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Brasileiro de “Game of Thrones” diz que até ele odeia seu personagem

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Natália Guaratto, no UOL

Intérprete de Robin Arryn na série “Game of Thrones”, o ator brasileiro Lino Facioli, de 13 anos, está de volta como o filho de Lysa Arryn e único herdeiro da Casa Tully na quarta e atual temporada da atração. Em entrevista ao UOL, por telefone, o garoto comentou a nova fase de seu personagem e também falou sobre como foi atuar em sua primeira produção nacional, o filme “O Menino no Espelho”, que estreia dia 19 de junho.

Nascido em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Lino mora em Londres, Inglaterra, com os pais, também brasileiros, desde os 4 anos de idade. “Sempre falei português em casa, só falo inglês com os amigos”, contou ele, que começou a atuar aos 7 anos e já tem no currículo o longa “O Pior Trabalho do Mundo”, com Russel Brand e Jonah Hill.

Logo em sua estreia em “Game of Thrones”, Lino participou de uma polêmica cena em que Robin Arryn, já crescido, é amamentado pela mãe Lysa, interpretada pela atriz Katie Dickie. A sequência da primeira temporada, exibida em 2011, foi gravada com uma prótese de silicone imitando um seio, e Lino usou maquiagem branca para fazer o “bigodinho de leite”. Para o ator, Robin Arryn está mais interessante nesta temporada. “Foi muito legal voltar, tive a chance de fazer uma performance mais dramática”, disse.

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Com aparições rápidas, mas marcantes em “Game of Thrones”, Robin tem sido comparado ao rei Joffrey (Jack Gleeson), um dos personagens mais detestados da série. “Acho que o Robin já é odiado. Até eu o odeio às vezes”, brincou. “O Joffrey é sádico, faz as coisas com maldade, mas o Robin só é louquinho, sem noção. Como ele nunca foi machucado, não percebe que pode machucar os outros. Tudo para ele é um brinquedo. No fundo, ele só é chatinho”, afirmou.

Orientado pelos pais, Lino não assiste aos episódios de “Game of Thrones” nem lê os livros em que a série é inspirada. Tudo o que ele sabe sobre a história vem dos roteiros – ele só recebe os capítulos em que seu personagem aparece – e das conversas com outras pessoas. Por esse motivo, o ator tem poucas informações sobre o destino de Robin, mas está ciente de que seu personagem – assim como todos na série – pode morrer a qualquer momento. “Sempre tem aquele risco. Ainda mais ele [Robin] que é um cara meio doentinho. Pode ser que passe mal e morra”, disse.

Apesar de temer o destino de Robin, Lino está empolgado com a possibilidade de morrer na série. “Até que seria interessante fazer uma cena de morte”, disse. Questionado sobre como gostaria que seu personagem morresse, o ator afirmou: “De alguma doença ou uma morte bem sangrenta”.

Em 2011, Lino teve a oportunidade de conhecer George R.R. Martin, criador da série literária “As Crônicas de Gelo e Fogo”, na qual “Game of Thrones” é baseada. “Ele foi super legal e me levou para conhecer o set onde fica o trono de ferro”. Sobre o objeto, Lino disse que quando iluminado, realmente parece ser de ferro, mas na realidade é de fibra de vidro.

Para Lino, o aspecto mais difícil de estar em “Game of Thrones” é dar entrevistas. “Fico muito ansioso”. O reconhecimento nas ruas não é grande, conta. “Às vezes as pessoas ficam olhando, mas talvez seja porque elas me achem estranho”. Já a pergunta que Lino mais ouve quando diz ser brasileiro não é sobre “Game of Thrones”, mas futebol. “Eu não sou muito informado [sobre futebol], mas torço para o Palmeiras”, conta. Sobre um eventual jogo entre Brasil e Inglaterra na Copa do Mundo, ele diz que irá torcer pelo Brasil.

“O Menino no Espelho”
Lino também está para estrear o filme nacional “O Menino no Espelho” em que ele interpreta dois personagens: Fernando e Odnanref. Filmado em 2012 e dirigido por Guilherme Fiúza, o filme é a adaptação do livro homônimo do escritor Fernando Sabino.

Para as filmagens, Lino morou dois meses no Brasil e teve que aprender a neutralizar o sotaque do interior paulista, já que Fernando é mineiro. O garoto só leu o livro “O Menino no Espelho” depois das gravações, mas se identificou com o personagem. “Quando li, lembrei muito da minha infância. Sou parecido com o Fernando nessa coisa de ser observador e curioso”. No longa, Fernando vê seu reflexo no espelho, Onanref, ganhar vida e tomar seu lugar nas tarefas chatas da vida como, por exemplo, ficar de castigo.

Lino Facioli em "O Menino no Espelho", com Regiane Alves e Mateus Solano - Reprodução

Lino Facioli em “O Menino no Espelho”, com Regiane Alves e Mateus Solano – Reprodução

O elenco do filme conta com Mateus Solano e Regiane Alves, que interpretam os pais de Fernando. Lino contou que não conhecia os atores, mas que aprendeu bastante com os colegas. “Eles me ensinaram a não levar tudo a tão a sério”.

