Publicado em O Tempo

O tom de voz de Stepan Nercessian adquire um acento, digamos assim, mais leve, até mesmo brincalhão, quando ele revela à reportagem do Magazine que finalmente escutou a frase que sempre sonhou adentrar seus ouvidos: “Não consegui parar de ler”. O comentário veio de um leitor e descrevia a reação dele ao primeiro fruto da nova faceta ativada pelo ator: a de escritor.

E não, não foi uma decorrência da pandemia. “Garimpo De Almas” (Tordesilhas Livros), que marca a estreia de Nercessian na literatura, foi escrito entre 2018 e 2019 – embora ele localize um embrião dessa empreitada uns anos antes. A obra, vale dizer, é o foco da edição desta quarta-feira do projeto Sempre um Papo, que adiciona uma novidade ao formato: além do mediador Afonso Borges, o encontro – marcado para às 18h, com acesso gratuito, nas redes sociais do projeto – vai contar, ainda, com as presenças de dois colegas e amigos de Stepan, os também atores Paulo Betti e Antonio Grassi – atual diretor-executivo do Instituto Inhotim.

Embora esteja debutando agora na senda literária, na verdade, o flerte de Stepan com a escrita vem de longa data. Hoje com 67 anos, o goiano (de Cristalina, filho de pai armênio e mãe cearense) lembra que foi trabalhar muito cedo na redação de um jornal, “convivendo com jornalistas e escritores”. “Aquele universo, aquele mundo, me fascinava. Mas depois fui tocando a vida por outros caminhos – até escrevendo uma coisa ou outra, mas sem pretensões. Quando tentei voltar a escrever de fato – e até já tinha esse título, ‘Garimpo de Almas’, na cabeça -, acabei, por acidente, perdendo quase tudo no computador. Sobraram umas dez páginas”, conta. A semente, porém, estava plantada. “No curso do tempo, eu até quis partir para outras escritas, mas não conseguia. Empacava. Acho que alguma coisa me cobrava, era meio que: ‘tenho que terminar aquilo’. Aí, um dia falei: ‘Chega, preciso resolver isso para escrever outras coisas’. E fui terminar ‘Garimpo’. Até aproveitei um pouco do que tinha na memória (das tais páginas perdidas), mas 95%, foi mesmo acontecendo na hora”.

Livro editado, Stepan se deparou com um sentimento inusitado: a ansiedade. “Porque livro não é igual ao teatro, por exemplo, quando a gente consegue ver, medir a reação das pessoas ali, na hora”. Quem tratou de acalmá-lo um pouco foi sua agente, Valéria. “Sim, eu tenho até agente, agora”, brinca ele. “Ela me disse: ‘Stepan, acalma e vai se preparando, porque o tempo da literatura é totalmente diferente. Cada livro tem um tempo de acontecer, uns mais rapidamente, outros mais lentamente'”, reconta.

Mesmo assim, ele festeja os feedbacks que já aferiu de nomes como o do cineasta Cacá Diegues, com quem tantas vezes trabalhou – aliás, o diretor acabou assinando o prefácio. “O Cacá foi das primeiras pessoas que leram. Mandei no rascunhão para ele, que foi muito gentil, me respondeu com umas dez, 15 páginas de e-mail analisando parte a parte. Me incentivou muito, tanto que depois fez o prefácio. E minha irmã mais velha também, que é bastante entusiasta de literatura. Acompanhou tudo e me incentivava”. O jornalista Rodrigo Fonseca, do “Estado de S. Paulo”, chamou o livro de a “primeira joia da literatura brasileira a ser descoberta na prosa em 2021”.

O título – que, como dito, ficou cravado desde a primeira investida – reverbera um senso de procura. “Uma garimpagem mesmo. No livro, há a frase: ‘Não sei até que ponto garimpo ou sou garimpado pelas almas’. Na verdade, penso no mundo como um garimpão enorme de vidas, histórias, pessoas. No geral, parece tudo uma coisa só, mas, na verdade, cada alminha tem uma história, uma vida. Então, há esse significado de buscar preciosidades, ir atrás de alguma coisa de valor humano dentro desse garimpão enorme que é a vida. Fico pensando nas tantas pessoas e almas que querem falar, contar histórias, se tornar visíveis… Essa foi a minha imaginação e o personagem é isso, um cara que fica atormentado, atordoado, com a quantidade de almas que o procuram querendo falar através dele”.

