve entre os finalistas do Prêmio Jabuti. A ironia, o humor negro na medida certa e a elegância do texto colocaram o nome da atriz na estante da literatura contemporânea brasileira.

A glória e seu cortejo de horrores vai além. Talvez por Fernanda estar mergulhada no mesmo universo de seu personagem e ser tão lúcida e consciente das implicações de sua profissão, talvez porque o mundo da escrita seja uma consequência do palco, um espaço de reflexão mais pausada e sincera, o fato é que o romance está entre os textos mais saborosos e inteligentes publicados nestes últimos meses de 2017. “A maturidade te traz a ciência da sua profissão, por outro lado, perde-se o viço, a novidade, é uma carreira que exige a reinvenção diária, e castiga aqueles que se acomodam, como é o caso do Mario Cardoso”, explica a atriz, em entrevista ao Correio. O título do livro, ela tirou de uma frase repetida pela mãe, mas ouvida pela primeira vez da primeira mulher de Jô Soares, Teresa Austregésilo, que dizia preferir a morte e seu cortejo de horrores a fazer algo que não queria. “Adoro essa frase, que resume, como nenhuma outra, a ansiedade em torno de uma profissão exposta, pública”, diz Fernanda.

A escrita entrou para a vida da atriz graças a um convite de Mario Sergio Conti para assinar um artigo na revista Piauí sobre o medo de estar em cena. “Era um texto longo, e vi que eu tinha fôlego e prazer de escrever”, conta. A parceria rendeu e ela virou colaboradora da revista para depois escrever regularmente na Veja Rio e na Folha de São Paulo. Fernanda passou então a ter uma rotina de escrita produtiva. Agora, aos 52 anos, ela faz o caminho inverso: adaptou Fim para uma série de televisão prevista para ir ao ar em 2020. É o ciclo da reinvenção a qual Mario Cardoso não conseguiu se impor e no qual sua criadora mergulha com gosto. “Escrever me dá liberdade de criar sozinha, sem ter que levantar a produção de uma peça, de um filme, ou de depender de convites, basta a sua imaginação, bons editores, tempo e uma certa capacidade de concentração. Uma atividade completa a outra, porque a solidão da escrita pode se transformar em algo insalubre, solitário, e aí, atuar, que é uma profissão física e coletiva, compensa o isolamento”, acredita.

Entrevista /Fernanda Torres

O personagem de A glória e seu cortejo de horrores é um ator de 60 anos que tenta repetir um sucesso de quando era jovem e percebe a necessidade (e a dificuldade) de sempre se reinventar. Você passou por isso?
Passei por isso muitas e muitas vezes. A arte nunca te deixa em paz. No teatro, é preciso repetir tudo no dia seguinte, um diretor de cinema carrega o andor de um filme por quatro, cinco anos e, quando estreia, assim como acontece com um escritor, te perguntam qual é o seu próximo trabalho. E não é uma atividade necessária, aparentemente não, é algo inútil, criar, não há nada de concreto nisso, você faz por pura necessidade de fazer. A profissão de ator, para ficar nela, é feita de muitos fins. As peças sempre acabam, as novelas, os filmes. Você vive um idílio ou um pesadelo que jamais te deixa seguro. É diferente da perspectiva de um emprego de longo prazo, em que você galgará uma posição numa empresa, não há essa lógica. Os primeiros vinte anos são fáceis, depois complica, minha mãe sempre me disse essa frase. No início, apesar da falta de prática, tudo é lucro, qualquer papel é papel, e você conta com o fato de ser inédito, de ninguém saber dos seus limites. Ali pelos trinta, senti angústia de fazer uma profissão tão dependente de convites, de oportunidades passageiras. Comecei a produzir teatro e a escrever sem compromisso. O Mario é um pouco de todos nós, atores brasileiros, que lidam com um mercado pequeno, num país caótico.


Escrever na pele de um homem muda alguma coisa?

