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40 frases clássicas de escritoras famosas

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Carlos Willian Leite, na revista Bula

Recentemente publiquei uma seleção com 50 frases clássicas de escritores célebres. A ideia foi retirada de um ensaio publicado pelo jornal inglês “The Observer”. Embora a seleção tenha contemplado escritores de díspares perfis, nacionalidades e épocas, alguns leitores questionaram o fato de apenas três mulheres fazerem parte da seleção. Diante da indagação, fiz uma nova versão da lista, desta vez incluindo apenas escritoras. A autenticidade de cada frase foi checada para não incorrer nos risco das falsas atribuições em meio a profusão de textos apócrifos e equívocos relativos à autoria.

Diferentemente do ensaio publicado pelo “The Observer”, não selecionei apenas frases ditas textualmente, mas também aquelas fictícias, que foram emprestadas às personagens e obras por intermédio de seus criadores. Além de frases fictícias, há também frases retiradas de entrevistas e textos ensaísticos. Abaixo, em ordem de alfabética, as 40 frases escolhidas, sem repetir autoras.

“Não pode ser seu amigo quem exige seu silêncio.”
(Alice Walker)
“Porque amei a vida, não terei nenhuma tristeza ao morrer.”
(Amelia Burr)
“Ajusto-me a mim, não ao mundo.”
(Anaïs Nin)
“Um homem beijar a sua mão pode ser uma delícia, mas uma pulseira de safiras e diamantes dura para sempre.”
(Anita Loos)
“Toda dominação pessoal, psicológica, social e institucionalizada nessa terra pode ser remetida a uma mesma fonte original: as identidades fálicas dos homens.”
(Andrea Dworkin)
“A liberdade é incompatível com o amor: um amante é sempre um escravo.”
(Baronne De Staal)
“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.”
(Cecília Meireles)
“Uma mente agitada faz um travesseiro inquieto.”
(Charlotte Brontë)
“Nossos companheiros perfeitos nunca têm menos de quatro patas.”
(Colette)
“Brevidade é a alma da lingerie”.
(Dorothy Parker)
“A minha vela arde nas duas pontas; não vai durar a noite inteira.”
(Edna St. Vincent Millay)
“O homem é uma fêmea imperfeita.”
(Elizabeth Gould Davis)
“Todo meu patrimônio são meus amigos.”
(Emily Dickinson)
“A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos.”
(Jane Austen)
“Nada é tão bom como parece à primeira vista.”
(George Eliot)
“As pessoas que acreditam na inteligência, no progresso e no entendimento são as que tiveram uma infância infeliz.”
(Gertrude Stein)
“A verdade te libertará. Mas primeiro ela vai te enfurecer.”
(Gloria Steinem)
“Para que faças brilhar tua estrela não precisas apagar a minha.”
(Helen Keller)
“No amor existem duas coisas: corpos e palavras.”
(Joyce Carol Oates)
“A mulher que se preocupa em evidenciar a sua beleza anuncia ela própria que não tem outro maior mérito.”
(Julie de Lespinasse)
“Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar.”
(Katherine Mansfield)
“Trocar de marido é só trocar de encrenca.”
(Kathleen Norris)
“A vida é uma sacanagem de merda e cada segundo de lucidez é um suplício.”
(Lolita Pille)
“Me leia enquanto estou quente.”
(Lygia Fagundes Telles)
“Na vida você tem de escolher entre tédio e sofrimento.”
(Madame de Staël)
“Os homens gostam das mulheres que escrevem. Mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro.”
(Marguerite Duras‬)
“É um erro ter razão cedo demais.”
(Marguerite Yourcenar)
“Humildade é ser invulnerável.”
(Marie Freifrau von Ebner-Eschenbach)
“Dormiu pouco, sente-se mal? Chocolate fará você reviver.”
(Marquesa de Sévigné)
“Se Deus é macho, então o macho é Deus. O patriarca divino castra as mu­lheres enquanto ele for autorizado a viver na imaginação humana.”
(Mary Daly)
“No fundo sabemos que o outro lado de todo o medo é a liberdade.”
(Marilyn Ferguson)
“Tudo o que perdemos, automaticamente dobra de valor.”
(Mignon McLaughlin)
“Não se nasce mulher: torna-se.”
(Simone de Beauvoir)
“Tenha até pesadelos, se necessário for. Mas sonhe.”
(Patrícia Galvão)
“Doer, dói sempre. Só não dói depois de morto. Porque a vida toda é um doer.”
(Rachel de Queiroz)
“Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou.”
(Sylvia Plath)
“O sucesso é o insucesso de alguém.”
(Ursula Kroeber Le Guin)
“Chamar a um homem de animal é lisonjeá-lo; ele é uma máquina, um vibrador com pernas.”
(Valerie Solanas)
“O pior sentimento que se pode oferecer a uma mulher é a piedade.”
(Vicki Baum)
“O que é uma mulher? Eu lhes asseguro, eu não sei. Não acredito que vocês saibam.”
(Virginia Woolf)

