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Eles publicaram os próprios livros e descobriram não precisar de editoras

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Autopublicação, que atrai até famosos como Paulo Coelho, ganha espaço com crise do mercado editorial. Autores mais lidos de plataformas como o Kindle chegam a ganhar 50.000 reais em um mês

Rodolfo Borges, no El País

John Kennedy Toole ganhou o prêmio Pulitzer de ficção de 1981 por A Confederacy of Dunces (Uma confraria de tolos), mas não pôde celebrar. Doze anos antes, o autor do livro que se tornaria uma referência de Nova Orleans tinha tirado a própria vida, sem conseguir lidar com a rejeição do editor Robert Gottlieb a sua obra. A trágica história de Toole, conhecida porque sua mãe persistiu anos depois no projeto de publicar o livro, soa distante numa época em que é possível publicar livros por conta própria sem qualquer custo — e quando fazê-lo pode ser até melhor (e mais rentável) do que aguardar por editoras que possivelmente não teriam tempo ou dinheiro para sequer avaliá-los.

A economista Eliana Cardoso, já com dois livros de ficção publicados pela Companhia das Letras, chegou a buscar uma editora para publicar o terceiro, Dama de paus. Diante da negativa, partiu para o Kindle Direct Publishing (KDP), plataforma de autopublicação da Amazon que chegou ao Brasil em 2012. Meses depois, a escritora recebeu a notícia de que tinha ganhado o concurso anual promovido pela gigante do varejo desde 2016 no Brasil. “É um luxo ter o livro revisto e editado por uma grande editora. Por outro lado, a autopublicação através do KDP é uma saída espetacular”, celebra Cardoso, que embolsou o prêmio de 30.000 reais e verá seu livro impresso pela editora Nova Fronteira. Ela conta que o aplicativo de edição disponibilizado pela Amazon é muito fácil de usar, que o processo não apresenta nenhum custo para o autor e que cabe a ele definir o valor a ser cobrando, do qual ele pode ficar com até 70% do preço de capa — as editoras costumam repassar cerca de 10% para seus autores por livros físicos e 25% pelos digitais.

O negócio é tão bom que até escritores de grande sucesso, como Paulo Coelho, publicam seus livros pela plataforma. Enquanto a Companhia das Letras distribui seus livros físicos no Brasil, os e-books são vendidos diretamente pela Amazon em todo o mundo (com exceção dos EUA), o que lhe permite ficar com 35% do valor de cada volume, já que a venda não é exclusiva da Amazon. Gerente para o KDP da Amazon no Brasil, Talita Taliberti destaca que outros sucessos literários, como Mário Sergio Cortella e Augusto Cury, também já publicaram pela ferramenta, e diz que da lista dos 100 livros mais vendidos pela empresa no Brasil, em torno de 30 costumam ser de autopublicação.

Entre eles dificilmente não estará um livro de Nana Pauvolih, uma professora que trocou as aulas de história pelo sucesso literário (e financeiro) em 2013. Em seu segundo mês de KDP, a autora de literatura erótica já ganhava mais do que nos seus dois empregos como professora, nas redes pública e privada do Rio de Janeiro. O sucesso de livros como A coleira e de séries como Redenção acabou chamando a atenção da agente literária Luciana Villas-Boas, que fez a ponte da autora com editoras como Rocco e Planeta, que hoje publicam suas obras. Sete anos depois de começar a publicar suas histórias em blogs, Pauvolih conta 29 livros, 25 deles autopublicados, e mais de 100.000 e-books vendidos — além disso, a mencionada série Redenção está para virar minissérie da Rede Globo.

Autores de sucesso como Nana Pauvolih podem ganhar até 20.000 reais mensais, com picos de 50.000 reais em um bom mês de lançamento, mas precisam se empenhar na divulgação das próprias obras, ressalva Janice Diniz, outra autora independente de sucesso. Ex-professora de português, a autora de livros sobre histórias com cowboys como Casamento sem amor calcula em cerca de 48 os seus títulos publicados. “Publico mês sim, mês não. Só no último ano [2018], quando tive de escrever para a Happer Collins, que eu fiquei três meses sem publicar”, conta.