Ajuda a me afastar de mim, a não ser confessional. Como me conhecem, eu não conto com o mistério oculto naquela voz. Eu nem pensei se ele seria homem ou mulher, o Mario já nasceu homem, antes mesmo de eu decidir. Acho que é para não ser eu.

Em determinado momento, o protagonista se dá conta de que confundiu emprego com profissão.Como evitar isso em uma carreira longeva?
É dificílimo. O cansaço vem, as contas aumentam, os filhos. Eu nunca tive contratos longos, o que me dava muita ansiedade. Depois dos Normais, achei que fecharia um contrato, mas quis fazer os Budas, o Casa de Areia, e acabei ficando sete anos trabalhando por obra certa na televisão. O Tapas e Beijos foi o mais perto que cheguei de uma relação longa de emprego na minha profissão. Íamos de março a dezembro, foram cinco anos convivendo com um elenco maravilhoso, no mesmo cenário, com os mesmos personagens, eu jamais havia experimentado isso. Como eu não tenho o fôlego da Andréa (Beltrão), que conseguia ensaiar teatro, estrear, trabalhar de segunda a segunda, comecei a escrever. Você vai achando brechas para não se acomodar, para aproveitar a bênção de ter um programa como o Tapas e beijos, por exemplo, e remar por fora, se diversificar, para não ficar dependente deste ou daquele êxito.

“Gritar es fácil, Mario, lo difícil es hacerse oír; y no lo serás, si no comprender lo que decís”, diz o diretor ao protagonista. Você, Fernanda, sempre soube disso?
Eu sempre acho que não vou dar conta, leio os papéis e acho que não vai dar certo. Você aprende, com o tempo, a não querer brilhar de cara, a controlar o ego, a atacar com humildade o personagem. Fiz muito teatro de improviso, depois, fui atrás do Tchekov, na Gaivota, que me ensinou muito sobre como se aproximar de um personagem, e depois fiz os Budas, que considero meu trabalho mais maduro nesse sentido. O Renato Borghi me disse, depois do Rei da Vela, que levou 50 anos para fazer aquele texto sem esforço. Atingir esse paraíso do não esforço, esse lugar em que você é o personagem, em que você domina, sem prepotência, o papel, é o nirvana, mas nada garante que se chegará lá. Controlar a expectativa de acerto, ficar receptivo, tentar compreender o que se está dizendo, são coisas que não se ensinam, não se aprende nada disso, você experimenta na prática. E também não há garantia de que aquilo vá se repetir, é tudo muito fugaz, movediço, a arte não é uma ciência exata.

Há muitas citações no romance, sempre muito bem colocadas e sempre associadas ao humor e à ironia. Pode falar um pouco sobre como a combinação desses dois elementos são importantes quando você escreve?
Não escolho a ironia ou o humor. É o que sou. O Sérgio Rodrigues disse que eu sou tragicômica, sempre achei que a vida é tragicômica, que não há tragédia sem comédia, e vice-versa, isso é algo que experimentei atuando. Li muito Flaubert na adolescência, foi o primeiro autor que li em série. Jamais esqueci a crueldade, da ironia dele e, ao mesmo tempo, do sentido trágico da pequenez humana que ele descreve tão bem. E tem Nelson Rodrigues, que é o escritor que mais nos traduz, feroz, louco, cômico e trágico. Não chego ao Nelson, e muito menos ao Flaubert, mas sou marcada por eles. As citações já estavam no Fim, mas sobre pessoas que ninguém conhece, acho que todo escritor tem essa alma de ladrão.

O teatro, o cinema e a TV refletem o Brasil de hoje?
De sempre. Estamos num momento de ataque à arte. Só poderíamos estar, o país está insatisfeito consigo mesmo, há uma raiva, um recalque que se reflete no ódio à cultura. Foi sempre assim. O Zé Celso disse, outro dia, que a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Arena e o Oficina foram paridos pelo suicídio de Getúlio. Minha mãe conta que a estreia de O Mambembe, no Municipal, foi uma comoção como ela nunca viu. Hoje, ela entende que o público estava comungando ali, no teatro, com Arthur de Azevedo, o fim da Capital do Rio de Janeiro, que se mudaria para Brasília pouco depois. A retomada do cinema e os favela movies vieram junto com a redemocratização. O fim da Embrafilme aconteceu na mesma penada do confisco da Zélia Cardoso de Mello. Tudo que foi feito na música, no cinema e no teatro, durante a Ditadura Militar, refletia o enfrentamento a um inimigo comum. A arte é um reflexo direto do país, não é diferente agora.

