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Consciência coletiva substituirá Deus, diz autor de ‘Código Da Vinci’

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O escritor Dan Brown ('O código Da Vinci') em imagem de arquivo (Foto: Claudio Giovannini/AFP)

O escritor Dan Brown (‘O código Da Vinci’) em imagem de arquivo (Foto: Claudio Giovannini/AFP)

Escritor fez a afirmação provocadora na Feira do Livro de Frankfurt, onde divulga seu novo romance ‘Origem’.

Publicado no G1

A humanidade não precisa mais de Deus, mas pode desenvolver uma nova forma de consciência coletiva, com a ajuda da inteligência artificial, que cumpra a função da religião, disse o escritor norte-americano Dan Brown nesta quinta-feira (12).

Brown fez a afirmação provocadora na Feira do Livro de Frankfurt, onde está divulgando seu novo romance, “Origem”, o quinto do personagem Robert Langdon, professor de simbologia de Harvard que também protagonizou “O Código Da Vinci”, livro que questionou a história da cristandade.

“Origem” foi inspirado pela pergunta “Será que Deus sobreviverá à ciência?”, disse Brown, acrescentando que isso jamais aconteceu na história da humanidade.

“Será que somos ingênuos hoje por acreditar que o Deus do presente sobreviverá e estará aqui em cem anos?”, indagou Brown, de 53 anos, em uma coletiva de imprensa lotada.

‘Origem’

Transcorrido na Espanha, “Origem” começa com a chegada de Langdon ao Museu Guggenheim de Bilbao para acompanhar o anúncio de um bilionário futurista recluso que promete “mudar a face da ciência para sempre”.

Os acontecimentos logo tomam um rumo inesperado, dando ensejo a um enredo que permite ao autor visitar os sítios históricos do país -– inclusive Barcelona, capital da Catalunha, região do nordeste espanhol atualmente em crise devido a uma iniciativa separatista.

Brown, que estudou história da arte em Sevilha, expressou sua preocupação e sua simpatia pelos dois lados do impasse político.

“Amo a Catalunha. Amo a Espanha. Espero que eles resolvam isso. É uma situação de partir o coração, mas também é um sinal dos tempos”, disse Brown, acrescentando que a crise também reflete a tensão entre o antigo e o moderno na sociedade.

O escritor, que vendeu 200 milhões de livros em 56 línguas, admitiu que não lê um romance há cinco anos, mas que investigou profundamente e passou muito tempo conversando com futuristas para criar a trama de “Origem”.

Ele reconheceu que suas opiniões não serão bem acolhidas pelos clérigos, mas pediu uma harmonia maior entre as grandes religiões e aqueles que não professam nenhuma fé.

“O cristianismo, o judaísmo e o islamismo compartilham um evangelho, liberalmente, e é importante que todos nós o percebamos”, afirmou. “Nossas religiões são muito mais parecidas do que diferentes”.

Voltando-se para o futuro, Brown opinou que a mudança tecnológica e o desenvolvimento da inteligência artificial transformarão o conceito do divino.

Conheça “Origem”, o novo livro do popular escritor Dan Brown

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© PHTOGRAPHER GUIDO GUA' - all rights reserved

© PHTOGRAPHER GUIDO GUA’

A obra narra, novamente, a aventura de Robert Langdon, que vai usar seu talento para desvendar mistérios na Espanha

Paulo Lannes, no Metrópoles

Após quatro anos, o novo livro do escritor norte-americano Dan Brown será lançado em livrarias de todo mundo nesta terça-feira (3/10). “Origem” (Ed. Arqueiro, R$ 49,90) traz nova aventura de Robert Langdon em diversas cidades espanholas.

Após passar por Roma (Itália) em “Anjos e Demônios (2000); Paris (França) em “O Código da Vinci” (2003); Washington em “O Símbolo Perdido” (2009); e Florença (Itália) em “Inferno” (2013), o professor de simbologia e iconografia religiosa chega à Espanha, percorrendo pontos turísticos conhecidos, como o Mosteiro de Montserrat, a Casa Milà e a igreja Sagrada Família, em Barcelona; o Museu Guggenheim, em Bilbao; o Palácio Real de Madri; e a Catedral de Sevilha.

Divulgação

Divulgação

Trama
O quinto romance protagonizado por Robert Langdon começa após uma grande descoberta que promete “mudar definitivamente o papel da ciência”. O autor dessa experiência é o bilionário Edmond Kirsch, ex-aluno de Langdon. Depois de uma noite caótica e cheia de aventuras, essa revelação pode se perder para sempre.