Confira razões para começar a ler de uma vez por todas

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Publicado no Universia Brasil

Confira razões para começar a ler de uma vez por todas

Crédito: Shutterstock.com
Pessoas que leem mais votam melhor e possuem ideias mais críticas

A leitura, além de ser um momento de lazer, também pode trazer muitos benefícios para o corpo e a mente. Se você não possui o hábito de ler, confira 16 coisas que podem melhorar no seu dia a dia somente por meio da leitura:

1 – Vocabulário
Pesquisas científicas provam que pessoas que leem mais possuem um vocabulário maior e mais rico, além de terem melhores habilidades verbais, como fala e escrita.

2 – Escrita
O fato de você ler mais faz com que você tenha um maior vocabulário e saiba como utilizar melhor as palavras. Você saberá como organizá-las e, dessa forma, seu texto será mais fácil de ler e ser compreendido. Por isso que, para as pessoas que querem ser escritoras, a melhor forma de treino é a leitura.

3 – Aprendizado
Ler é a forma mais eficiente de aprender. Independentemente do assunto, um livro sempre será a melhor maneira de entender sobre qualquer coisa.

4 – Capacidade de análise
Ler melhora a sua capacidade de analisar e resolver problemas. Ler sobre histórias, ficcionais ou não, irão ajudá-lo a contornar obstáculos da vida real.

5 – Benefícios cerebrais
A leitura é benéfica para o seu cérebro, já que ela desenvolve a concentração, o foco seletivo e a imaginação. Todos esses benefícios ajudam a manter o cérebro saudável e jovem, além de melhorar a memória e prevenir o Alzheimer.

6 – Metas e objetivos
Ler pode ajudá-lo a atingir os seus sonhos, não somente porque você aprende mais coisas lendo, mas também porque a leitura poder inspirar as pessoas. Ler sobre histórias de sucesso faz com que você se sinta mais preparado e motivado para correr atrás dos seus objetivos.

7 – Humanização
Muitos livros possuem o poder de humanizar os seus leitores. A leitura pode humanizar e abrir os seus sentimentos, além de desenvolver a sua empatia.

8 – Outros mundos
A leitura pode mandar você para outros mundos. Tanto literalmente quanto metaforicamente, o livro pode levá-lo para até onde a sua imaginação permitir. Essas experiências fazem com que os horizontes do seu mundo também se expandam.

9 – Pontos de vista
Um bom livro tem o poder de colocar você dentro da pele dos personagens. Dessa forma, você desenvolve a habilidade de ver diferentes perspectivas de uma mesma história. Isso pode ser facilmente utilizado no dia a dia.

10 – Perspectiva
Ler pode trazer novas perspectivas para a sua vida. Um término de namoro ou uma briga com amigos – independentemente do que seja, sempre terá um livro que poderá ajudá-lo nesse momento.