Hoje, Diniz publica pelo selo Harlequin da editora, com quem tem contrato até 2020, mas diz que vive bem desde 2015 apenas com os rendimentos da autopublicação. “Peguei todas as fases do preconceitos. De autora independente, em relação à literatura erótica e ao livro digital”, lembra a autora, que começou sua carreira literária pagando para imprimir seus livros. “Era inviável. Não tinha lucros, só gastos. E eu ainda comecei com uma trilogia. Tinha de manter um estoque dos dois primeiros e ainda pagar pela impressão do terceiro”, conta. Ela estava quase desistindo de se tornar escritora quando surgiu a possibilidade de publicar em meio digital.

Hoje, Janice Diniz conta com o auxílio de três amigas para administrar os cerca de 100 grupos de Facebook utilizados para divulgar sua obra, que, para ela, está acomodada confortavelmente na plataforma de publicação da Amazon. A escritora diz que até tentou utilizar outra opção, a Kobo Writing Life, mas o fato de os valores das vendas serem repassados aos autores apenas duas vezes por ano a afastou — já o KDP repassa os valores mensalmente e ainda remunera os autores por página lida, a partir de um fundo global que hoje gira em torno de 88 milhões de reais. A eficiência da Amazon, cujo serviço de venda direta chegou ao Brasil neste ano, contrasta com a crise do mercado editorial brasileiro.

Mercado editorial

No ano passado, Saraiva e Livraria Cultura, duas da maiores redes de varejo de livros do país pediram recuperação judicial — a Cultura, aliás, é a representante da plataforma Kobo no Brasil. O mesmo ocorreu com a distribuidora BookPartners. Além disso, a rede de livrarias Laselva, que tinha pedido recuperação judicial em 2013, enfim decretou falência em 2018. A crise obviamente reverbera nas editoras, que não recebem os pagamentos devidos. Quando pediu recuperação judicial, a Saraiva informou à Justiça ter uma dívida de 675 milhões de reais.

Foi nesse contexto que a editora Cosac Naify fechou as portas melancolicamente em 2015. Um ano depois, em mais uma demonstração de força, a Amazon comprou parte do passivo, de 230.000 livros, e poupou a falida editora do fardo de estocá-los, mas não do desconforto de lidar com as notícias de que a outra parte do acervo teria de ser destruída e transformada em aparas.

Ao lamentar em seu blog os “dias mais difíceis” para os livros no Brasil, o presidente do Grupo Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, escreveu em novembro do ano passado que “as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos” por conta da crise nas redes de livrarias. “Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos”, escreveu o editor, acrescentando linhas depois: “Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que não tinha como garantir”.

Numa situação dessas, não é de se espantar que um autor estreante como J. L. Amaral tenha buscado refúgio na autopublicação. Após trabalhar 20 anos como bancário, esse publicitário por formação resolveu parar tudo para tentar uma carreira literária. Em janeiro de 2017, enviou seu Entre pontos para cinco editoras. Em setembro daquele ano, como não tinha recebido nenhuma resposta, resolveu publicar o livro por conta própria, no KDP. Três meses depois, estava entre os finalistas do Prêmio Kindle daquele ano. “Enquanto o mercado não se estabilizar, vai ser difícil ter um espaço à sombra”, constata o autor, que publicou Borboletas azuis pela mesma plataforma no ano passado e, enquanto escreve o terceiro livro, tenta aprimorar sua formação como escritor e roteirista.

