Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged escritores estrangeiros

O que pode ser cobrado sobre as obras obrigatórias do vestibular?

0
Tem coisa melhor do que ler? ❤ (Beauty and the Beast/Disney/Giphy)

Tem coisa melhor do que ler? ❤ (Beauty and the Beast/Disney/Giphy)

 

#ClubedoLivroGE: professores dão dicas para te ajudar com a leitura. Leia a segunda matéria da série

Publicado no Guia do Estudante

A carga de leitura de quem está prestando o vestibular já é alta só por conta da quantidade de conteúdos disciplinares cobrados nas provas. Além disso, ainda há a lista de livros obrigatórios – só a Fuvest, maior vestibular do país, tem oito obras que são cobradas especificamente. É muita coisa, a gente sabe. E, por isso mesmo, fomos conversar com alguns professores em busca de dicas que possam te ajudar na hora de enfrentar os livros. Mãos à obra?

Todos os professores com quem a gente conversou concordam em um ponto: o contexto. Você precisa saber em que meio o livro em questão foi escrito. “O aluno precisa entender que a arte, de um modo geral, é um produto de uma época sob o olhar do pintor, escritor, entre outros”, explica a professora Elaine Antunes, do colégio Dínamis.

Diogo Mendes, do Descomplica, desenvolve: “No estudo das obras exigidas pelos vestibulares, é muito importante compreendermos o estilo de época no qual elas se inserem. Assim, podemos perceber mais facilmente as motivações políticas, sociais e culturais do escritor. Ao ler Iracema, por exemplo, não podemos ignorar que o espírito nacionalista estava em alta à época, estimulado pelo, então, recente processo de independência. Já em O cortiço, muitos dos preconceitos ali presentes refletem diretamente o pensamento determinista, bastante em voga no período”.

Elaine Antunes acrescenta que a comparação com outros autores do mesmo período pode lançar luz sob as subjetividades do autor, perceptíveis, por exemplo, na sua linguagem e em seu posicionamento ideológico. “É sempre bom comparar com outros escritores da época a fim de entender que uma obra é um olhar a respeito do tempo em que se vive”, ela explica.

Ele também alerta para quando os livros são da autoria de escritores estrangeiros. “Para o estudo dessas obras, é imprescindível o conhecimento do contexto histórico no qual os enredos se desenvolvem, diminuindo as diferenças históricas e culturais que distanciam os vestibulandos brasileiros do que é nelas contado”, diz o professor.

Também vale se atentar para a construção dos personagens. O professor João Jonas, do Colégio Cervantes, enumera: “Os perfis traçados, tanto psicológicos quanto sociais, os retratos de época e os diálogos estabelecidos com questões sociais universais e da época”. Falando em contextualizações históricas, Péricles Polegatto, editor de Linguagens e Códigos dos materiais didáticos da Pearson Brasil, dá outra dica: “É comum que os vestibulares cobrem a relação das obras com algum contexto atual da nossa sociedade”.

Então nunca se esqueça de ficar de olho nos jornais, ok? E também dê uma olhada nas provas antigas para se adaptar ao estilo das questões.

Por que brasileiro não lê autores brasileiros contemporâneos?

1
Da esquerda para a direita: André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz e Eduardo Spohr, autores de literatura fantástica brasileira. Imagem: Divulgação

Da esquerda para a direita: André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz e Eduardo Spohr, autores de literatura fantástica brasileira. Imagem: Divulgação

 

Raphael Montes, em O Globo

Semana passada, fui abordado em uma livraria do Leblon por uma moça que queria ajuda na escolha de um livro de suspense ou de aventura. Entre os lançamentos, recomendei livros do André Vianco e do Raphael Draccon. A moça estava bastante entusiasmada com as indicações até ler a biografia dos autores. Sua expressão mudou subitamente e ela largou os livros com um vigoroso “ai, autor brasileiro não, né?”. Perguntei qual era o problema e ela se defendeu, dizendo que o livro não era para ela e que “dar de presente livro nacional pega mal, né?”. Sem muita paciência, me afastei, mas fiquei observando quando ela pescou um Harlan Coben na prateleira e enfiou-se na fila para pagar.

Dias antes, eu havia dado uma palestra ao lado de diversos autores de literatura nacional. O evento estava cheio e o entusiasmo dos leitores em ter contato direto com autores era evidente. Diante de episódios tão díspares, foi inevitável a pergunta: por que o brasileiro não lê brasileiros? Sendo mais específico: por que brasileiro não lê brasileiros contemporâneos?

