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Paula Hawkins: conversamos com a autora de ‘A Garota do Trem’

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Emily Blunt no filme de A Garota do Trem (Foto: Divulgação)

Emily Blunt no filme de A Garota do Trem (Foto: Divulgação)

Isabela Moreira, Galileu

Um lugar perigoso para mulheres encrenqueiras: é assim que o vilarejo de Beckford, na Inglaterra, é descrito em Em Águas Sombrias (Editora Record, 364 páginas, R$ 42,90). Lançado no Brasil em maio deste ano, o livro é o segundo de suspense de Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem, thriller que se tornou best-seller mundial e foi adaptado para os cinemas em 2016.

Hawkins passou anos da carreira trabalhando como jornalista até ser convidada por uma editora para escrever livros de comédia romântica. “Eu gosto do gênero, mas nunca me senti confortável escrevendo sobre ele”, afirmou a escritora em entrevista à GALILEU.

Após quatro livros do tipo, decidiu mudar de rumo. “Estava muito mais interessada nos thrillers, que eram os tipos de livros que gosto de ler.”

Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan)

Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan)

Inspirada em grandes autoras contemporâneas do gênero, como Donna Tartt e Kate Atkinson, a autora lançou A Garota do Trem, suspense no qual aborda alcoolismo e violência doméstica.

O sucesso garantiu o novo livro, Em Águas Sombrias, cujos direitos de adaptação cinematográfica já foram adquiridos pela DreamWorks. A história conta, a partir da perspectiva de diversos moradores de Beckford, os casos de mulheres encontradas mortas no rio do vilarejo. A partir das investigações surgem discussões sobre memória, abuso sexual, suicídio e luto.

De passagem pelo Brasil para participar da Bienal do Livro Rio de 2017, Paula Hawkins conversou com a GALILEU sobre seu novo livro, feminismo e processos de escrita. Leia abaixo:

Você chega a se sentir sobrecarregada com a experiência de escrever sobre temas tão pesados?

Muitas coisas horríveis acontecem em Em Águas Sombrias. Escrever da perspectiva da mãe de Katie Whittaker, uma adolescente que é encontrada morta, foi particularmente triste. Em alguns momentos me pergunto o motivo de estar escrevendo sobre esses assuntos, mas acho que é interessante trabalhar essas ideias e possivelmente trazer um pouco de esperança para alguns dos personagens.

Nos seus livros você lida com a parte mais obscura da experiência de ser uma mulher em um mundo conduzido pelos homens. Por que abordar esse tema?
Como uma mulher, é algo sobre o que penso e que me preocupa. A violência doméstica é um problema que persiste no Reino Unido e continua a piorar — não só lá como em outros países, como o Brasil, a Argentina e a Colômbia, onde a violência contra a mulher é aguda. São assuntos importantes de se confrontar e sobre os quais temos que continuar pensando e escrevendo. Algo precisa ser feito e para isso precisamos continuar a trabalhar com esses temas.

Várias séries de TV e livros estão indo na mesma linha e fazendo bastante sucesso. Isso tem a ver com o momento pelo qual estamos passando, em que feminismo e direitos humanos estão sendo mais discutidos do que nunca, ou as pessoas sempre quiseram narrativas do tipo e não tinham acesso a elas?
Acredito que as coisas acontecem em ciclos. Boa parte da cultura é dominada pelo que acontece nos Estados Unidos e o fato de eles terem um presidente que fala daquela forma sobre as mulheres faz com que ocorra discussão em torno do assunto.

Tem muitas coisas acontecendo no mundo que exigem que falemos sobre isso. Incidentes horríveis ocorreram na Índia e levaram a um ressurgimento do feminismo no país e sei que o Brasil passou por episódios horrendos também. Então acredito que há momentos em que as coisas parecem se encaixar e todos querem falar sobre elas: devemos aproveitar o timing e falar o máximo que podemos, para que cheguemos ao momento em que não estamos só falando, estamos de fato resolvendo o problema.

