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Por que o Brasil nunca ganhou o Nobel de Literatura? Mas ele merecia um?

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Quadro de Militão dos Santos.

Quadro de Militão dos Santos.

Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Por que o Brasil nunca ganhou um Nobel? Essa pergunta sempre ressurge em outubro, quando a Academia Sueca anuncia os vencedores do ano nas seis categorias do prêmio: Física, Química, Medicina, Literatura, Ciências Econômicas e Paz. Bom, como ninguém sabe exatamente quais são os critérios adotados por aqueles que escolhem os premiados, posso especular os motivos pelos quais ninguém do país foi agraciado até aqui – focarei na Literatura, mas os pontos podem ser estendidos para as outras áreas nobelizáveis, creio.

A primeira questão é a nossa língua. Apesar de o português, língua nativa de mais de 250 milhões de pessoas, ser o sexto idioma mais falado do mundo, apenas 10,3 milhões dessa gente está em um país mais ou menos central no panorama global, em Portugal. E digo mais ou menos central porque está na Europa, mas longe de ter a mesma relevância de uma Alemanha, França ou Itália – consequentemente, a língua passa a ter impacto menor do que, respectivamente, o alemão, o francês ou o italiano.

É sabido que um autor finlandês, por exemplo, prefere ter seu livro traduzido para o alemão, francês ou italiano. Isso porque estar nessas línguas aumenta as chances dele ser visto como um escritor incontornável – basta ver Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Gabriela Mistral e outros premiados latino-americanos que escrevem ou escreviam em espanhol, idioma também de relevância considerável. Claro que há premiados do Nobel que escreviam em línguas “menos badaladas”, como o egípcio Naguib Mahfouz (árabe) e, óbvio, José Saramago, o único a levar o galardão cunhando palavras em português, mas esses são exceções.

Junte a língua à posição global do Brasil e o problema aumenta. Se o português não é uma língua central, tampouco somos um país que chama grande atenção no globo – em que pese continuarmos entre as maiores economias da Terra, ninguém liga para o que acontece no pasto. Principalmente em termos culturais, ainda nos veem por aí como uma caricatura: samba, carnaval… Isso faz com que seja ainda mais difícil notarem nossas virtudes literárias, que obviamente existem.

Exemplos de brasileiros que poderiam ter levado o Nobel? Jorge Amado (talvez o que tenha chegado mais perto por conta do sucesso que ainda faz no exterior), Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos e Ariano Suassuna. Dentre os vivos (e, portanto, virtualmente na disputa), Lygia Fagundes Telles, cogitada há algum tempo, e o outrora recluso Raduan Nassar são opções consideráveis. Todos esses nomes são escritores melhores do que Svetlana Alexievich, por exemplo, a premiada em 2015. No entanto, vale lembrar que diversos gênios das letras jamais foram agraciados pela Academia Sueca, como Jorge Luis Borges, Liev Tolstói, Marcel Proust, Virginia Woolf e James Joyce.

O Brasil merece um Nobel de Literatura?

O prêmio é entregue a escritores, não a países – em que pese a língua e a nação ajudarem e evidenciar ou ocultar esses escritores. Apesar disso, quando alguém ganha o Nobel, automaticamente é dito que o prêmio foi para tal país. Sim, já disse que temos autores que mereceriam o galardão, mas agora mudo ligeiramente a pergunta: o Brasil é um país que merece o Nobel de Literatura?

Apesar de dados indicarem que mais da metade da nossa população tem o hábito de ler livros, o que vemos na prática não costuma corresponder aos números. Além disso, quase 50% desses que dizem ler costumam ter a “Bíblia” como leitura. A tiragem de livros literários no país – que gira em torno de 3000 exemplares ou menos – dá uma dimensão melhor de como o brasileiro se relaciona com tal arte. Não bastasse, o governo vem investindo cada vez menos na área e anunciou há pouco que não fará editais para a compra de obras literárias para escolas e bibliotecas em 2018. Dito isso, repito: o Brasil é um país que merece o Nobel de Literatura?

É algo que extrapola a premissa do prêmio em questão – que, recordo, teoricamente congratula o trabalho do indivíduo, não o que está ao seu redor -, mas me parece que somos um país mais preocupado em ter por ter um Nobel do que em conquistá-lo, do que em merecê-lo. Mesmo com esse cenário calamitoso, não há dúvidas de que nossos políticos se aproveitariam de um galardão desses para tentar vender a ideia de um país de leitores e altamente preocupado com as artes – o que, até pelos últimos medievalismos envolvendo museus, sabemos ser mentira. Olhando por esse aspecto, por ora é até melhor que o Nobel fique longe do Brasil.

Para escrever melhor, é preciso ler melhor. O que isso significa?

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Estudo identificou que textos considerados “melhores” eram sempre produzidos pelos alunos que liam diários e publicações acadêmicas, ficção literária ou não-ficção - Foto: Caleb Roenigk/Creative Commons

Estudo identificou que textos considerados “melhores” eram sempre produzidos pelos alunos que liam diários e publicações acadêmicas, ficção literária ou não-ficção – Foto: Caleb Roenigk/Creative Commons

 

Pesquisadores descobrem que leituras mais complexas produzem escritores melhores. Mas ‘escrever bem’ é um conceito subjetivo

Ana Freitas, no Nexo

“Leia e escreva mais” costuma ser o conselho base para aqueles que questionam qual a melhor estratégia para aperfeiçoar a habilidade de escrever. O senso comum diz até que não importa o que um jovem estudante leia, contanto que ele esteja lendo, já que isso seria fundamental para consolidar o hábito de leitura.