Assim, Langdon tenta descobrir os segredos de Kirsch em sua experiência tecnológica e passa por diversos cenários ao fugir de seus inimigos. A trama também envolve uma série de fatos históricos ocultos e cenas de extremismo religioso.

Best-sellers
Os livros de Dan Brown são bastante populares. Somente “O Código Da Vinci” vendeu mais de 80 milhões de exemplares, virando filme estrelado por Tom Hanks em 2006. “Anjos e Demônios” (2009) e “Inferno” (2016) também foram adaptados para o cinema.

Em um comunicado, o escritor explicou a escolha do cenário para o novo livro: “Sempre considerei a Espanha uma terra de belos paradoxos, um lugar que possui uma rica tradição e história que não deixa de mirar o futuro inovando em ciência e tecnologia”.

Por tratar de temas como o criacionismo e a origem da humanidade, espera-se que haja uma “perseguição religiosa” por parte do Vaticano. Esse embate entre o escritor e a Igreja Católica ocorre desde o lançamento de “O Código da Vinci”, livro que entrou na lista de obras a serem boicotadas pelos cristãos de todo o mundo.

Os livros não têm pressa

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Leitor folheia livros numa livraria de Madri, nesta quarta-feira. LUIS SEVILLANO

Leitor folheia livros numa livraria de Madri, nesta quarta-feira. LUIS SEVILLANO

 

Plataforma Amazon entrega pedidos literários, entre outros produtos, em menos de duas horas

Juan Cruz, no El País

Juan Cueto levou da Itália para a Espanha o conceito da vida lenta. Era o começo dos anos noventa, quando o sociólogo Enrique Gil Calvo escreveu Prisa por Tardar (pressa de demorar) e o filósofo Emilio Lledó publicou El Silencio de la Escritura (o silêncio da escrita), e antes de saírem Los Libros y la Libertad (os livros e a liberdade), em defesa da leitura detida. Agora, a invasão da Internet associa tudo à pressa, e esse sentimento chegou de tal modo à leitura (e ao consumo literário) que a multinacional Amazon acaba de lançar em Madri um serviço (ainda não disponível no Brasil) que entrega os livros (mas também hortaliças, iogurte, manteiga…) em uma ou duas horas.

Ter um livro é tão urgente como ter óleo para fritar ovos ou iogurtes para uma bolacha? As pessoas com as quais conversamos relativizam o sufoco: a revolução da pressa não vai matar a estrela do livro, que é o silêncio, o sossego e, portanto, o tempo.

Para explicar isso, o espanhol Luis Landero, autor do livro Juegos de la Edad Tardía (Jogos da idade tardia), recorre a Ortega y Gasset, que dizia que um livro “aumenta o coração”. “A vida não tem argumento, e o livro lhe confere harmonia.” Os livros, além disso, não são procurados, são achados. “Assim fiz o meu cânone: Rubén me levou a Antonio Machado, Bécquer a Juan Ramón Jiménez, e este à Geração de 27. Para isso a pessoa vai a uma livraria: para bisbilhotar. E os livros aparecem na sua frente.”

Saber escolher

“A lentidão” nos educa, diz Landero. “A solidão, as paisagens. E uma livraria é essa paisagem também. Agora a rapidez é em si mesma um artigo de consumo. A lentidão é laboriosa; o imediatismo é o elogio do desmesurado. A rapidez deveria estar entre os pecados capitais!” Seu colega espanhol Lorenzo Silva acha o lugar menos importante. “Compro pela Internet, em livrarias, em lojas de departamentos, onde o livro me apanhar. Eu gosto de comprar livros, de lê-los… E isto da Amazon nem sequer é uma invenção: há anos se faz por aqui, mas é verdade que não com tanta rapidez.”

Na filosofia da lentidão se move Carlos García Gual, sábio do mundo clássico. “A questão é escolher. E para isso a pressa não ajuda. O imediatismo na aquisição – de livros, por exemplo – propõe algo que remete ao supermercado. Na livraria há o livreiro, e lá você dá uma olhada e uma folheada. Nos supermercados (de livros, por exemplo) ninguém o conhece. Aí escolhem por você. Vender-lhe um livro porque já é best seller não significa que estejam lhe vendendo o melhor.” E se este fosse um episódio da história da leitura, que tempo seria? “Um tempo bastante triste. A esperança é o leitor não poluído pela propaganda, o pequeno editor que se atreve com o que não tem grande difusão… E a livraria, claro.” Alguma vantagem em receber o livro já? “Quando você faz um trabalho urgente. Mas o prazer de ler se busca lentamente.”