11 – Bom humor
Leitores ávidos costumam ter um nível de estresse bem inferior em relação às outras pessoas. Afinal, livros são ótima forma de fugir da realidade e diminuir o estresse do dia a dia.

12 – Esclarecimento
Pessoas que leem mais votam melhor e possuem ideias mais críticas. Ou seja, a leitura pode transformar você em uma pessoa esclarecida.

13 – Criatividade
Ler diferentes histórias faz com que a sua criatividade seja muito mais potente em comparação às pessoas que não costumam ler. Além de ajudar a criar as suas próprias histórias, a criatividade também é importante em outras áreas da vida, tanto para resolver problemas, como para ter novas ideias.

14 – Autoestima
As pessoas que leem mais frequentemente se sentem mais inteligentes e, por isso, tendem a ter a autoestima mais alta.

15 – Conteúdo
A leitura traz conteúdo útil para as pessoas. Se você quer “puxar assunto” com um desconhecido, que tal falar sobre os últimos livros que você leu? Ou os best-sellers do mercado? Livro é um tema melhor para começar uma conversa do que o capítulo de ontem da novela.

16 – Custo x benefício
Livro é uma forma barata e proveitosa de entretenimento. Ir à biblioteca, inclusive, é de graça. Além do mais, livros demoram mais tempo para serem terminados e a história fica guardada em sua mente por anos.

Escritoras refletem sobre as vozes femininas na literatura brasileira

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Eliane Brum: “Já testemunhei coisas que, em ficção, seriam consideradas inverossímeis”
Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Caue Fonseca, na Zero Hora

Muito mulherzinha.

Eis um comentário que pode ser visto do preconceituoso ao carinhoso, mas que é comum, tanto na boca de homens quanto de mulheres, ao criticar determinado livro de determinada autora. Sempre assim. Sempre no feminino. Sempre no diminutivo.

Às vésperas da 58ª Feira do Livro de Porto Alegre, Donna questionou escritoras e especialistas se faz algum sentido falar em literatura feminina brasileira no ano de 2012. Entre discordâncias e nuanças, se é possível equilibrar-se em um delicado consenso, seria o de que ser mulher já não é um tema por si só. Elas já não se preocupam em dar voz às que não têm. Mas grande parte das mulheres tendem, sim, a compartilhar o interesse sobre determinados temas e, sobretudo, têm uma forma própria de perceber o mundo.

Uma peculiaridade da literatura feita por mulheres no Brasil, apontada por especialistas, é um cânone forte, restrito e muito presente. Grosso modo, é como se os autores homens olhassem para trás e vissem toda a história da literatura. Elas olham para trás e deparam com nomes como Raquel de Queiroz, Clarice Lispector e Hilda Hilst logo ali. Natural, se levado em conta que as primeiras grandes autoras aparecem na década de 40, praticamente ontem. No Brasil, escritoras contemporâneas são galhos ainda muito próximos ao tronco.

– É uma relação estranha. Ao mesmo tempo em que sei que a literatura dessas autoras está presente de uma forma inconsciente na minha, eu já não devo nada a elas. Talvez eu seja da primeira geração que escreve sobre o que bem entender. Sou autora, mas não sou a redentora da minha espécie – declara Cíntia Moscovich, que lança o livro de contos Essa Coisa Brilhante que é a Chuva nesta Feira.

Esse rompimento que não é rompimento é percebido e saudado por Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, ao fazer parte do júri que escolher jovens escritores brasileiros para uma edição da revista literária Granta.

– Tínhamos mulheres excelentes entre os selecionados, mas fiquei surpreso. Nenhuma, mas nenhuma mesmo, “refletia” Clarice. E achei isso um grande alívio. A influência dela não é neste sentido. É no sentido de nos ensinar a ser fiéis a nós mesmos – avalia Moser.

