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Escola monta salas de aulas em ‘contêineres’ para atender demanda

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No país, estrutura é inédita para abrigar unidades de ensino, diz secretaria.
Foi preciso fazer rodízio entre turmas, pois alunos ‘disputam’ espaço em GO.

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Publicado no G1

Estudantes vivenciam uma nova experiência no conceito estrutural de escola em Senador Canedo, na Região Metropolitana de Goiânia. Em busca de uma medida rápida para atender à demanda na rede municipal de Educação, aulas passaram a ser ministradas em uma espécie de contêiner, uma estrutura metálica composta por painéis isotérmicos móveis, inédita no país no uso para escolas.

Inspirada em projetos alemães, cada uma das 30 salas instaladas tem um custo de quase R$ 14,3 mil por ano. Já a construção de uma sala de alvenaria do mesmo tamanho (6,5m x 7,5m), gastaria cerca de R$ 44 mil, mas para ser usada por muitos anos.

A Secretaria Municipal de Educação justifica que a medida é paliativa. Apesar de serem aprovadas pelas crianças e professores, as salas de aula moduladas são montadas para suprir a demanda de novos alunos, enquanto escolas não são construídas, e para evitar a transferência dos estudantes durante reformas.

De acordo com a secretaria, os “contêineres” fizeram com que fossem matriculados 237 dos 297 alunos de 4 e 5 anos que estavam na fila de espera. Já em relação às crianças de 0 a 3 anos, 2 mil aguardam por uma vaga em um centro municipal de educação infantil. No entanto, o município tem até 2024 para suprir 50% desta demanda.

Instalação
As estruturas são fabricadas em uma construtora, transportadas em caminhões e instaladas por um guindaste no terreno da unidade de ensino. Após serem solicitados, os módulos ficam prontos em até três dias. Eles não precisam de pintura e são laváveis.

Para a secretaria de Educação, Edivânia Braz, a mobilidade da escola consiste na realização de um sonho. “Na época da faculdade sonhava em ter uma escola de rodinhas. Essa não é de rodinhas, mas é transportável, vai até ao aluno, atende à necessidade”, diz.

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A Escola Municipal João Soares da Silva possui três módulos em substituição a três salas de alvenaria, que foram interditadas após o telhado ceder durante uma chuva em fevereiro. Para que os alunos não fossem transferidos de instituição, a secretaria adotou a medida enquanto a reforma não é concluída. Parte da quadra e do pátio deu espaço à salas.

Professora da unidade, Joelma Soares da Silva, de 34 anos, aprova a experiência inovador após duas décadas de profissão. Um dos principais pontos é poder escrever em todas as paredes e não precisa usar giz, já que é alérgica.

No entanto, ela considera a acústica um ponto negativo. “Como é oco embaixo [ há um espaço entre o piso e o terreno], o volume é alto, faz mais barulho”, pondera a professora.

O estudante Jhosseffer Cristian Bernardes Rosa, 6 anos, gosta de estudar na sala “branquinha e fresquinha”, pois, além de ser isotérmica, tem aparelhos de ar-condicionado. Curiosos, os alunos estão disputando a novidade. Tanto que a direção da escola teve de fazer um rodízio com as turmas. “Todos querem ter a experiência”, diz a coordenara Andréia Cristina Ferreira.

Neste ano, 30 módulos já foram instalados. Outros cinco devem ser adquiridos até o final do ano.

Estudante irá ao espaço testar dispositivo criado em escola

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Publicado em Portal MEC

O estudante de engenharia elétrica Pedro Nehme, da Universidade de Brasília (UnB), está prestes a viajar para o espaço. Lá, vai conduzir um experimento criado por estudantes de escolas públicas, que será selecionado pela Agência Espacial Brasileira (AEB) por meio de uma chamada pública.

O quinto Anúncio de Oportunidade do Programa Microgravidade abre prazo para cadastro de propostas nesta terça-feira, 24, e vai até 27 de abril. Estudantes de educação básica brasileira são desafiados a desenvolver um dispositivo eletrônico compacto, capaz de avaliar os aspectos fisiológicos relacionados à exposição do corpo humano ao ambiente de microgravidade e hipergravidade. O edital prevê a parceria com instituições de ensino superior. A divulgação do resultado será em 2 de maio.