Javier Celaya, que dedica sua vida a analisar a relação do mundo digital com o mundo editorial, foi recentemente à nova Foyles, a lendária livraria de Londres. “Wi-fi em todos os andares … Lá não é preciso se comunicar com ninguém: o celular leva você até a gôndola onde está o livro que você procura. A Amazon entendeu bem essa lógica do serviço. Mas a suposta necessidade de encontrar rapidamente um livro provoca mais necessidade de consumo. É o ‘quero e quero já’; você se sacia imediatamente, mas logo vai querer mais.”

Então a pressa veio para ficar? “Em tudo. O EL PAÍS disse outro dia: olhamos o celular 200 vezes por dia para saber as novidades.” Restará algo de lento na vida? “Os momentos de desconexão total, que eu desfrutarei a partir de 8 de agosto”, diz Celaya. E tanta rapidez não é ruim para a saúde? “O cérebro se acomoda, como depois de qualquer revolução.” Iremos nos acariciar rápido também? “Hahaha, Vamos fazer tudo rápido… Mas, olha, os ingleses, como os espanhóis, criaram serviços de livraria de proximidade, não são tão rápidos como anuncia a Amazon, mas funcionam.” Aliás, você sentiu falta do livreiro na Foyles? “A verdade é que o livreiro fez seu trabalho antes: criou uma vitrine, colocou os livros de maneira que me atraíram… E isso transforma a necessidade de perguntar a um livreiro algo peculiar.”

Para Verónica García (distribuidora, à frente da Machado Libros) parece compreensível que os livreiros (e os distribuidores e editores) estejam “um pouco inquietos e vejam uma certa ameaça. Mas a Amazon não vai substituí-los. Para nós, por exemplo, importam os clientes naturais, os livreiros e os editores. Se os editores não publicam ou não reeditam, não podemos atender. E com a Amazon acontecerá o mesmo: se não tivermos livros, eles também não terão, por mais que lhes peçam rápido”.

E o esforço da rapidez se justificaria para o trabalho de livreiros e distribuidores? “O preço dos livros seria proibitivo para o cliente e para o usuário. Mas a Amazon é uma plataforma que concorre com os supermercados. Podem usar os livros como chamariz, mas não se dedicam de verdade ao mesmo que nós. Aconteceu com o livro escolares: as grandes magazines começaram a vendê-lo, com tudo o que significava a volta às aulas. Mas não, o livro não é um medicamento, não tem de ser comprado (nem vendido) da mesma forma que a manteiga e o iogurte”. Lembre-se de que o iogurte não sai de moda.
“Sim, sim, sim. Como os bons livros!”

Fernando Valverde, secretário do Grêmio de Livreiros da Espanha, e livreiro ele mesmo, situa o assunto: “Não estamos irritados agora com a Amazon…, estamos faz tempo, e estamos discutindo com essa multinacional; nos parece estranho, em todo caso, que as instituições que não se retratam conosco se retratem com eles. Nem o Ministério da Cultura nem as instituições locais nos dão muita atenção. Isso nos irrita”. E a rapidez não é concorrência? “É um slogan. A reivindicação da pressa não serve para os livros; o livro exige tempo lento, a volta ao prazer. Pressa e leitura não combinam.” Lola Larumbe, sua colega, enxerga a situação assim: “Uma livraria de bairro é uma sorte para os vizinhos, mas também para as instituições: desenvolve a cultura. Na França essa atividade livreira é reconhecida, é subvencionada, e assim ajudam a difundir a leitura, a manter o emprego e a fazer com que a vida do bairro sobreviva”.

A poesia vai devagar

Federico García Lorca escreveu a Miguel Hernández: “Os livros de poesia vão devagar, querido Miguel”. César Rendueles, sociólogo autor de El cambio político na era da utopia digital (a mudança política na era da utopia digital) destaca um fato: “A atividade editorial já estava acelerada na Espanha. Publica-se muitíssimo, os livros duram um mês no máximo nas livrarias, e isso afeta sobretudo o ensaio, a poesia e a história. Se um livro não vende em um mês, acabou… E para isso a Amazon faz melhor o trabalho: grande consumo, elimina intermediários”. E então? “Que mude a dinâmica editorial, que os selos não se concentrem nos livros de grande venda, porque assim cavam a própria sepultura, e com eles vão junto as livrarias… Não é a morte do livro, é a morte do leitor, porque neste país de tantos livros as pessoas leem cada vez menos”.