Tem cada vez mais mulheres por trás dessas séries e livros…

Sim, o fato de as mulheres estarem no comando de boa parte do que é popular na cultura também ajuda.

Você se considera feminista?

Com certeza.

Em Em Águas Sombrias você tem vários narradores diferentes. Como foi o processo de escrever de cada perspectiva?
Foi difícil, não planejava ter tantos narradores. Mas conforme fui escrevendo a história, percebi que esse era o melhor jeito que contá-la: ter um coral de vozes, cada uma delas guardando seus próprios segredos, pensei que era melhor o leitor ouvir um pouco de todos. Comecei com Jules e Erin e fui expandindo porque as duas sozinhas não tinham como saber de todos os eventos que estavam acontecendo.

A dificuldade para mim foi decidir quem deveria estar falando em qual momento e decidir qual incidente passaria pela perspectiva de quem, tive que reescrever diversas vezes passagens do livro de perspectivas diferentes para descobrir de qual gostava mais. Algumas narrativas foram mais fáceis que as outras: Louise, a mãe da menina que morreu, foi difícil, já de Nickie Sage gostei porque ela era meio estranha.

E tudo se passa em uma cidade pequena, o que torna tudo ainda mais claustrofóbico…
E essa era a sensação que eu queria que as pessoas tivessem. Cidades pequenas podem ser claustrofóbicas: todo mundo sabe o que todo mundo está fazendo, não dá para fazer nada sem seu vizinho ver ou os pais dos seus amigos te dedurarem. Um está prestando atenção ao outro e acredito que essa claustrofobia faz com que as pessoas ajam em segredo, em particular os mais novos, que não querem que seus pais saibam o que estão fazendo.

Outro tema forte do livro é a memória. O que torna essa abordagem interessante para você?
Sou fascinada pela forma como a memória funciona ou não e como estruturamos diferentes narrativas para nós mesmo. A memória justifica as pessoas que nos tornamos, mas nem sempre é confiável: as pessoas podem mudar a história após anos a repetindo. Às vezes sem querer ou por não encarar um evento traumático e trágico. Outras é só para despistar as pessoas.

Cora Coralina, a poeta do cerrado, é homenageada pelo Google

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Publicado no El País

O Google celebrou neste domingo, com um doodle, o 128º aniversário da poeta brasileira Cora Coralina (1889 – 1985), uma das mais importantes escritoras brasileiras. Contista do cerrado, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que utilizava o pseudônimo Cora Coralina, nasceu em Cidade de Goiás e começou a escrever e publicar em jornais locais seus primeiros textos aos 14 anos. Apesar disso, seu primeiro livro foi publicado somente em 1965, aos 76 anos: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais.

Depois disso, Cora Coralina ainda publicou mais três livros: Meu livro de cordel (1976) e Vintém de cobre – Meias confissões de Aninha (1983), ambos de poesia, e um de contos: Estórias da Casa velha da ponte (1985). Após a sua morte, outros cinco livros foram publicados, dois deles para o público infantil.

Muitos de seus contos e poemas são hoje levados para o palco em teatros por todo o país. Em 2013, a cidade de Goiânia inaugurou a Vila Cultural Cora Coralina, um espaço cultural administrado pelo Governo do Estado de Goiás.

Um de seus poemas mas conhecidos chama-se Assim eu vejo a vida.

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver

Conceição Evaristo: “Não nasci rodeada de livros, mas de palavras, através da literatura oral”

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Foto: Gustavo Miranda

Foto: Gustavo Miranda

Um dos principais destaques da Flip, a escritora Conceição Evaristo conversou com o EL PAÍS

Publicado no El País

Conceição Evaristo é natural de Belo Horizonte e hoje vive no Rio de Janeiro. Estreou na literatura na década de 1990, é doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense e militante ativa do movimento negro. Suas obras abordam questões como o racismo brasileiro e a condição de ser mulher e negra no país. Conceição tem diferentes obras publicadas e premiadas no exterior. Entre elas está o romance de 2003, Ponciá Vivêncio, um de seus livros mais famosos. Nesta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ela é uma das principais convidadas e falará em uma mesa neste domingo ao meio-dia.