Ex-bolsista do Ciência sem Fronteiras (CsF) e ex-estagiário da agência espacial norte-americana Nasa, o brasiliense de 23 anos ganhou uma promoção mundial assim que voltou do intercâmbio; o prêmio é um voo suborbital, que está previsto para ocorrer no final do ano.

Pedro Nehme será o segundo brasileiro a ir para o espaço, sendo o primeiro civil. Em 2006, o militar da Força Aérea Brasileira (FAB) Marcos Pontes embarcou em um voo orbital para a Estação Espacial Internacional. No caso de Pedro, o veículo espacial não entrará em órbita e a viagem terá duração total de uma hora. Serão entre cinco e seis minutos em microgravidade. “Estou ansioso para essa missão”, afirma.

Pelo Ciência sem Fronteiras, Pedro estudou na Catholic University of America em Washington (EUA) no ano de 2012. Três meses depois de sua chegada ao país norte-americano, foi selecionado junto com outros seis bolsistas do CsF para o estágio na Nasa, no Goddard Space Flight Center, onde permaneceu por nove meses. Lá, trabalhou na divisão de astrofísica, com balões de grande altitude – capazes de levar instrumentos de pesquisa para a estratosfera.

Foi exatamente esse conhecimento que ajudou Pedro a ganhar o concurso da empresa aérea que vai levá-lo ao espaço. A tarefa consistia em acertar o local onde um balão lançado do Deserto de Nevada (EUA) cairia. Os participantes teriam que marcar a altitude em que o objeto estouraria, além da latitude e longitude. O estudante acertou a altitude exata e seu palpite foi o que mais se aproximou da localidade certa no mapa.

Logo que voltou do CsF, Pedro foi selecionado para estagiar na AEB. Agora, é bolsista na agência. “Todo mundo que participa do Ciência sem Fronteiras tem algo a contribuir quando volta”, ressalta. Para o futuro, o estudante – que se forma no final deste ano – vislumbra seguir no ramo aeroespacial. “Gostaria muito de contribuir para o programa espacial brasileiro.”

O veículo espacial que levará Pedro está sendo finalizado e entrará em testes. Enquanto isso, o rapaz participa de treinamentos promovidos pela AEB. No início de março, esteve nos Estados Unidos para treino em uma centrífuga. Em abril, irá à Rússia para testes de gravidade zero. Até a viagem para o espaço, será acompanhado pelo centro de medicina aeroespacial da FAB no Rio de Janeiro, onde fará, também, simulações de falta de oxigênio, ejeção e desorientação espacial.

9 ideias para organizar livros

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Ter muitos livros pode – mas não precisa – ser sinônimo de bagunça. Com as dicas a seguir, você organiza sua coleção e foge do lugar-comum
Stephanie Durante, na Casa e Jardim

 

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Dos dois lados: a estante, criada pelo designer de interiores Marcel Steiner, tem 50 cm de profundidade e permite que as lombadas dos livros fiquem voltadas para o escritório ou para o corredor (Foto: Lufe Gomes/Editora Globo)

 

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Apoio incomum: a designer de interiores Marilia Campos Veiga aproveitou o desnível na sala de estar e criou, nas costas do sofá, uma estante que funciona como guarda-corpo: um uso esperto de marcenaria. (Foto: Edu Castello/Editora Globo)

 

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Só uma espiadinha: que tal deixar os exemplares abertos? Apoiados sobre o banco de madeira, eles despertam a curiosidade de quem passa pelo hall de entrada e convidam a dar uma folheada. Engastado na parede, o móvel, executado pela Brumatti, foi projetado pelo escritório Cyntia Issa & Rogério Cruz Arquitetura e Interiores em parceria com as designers de interiores Silvia Cavalcanti e Flavia Torres (Foto: MCA Estúdio/Editora Globo)

 

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Em blocos: Nesta sala de TV projetada pela designer de interiores Maristela Gorayeb, os livros, revistas e objetos estão divididos em três prateleiras que correm pela parede principal, sem tocar nas laterais. Para driblar a monotonia, siga o exemplo da foto: organize os exemplares ora deitados, ora em pé (Foto: Lufe Gomes/ Editora Globo)

 

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Só a janela livre: o espaço até então inutilizado nas laterais da janela deste quarto foi ocupado por duas estantes sob medida, desenhadas pelo arquiteto Gustavo Calazans e executadas pela Bricel Móveis. Com 27 cm de profundidade, elas abrigam a enorme coleção de livros do casal de moradores, ambos jornalistas (Foto: Lufe Gomes/ Editora Globo)