Os livros vão lentamente, e continuarão assim, diz Lola Ferreira, que é e foi tudo no setor na Espanha. “Rápido você quer um livro que se ajusta à moda do best-seller: quero este livro já. O comprador de livraria continuará querendo essa ajuda.” “Mas o comércio da livraria terá de se modernizar, como o da distribuição. E para isso é preciso que todos os setores entrem em um acordo”, adverte.

E esse acordo é tão difícil, talvez, quanto recuperar o esforço para voltar a ser lentos na sociedade que tem pressa para obter informação, iogurtes e livros como se fossem remédios para um ataque no meio da noite.

“Talvez o próximo Einstein esteja morrendo de fome na Etiópia”

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Neil deGrasse Tyson, depois da entrevista ao EL PAÍS. Rafael Avero

Neil deGrasse Tyson, depois da entrevista ao EL PAÍS. Rafael Avero

 

Nuño Domínguez, no El País

Neil deGrasse Tyson (Bronx, EUA, 1958) é um dos divulgadores científicos mais reconhecidos do mundo. Este astrofísico assumiu o lugar de Carl Sagan à frente da nova versão da série Cosmos, programa de sucesso que despertou vocações científicas no mundo inteiro. Tyson estudou no Instituto de Ciência do Bronx (Nova York), um centro público de ensino médio muito seletivo e especializado em matemática e ciência. Ao final do curso, o próprio Carl Sagan o chamou para que fosse visitá-lo, com a intenção de contratá-lo para sua universidade, Cornell. Tyson preferiu Harvard, mas diz que descobriu em Sagan “o tipo de pessoa em que queria me transformar”.

O cientista comparece pela primeira vez ao festival Starmus, realizado até sábado em Tenerife (ilhas Canárias), na Espanha, onde concedeu esta entrevista ao EL PAÍS.

Pergunta. Acha que os humanos estão ficando cada vez mais irracionais, mais fanáticos?

Resposta. A primeira coisa que você pode pensar é em culpar as pessoas que se comportam dessa forma, mas eu sou um educador e tenho uma visão um pouco diferente. Acredito que haja comunidades inteiras que se sentem totalmente esquecidas. Há um grupo de pessoas perfeitamente formadas inventando coisas, ganhando mais riqueza por terem inovado. Se você não era bom nas suas aulas de matemática e ciências, se as rejeitava ou simplesmente foi formando outros valores, a primeira reação é rejeitar tudo isso, pensar: “Vocês estão todos equivocados, são meus inimigos”. Isso é muito humano. Isso nos leva a uma mudança no sistema educacional para ensinar às pessoas o que é a ciência e como e por que funciona. Não é só um conjunto de informações que você pode ignorar ou afastar porque assim decide. A ciência é a vida! Há ciência em toda parte, em tudo que nos rodeia, nos materiais, nos tecidos, nos telefones, nos automóveis… Seu celular se comunica com satélites GPS para que você saiba onde fica a casa de sua avó, e que precisa virar à esquerda para chegar. Isso nos lembra que precisamos envolver todo mundo nas novas descobertas tecnológicas, não criar um planeta onde alguns têm acesso a elas e outros não. Porque estes últimos as rejeitarão.

P. E o fato de que se ensine religião nas escolas?

R. Há dois tipos de verdades neste mundo. As pessoais, coisas que você sabe que são reais porque as sente. E há as verdades objetivas, essas que existem independentemente do que você sentir a respeito delas. E=mc2, essa é uma verdade objetiva. Não importa se você está ou não de acordo com ela, é uma verdade. As religiões são verdades pessoais. Para conseguir que alguém esteja de acordo com sua verdade pessoal, é preciso doutrinar ou convencer pela força, pela ameaça de morte. Houve muitíssimas guerras na história porque algumas pessoas tinham uma verdade pessoal diferente das de outrem. Não havia meio de resolver o conflito de forma objetiva, então se mataram para ver quem acabava dominando quem. Isto é ruim para a civilização. O melhor é que você guarde a sua verdade pessoal só para você. E, se conseguir chegar a ser chefe do Estado, ou alguém pode e deve ditar novas leis, numa sociedade livre você não deveria baseá-las nas suas verdades pessoais, porque as estaria impondo a outros que possivelmente não as compartilham. Se você vive em um país com católicos, protestantes, muçulmanos e hindus, e faz uma lei que não se baseia numa verdade objetiva, então isso se torna uma receita para a guerra. É o começo de uma teocracia, não de uma democracia. É o princípio do final de uma democracia bem informada.