Evidentemente, embora esteja na esfera da ficção, Stepan reconhece o quão de suas vivências está ali. “Não me baseei na realidade, mas tudo o que está ali veio de dentro de mim, as emoções, sentimentos. Estavam pedindo para sair – no caso, pela literatura, mas poderia ser por outra forma de expressão artística. Aliás, acho que por isso as pessoas se identificam. Tem gente que me diz: ‘Ah, parecia eu’, ou ‘parecia minha avó'”.

Stepan ressalta, ainda, outro ponto que descobriu no ato de escrever, e que chama de fascinante: “Na escrita, o primeiro combate que você trava é justamente contra a auto-censura. É preciso ter a coragem de botar para fora, se expor, se mostrar. Ocorre que quando você não deixa que o seu racional vá te tolher, você pode se deparar com aspectos de sua personalidade que nem sempre são agradáveis ou os quais você admita com facilidade”, elocubra.

Seja como for, Stepan admite que o bichinho da escrita o picou de vez. Tanto que já tem quatro projetos de livros em mente. “Quando terminei esse, escrevi um outro, também antes da pandemia. Um ensaio, uma coisa sobre teatro, como se fosse uma peça, que se chama ‘Até Talvez Teatro’. Aliás, uma curiosidade: as pessoas que leram ficaram intrigadas, porque escrevi antes de tudo isso e a história se passa num teatro do qual, de repente, ninguém pode mais sair. Porque vai cair uma chuva ácida e as pessoas terão ficar ali, por tempo indeterminado. Quando a pandemia chegou, em março (do ano passado), parei de escrever ficção. E de repente comecei a me expressar com o que chamo de ‘poemas’ – veja, eu tenho muita reserva em falar que estou escrevendo romance ou fazendo um poema, porque eu não sei nem qual o modelo. Mas colocava nas redes sociais e as pessoas gostavam, diziam que estavam ajudando-as. Cheguei a fazer dois por dia, até três, de março a setembro. Na verdade, colecionei aí quase 100 poemas. Pode ser que eu os junte e, aí, faça uma avalição (do material) se vale a pena ser editado”.

Na sequência, ele voltou ao gênero romance. “Estou escrevendo um com o título ‘Casa Amarela’, mas, confesso, não com assiduidade. Aliás, até com certa dificuldade, inclusive porque veio o lançamento desse livro, o que te mobiliza. Não é que tome um tempo, mas é a ansiedade, pensar qual o destino da obra, como vai acontecer. É todo um tempo. Mas acho que até julho, agosto, no máximo, termino esse também”.

Por último, mas não menos importante, o quarto projeto se chama “A Arte de Pedir – Guia Prático para Inadimplentes e Negativados”. “Na verdade, agora vou acrescentar um outro capítulo: ‘e Confinados’. Pode até ser que esse livro possa ser visto assim, como mais alegre, mas, na verdade, trata de um tema muito triste que é a pressão econômica sobre os indivíduos”.

A história gira em torno de um sujeito que escreve um livro de auto-ajuda. “Ele nem faz questão que o leiam, só precisa mesmo que comprem. E pede para quem o adquirir não emprestar a ninguém, para não atrapalhar seu negócio. Mas, de toda forma, ensina a sobreviver diante do sufoco, dá dicas de como pedir dinheiro à mãe ou ao amigo, fala da arte de escolher um padrinho para o filho – porque, afinal, filho é investimento. Ao mesmo tempo, faço uma volta sobre essa questão da economia mundial, do mercado”.

Evidentemente, apesar de tangenciar a economia global, a obra tem muito a ver com o Brasil. “Uma coisa que considero importante ressaltar é o tanto de gente falando que a situação do Brasil ficou ruim por conta da pandemia. Não concordo. Estava péssimo e ficou horroroso. Está todo mundo num sufoco danado! É desemprego, falta de dinheiro… Todo mundo sofrendo o pão que o diabo amassou. Aí, olha ‘descobriram’ os invisíveis. Ora! Só se for invisíveis para quem não queria ver, pois eles estavam aí, há tempos, nas calçadas, na vida da gente. O tempo todo. Então, (a obra) tem essa perspectiva”.