 

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Biblioteca móvel: o carrinho plataforma saiu do estoque da Micasa e foi direto para a sala de estar do empresário Houssein Jarouche, dono da loja. A peça, utilizada para a movimentação de cargas, agora expõe livros de arte (Foto: Edu Castello/ Editora Globo)

 

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Ar de galeria: com nichos de diversos tamanhos, a estante modular acomoda os livros de viagens e fotografia do morador. No projeto do designer Paulo Azeco, os exemplares são expostos com a capa para frente, como se fossem quadros (Foto: Lufe Gomes/Editora Globo)

 

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Alto lá: boa dica para ambientes com pé-direito generoso: neste projeto do arquiteto Gustavo Calazans, uma prateleira alta, quase no teto, deixa os livros de culinária por perto, porém protegidos, e mantém a cozinha organizada (Foto: Edu Castello/ Editora Globo)

 

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Local improvável: o sofá em L, da Miniloft, é composto por dois módulos, sendo que um deles tem um braço avantajado, formando uma espécie de mesa de apoio. No projeto da arquiteta Monica Drucker, a moradora Gabriela tirou proveito dessa característica do móvel e colocou ali alguns livros de decoração (Foto: Lufe Gomes/ Editora Globo)

Entrevista inédita de Ariano Suassuna será exibida no Canal Brasil

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Episódio do programa ‘Sangue latino’ vai ao ar na quarta-feira

Jornalista Eric Nepomuceno conversou com o escritor em abril deste ano: "Era muito moleque, muito doce"

Jornalista Eric Nepomuceno conversou com o escritor em abril deste ano: “Era muito moleque, muito doce”

Fernanda Guerra, no Divirta-se

“Uma vocação inescusável. Eu nunca quis ser outra coisa, senão escritor. Comecei a escrever aos 12 anos. Todo dia, eu leio e escrevo. E não é por obrigação, não. É por paixão”. O depoimento de Ariano Suassuna é em resposta à pergunta feita pelo jornalista e apresentador Eric Nepomuceno sobre “o que é ser escritor”. O diálogo inicia a entrevista ainda inédita do programa ‘Sangue latino’ – uma das últimas concedidas pelo escritor paraibano. Uma semana após o falecimento do poeta e dramaturgo, a gravação será exibida nesta quarta-feira, no Canal Brasil, em homenagem programada às 21h.

A filmagem durou 40 minutos e foi registrada no dia 29 de abril deste ano, na casa do escritor em Casa Forte, Zona Norte do Recife. Nos primeiros momentos do episódio, Ariano declama o ‘Sermão da quarta-feira de cinzas’, do padre Antônio Vieira, um dos primeiros textos recitados por ele para o público em aulas-espetáculo. Também discorre sobre destino, utopia, solidão e Deus. “Eu acredito (em Deus). Eu não conseguiria conviver com essa visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo”, revela Ariano, sobre a crença.

A vida e a obra no especial Auto de Ariano

Como o episódio possui 25 minutos, algumas boas respostas ficaram de fora da edição final. Uma delas o questionava sobre medo. “Eu sou um homem de poucos medos. Não por valentia, mas talvez por irresponsabilidade”. Em outra indagação sobre a vida, disse: “Se ela acha que me deve algo, passo o recibo agora mesmo. Eu tive privilégios extraordinários”.

Para Eric, o momento foi precioso. “A entrevista é uma conversa subjetiva. Foi formidável. Muito legal. Achei ele mais magro, a voz mais fraca, em comparação à última vez que o vi. Bem… o tempo passa sua fatura, tem seu preço. Mas ele estava com uma memória prodigiosa, humor tão pícaro, tão juvenil e de uma erudição assombrosa”, contou o apresentador.

Após a conversa, Eric saiu comovido do local. “Ele fez uma comparação incrível. Misturou Albert Camus e Leandro Gomes de Barros, um poeta da Paraíba. É uma coisa fascinante combinar o erudito e o popular”, descreveu. Eric prometeu retornar ao Recife para conversar mais. Lamentou não ter dado tempo. Mas valoriza o significado do último encontro. “Ariano era muito moleque, muito doce. A entrevista é muito pertinente. Rendia para mais de um programa”.