Em contraste com as redes físicas de livros, os ambientes virtuais têm celebrado crescimento. A Amazon não revela seus números, mas só no prêmio promovido neste ano foram 1.500 livros inscritos. O Clube de Leitores, que permite publicar livros digitais e físicos, diz lançar 40 obras por dia em sua plataforma e celebrou no ano passado um crescimento de 30%, como registra o portal Publishnews. A Bibliomundi, outra plataforma digital, publicou 931 livros no ano passado e diz que dobrou seus registros de autores independentes. São poucos, contudo, os que conseguem andar com as próprias pernas no mundo da literatura. Eliana Cardoso, que ganhou o último Prêmio Kindle, confessa expectativa quando à relação que pode vir a desenvolver com a Nova Fronteira após a publicação de Dama de paus, mas seu próximo projeto literário, um livro infantil, já tem destino certo: o Kindle Direct Publishing. “A Nova Fronteira não está trabalhando nesta área, e o KDP oferece um aplicativo só para livros infantis”.

Em novo livro, Stephen Hawking dá breves respostas a grandes perguntas

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Foto: Flickr/Charis Tsevis)

 

Publicado na Galileu

Deus existe? O que há dentro de um bruaco negro? É possível viajar no tempo? Essas são algumas das perguntas mais feitas à Stephen Hawking ao longo dos anos em que o físico se dedicou à ciência. E como bom divulgador da mesma, ele tentou responder a cada uma delas em um livro que, infelizmente, não conseguiu finalizar antes de sua morte, no dia 14 de março de 2018, aos 76 anos.

Seu filhos e colegas acadêmicos, por outro lado, conheciam bem o cosmólogo e sabiam que ele se alegraria com a publicação de Brief Answers to the Big Questions — o que aconteceu na terça-feira, 16 de outubro. Com a ajuda da família e dos amigos de Hawking, a obra foi finalizada com as memórias do autor e lançada pela editora norte-americana Bantam Books.

Confira abaixo algumas perguntas respondidas no livro e um breve resumo das visões de Hawking sobre elas:

Edição norte-americana de Brief Answers to the Big Questions (Foto: Bantam Books)

Deus existe?
O físico diz que a explicação mais simples é a de que Deus não existe e que não há evidências confiáveis de que haja vida após a morte mesmo que as pessoas possam viver através da sua influência e dos genes.

Como tudo começou? Há outros tipos de vida inteligente no universo?

Apesar de serem completamente diferentes, Stephen Hawking tem uma previsão semelhante para ambas questões. Segundo o físico, teremos a resposta para elas nos próximos 50 anos.

Nós sobreviveremos na Terra?

Para Hawking, a raça humana terá que melhorar suas qualidades mentais e físicas, mas a criação de super humanos geneticamente modificados — com uma memória melhor e mais resistentes a doenças — seria capaz de pôr em risco a vida dos outros.

Além disso, o cientista acreditava que, quando nos dermos conta do perigo representado pelas mudanças climáticas, já será tarde mais.

Edição britânica de Brief Answers to the Big Questions (Foto: John Murray)

Deveríamos colonizar o espaço?

Em novembro de 2016, o físico já havia afirmado que deveríamos deixar o planeta nos próximos mil anos. No início de 2017, ele tirou 900 anos do nosso prazo e disse que estava convencido de que isso deve acontecer dentro do próximo século.

Em seu novo livro, Hawking reafirma que não há outra opção senão deixar o planeta, arriscando a “aniquilação” da humanidade se isso não ocorrer.

A inteligência artificial irá nos ultrapassar?

Hawking acredita que sim, a inteligência das máquinas ultrapassará a nossa no próximo século e pode substituir a humanidade. Por isso, “precisaremos nos assegurar de que os computadores têm objetivos alinhados aos nossos’, escreve o cosmólogo na nova obra.

Como nós moldamos o futuro?

Segundo sua filha, a jornalista e escritora Lucy Hawking, uma das maiores preocupações de Stephen era a de que, “em uma época em que os desafios são globais, estamos nos tornando cada vez mais locais na nossa forma de pensar.”

Entre outras questões, em Brief Answers to the Big Questions Hawking também tenta responder o que há dentro de um buraco negro, se podemos prever o futuro ou se viagens no tempo são possíveis.