Segundo Lino, as gravações foram divertidas e, por intermédio de Solano, ele conheceu a obra do comediante Chico Anysio. Por conta de uma rede de cabelo usada para mudar o penteado de Lino quando ele interpretava Odnanref, Solano o chamava de Alberto Roberto. “Eu não entendia nada porque não conhecia o Chico Anysio, aí a Regiane me deu de presente um DVD”, contou Lino.

“O Menino no Espelho” terá lançamento regional e estreará somente Belo Horizonte no dia 19 de junho.

Diário de um menino

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“Bem que a mãe me avisou”, pensou ele, despedindo-se das ruas, dos brinquedos, do Nescau e do gibi.

Mariana Weber, na Época

“Ela vai ficar tão triste. E bem que me avisou.”Do banco traseiro do carro, dava para ver o cabelo castanho ondulado da mãe, solto atrás e enroscado na gola do casaco do lado direito. Ele sentiu um aperto. Olhou pela janela, começou a ler placas em voz alta. “Bilhar Augusta. A Arte da Boa Mesa. Retificadora Flora.”

(Foto: C_Dave / Flickr)

(Foto: C_Dave / Flickr)

“Tudo bem na escola, Antônio?”“Tudo.”

“Muita lição de casa?”

“Não.”

Tinha, mas não ia fazer. Pra quê?

Sentiria saudade também da tia Iara, nem achava tão chato quando ela passava lição. Mas não ia mais fazer.

“Só Botas. Pão Gostoso. Você com Saúde.”

“Ei, tá pensando na morte da bezerra? Chegamos, filho!”

Desceu do carro, mochila pendurada no ombro direito, e subiu direto para o quarto.

A Carminha, que dormia enrolada em cima do baú de brinquedos, começou a se espreguiçar, bunda para cima e patas dianteiras bem esticadas. Fez carinho na cabeça da gata. “O baú vai ser só seu, Carminha.” Pegou o cacto que ficava na janela e foi até a pia do banheiro regar a terra. Voltou com o vaso ainda pingando. Jogou dentro dele os cinco tatuzinhos que tinha recolhido no pátio da escola e guardado no estojo de lata.

Viu Carminha cheirar os bichos, que não se mexeram, e logo perder o interesse.

Em cima da cama, brincou um pouco com o carrinho vermelho, presente do pai. Leu a última história de um gibi. Na frente do espelho da porta do armário, engoliu saliva uma, duas, três vezes, tentando perceber algo diferente.

Desceu para a cozinha. A mãe esquentava vagem refogada no fogão. No forno, torta de sardinha.

“Mãe?”

“Diga, filho.” Ela mexia a panela. “Antônio?”

“Demora?”

“Tá quase, pode ir lavando a mão.”

Estava bom, e tinha morango de sobremesa. Depois, os dois viram novela no sofá da sala. Durante o intervalo, o coração de Antônio bateu forte. O ar faltou, a visão escureceu. Ele encostou a cabeça no ombro da mãe, fechou os olhos e, aos poucos, se acalmou.

Quando a novela acabou, foi escovar os dentes sem a mãe pedir. Deu um beijo de boa noite e foi para a cama, triste.

Acordou com a mãe chamando.
Como sempre, se arrastou para o banho, colocou o uniforme que a mãe tinha deixado em cima da cama, tomou leite com Nescau, comeu pão com requeijão, escovou os dentes, pegou a lancheira e a mochila. Saiu de casa preocupado porque não tinha feito a lição de português e ainda não tinha morrido.

Então viu o ponto branco no chão do carro. Será? Sim, era o chiclete. O chiclete que ele comprou escondido da mãe, com o dinheiro que ela deu pro lanche. Um lanche especial, da cantina. O chiclete que ela disse que ele não podia mascar. Porque chiclete faz mal pros dentes e é perigoso. O chiclete que ele comprou mesmo assim. Comprou no recreio, escondeu no bolso e, no meio da aula, tomou coragem para tirar do papel e colocar na boca.

Mascou com cuidado, devagar, saboreando o suco de cada mordida. Guardou, já sem gosto, na bochecha direita, na esquerda, debaixo da língua. Aproveitou o segredo até que, dentro do carro, na volta da escola, percebeu que não tinha mais nada na boca. “Engoli.” Ia morrer sufocado. E não podia contar para a mãe que tinha comprado o chiclete.

Agora, ao descer do carro, Antônio sorria. Não morreria mais.

A partir de hoje obedeceria a mãe em tudo – não pularia o muro para a casa do Pedro, não daria pedaços do bife para a Carminha nem leria escondido depois que a mãe fechasse a porta do quarto à noite. Só parou de sorrir quando viu a tia Iara e lembrou da lição de português.

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