Genocídio em Ruanda transformou Scholastique Mukasonga em escritora

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Scholastique Mukasonga e Noemi Jaffe na Flip, nesta quinta, 27 Foto: Walter Craveiro/Divulgação

Scholastique Mukasonga e Noemi Jaffe na Flip, nesta quinta, 27 Foto: Walter Craveiro/Divulgação

Autora está em Paraty para lançar dois de seus livros; ela também dividiu uma mesa da programação principal com Noemi Jaffy, cuja mãe sobreviveu a Auschwitz

Guilherme Sobota, no Estadão

PARATY – Scholastique Mukasonga – nascida em 1956 em Ruanda e hoje escritora francófona respeitada mundo afora – passou à força pela provação de ver 27 membros de sua família mortos no genocídio naquele país em 1994. Centenas de milhares de tutsi, sua etnia, foram dizimados pelo exército de maioria Hutu, numa guerra civil que ainda desabrigou outros dois milhões de pessoas. Esse trauma, e a necessidade de salvar a memória da família, Scholastique transformou em literatura, que ela apresentou nesta quinta-feira, 27, como convidada da 15.ª Flip.

A Editora Nós publica dois de seus livros por aqui: Nossa Senhora do Nilo e A Mulher dos Pés Descalços, este muito marcado pela história real de sua mãe.

Scholastique dividiu uma mesa da programação principal com Noemi Jaffe, cuja mãe foi sobrevivente de Auschwitz. “São casos completamente diferentes. Scholastique escreve a guerra, eu escrevo sobre a guerra. As missões são distintas. Além de eu saber que tenho uma mãe que passou por aquilo, tenho uma culpa sem sentido de eu mesmo não ter passado. Minha mãe preferiu esquecer para sobreviver. Eu, como escritora, preciso lembrar o que ela precisa esquecer”, disse Noemi no debate no fim da noite de quinta-feira. Noemi é autora e organizadora de O Que os Cegos Estão Sonhando? (Editora 34), inspirado nos diários de sua mãe.

“Escolhi abordar esse assunto tão duro porque na verdade ‘mãe’ significa força, mas também amor, afeição, ternura e doçura”, comentou Scholastique, mais cedo, numa entrevista coletiva. “Tive grande dificuldade, me senti como se lanças atravessassem o meu corpo enquanto escrevia, mas A Mulher… é o livro ao qual eu me sinto mais vinculada como autora”, comentou a escritora, que já publicou cinco outras obras na França, onde vive desde 1992.

Antes disso, ainda nos anos 1960, ela e a família foram forçados a viver numa área subdesenvolvida de Ruanda. Mukasonga depois fugiu para o Burundi e se estabeleceu na França em 1992, dois anos antes do massacre. O sofrimento pós-1994 só começou a cicatrizar doze anos depois, quando a Gallimard publicou seu primeiro livro, Inyenzi ou les Cafards (Inyenzi ou as Baratas), relato autobiográfico que faz alusão à maneira como seu povo era tratado.

Apesar de toda dor, Scholastique dá valor à responsabilidade de contar essas histórias a partir de um país sem tradição escrita. “Em tudo isso existe algo de muito positivo, porque eu convivi com a minha família e tive tempo de guardar os costumes. O fato de poder me lembrar dessas coisas e hoje ser considerada uma guardiã dessa tradição”, comentou na Flip.

Os livros também foram bem recebidos em Ruanda, segundo a autora. “A impressão que eu ainda tenho, quando vou para lá, é a de encontrar minha verdadeira identidade”, afirmou. “Eles me dizem que estavam esperando essas histórias. Agora, cada vez que vou, tenho até que me esconder porque as pessoas começam a cobrar pelo próximo livro”, disse, bem humorada.