Bienal Internacional do Livro Rio anuncia novidades para 2019

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Bienal Internacional do Livro Rio terá novidades em 2019 – Sandro Vox / Agência O Dia

Pavilhão infantil, espaço voltado à filosofia e negócios e nova área para pequenas editoras estão entre as inovações

Publicado em O Dia

Rio – A 19ª edição da Bienal Internacional do Livro Rio está cheia de novidades. Em 2019, a bienal acontecerá de 30 de agosto a 8 de setembro no Riocentro, Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, com a missão de “incentivar o hábito da leitura para mudar o país”. Entre as novidades estão novos espaços e conteúdos inéditos para seus diversos públicos.

“A Bienal é um sucesso, um momento mágico de interação entre os visitantes, as editoras e os autores. E, para mantermos esse encantamento, estamos sempre investindo em inovação, atentos às novidades e transformações tanto do mercado, quanto da sociedade. Em 2019, o objetivo é oferecer várias bienais dentro de uma, com espaços bem definidos para cada perfil de público”, afirmou Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).

Na próxima edição, as novidades serão percebidas logo na chegada. Em vez de entrar direto na área de exposição, como nas edições anteriores, os visitantes irão acessar o evento pelo Pavilhão das Artes, que hoje abriga a maior exposição permanente indoor de arte de rua da América Latina. “É um local inspirador, dedicado à promoção da arte e da cultura. Absolutamente conectado com o universo da Bienal”, destaca Tatiana Zaccaro, diretora da Bienal, acrescentando que priorizar a experiência do público é primordial. Por isso, haverá maior aproveitamento das áreas externas do Riocentro, como jardins e lagos.

Ao entrar na galeria de arte, os visitantes se dividirão de acordo com seus interesses, já que a planta do festival foi redesenhada para concentrar atividades, expositores e patrocinadores afins em um mesmo ambiente. Desta forma, a comunicação das marcas será ainda mais eficiente e a interação com os visitantes, mais produtiva. “Vamos trabalhar com categorias muito bem segmentadas, seguindo a lógica de criar uma bienal para cada um. Para as crianças, por exemplo, teremos o pavilhão infantil”, revela Tatiana.

Dentro desse pavilhão, com mais de 10 mil m² inteiramente dedicados às crianças, estarão editoras de livros infantis, atividades lúdicas e atrações para toda a família, além de fraldário e um ambiente de alimentação especial focado nos pequenos. A área das atividades para esse público ocupará 500m², a maior dentro da programação cultural da Bienal.

Outras novidades serão um espaço dedicado à filosofia e negócios, onde se encontrará tudo sobre a nova literatura voltada para melhorar a qualidade de vida, e uma nova área para as pequenas editoras. O já tradicional Fórum de Educação – com programação voltada para educadores e professores – será ampliado para valorizar e promover a integração entre esses profissionais e oferecer capacitação profissional, além de proporcionar novas oportunidades de relacionamento para as editoras do segmento se aproximarem do seu público-alvo.

Esse é só o começo, pois outros ambientes e ações ainda estão sendo desenvolvidos pela comissão e curadoria da Bienal Rio.

Café Literário e Arena Jovem

Em 2017, com mais de 300 autores e convidados, divididos em 360 horas de programação cultural e 190 sessões, a Bienal Internacional do Livro Rio se firmou como uma verdadeira experiência cultural para toda a família. Em sua 18ª edição, o maior evento literário do país bateu recorde de público e recebeu 640 mil visitantes, superando a estimativa inicial de 600 mil. Em pesquisa realizada no final do evento, 93% das pessoas disseram que voltariam na próxima edição.

Para 2019, a direção da Bienal garante que Café Literário e a Arena Jovem serão mantidos. Na última edição, a procura pelo local dedicado aos debates de interesse dos jovens cresceu 344%, com o aumento da capacidade de 90 para 400 lugares de 2015 para 2017. A variedade de temas das mesas propostas para o Café Literário também agradou bastante e a atividade recebeu um público 25% maior que na 17ª edição.