Sobre a pandemia

Perguntado sobre que sentimentos o assolam nesta pandemia, Stepan responde com sinceridade. “Olha, são os mais controversos, ao mesmo tempo em que você sabe que está tudo horrível, precisa dizer que está tudo bem, pois você não quer contribuir para enterrar mais a esperança, tem que lutar para mantê-la. Então, o que aconteceu comigo é que eu vinha nesse embalo (da escrita), quando terminei este, escrevi o que falei, sobre teatro”.

Na prática, sua agenda sofreu um duro golpe. “Como disse, as coisas já não vinham bem, dificultando muito a realização (de projetos). Eu tive três trabalhos cancelados, um atrás do outro. Hoje, sou praticamente sustentado pela minha mulher, comercialmente, porque, de repente, eu me vi sem trabalhar, sem contrato, sem nada. Dá uma insegurança – e olha que eu tenho um mínimo de boa estrutura. Isso só me leva a imaginar o que as outras pessoas estão passando. É triste dizer o que vou falar, mas talvez os muito pobres, inacreditavelmente já estejam até habituados a viver com a ausência e as dificuldades, (o que estamos vivendo hoje) seria apenas uma continuidade da vida dele”.

No que tange à TV, ele lembra que no dia anterior à entrevista foi avisado da suspensão das gravações da minissérie na qual estava fazendo uma participação, “Cine Holliúdy”. “Chegamos a gravar, fazendo os testes (para detectar infecção pelo novo coronavírus), mas, mesmo com todo um protocolo, devido ao agravamento da situação no país, decidiram suspender por ao menos mais 15 dias, inclusive para ver o que acontece. O que penso é que tudo está na corda bamba sem uma rede protetora – portanto, uma sensação muito ruim. Isso prejudica até falar sobre projetos. Porque projeto é projeção, é ‘vou fazer isso lá na frente’. Como, agora, se as coisas a toda hora são paralisadas? Tem muita gente fazendo lives, etc, mas não é bem o meu caminho. Ou seja, eu tinha novela, teatro, dois filmes, seriado… Agora, vamos ver. Mas não dá para fazer nenhuma previsão”.

Ativista e com atuação política notória, inclusive como vereador e deputado, Stepan diz que participar de novos pleitos não está no seu radar. “Me refiro a essa política clássica. Não me vejo mais, não tenho essa pretensão. Eu tive uma relação de muito amor com a política, e ainda considero ela importantíssima. Apesar de estarmos passando por momento tão tenebrosos, ela é fundamental na organização social, na vida das pessoas. Mas o modelo não me atrai mais. Foi uma volta perceber que talvez com o meu trabalho, com a minha arte, eu vá conseguir fazer mais a política na qual eu acredito que no legislativo. Enquanto estive (nela), foi muito verdadeiro e tudo muito forte, no final, porém, já estava assim, meio desconfiando se o que estava me levando (em frente) era o ideal político ou se eu já não estaria me acomodando, quase me tornando quase um político profissional. Um mandato e mais um mandato. Então, quando eu entrei, segui o meu ânimo, quando saí, eu segui o meu desânimo”.

Atualmente, ele diz estar triste com o quem vem assistindo e confessa entender que vai ser preciso se organizar em defesa da democracia. “No meu ponto de vista, a nossa maior ameaça hoje é em relação ao regime democrático. Acho que o que vivemos, em um certo sentido, é até pior que na ditadura, eu poderia dizer. Porque a ditadura tem uma face bem definida: é uma ditadura. Agora, esse processo que está acontecendo hoje é uma distorção da democracia. As pessoas são eleitas democraticamente e, uma vez chegando (ao poder), tentam destruir esse sistema que as levou até ali. Isso é muito triste. Você tem que respeitar os ideais contrários , mas como, se ele começa a mostrar uma face obscura, extremamente perigosa e negativa, no que diz respeito à vida humana, à liberdade de pensamento e de expressão, todas essas bandeiras que a gente defende há anos? Coisas que defendemos com muita força, muitas lutas e às custas de muitas vidas e da dedicação de tantos bons brasileiros para conseguir a redemocratização do país. E de repente, você vê tudo ameaçado de novo. Democraticamente ameaçado”.

#SempreUmPapoEmCasa com Stepan Nercessian, Paulo Betti e Antonio Grassi

Dia 24 de março, quarta-feira, às 18h

Local: Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo

Informações: www.sempreumpapo.com.br