O que te deprime no Brasil de hoje?
Quase tudo. Os séculos de ignorância que deram nesse Congresso que vota contra nós mesmos. A criminalização da Cultura. A ameaça ao sincretismo religioso. Impressiona a dificuldade de se chegar a um meio termo, um livre mercado sadio, regulado com a ajuda do estado, para diminuir a desigualdade social. Isso é tido como esquerdopatia. O nível de discussão anda muito baixo e oportunista, feroz, agressivo. O Rio de Janeiro ter chegado a esse grau de rapina é tudo muito chocante. E essa discussão imbecil entre esquerda e direita, como se houvesse esquerda e direita num país sem saneamento básico. A questão hoje é como lutar contra a concentração de riqueza, que só piorou, e que está disseminando essa insatisfação geral, esse niilismo ofensivo do quanto pior, melhor. Não é só no Brasil, é um fenômeno mundial de empobrecimento da sociedade, de medo e falta de saída.

O personagem também reflete muito sobre como se fazia teatro e televisão no Brasil nos anos 1960 e 1970 e como está hoje. Para você, Fernanda, o que mudou essencialmente nessa área?
Tudo, o próprio meio de produção. A internet mudou tudo, estamos em plena revolução. Eu só assisto à televisão em celular, vejo filmes em VOD, não há mais diferença física entre cinema e televisão, é tudo pixel. Está todo mundo viciado em internet, por outro lado, o livro físico sobreviveu, os jovens leitores gostam de comprar livros. Aos poucos, jornais como o The Guardian provam o quanto é importante uma curadoria confiável, em meio ao oceano de fake news.

A criação literária é diferente da criação de um personagem na dramaturgia?
Mas eu não conheço gênero mais difícil do que o teatro, para se escrever. Minha mãe, certa vez, perguntou ao Drummond o porquê de ele não escrever para o teatro e ele respondeu: “muito difícil”. A escrita dramatúrgica é feita de ação, não há gordura, não há descrição, é seco, é árido. Para mim, a literatura se assemelha ao subtexto que um ator cria entre as falas. Tudo o que não é dito, tudo o que se imagina para dar corpo a um personagem. A voz interior.

J.K. Rowling dá conselho a escritora iniciante

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Mulher usou as redes sociais para dizer que estava desanimada com seu trabalho e recebeu motivação da criadora da saga ‘Harry Potter’

Publicado no Estadão

J.K. Rowling é conhecida por dar respostas duras no Twitter. Além das diversas críticas a Donald Trump, por exemplo, ela já deu resposta a um homem misógino. Agora, porém, ela mostrou seu lado atencioso e incentivou uma internauta que estava com dificuldades para escrever.

“Eu gostaria de escrever como a J.K. Rowling e o Stephen King, mas é muito difícil para mim. Estou desmotivada. Nunca terminarei o meu livro”, postou a usuária Roi-Sorcier d’Angmar.

O desabafo chegou até a criadora do universo Harry Potter, que se prontificou a respondê-la e encorajá-la. “Não escreva como eu. Escreva como você, ninguém mais pode fazer isso.

Termine o livro!”, respondeu Rowling.

A usuária ficou muito feliz com a atenção dada pela autora e agradeceu: “Meu Deus, obrigada pela resposta! Você é a melhor pessoa do mundo!”. Outros internautas ficaram sabendo do desânimo da internauta e também mandaram suas mensagens de apoio.