George R.R. Martin faz lista de seus livros favoritos para os fãs de ‘Game of thrones’

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George R.R. Martin na premiere da terceira temporada de Game of Thrones, em 2013 – Matt Sayles / Invision/AP

‘O Senhor dos Anéis’ ocupa espaço de honra na lista

Publicado em O Globo

RIO — George R.R. Martin sabe que seus mais ávidos fãs esperam há anos a publicação de “The winds of winter”, sexto capítulo das “Crônicas de gelo e fogo”, inspiração da série “Game of thrones”, da HBO. Ele já descartou o lançamento do livro para esse ano, mas agora ofereceu um pequeno consolo.

O autor publicou no site da Biblioteca Pública de Nova York (NYPL, na sigla em inglês) uma lista com nove livros cuja leitura ele recomenda. São cinco obras de fantasia e cinco de literatura em geral, sendo que “O Senhor dos Anéis” aparece nas duas listas.

Os livros ajudam a compreender de onde Martin tirou o universo de intrigas, traições, violência, luta pelo poder e criaturas sobrenaturais que o mundo vem acompanhando em “Game of thrones” desde 2011 — e nos livros desde 1996. A lista faz parte de uma iniciativa da NYPL e da HBO para incentivar a leitura. Confira as listas abaixo:

LIVROS DE FANTASIA

“O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien.

“Em busca de Watership Down”, de Richard Adams

“O único e eterno rei”, de T.H. White

“Lord of Light”, de Roger Zelazny

“A Wizard of Earthsea”, de Ursula K. LeGuin

LIVROS DE FICÇÃO EM GERAL

“O Senhor dos Aneis”, de J.R.R. Tolkien

“O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald

“Catch-22”, de Joseph Heller

“Um conto de duas cidades”, de Charles Dickens

“O príncipe das Marés”, de Pat Conroy

Apaixonada por literatura, moradora de rua transexual viraliza na web: ‘Na solidão, comecei a conversar com os livros’

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Fernando Evans/G1

Adriana Cavalcanti, de 29 anos, vive há 17 nas ruas de Campinas (SP) e ganhou notoriedade ao comentar a greve dos caminhoneiros na internet.

Publicado no G1

A costumada a viver entre a invisibilidade e o preconceito, Adriana Cavalcanti, de 29 anos, encontrou nos livros uma paixão e a companhia para a solidão. Transexual, negra, nordestina e vivendo nas ruas de Campinas (SP) há 17 anos, ela conta que buscou em textos, poemas e músicas as explicações do “porquê é quem é, o porquê o Brasil é o Brasil”. Durante a greve dos caminhoneiros, em maio, um vídeo em que ela aparece ultrapassou dois milhões de visualizações. Nele, a moradora de rua mostra sua opinião sobre a paralisação e sua visão sobre a democracia.

O G1 encontrou Adriana no entorno de uma agência bancária, no bairro Ponte Preta, onde ela vive atualmente. Veja, abaixo, alguns pontos sobre o que ela contou. Na sequência, leia mais detalhes da entrevista:

Adriana fugiu da casa de acolhimento para as ruas aos 12 anos
Desenvolveu a paixão pelos livros e teve até uma biblioteca itinerante
Na infância, sonhava ser cantora ou atriz
Quer sair das ruas e ter um lugar para os cães e livros

‘Os livros falam’

Dormindo sob a laje de uma agência bancária, acompanhada de quatro cães, poucas roupas e com a comida que as esmolas diárias podem proporcionar, Adriana confia na literatura para poder entender o mundo.

Na falta de com quem conversar, eu entendi que os livros falam. Eles estão sempre a falar”, diz.

Engajada em dar voz às pessoas que estão à margem da sociedade, ela diz que com a inesperada fama alcançada pelo vídeo que se espalhou pelas redes sociais quer mostrar aquilo que, define, “a cidade teima em não ver”.

Se minha caneta for a língua, então que essa seja escritora das mais densas páginas em branco, para que outras pessoas possam com a caneta compor suas histórias”, afirma.