Em maio de 2016, pesquisadores da área de negócios e administração de várias universidades norte-americanas resolveram investigar os hábitos de leitura de estudantes universitários e compará-los à qualidade dos textos desses estudantes.

O estudo foi publicado pelo “International Journal of Business Administration” e identificou que a leitura é um fator mais importante na determinação de uma escrita de melhor qualidade do que os exercícios de redação, por exemplo: os materiais considerados “melhores” eram sempre produzidos pelos alunos que liam diários e publicações acadêmicas, ficção literária ou não-ficção.

Depois deles, vinham os estudantes que liam ficção, fantasia e mistério. Por último, o estudo concluiu, ficaram os jovens alunos cujos hábitos de leitura se limitavam a conteúdo leve, produzido para a web, como o de sites como Buzzfeed, Reddit e Tumblr.

As descobertas ecoam as recomendações da escritora Susan Reynolds, autora do livro “Fire Up Your Writing Brain: How to Use Proven Neuroscience to Become a More Creative, Productive, and Successful Writer” (“Acenda seu cérebro de escrita: como usar neurosciência comprovada para se tornar um escritor mais criativo, bem-sucedido e produtivo”), lançado em 2015.

Em seus artigos e no livro, ela costuma recomendar o que chama de “deep reading”, “leitura profunda”, para quem deseja escrever “melhor”. Reynolds se refere, segundo ela, a textos que exijam leitura lenta, imersiva, que sejam ricos em detalhes sensoriais, complexidade emocional e moral.

O que é escrever melhor?

O estudo atribuiu classificações mais altas de qualidade para textos de acordo com a complexidade da frases. Frases com sintática mais sofisticadas foram observadas entre os leitores de textos acadêmicos, não-ficção e ficção literária, e portanto, esses foram considerados os melhores escritores.

Essa definição, no entanto, não dá conta da subjetividade contida em avaliar uma boa escrita. Talvez se aplique a textos destinados à produção acadêmica; mas a definição de ‘escrever bem’, geralmente, varia de acordo com o público alvo do texto e o propósito dele.

Professores de língua portuguesa do ensino fundamental defenderiam que “escrever bem” é conseguir compôr textos usando todos os elementos da norma culta; mas esse critério tiraria da lista de bons escritores José Saramago, por exemplo. O mais proeminente escritor contemporâneo em língua portuguesa tem livros inteiros sem vírgula ou ponto final, por exemplo.

“A qualidade do que é ‘bom’ em literatura, como em qualquer arte, jamais pode ser colocada em termos absolutos. Agora, sobre ‘escrever bem’, é possível avaliar objetivamente se um texto não tem erros de gramática, ortografia e estilo. Ainda assim, um livro pode ser bem escrito e ser uma obra absolutamente irrelevante”, reflete o escritor João Paulo Cuenca, que tem cinco livros publicados e é colunista do jornal “Folha de S. Paulo”.

Na técnica jornalística, costuma-se avaliar que “escrever bem” está relacionado com a habilidade de redigir frases curtas, diretas, claras, com vocabulário preciso, mas nunca desnecessariamente sofisticado.

O escritor norte-americano Mark Twain, autor de “As Aventuras de Tom Sawyer”, é considerado um dos maiores escritores de língua inglesa de todos os tempos. Ele é conhecido pelos inúmeros conselhos e dicas sobre escrita, compilados a partir de cartas em resposta a admiradores, fãs e leitores.

As orientações são levadas em conta até hoje por entusiastas da escrita em língua inglesa. Mark geralmente destacava que, para escrever bem, era necessário “matar os adjetivos”. “Escreva ‘pra caralho’ todas as vezes que você estiver inclinado a escrever ‘muito’; assim, seu editor vai deletar o termo e sua escrita vai ficar ótima”, diz uma famosa recomendação bem humorada creditada a ele.

“Eu notei que você usa linguagem simples e direta, palavras curtas e frases breves. É assim que se deve escrever em inglês – é a maneira moderna e a melhor maneira. Continue assim; não deixe as firulas, enfeites e verborragia se aproximarem. Quando der de cara com um adjetivo, mate-o. Não, não quero dizer completamente, mas mate a maioria deles – e aí os que sobrarem serão valiosos. Eles se enfraquecem quando estão próximos. Ganham força quando estão distantes. Quando o hábito de usar adjetivos, ou de ser ‘palavroso’, difuso, cheio de firulas, domina a pessoa, é difícil de abandonar como qualquer outro vício.”

Mark Twain, em carta a um estudante em 1880

A conclusão: não há dúvidas de que ler mais e melhor contribua para fazer um leitor se tornar um escritor mais completo. Escolher a ‘melhor’ leitura para um aspirante a escritor, no entanto, é uma tarefa mais subjetiva. Depende do tipo de escritor no qual ele quer transformar-se.

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