Confira:

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Benjamin Moser: “O culto brasileiro a Clarice Lispector embaça sua vida”

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Escritor americano defende o gênero da biografia literária como uma simples interpretação

Andrea Aguilar, no El País

Uma transa de uma noite que acaba se tornando o amor da sua vida. Assim explica Benjamin Moser (Texas, 1976) seu idílio com a escritora Clarice Lispector. A grande e enigmática dama da literatura brasileira do século XX cruzou seu caminho por acasos acadêmicos: Moser se inscreveu no curso de chinês na universidade, mas como essa língua lhe pareceu impossível de aprender, ele trocou a disciplina por outra no mesmo horário e acabou sendo língua portuguesa. Nesse curso ele leu o romance A Hora da Estrela, de Lispector, e sentiu uma “estranha conexão”.

Mais de uma década depois, sua biografia da autora brasileira de origem ucraniana, de quase 500 páginas, atesta a força daquela paixão. Intitulada Clarice, uma Biografia (Companhia das Letras), foi traduzida em meia dúzia de idiomas. A escritora, nascida em 1922 em uma aldeia ucraniana no seio de uma família judaica e morta em 1977, no Rio de Janeiro, experimenta um novo renascimento graças a Moser, que não duvida em qualificá-la como a melhor escritora judia depois de Kafka e dirigiu a publicação das novas antologias de suas histórias nos EUA.

Carlos Rosillo

Carlos Rosillo

Há algumas semanas, em Madri, Moser falou sobre todos os lugares e pessoas que conheceu graças a Lispector. Mas há mais, porque, como quase sempre acontece, essa história de amor deu lugar à seguinte. Hoje, esse crítico literário radicado na Holanda e colaborador, entre outras publicações, da The New York Review of Books e da Harper’s consolida sua carreira de biógrafo respeitado com um novo livro que está finalizando, dedicado a outra escritora brilhante: Susan Sontag. “Quando estou muito ocupado com uma das duas, sinto que a outra fica zangada e me solicita. Isso é como ter duas mulheres, é como uma estranha necrofilia”, explica. “Mas não é. Simplesmente você tem a vida de alguém em suas mãos”.

Pergunta. O que liga sua escolha de escrever sobre Clarice Lispector e Susan Sontag?

Resposta. Quando comecei com Lispector as pessoas pensavam que eu estava louco, mas achava que todos iriam ficar fascinados com ela. Era praticamente desconhecida nos EUA. Com Sontag isso não acontece, mas, como acontece com todos os autores famosos, a ideia geral que se tem dela é muito estereotipada. A verdade é que leva muito tempo para conhecer alguém. Em ambos os casos, pensei que era importante deixar que fossem “estranhas”, respeitar sua perspectiva do mundo. Não são autoras fáceis porque exigem muito de seus leitores.

P. Muita teoria foi escrita sobre o que está por trás do trabalho de um biógrafo, como ele às vezes acaba escrevendo sobre si mesmo por uma pessoa interposta ou saldando alguma dívida. Qual foi o seu ponto de partida?

R. Eu me aproximei do gênero da biografia literária como um ato de amor, alheio às teorias. Queria conhecer melhor Lispector, como quando nos apaixonamos e queremos saber qual é a música favorita do outro ou por que odeia seu irmão. Comecei a escrever pensando que o meu livro seria uma chave e que as pessoas acabariam querendo ler mais coisas dela.

P. Uma das objeções mais comuns a esse gênero é que a obra de um autor fala por si mesma.

R. Quando você olha a vida dos artistas, entende que o trabalho é resultado de suas experiências. Mas o culto à figura de Lispector no Brasil ofuscava isso, seu mistério foi prejudicial, tinha fama de louca. A verdade é que você quer saber mais porque ela é muito magnética e sua figura inspira muita gente. Em 15 anos ela passou de refugiada, como milhões de sírios hoje, para se tornar em uma lendária dama do Rio.

P. No caso de Susan Sontag, além de seus ensaios, seus diários recentemente publicados mostram seu lado mais privado. O que falta ser mostrado?