P. Como civilização, você acha que evoluiremos até um ponto em que deixemos de nos exterminar mutuamente?

R. Vivemos no tribalismo. Os antropólogos sabem que os humanos são tribais por natureza. Existem a minha família e o meu povo, e se você estiver de fora é meu inimigo. Você pode se perguntar que tamanho deseja que a sua tribo tenha. Inclui todo mundo sobre a Terra? Todos os seres humanos? Essa é provavelmente a melhor solução para a sociedade. Mais do que a minha família, minha idade, as pessoas que falam meu idioma, as que têm o meu aspecto… E assim você toma decisões que beneficiam a todos e não são excludentes. Para isso precisamos que a nossa civilização evolua, como você diz.

P. Stephen Hawking acredita que não duraremos outro milênio neste planeta. Concorda?

R. Não estou de acordo com a utilidade dessa ideia. Pode ser que destruamos este planeta e tenhamos de ir morar em Marte. Mas antes será preciso transformá-lo para que seja como a Terra, e enviar alguns bilhões de pessoas para lá. Se tivermos a capacidade de transformar Marte dessa forma, também podemos mudar a Terra para que volte a se parecer com o que era. Não há necessidade de ir embora. É possível arrumar as coisas aqui em vez de reformar outro planeta. Então, a solução de Hawking funciona muito bem como manchete, mas na prática ninguém faria isso, simplesmente consertaríamos a Terra.

P. Antes, você falou da desigualdade como razão da rejeição à ciência e raiz do radicalismo. Estamos melhorando ou piorando nesse aspecto?

R. A educação é chave: ter líderes bem formados, ilustrados, não corruptíveis. Em muitas nações em desenvolvimento, é a própria corrupção que impede que o país todo cresça como deveria. A gente poderia ver isso a partir de uma postura muito egoísta e dizer que o próximo Einstein talvez esteja morrendo de fome na Etiópia, e a gente nunca saberá, porque é uma criança sem comida. Como cientista, quero que seja dada uma oportunidade a todo aquele que tiver a chance de pensar em como melhora nossa civilização. Se Isaac Newton tivesse nascido na África, acho que nunca teria conseguido chegar aonde chegou. Iria só se preocupar em não morrer. É verdade que ele se mudou para o campo a fim de evitar a peste em Londres, então sabia, sim, o que fazer para sobreviver nesse contexto. Mas, se perdermos gente assim na infância, estaremos reprimindo o avanço da nossa própria civilização. Uma das grandes tragédias da atualidade é que nem todo mundo tenha a oportunidade de ser tudo o que pode.

P. A Espanha (e outros países) atravessa uma crise econômica que levou a cortes de muitos investimentos em ciência e conhecimento. O que diria ao próximo presidente do Governo da Espanha se lhe pedisse um conselho?

R. Não, minhas palavras não seriam para o presidente, e sim para os que o elegeram. É preciso que entendam por que um político deveria ou não tomar certas decisões. Achamos que seria suficiente falar com o líder do Governo porque ele está no comando, mas suponhamos que seu presidente diga: “Sim, investiremos mais em pesquisa e desenvolvimento”. E que o público diga: “Não, espere, tenho fome agora, sou pobre.” Então isso deixa de funcionar. As políticas não conseguem se tornar realidade. Precisamos entender o valor da pesquisa e do desenvolvimento. Assim, quando o Chefe de Governo decidir fazê-lo, todo mundo o apoiará, não haverá discussão, pois todos entenderão a importância da iniciativa. Se você implementa uma série de investimentos, esperando que alguns tenham rentabilidade no curto prazo, outros no médio e outros no longo prazo, sempre haverá um fluxo de descobertas que você poderá apontar como resultados dos investimentos. Isso poderia funcionar. Sempre haveria algo do que falar, algo inventado na Espanha, uma nova máquina, um novo tratamento médico, tecnologias… Essas são as economias que vão liderar a civilização ao longo do século XXI.