O mistério do desaparecimento de Agatha Christie pode ter sido finalmente resolvido

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Agatha Christie, retrato

Agatha Christie, retrato

O mistério do desaparecimento de Agatha Christie, durante 11 dias, em 1926, pode finalmente ter sido desvendado. Ou, pelo menos, é isso que acredita o escritor Andrew Wilson, que publicou um livro ficcional onde defende que a escritora se quis suicidar.

Publicado no ZAP

O jornal inglês Telegraph divulga a teoria de Andrew Wilson, notando que ele pode ter resolvido “o último grande mistério que Agatha Christie deixou por resolver”.

A escritora, conhecida pelos livros policiais, nomeadamente pelas histórias do famoso detetive Hercule Poirot, esteve desaparecida, durante 11 dias, em 1926.

Christie saiu de casa a 3 de Dezembro daquele ano, quando tinha 36 anos, a conduzir o seu carro, que acabou por ser encontrado vazio, apenas com um casaco de peles e uma carta de condução no seu interior, conta o Telegraph.

Mais de mil polícias e de 15 mil voluntários procuraram Agatha Christie, a imprensa andou num reboliço com o caso, e até surgiram suspeitas de que o marido, o coronel Archibald Christie, poderia tê-la assassinado. Pouco antes do desaparecimento, terá dito à escritora que queria o divórcio por se ter apaixonado por uma mulher mais jovem.

Volvidos 11 dias do desaparecimento, Agatha Christie foi encontrada num hotel, onde se tinha registrado com o nome da amante do marido, e alegou amnésia temporária para o insólito episódio.

Mas o escritor Andrew Wilson avança no livro de ficção “Talento para o Homicídio” (“A Talent For Murder” no título original) uma nova teoria, segundo a qual ela terá saído de casa com a intenção de se suicidar, depois do pedido de divórcio do marido.

A tese do autor baseia-se na análise de documentos da polícia, de entrevistas da escritora, após o famigerado desaparecimento, e do seu romance semi-autobiográfico “Unfinished Portrait”, que publicou em 1934, sob o pseudônimo de Mary Westmacott.

Assim, Wilson acredita que, depois de despenhar o próprio carro, com o intuito de se suicidar, Agatha Christie mudou de ideias, movida pelas suas “convicções cristãs” de que o suicídio é um “pecado”.

Christie ter-se-á sentido tão “envergonhada” consigo própria que criou a ideia de que sofreu perda de memória temporária, adianta ainda o autor, conforme descreve o Telegraph.

Como prova desta ideia, Wilson cita uma entrevista dada pela escritora ao The Daily Mail, em 1928, onde ela fala desse dia 3 de Dezembro de 1926, contando que se sentiu “terrivelmente miserável” e num estado de “elevada tensão nervosa” em que pensou “fazer algo desesperado”.

“Quando alcancei um ponto na estrada em que pensei que estava perto da pedreira, virei o carro para fora da estrada, pela colina abaixo, em direção a ela. O carro bateu em alguma coisa, com um solavanco, e parou de repente. Fui arremessada contra o volante e a minha cabeça bateu em alguma coisa. Até este momento, eu era a Senhora Christie”, diz Christie.

No livro “Unfinished Portrait”, a personagem Celia, que é vista como um alter-ego de Agatha Christie, tenta suicidar-se. A escritora chega a escrever na obra que “ela admitiu que tinha sido muito perverso, da parte dela, ter tentado” matar-se.

Agatha Christie só se separou do marido em 1928, dois anos depois do misterioso desaparecimento. Em 1930, voltou a casar com Max Mallowan que era 14 anos mais novo do que ela. O casamento durou até à sua morte a 12 de Janeiro de 1976. Tinha 86 anos de idade.

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