R. Quando você se torna uma figura icônica como ela é, sua obra morre. Sontag escreveu crítica, teatro, contos, romances que são pouco conhecidos ou lidos hoje. Sua biografia, como no caso de Lispector, aborda uma leitura crítica de suas obras, o desafio intelectual que coloca.

P. Os desafios que uma e outra apresentam aos leitores estão relacionados?

R. São dois titãs que se aproximam do grande tema da metáfora. Sontag, por exemplo, escreve sobre a doença como metáfora – curiosamente, no ano em que Lispector morre – e rastreia incessantemente o uso social das metáforas. A brasileira sempre busca a verdade última que está escondida nas palavras. Remexer as palavras é uma tradição muito judaica.

P. A ausência de um rastro de papel, com a chegada dos computadores e da Internet, tornará impossível fazer biografias de escritores no futuro?

R. Eu deixei de imprimir meus textos e minhas cartas. Pensamos que a Internet é eterna e não é. No futuro, não haverá correspondência. Isso é assustador. Mas esse gênero não desaparecerá. Como disse Sontag, não há uma fotografia definitiva, nem uma biografia definitiva. As biografias são como a interpretação de uma peça musical. As pessoas confiam muito no retrato, mas é apenas uma maneira de contar, é a minha forma, minha história, e não a própria pessoa.

P. É preciso colocar limites sobre o que se conta sobre a vida de outra pessoa?

R. Quando você faz uma biografia, coloca seus dedos sujos no dinheiro, no sexo, na família e no trabalho artístico de outra pessoa. Mas o maior erro seria deixar tudo isso de fora porque esses são os vínculos que nos conectam, que nos tornam humanos. Se você quer que o relato de suas vidas tenha algum significado, não pode ignorar isso.

P. Aí surge a polêmica?

R. As pessoas reagem às biografias com muita veemência, mas, curiosamente, coisas que alguém poderia pensar que são ofensivas passam despercebidas, enquanto outros detalhes que parecem supérfluos acabam ferindo.

P. Como medir a distância?

R. Eu quero protegê-las, mas às vezes você não pode. Elas estão mortas. Você tenta tratá-las com gentileza, mas isso pode ser difícil porque você também quer ser sincero.

P. Você sente um dilema parecido como crítico?

R. Como crítico, rejeito a crueldade. Se você pensa sobre o que um romancista tentou fazer, mesmo que não goste, você está sendo respeitoso. Mas isso parece ter sido perdido. Acho que o papel da crítica deve ser encorajar a ler, a pensar, a descobrir. A cultura te enriquece ou te deixa frio, mas não há necessidade de humilhar o criador.

P. Quais lições tirou de suas pesquisas sobre Sontag e Lispector?

R. É interessante ver como as pessoas superam seus fracassos. Depois de um livro de sucesso às vezes vem outro que falha e depois outro que vai bem. Como escritor, é interessante ser espectador da carreira dos outros. São trajetórias longas e acidentadas. Há períodos de fama e dinheiro, e outros sem nada disso.

P. Os adiantamentos milionários que os autores estreantes recebem nos EUA acabam com isso?

R. A verdade é que a maioria dos escritores é tradicionalmente de profissionais de classe média. Hoje parece que há menos tempo e dedicação, é difícil pensar em construir uma trajetória literária de 50 anos.

P. Seus temas foram duas escritoras. O que define a relação das mulheres com a literatura?

R. É um assunto fascinante porque as escritoras não existiam praticamente até o século XX. Elas sofrem censura de ter filhos e não ter tempo. Escrevem dois romances e ninguém dá bola para o terceiro. Tornei-me especialista em ler resenhas de livros de mulheres e você vê a condescendência crua com a qual são julgadas. É incrível ver como elas encontraram força para continuar. Lispector começou com 15 e continuou até o fim. No caso de Sontag, é impressionante ver quantas mulheres talentosas começaram com ela e acabaram caladas.