Caçula entre os selecionados para a Granta, aos 21 anos, Luisa Greisler percebe temáticas femininas, mas acredita que elas se ampliam na mesma medida em que a participação das mulheres na sociedade. A mulher já fala de sexo porque faz mais sexo. Já fala de problemas no trabalho porque trabalha. A maior diferença para ela, deu-se no estilo de escrita.

– Há uma série de autoras sem o rebuscamento que se espera de um texto de uma mulher. No meu caso, por exemplo, nos dois prêmios que eu ganhei, concorri com textos sob pseudônimo. As duas bancas ficaram surpresas por eu ser mulher. Acho que esperavam, no máximo, um homem gay – brinca Luisa.

Martha Medeiros, no entanto, ainda vê “uma gordurinha” como característica dos textos de mulheres.

– Elas tendem a decorar, a enfeitar o texto. Mas a literatura é apenas um reflexo. É uma característica da mulher se armar de argumentos e de emoções para tudo – avalia Martha. – E outra: mulheres autoras podem ser extremamente chatas, mas é porque mulheres são chatas, às vezes.

Outro nome gaúcho da Granta, Carol Bensimon, 30 anos, jamais leu Clarice – “mas recém preenchi a lacuna de ler Virginia Woolf e gostei bastante”, redime-se. A autora de Sinuca Embaixo D’Água traz a discussão para dentro do livro. Não gosta de uma literatura que cria uma divisão muito clara entre os sexos dos personagens:

– Meu romance é 90% do tempo narrado por homens, e ninguém veio me dizer “esses narradores não convencem como homens”. Grande parte disso deve-se ao fato de que eles não são narradores machões, não estão envolvidos em mil conquistas… Estão simplesmente vivendo um drama sem gênero (a perda de uma pessoa).

Professora de literatura da UFRGS, Regina Zilberman complementa o raciocínio:

– Além de autoria, vale discutir o que esperar de uma personagem quando ela é mulher.

Se as mulheres trilham caminhos literários diversos, o que ainda as une? Ao esboçar uma resposta, a escritora Monique Revillion cita o escritor moçambicano Mia Couto:

– Ele diz que os homens voltam para casa, e as mulheres são a casa. Essa frase é muito simbólica, e verdadeira. Por acaso estou lendo um livro de contistas brasileiras de diferentes épocas. Muito mudou em termos de estilo, linguagem, audácia… Mas as temáticas continuam muito parecidas: relacionamentos, filhos, amantes, família e suas muitas variantes.

A palavra “relacionamento” se repete entre as autoras. Mas não apenas no sentido romântico da palavra. A literatura se tornaria feminina ao se interessar na forma como as pessoas se relacionam. Uma questão, sobretudo, de sensibilidade.

– Gosto de pensar na literatura como o resultado de algo que mexe no fundo do aquário. Aquilo que sobe é o que te sensibiliza a ponto de tu decidires escrever. O que nos sensibiliza e como nos sensibiliza, talvez seja o que nos aproxima como mulheres – reflete Lya Luft, prestes a lançar seu novo romance, O Tigre na Sombra.

Patrona da Feira passada, a escritora Jane Tutikian traz da experiência das oficinas literárias algumas peculiaridades dos autores homens e mulheres:

– Eles são mais policiados. Se permitem menos falar de sentimentos. Elas, mesmo se tu pegares escritoras de estilos diversos, compartilham um universo só delas.

Ao colocar masculino e feminino em literatura lado a lado, Jane percebe uma diversidade de beleza análoga a um dos seus trechos favoritos, o final de Água Viva, de Clarice Lispector. Passado um dia de enorme angústia existencial, a narradora acorda de madrugada “calma, plena e sem fulminação” ao lado do seu par, e conclui: “Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.”

O mergulho da lagartixa

Graças a um educado alerta por e-mail na véspera, a reportagem de Donna chega ao apartamento no sossegado bairro Pinheiros, em São Paulo, vestindo meias pretas, inteiras e inodoras.