Trechos de entrevista >> Ariano Suassuna para Eric Nepomuceno

Qual é a importância do humor na vida?
Enorme. É outra coisa que ajuda a temperar o choro: a gente rir do mundo, rir até de si mesmo. Ajuda muito a viver. Não sei se você sabe disso, mas a morte no Sertão se chama Caetana… Pois bem, eu tinha um tio que estava muito mal. Ele teve um calafrio e disse: “isso é bem a quenga da Caetana que vem por aí”. Isso é o camarada que na hora da morte tem humor para rir de si mesmo. Dá muita força a gente. E é também um instrumento de luta.

Como você lida com a solidão?
Eu não sou solitário, não. Gilberto Freyre chamava a si mesmo “o solitário de Apipucos”. Ele fazia isso a partir do nome que dava a “Nietzsche Solitário”. Vieram perguntar a mim se podiam me chamar de “o solitário de Casa Forte”. Eu disse que não, porque tenho mulher, seis filhos e 15 netos. Só a família é uma bênção de Deus. Só essa quantidade aí, que não me deixa ser solitário, não. Eu sou uma pessoa muito ligada à família, dos meus irmãos, da minha mãe. Meu pai, convivi muito pouco – três anos somente. Mas, mesmo assim, sempre me fez companhia e ainda faz. Porque fiquei com a biblioteca dele. As primeiras vezes que li livros fundamentais foram na biblioteca dele.

Nesse mundo de hoje, você acha que ainda existe espaço para utopia?
A utopia é algo sem ao qual o homem não pode passar. Acho que o sonho é importantíssimo na vida de todos nós. A gente sonha com uma coisa melhor, não é? E acho que em qualquer tempo, enquanto existir injustiça, falta de liberdade, haverá espaço para o sonho e a utopia.

Literatura não é mero entretenimento

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Jhumpa, que virá à Flip: "A tecnologia leva os consumidores a se distrair com bobagens"

Jhumpa, que virá à Flip: “A tecnologia leva os consumidores a se distrair com bobagens”

Luís Antônio Giron, no Valor Econômico

É impressionante a quantidade de autores que mantêm o hábito de escrever à mão e ignoram a tecnologia mais recente. Alguns o fazem por hábito. Outros, como a ficcionista Jhumpa Lahiri, por convicção de que o progresso pode destruir a delicadeza da escrita literária. Jhumpa, de 46 anos, é de origem bengali. Nasceu em Londres, imigrou criança com a família para Rhode Island, Estados Unidos. Tecnicamente é americana, mas não se considera como tal. “Não sou americana, como não sou indiana nem londrina”, diz, em entrevista por telefone ao Valor, de Roma, onde mora com o marido jornalista e os filhos de 11 e 9 anos. “Sou apenas alguém.”

Alguém capaz de grandes façanhas armada apenas de uma caneta e um caderno. Jhumpa cria histórias sobre uma mesma matriz autobiográfica: personagens bengalis que imigram para o Ocidente e vivem a ruptura da identidade a partir do choque entre culturas e da luta pela sobrevivência em terra estranha. Jhumpa estreou em 2000 com “Intérpretes de Males” (contos), que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de melhor livro de ficção – o mais importante dos EUA.

Seu estilo mistura longas descrições psicológicas e peripécias intercontinentais. Ela é considerada por muitos críticos uma das melhores contistas atuais da língua inglesa. Outra reunião de contos, “Unnacostumed Heart” (2008) lida com casos de família em várias gerações. O romance “O Xará” (2003) narra a história de um indiano chamado Gógol, xará do escritor russo, que precisa conviver com as tensões de ser a um só tempo indiano e europeu. Seu quarto título, de 2013, é o romance “Aguapés”, agora lançado no Brasil pela editora Globo para marcar a vinda de Jhumpa à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

“Aguapés” é ambientado na Índia e nos EUA e trata de quatro gerações de uma família bengali separada pela imigração e pelos conflitos políticos. A trama é centrada nos irmãos Subhash e Udayan Mitra – aquele imigrante nos EUA, este militante de esquerda em Calcutá nos anos 1960. Nesta entrevista, Jhumpa fala sobre escrever e sobre sua preocupação com o futuro da literatura.

Valor: O que conhece sobre o Brasil?