P. O que você tirou de suas histórias sobre Sontag e Lispector?

R. Gostei de fazer o livro de Lispector por ser ingênuo. Com o de Sontag me senti mais ligado a uma história já estabelecida. Mas ela é uma figura tão complexa que te permite refletir sobre a criação artística, o ativismo político, a ciência ou a guerra. Eu gosto da relação matrimonial que tenho com eles: amá-las, odiá-las, alegrar-me com seus êxitos, ter vergonha. Nada que é delas me é alheio.

Novo livro de J. K. Rowling mescla boas passagens com momentos ingênuos

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

“A imaginação não é apenas a capacidade exclusivamente humana de idealizar o que não existe e, portanto, a fonte de toda invenção; em sua capacidade seguramente mais transformadora e reveladora, é o poder que nos permite sentir empatia pelas pessoas cujas experiências nunca partilhamos”.

Os momentos nos quais J. K. Rowling fala sobre a imaginação e, pela sua abordagem, consequentemente de empatia, são os mais interessantes do livro “Vidas Muito Boas”, que a Rocco acaba de lançar no país. A obra, ilustrada por Joel Holland, traz o discurso que a autora de “Harry Potter” fez em quando foi paraninfa de um grupo de formandos em Harvard, em 2008.

“Muitos preferem não utilizar de forma alguma sua imaginação. Preferem se manter confortavelmente dentro dos limites da própria experiência, sem jamais se dar ao trabalho de imaginar como seria ter nascido outra pessoa. Eles podem se recusar a ouvir gritos ou espiar dentro das celas; podem fechar a mente e o coração a qualquer sofrimento que não os afete pessoalmente; eles podem se recusar a tomar conhecimento”, registra a autora no texto que proferiu aos formandos.

Ainda que não seja obrigatório, é previsível que em um discurso do tipo o autor concentra a fala em sua biografia, e é isso que Rowling. Da trajetória pessoal enfocada, dois momentos merecem destaque. O primeiro é quando ela recorda o que aprendeu enquanto trabalhou no departamento de pesquisa africana da sede da Anistia Internacional em Londres: “Ali, em minha salinha, eu lia cartas escritas às pressas, e enviadas clandestinamente de regimes totalitários, por homens e mulheres que se arriscavam à prisão para informar ao mundo o que acontecia com eles. Vi fotografias daqueles que tinham desaparecido sem deixar rastros, enviadas à Anistia por familiares e amigos desesperados. Li o testemunho de vítimas de tortura e vi imagens de seus ferimentos. Abri relatos de testemunhas oculares, escritos de próprio punho, sobre julgamentos e execuções sumárias, raptos e estupros”.

O outro é quando conta sobre sua decisão de estudar academicamente mitologia e as obras clássicas – ela é formada em Línguas Clássicas e Literatura Francesa -, algo que contrariava a vontade de seus pais, mas acabou sendo fundamental para que tivesse base para escrever sua famosa saga (e para que pudesse pontuar sua fala com citações de gente como Plutarco e Sêneca, que surgem como luxuosos acessórios no discurso).

“Eu estava convencida de que a única coisa que queria fazer, na vida, era escrever romances. Meus pais, porém, que tiveram origem pobre e não se formaram na universidade, consideraram minha imaginação fértil uma idiossincrasia divertida que jamais pagaria uma hipoteca ou garantiria uma aposentadoria […]. De todas as matérias deste planeta, creio que para eles seria difícil citar uma menos útil do que mitologia grega quando a questão é garantir a chave de um banheiro executivo”.

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Fracasso

A imaginação não é o único eixo no qual Rowling apoia seu discurso. Nele, também fala bastante sobre o fracasso, algo que, como ela mesmo diz, provavelmente seja pouco familiar para quem está se formando em Harvard (ou no mínimo baseado em padrões muito mais elevados do que o fracasso de um cidadão médio). Para tal, a escritora lembra do seu próprio fundo do poço: sete anos depois que se formou, o casamento implodiu, ficou desempregada, tornou-se mãe solteira e era tão pobre “quanto é possível ser na Inglaterra moderna, sem ser uma sem-teto”. O que tirou daquele momento? As forças para escrever “Harry Potter”, claro.