– Aqui em casa a gente tira o sapato na porta. Não me importo com meias furadas, mas sempre aviso. Pessoas já deixaram de me visitar por isso.

É a segunda entrevista com Eliane Brum em uma semana. Na primeira, em Porto Alegre, uma conversa sobre infância, literatura, jornalismo e outras áreas sempre em volta do mesmo tema: a relação com a palavra escrita. A segunda, no apartamento que a jornalista ijuiense de 46 anos divide com o marido, sobre o processo criativo de Uma Duas. O romance é a primeira e elogiada incursão de Eliane na ficção, indicado ao Prêmio São Paulo de Literatura deste ano na categoria de autores estreantes.

– Sentia que, se eu não escrevesse esse livro, algo um dia sairia de dentro de mim. Sei lá, um terceiro braço, aqui na frente – compara, gesticulando como se arrancasse algo do ventre.

Ela é um bocado assim. Braços, unhas, sangue, rabos estão por toda parte no livro e nas falas da escritora. Certa brutalidade que soa especialmente estranha na voz fina e baixa do corpo encolhido no sofá. É difícil imaginá-la, por exemplo, como a jornalista que entrevistou as “Mães Vivas de uma Geração Morta”, título da reportagem sobre famílias de traficantes, uma das tantas matérias barras-pesadas sob a sua assinatura publicadas na revista Época e compiladas no livro O Olho da Rua. Antes, reportagens dos 11 anos em Zero Hora haviam sido reunidas em A Vida que Ninguém Vê.

Como ela se sente em situações como essa? Diante de uma mãe que comprou um caixão para o filho traficante ainda vivo?

– Sou como uma lagartixa. Em cada uma dessas reportagens eu deixo um pedaço de mim. Com o tempo, me regenero.

De duas delas, Eliane ainda se recupera.

A primeira deixou a repórter literalmente traumatizada. Para escrever “O Inimigo Sou Eu”, passou 10 dias em uma colônia de meditação. Ficava em silêncio, na mesma posição, por 12 horas diárias. A consequência, além de um texto surpreendentemente bem-humorado, foi uma coleção de hérnias de disco que hoje a impedem de escrever mais do que poucas linhas com o próprio punho.

A segunda causou marcas ainda mais profundas.

Em 2008, a jornalista Eliane debruçou-se sobre a morte. Enquanto mergulhava no assunto em leituras, entrevistas e filmes, realizava outras duas tarefas: frequentava a Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, uma ala com cheiro de morango dedicada a acalentar, em vez de prolongar, as vidas de doentes terminais.

A segunda parte de sua reportagem seria dedicada a Ailce de Oliveira Souza, uma aposentada diagnosticada com um câncer incurável nas vias biliares. Eliane conversaria com Ailce diariamente, sempre após o almoço, até o dia em que não conversassem mais.

Foram 115 dias de prosa até 18 de julho, quando Ailce morreu fitando a câmera do fotógrafo que acompanhava Eliane. A reportagem foi publicada um mês depois. Passada a experiência, Eliane rompeu com o jornalismo impresso:

– Era um dos meus dramas. Cada página que a matéria perdia, era uma parte da vida dela que eu deixaria de contar.

Foi de Ailce a frase que fez a lagartixa Eliane se mover mais uma vez. “Quando tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado”, disse a ex-merendeira prestes a completar 66 anos. Ao ouvi-la, Eliane perdeu o rabo e correu para o canto da parede em que está até hoje.

Após duas décadas de reportagem, Eliane mudou sua relação com a vida e com o tempo. Para trocar o emprego por liberdade e austeridade, realizou um último sonho de consumo: comprou uma escrivaninha-xerife – “daquelas com chave, que eu nem sabia o nome” – e enfeitou o móvel com miniaturas tão contraditórias quanto a dona. Em volta do notebook e dos dicionários, estão bebês, insetos, bebês-insetos, réplicas de aliens horrendos ombreando personagens fofos de desenho animado.