Saída das ruas

Esta busca coletiva, conta ela, caminha lado a lado com o sonho pessoal. Sonho de sair das ruas, realidade que conheceu desde quando tinha 12 anos, depois de fugir de uma casa de acolhimento e ser internada em unidades da Febem, atual Fundação Casa.

Eu nunca fiz nada de mal para ninguém. Meu único crime foi roubar bolachas para me alimentar. Não estava roubando porque eu gostava. A fome é cruel“, diz.

Após o vídeo dela se multiplicar pela web, internautas organizaram um financiamento coletivo para tentar reunir recursos para dar condições iniciais para Adriana recomeçar a vida fora das ruas (veja mais detalhes abaixo).

Adriana Cavalcanti divide a barraca instalada sob a laje de um banco com os quatro cães (Foto: Fernando Evans/G1)

Vítimas Algozes

Ela conta que ainda criança conheceu as dificuldades que as ruas reservam àqueles que vivem nelas. Para Adriana, a comunidade em situação de rua ou não é vista, ou é vista como vilã.

“É como mostra Joaquim Manoel de Macedo em ‘As Vítimas Algozes'”, fala em menção à obra que retrata os escravos como violentos e perigosos para defender, por meio do medo incutido nos barões, ideais abolicionistas no Brasil do final do século 19.

Referência

Ao comparar a realidade com a literatura, a transexual elege “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, como uma bíblia para a própria vida. A obra que retrata crianças e adolescentes moradoras de rua em Salvador nos anos 1930, ela diz, norteia seus passos. “É uma história real”, afirma.

Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas”, escreveu Jorge Amado em um dos trechos do clássico.

Viralizou

Morando há um ano na região do Cemitério da Saudade, em Campinas (SP), Adriana cultivou amizades e inimizades naquele reduto. Há quem torça o olhar para ela e seus cachorros, mas tem quem pare para conversar ou oferecer ajuda.

Um dos amigos é o atendente Orlailson Araújo, de 29 anos, autor do vídeo da Adriana que circula pela rede. O rapaz conta que conheceu Adriana na região onde ele trabalha, no Cambuí, mas a aproximação se deu quando a transexual se mudou e fixou residência no atual endereço, na agência bancária que fica perto da casa dele.

Eu comecei a conversar mais e me aproximei mais dela“, explica Orlailson. As visitas passaram de ocasionais para frequentes e culminou com a gravação do vídeo em maio deste ano.

Estava no meio da greve e, do nada, deu a ideia de fazer o vídeo para perguntar o que a Adriana achava. Liguei o celular e pedi para meu namorado gravar”, lembra.

Para surpresa de Orlailson, o vídeo com Adriana espalhou-se pelo mundo. Só no perfil dele numa rede social, ultrapassou a marca de 2 milhões de views.

Além de repercutir no Brasil todo, recebi mensagens dos Estados Unidos, Portugal, Angola“, conta.

Adriana e Orlailson, que fez o vídeo que viralizou na web (Foto: Fernando Evans/G1)

Vaquinha

Um desses contatos pela internet veio de Chicago, nos Estados Unidos, onde mora a brasileira Jéssica Moreira-Spencer. Foi dela a ideia de criar, a partir do vídeo, uma campanha para tentar ajudar Adriana a sair das ruas.

Eu descobri sobre a Adriana por um vídeo que apareceu na minha timeline que dois amigos compartilharam. E fiquei com ele na cabeça, fui dormir pensando nela. Aí, no dia seguinte, tive a ideia de buscar quem a entrevistou. Conversei com o Orlailson e disse que poderíamos fazer algo para ajudá-la”, conta.

A vaquinha online busca R$ 5 mil, mas o valor, claro, não é suficiente para conseguir uma moradia para Adriana.

“[O dinheiro] vai ajudá-la. Mas estamos nos organizando, com outras pessoas na internet, na tentativa de conseguir um terreno e uma casa contêiner para a Adriana”, diz o atendente.