“Fracassar significa se despojar do que não é essencial. Parei de fingir para mim mesma que eu era qualquer outra coisa além do que realmente era e comecei a direcionar toda a minha energia para a conclusão do único trabalho que me importava. Se de fato tivesse obtido sucesso em outra coisa qualquer, talvez jamais encontrasse a determinação para vencer na única arena a que eu acreditava verdadeiramente pertencer”, diz Rowling.

É nesse momento que seu discurso soa bastante ingênuo, com um tom próximo da autoajuda. Ora, ela soube lidar com o fracasso e conseguiu criar algo que lhe trouxe um enorme sucesso alguns anos depois – a saga do bruxo está traduzida para 79 línguas e já vendeu mais de 450 milhões de exemplares -, mas isso está longe de ser uma regra, não é mesmo? Ela poderia ter direcionado toda a energia e determinação para a única arena na qual acreditava verdadeiramente pertencer e ainda assim colher apenas um novo fracasso, como acontece com a maioria por aí. Apenas concentrar forças não costuma ser suficiente para que as pessoas consigam algo. Também é preciso uma conjunção de outros fatores que vão desde uma base sólida para que o trabalho seja realizado – a formação e a imaginação de Rowling, no caso – até fatores que fogem do controle da própria pessoa, como achar algum editor que aposte naquilo e leitores receptivos à história.

Outro momento de certa ingenuidade é o final do discurso da escritora: “Se vocês escolherem usar seu status e sua influência para elevar a voz por aqueles que não têm voz; se escolherem se identificar não apenas com os poderosos, mas também com aqueles que não têm poder; se vocês conservarem a capacidade de se imaginar na vida dos que não possuem as mesmas vantagens que vocês, então não serão apenas suas famílias orgulhosas que irão comemorar sua existência, e sim milhares e milhões de pessoas cuja realidade vocês ajudaram a mudar para melhor. Não precisamos de magia para mudar o mundo; todos já temos dentro de nós o poder de que precisamos: o poder de imaginar melhor”.

Sei que são palavras reconfortantes, mas é difícil acreditar que haja tantas pessoas assim que não imaginem um mundo melhor. No entanto, como aponta, isso precisa ser levado à prática; boas ideias que não saem da cabeça infelizmente não mudam a realidade de ninguém. Além disso, para que uma mudança profunda aconteça, na maior parte das vezes é preciso romper ou conflitar com os poderosos, não apenas olhar também para os que não têm poder; é preciso tirar ou diminuir o poder de um e transferi-lo para o outro. Apesar de certas virtudes de Rowling, quando o assunto é discurso de paraninfo, é melhor ficarmos com o “Isto é Água”, do David Foster Wallace.

 

Marina Colasanti é a primeira atração confirmada na Feira do Livro de Joinville de 2018

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Marina Colasanti já esteve em Joinville junto com o marido, o também escritor Affonso Romano de Sant'anna Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Marina Colasanti já esteve em Joinville junto com o marido, o também escritor Affonso Romano de Sant’anna
Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Rubens Herbst, no Diário Catarinense

Na última vez que Marina Colasanti esteve em Joinville foi em 2013, participando da Feira do Livro junto com o marido, o também escritor Affonso Romano de Sant’anna. Desde então, ganhou um segundo Prêmio Jabuti (em 2014, por Breve História de Um Pequeno Amor), apenas um louro a mais na trajetória de uma das maiores autoras de contos, crônicas e livros infantojuvenis do País.

É nessa condição que ela voltará à Feira do Livro de Joinville no ano que vem. Ao seu lado estará novamente Sant’anna, escritor, poeta, cronista e ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional. O casal será anunciado como uma das atrações do evento durante o lançamento oficial da 15ª edição, marcada para as 9 horas desta terça-feira (26), na Livraria A Página.

O tema da edição, as homenagens, novidades e outros convidados estão na pauta do encontro. A Feira do Livro de Joinville de 2018 acontecerá de 7 a 18 de junho no Expocentro Edmundo Doubrawa e adjacências.

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