Jhumpa Lahiri: Sei de muitas coisas e estou animada para visitar o país pela primeira vez. Vou viajar com meu marido e meus filhos. Ele morou no Brasil quando era estudante e me contou sobre a diversidade cultural e a maneira leve que os brasileiros têm de levar a vida, algo bem diferente do que experimentei nos EUA. Conheço o Brasil pela literatura e pela música, que são riquíssimas. Li as traduções dos livros de Clarice Lispector, uma voz única na literatura mundial. E a gente vive ouvindo bossa nova aqui em casa.

Valor: Para que serve a literatura no mundo atual, saturado de diversão e tecnologia?

Jhumpa: Há uma pressão enorme sobre nós, escritores. Somos chamados à arena das discussões sobre o futuro da cultura e temos a obrigação de demonstrar publicamente que a literatura de ficção é relevante, pois constitui a personalidade e a formação intelectual do leitor. Não tem nada a ver com tecnologia ou com o sensacionalismo que as grandes editoras usam para vender livros ou modas literárias. O excesso de marketing reduz a experiência do leitor e obriga os autores a produzir como máquinas. A literatura corre o risco de virar mero entretenimento. Eu procuro fugir disso.

Valor: Você lê em aparelhos eletrônicos?

Jhumpa: Detesto todo esse mundo de aparelhos e redes sociais. Esses mecanismos servem para controlar e despersonalizar os seres humanos. Os tablets e e-readers não passam de armadilha para o leitor comprar mais livros. O efeito é imediato: ele tende a pular de um livro para outro sem aproveitar o que cada obra tem. Para mim, um livro é um objeto único, maravilhoso, feito para o prazer da leitura. A tecnologia leva os consumidores a se distrair com bobagens e a não prestar atenção no que é fundamental: desenvolver a sua maneira de ver e ler a realidade.

Valor: Seu trabalho é etiquetado pela crítica americana como “literatura de imigração”. Você se sente bem nesse rótulo?

Jhumpa: Não acho que minha obra possa ser considerada literatura de imigração. Eu abordo problemas universais. As circunstâncias de imigração por que passam meus personagens não podem caracterizar o que escrevo. Conto histórias sobre pessoas desenraizadas e deslocadas. No mundo de hoje, poucos são os que não se sentem assim, mesmo quem nasceu em um lugar e nunca saiu de lá. A expressão “literatura de imigração” é redutora e tenta simplificar as coisas.

Valor: De qualquer forma, suas histórias giram em torno de famílias bengalis que trocaram a Índia pelo Ocidente.

Jhumpa: Sim, porque é o que eu vivi. Observei meus pais e as famílias indianas ligadas à minha. Por isso, minhas histórias abordam a situação das gerações anteriores à minha, que foram mais marcadas pelo choque cultural.

Valor: Você cresceu, estudou e amadureceu nos EUA. Considera-se americana?

Jhumpa: Não. Não me sinto à vontade nos Estados Unidos nem acho que é o meu país. Não sou americana, como não sou londrina nem indiana. Sou alguém. Fui criada nos Estados Unidos, mas nunca fui acolhida como americana. Viam-me como a estrangeira filha de indianos. Nacionalidade é um conceito ultrapassado.

Valor: O desenraizamento se evidencia em suas histórias. Nelas, espaço, tempo e vida interagem. Os personagens são contraditórios e insatisfeitos. Você faz isso de propósito ou é um impulso inconsciente?

Jhumpa: Não tenho formação filosófica, apesar de alguns de meus personagens especularem até de forma profunda. Mas não sou eu que sou profunda, e sim eles, se é que podem ser considerados assim. É o caso de Gauri, a mãe de Bela, a protagonista “americana” de “Aguapés”. Ela reflete sobre a condição do tempo, e não pensei sobre isso, a voz de Gauri se impôs. Os personagens surgem à medida que escrevo. Não planejo essas coisas. Gero vozes sem pensar no que pensam.

Valor: É possível combinar com harmonia duas ou mais culturas aparentemente opostas, como a indiana e a europeia?

Jhumpa: Isso depende da situação. Mas em geral as culturas não se harmonizam. Claro que há um fundamento universal, e é ele que eu persigo nos meus enredos. A questão da cultura é circunstancial. O que o ser humano precisa buscar é a universalidade dos temas e sentimentos. Só assim haverá um equilíbrio.

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