Quero falar daquelas obras de gênero (policial, fantasia, chicklit, terror) que disputam com os best-sellers e, vez ou outra, conseguem seu espaço no mercado editorial. André Vianco, por exemplo, chegou na marca de um milhão de exemplares com suas histórias de vampiro — tema bastante explorado em obras estrangeiras também. O mesmo vale para Thalita Rebouças e Paula Pimenta, fortíssimas no segmento jovem. Há romances nacionais para os mais variados gostos, sempre trazendo características e paisagens tipicamente brasileiras, o que torna a identificação com a história muito mais eficaz. Por que, então, os livros estrangeiros ainda têm preferência?

A internet deu voz a diversos potenciais contadores de histórias. A facilidade no contato com os leitores e editoras; a praticidade e a eficácia da divulgação, além de outros recursos que o mundo virtual disponibiliza são os motivos que tornaram mais fácil o surgimento de novos autores — em sua maioria jovens — no mercado editorial. Ao passo que o número de escritores cresceu, a publicação também sofreu mudanças. Sua forma tradicional deixou de ser o único meio pelo qual um livro é editado e posto à venda. Abriu-se um leque de alternativas que vão desde a publicação independente até a premiação em concursos literários. Isso é ótimo, pois aumentou a variedade de temas e deu maior destaque à produção nacional. Ao fazer sucesso, um escritor ajuda não só a si, como a todos que produzem aquele tipo de literatura no país.

Por outro lado, com o crescimento da quantidade de textos publicados, a qualidade diminuiu. Buscando realizar o sonho de ter seu livro à venda, muitos escritores não tomam os cuidados devidos na hora de lançar sua obra no mercado: falta paciência, profissionalismo e comprometimento. Daí, alguns romances chegam às prateleiras mal revisados e mal editados, o que denigre a imagem da literatura nacional de gênero — que ainda está em delicada construção.

Muitas vezes apontada como a vilã da história, a editora precisa ser defendida. A maioria das editoras recebe dezenas de originais por semana, o que torna impossível a cuidadosa avaliação de todos eles. Assim, destacam-se na pilha aqueles que prendem logo nas primeiras páginas e que trazem uma proposta bem feita, sem erros graves de gramática etc.

Uma vez editado, o romance brasileiro entra em uma verdadeira selva, disputando atenção e espaço com best-sellers estrangeiros que já chegam ao país com a onda do sucesso. Como todo negócio, as editoras precisam sobreviver financeiramente. Por isso, costumam investir pesado na produção, na distribuição e na divulgação dessas obras internacionais. São títulos que já deram um retorno positivo em outros países e, provavelmente, trarão bons números por aqui também. Vencer esta barreira de marketing para chegar ao leitor brasileiro é um grande desafio ao escritor nacional.

Nesse sentido, os blogs e canais literários são essenciais para a divulgação de um livro. Essas plataformas apresentam lançamentos e resenhas que geram uma repercussão inimaginável junto aos leitores. Quando uma rede de leitores especializados elogia um romance, a propaganda se difunde rapidamente na rede. Além disso, a internet facilita o contato direto entre escritores — principalmente nacionais de gênero — e blogueiros. Há vantagens para os dois lados: para o escritor, que acompanha de perto o retorno sobre sua obra; para o blogueiro, que pode trocar ideias e fazer entrevistas.

Infelizmente, alguns blogs acabam esquecendo que seu principal papel é difundir o gosto pela leitura. Muitos se deixam levar pelo sistema de parcerias (ganham livros de autores e/ou editoras para sortear) e acabam baixando a qualidade ou simplesmente deixando de comprar obras — uma vez que recebem quase todas de graça. A mim, isso parece uma inversão de papéis.

Por fim, claro, os leitores. Como os títulos brasileiros não costumam receber maior atenção da imprensa, o boca a boca acaba sendo responsável pela quebra do preconceito que muitos leitores têm com obras nacionais. Além disso, o leitor é a força maior que leva um escritor a se dedicar ao seu romance. Sem leitores não há escritores. É essencial que todos juntos se dediquem a criar uma literatura brasileira de gênero cada vez mais especializada e bem difundida entre nós. Vamos em frente?

Go to Top