A possibilidade enche de esperança a moradora de rua, que hoje divide uma pequena barraca de camping com quatro cachorros, “seus parentes das ruas”, diz.

Imagina se eu consigo um terreno qualquer, um terreninho que seja, que eu consiga me estabelecer, ter espaço para deixar meus cães, meus livros“.

Paixão pelos livros

Adriana conta que desenvolveu a paixão pelos livros graças aos professores de português que teve na infância, ainda nas casas de acolhimento e durante as passagens pela antiga Febem. A leitura, segundo ela, foi um refúgio para lidar com o preconceito.

Eu comecei na minha solidão, isolamento, a conversar com os livros. Foi quando descobri Jorge Amado, Aluísio Azevedo, Tobias Barreto, Joaquim Manoel de Macedo“, lembra.

Nas ruas, acumulou tantos livros que chegou a montar uma espécie de biblioteca itinerante, onde emprestava títulos para outros moradores de rua ou quem demonstrasse interesse. A iniciativa, no entanto, acabou repentinamente. “Os guardas levaram com a justificativa da operação cata-treco”, diz.

Se muitos livros se foram, os ensinamentos dos escritores ficaram, e ajudaram no que Adriana define como “compreensão de mundo”. Questionada quais seriam os títulos inesquecíveis ou essenciais, ela tratou de listar alguns:

Capitães de Areia, de Jorge Amado
As Vítimas Algozes e A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo
O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco
Poemas de Cruz e Souza
Composições de Vinícius de Moraes

Sua atual leitura é o “O Cortiço”, romance escrito por Aluísio Azevedo e um clássico da literatura brasileira. Protegida do frio apenas por uma barraca fina, Adriana devora com tanta paixão o livro que chama a atenção de quem passa pelo banco.

“Um rapaz chegou e me disse que na escola ele era obrigado a ler esse livro. Perguntei se ele se sentia obrigado a ler esse livro, e disse que sim. Que era um ‘livro chato’. Aí, depois que eu li três páginas, ele disse: ‘nossa, mas é bonito, hein?’ Expliquei: ‘não, bonito é a maneira que você o enxerga, e a maneira que eles te oferecem'”, conta Adriana, que completa.

Nada do que você é obrigado a fazer é bonito. Tudo que você por prazer faz é maravilhoso. Agora, ele quer o livro emprestado“.

Vida nas ruas

Adriana conta que fugiu de uma casa de acolhimento com três colegas, todos já mortos. Relembra que, enquanto tinha de lidar com a fome, frio e medo, foi apresentada às drogas. Passou pela cola, maconha e chegou ao crack, que utiliza “às vezes”, avisa.

A droga é uma válvula de escape para o inferno que se vive nas ruas”, diz. O uso do crack, conta, serve como um apoio para os momentos difíceis. “Sem sair de si e da realidade“, fala.

Eu gasto mais tempo com livro do que com crack. Eu gasto mais tempo com pessoas como eu do que com crack. Não sou uma nóia, mas lógico que vou usar, sim. Quero saber quem é o ser humano que ia conseguir passar a noite sem dar uma ‘pauladinha’ sabendo que poderia morrer no dia seguinte“.

Adriana relata que sobreviveu a quatro hipotermias nas ruas de Campinas (SP) (Foto: Fernando Evans/G1)

A morte, aliás, já passou próxima de Adriana pelo menos quatro vezes em 17 anos nas ruas de Campinas.

Eu já sofri de hipotermia quatro vezes. Já coloquei a mão na frente da boca e expirei ar gelado. Eu já perdi os sentidos, eu já morri!

Adriana diz ter tirado lições até destes momentos mais extremos. “Para quem morreu e continuou por aqui, graças a esse trote de Deus, então eu passei a aproveitar a vida. Meu sonho quando era criança não era ser nóia, não era ser moradora de rua. Meu sonho era ser artista, cantora…”

O mundo já está te condenando. Se você continuar se condenando quanto o mundo de condena, tá f….. Se o mundo tá de condenando, se absolva. Se o mundo te priva, se permita.”

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