Diante da escrivaninha, cedíssimo da manhã, Eliane pôs-se a transcrever, entre goles de chimarrão, o que Laura, a protagonista de Uma Duas, tinha a lhe dizer. É assim que Eliane escreve ficção, “possuída por si própria”. Tenta fazer consigo mesma o que fazia com os outros, como jornalista. Ouvir com atenção e reportar. Pouco importa quão duras são as palavras, quão execráveis e íntimos são os sentimentos:

– Às vezes, eu passava o dia enjoada com algo que a Laura tinha feito, ou dito.

Maria Lúcia, a mãe de Laura, não estaria entre os narradores do livro, mas tanto falou ao pé do ouvido da autora, ao travesseiro, que ela viu-se obrigada pela personagem a inserir a sua versão da história, transcrita em uma fonte diferente.

Uma Duas parte de uma questão que, para Eliane, é de toda mulher.

O momento de desvencilhar-se da mãe, de matá-la dentro de si. Eliane, que teve a sua filha aos 15 anos, vê a maternidade como “um grande mito da nossa época”. A mãe da escritora acostumou-se a espalhar que a obra não é autobiográfica.

– Nem no mais cruel dos regimes do tráfico, eu vi desrespeitarem a figura da mãe, pelo contrário. Percebi que o livro autorizou certas confissões de algumas leitoras. E afastou outras, claro. Elas me diziam: te adoro mas não vou ler, eu adoro a minha mãe.

A trama se inicia com um reencontro nas piores condições possíveis: a filha é chamada por vizinhos ao apartamento onde a mãe, abandonada, definha. Odores, excrementos e a assustadora participação de um gato ensandecido de fome completam o cenário. É menos surreal do que parece.

– Já testemunhei coisas que, em ficção, seriam consideradas inverossímeis. Apenas dois andares abaixo de nós, aqui, uma senhora foi abandonada no escuro. Não por não ter dinheiro, mas por não ter como levantar para ir ao banco – conta.

Ailce e a longa incursão jornalística morte adentro também estão nas entrelinhas de Uma Duas.

Na forma como Laura e Maria Lúcia encaram a doença da mãe, está o ponto de vista da autora sobre o que chama de “morte envergonhada”, aquela que se dá em camas hospitalares, em meio a tubos e cirurgias sofridas e inúteis em uma luta inglória.

O direito dos pacientes de decidir sobre as próprias vidas virou bandeira na reportagem e na ficção de Eliane. Após a recente resolução do Conselho Federal de Medicina nessa linha, foi tema da coluna semanal mantida no site de Época. Na rede, a jornalista revelou-se um fenômeno.

– Essa história de que leitores de internet não leem textos longos é mito. E agora tenho números para provar – diz Eliane.

A coluna “Meu filho, você não merece nada”, uma crítica à complacência dos pais com os filhos desta geração, necessitaria de cinco páginas de revista para ser publicada na íntegra. No site, o texto teve 700 mil visualizações. A título de comparação, a tiragem inicial do fenômeno editorial Cinquenta Tons de Cinza, no Brasil, foi de 200 mil exemplares. No Facebook, em que Eliane sequer tem um perfil, a coluna foi compartilhada por mais de 204 mil pessoas.

As colunas – opiniões sobre temas atuais, reflexões sobre a vida ou até peças jornalísticas, como longas entrevistas – são sinais semanais de fumaça de uma Eliane recolhida. Ela que agora se dá o direito de frequentar o cinema à tarde, de viajar no meio da semana ou de ler romances de cabo a rabo até sair murcha da banheira.

Eliane ainda não sabe quando mergulhará novamente para dentro de si “lá nas profundezas, no fundo escuro, onde moram os peixes cegos” em busca de outro romance. Há infinitos lá, garante. Ou quando partirá para outro projeto qualquer. Dependerá de quando a lagartixa sentir-se forte e regenerada para se machucar novamente.

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dica do Jarbas Aragão

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