P. Você diz que do Instituto do Bronx (Nova York), onde estudou, saíram oito prêmios Nobel, a mesma quantidade obtida por toda a Espanha, por exemplo – cuja maioria não é de ciência, mas de literatura. O que isso significa?

R. O Nobel de Literatura é algo muito bom. Comunicação, ideias, histórias. É uma parte fundamental do ser humano: compartilhar histórias de outros. Mas vocês precisam se perguntar se na Espanha se conformam com isso ou se querem mais. Se as pessoas não querem mais, está bem, mas então não podem se queixar de que a economia não seja tão competitiva como outras da Europa ou do resto do mundo. Eu perguntaria: vocês têm feiras de ciência onde os estudantes fazem seus projetos e recebem reconhecimento por pensar de forma científica sobre o mundo? Por exemplo, agora estamos no festival Starmus. Eu me pergunto onde estão as grandes empresas que deveriam estar apoiando um evento assim. Possivelmente, acreditam que isso não é importante. Estão erradas. Isso é importante para todo mundo, para seu futuro, incluído o econômico. Você pode escolher não fazê-lo, mas irá a reboque do resto do mundo, dos que inventam. Suas doenças serão curadas graças aos esforços de pesquisa de outros países. Não há nada de ruim nisso, mas você terá de pagar o preço.

P. Os empresários também pensam que não há um retorno econômico nesse tipo de iniciativa…

R. Ah, claro, o retorno não virá neste trimestre, nada no balanço anual. É algo que chegará muito depois. A rainha Isabel, a Católica, sabia disso. Quando ela enviou Colombo à sua expedição, não estava pensando em recuperar o investimento no ano seguinte. Sabia que apostava no longo prazo, no futuro da Espanha. E, neste caso em particular, podemos discutir se o império espanhol foi algo bom ou ruim, mas certamente foi algo, refletia uma visão de país. Portanto, se você não reinvestir seus lucros em pesquisa, verá como eles cairão…

P. Que questões da astrofísica lhe interessam mais na atualidade?

R. Amamos o desconhecido. Estou interessado nas ondas gravitacionais, na matéria escura, na energia escura, na busca por vida. Há um multiverso? Podemos criar um buraco de minhoca? Há vida em Europa, uma das luas de Júpiter? E em Marte? Adoro todas essas perguntas. Mas a que eu mais gosto é dessa que nem sequer sei como formular ainda.

Garoto mexicano de nove anos estuda química na universidade

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Publicado em UOL

O pequeno Carlos Santamaría Díaz, de apenas 9 anos, ainda não alcança os pés no chão quando está sentado assistindo às aulas da Unam (Universidade Nacional Autônoma do México). Ele está fazendo o curso de química da instituição e já concluiu dois módulos.

Carlos aprendeu a ler aos três e começou a ter interesse pela disciplina aos cinco. “Ele tem facilidade para processar informação. No maternal, quando lhe mostravam uma letra, ele queria aprender todas”, conta o pai, Fábian Santamaría.

Os familiares perceberam que o filho estava avançado na escola quando notaram que ele acabava desenhando nas disciplinas ou simplesmente dormindo. “Desde os cinco anos, ele era capaz de assimilar um livro completo de ciência de nível secundário e aprendeu a tabela periódica em algumas semanas.”

Numa viagem para a província de Valência, na Espanha, conheceram uma professora que foi chefe do laboratório local da cidade de Alboraya. Ela teria dito aos pais que Carlos perdia o interesse pela escola, não por causa dos professores do primário, mas sim porque o filho tinha uma mente de cientista.

Foi então que o pai resolveu inscrevê-lo na Unam. O vestibular foi uma entrevista com o doutor em ciências químicas Eduardo Rodriguez de San Miguel, que levou apenas 15 minutos para aceitar o menino na faculdade. “Fiquei impressionado. Perguntei aspectos genéricos para ver do que ele era capaz. Não é que seja um gênio que sabe tudo, mas ele foca muito no que gosta”, contou o pesquisador.

Os pais tiraram Carlos da escola tradicional e ele começará a estudar o quarto ano do ensino fundamental por meio de um programa da Espanha. Metade da nota será de exercícios trimestrais e o restante será analisado por meio de uma avaliação na embaixada espanhola. Dessa forma, ele poderá continuar a graduação na Unam.

Para concluir o restante dos anos escolares, o pai pensa em colocá-lo num curso do Instituto Nacional para a Educação de Adultos.

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