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O que eu vi da vida, por Woody Allen

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Má Dias, no Literatortura

Woody Allen, 77, escritor e diretor cinematográfico que está com seu quadragésimo oitavo filme (Blue Jasmine) nos cinemas internacionais (por aqui o filme estreia apenas em Outubro desse ano), deu um depoimento para a edição de Setembro da revista americana Esquire. A entrevista, disponível no site da publicação, faz parte de uma seção chamada What I’ve Learned? (O que aprendi?, em tradução livre), que conta com depoimentos de vários artistas sobre suas próprias carreiras, trabalhos e vida. Confira as dicas, opiniões e ensinamentos – quase sempre com um fundo de humor – desse tão aclamado diretor.

Minhas duas filhas adolescentes me veem como um ancião. Mas, pela manhã, me levanto antes delas, e as acordo para ir à escola.

As pessoas que não escrevem não entendem uma coisa: elas acham que você escreve uma linha conscientemente – mas você não escreve. Isso acontece inconscientemente. Então é a mesma surpresa para mim quando o que eu escrevi emerge como é para o público. Eu não penso numa piada e depois a digo. Eu a digo e depois percebo o que eu disse. E rio, porque estou ouvindo-a pela primeira vez também.

Sem medo, você jamais sobreviveria.

Meu pai nunca me ensinou como fazer a barba – aprendi isso com um motorista de táxi. Mas a maior lição que meu pai me ensinou é que se você não é saudável, então você não possui nada. Não importa quão ótimas as coisas estão indo para você, se você tiver uma dor de dente, ou uma dor de garganta, se você se sente enjoado, ou, Deus me livre, se tem alguma coisa muito séria e errada acontecendo com você – tudo está arruinado.

Um sanduíche de carne enlatada seria sensacional, ou um daqueles grandes e gordos salsichões, sabe, com mostarda. Mas eu não como essas coisas. Posso dizer que não como um salsichão há 45 anos. Eu não como comidas agradáveis. Eu como para ser saudável.

Marshall McLuhan previu que livros seriam obras de arte em algum momento. Ele estava certo.

Minha mãe ensinou-me um valor: rígida disciplina. Meu pai não ganhava o suficiente, minha mãe cuidava do dinheiro e da família, e ela não tinha tempo para futilidades. Ela ensinou-me a trabalhar e a não perder tempo.

Eu nunca vi uma cena sequer de nada que eu tenha produzido depois de finalizado. Eu nem sequer me lembro do que está nos filmes. Se estou no sofá, passeando pelos canais e de repente Manhattan ou outro filme aparece, eu os passo. Se eu ver Manhattan novamente, eu veria apenas o pior. Diria: “Oh, Deus, isto é tão embaraçoso. Eu podia ter feito daquele jeito. Eu deveria ter feito aquilo.” Então eu prefiro me poupar.

Durante o banho, com a água quente caindo, você deixa o mundo real para trás, e muito frequentemente as coisas se abrem para você. É a mudança de ambiente, o desbloqueio da tentativa de forçar as ideias que é incapacitante quando você está tentando escrever.

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Se você nasceu com um dom, se comportar como se ele fosse uma conquista é errado.

Eu amo Mel Brooks. Passei momentos maravilhosos trabalhando com ele – mas não vejo nenhuma semelhança entre nós, exceto, você sabe, que ambos somos Judeus. É onde a semelhança termina. Seu tipo de humor é completamente diferente do meu. Mas, Bob Hope? Sou praticamente um plagiador dele.

Fizemos um tour pela Acrópole no final da manhã e eu olhei para baixo, para o teatro, e senti uma conexão. Quero dizer, este é o lugar onde Édipo estreou. É incrível para alguém que passou a vida no show business ou trabalhou com arte dramática olhar para o teatro onde, há milhares de anos, homens como Mike Nichols, Stephen Sondheim e David Mamet vestiam togas, e pensavam: “Puxa, eu não posso ficar nessa linha de trabalho. Você sabe, eu estive trabalhando nisso durante a noite inteira e aquele ator não sabe como interpretar.” Sófocles, Eurípedes e Aristófanes…

Tem sido dito sobre casamento: “Você tem que saber lutar.” E eu acho que há um pouco de sabedoria nisso. Pessoas que vivem juntas entram em discussões. Quando você é mais jovem, os argumentos tendem a aumentar – ou não há qualquer sabedoria que os substitua para mantê-los em perspectiva. Isso tende a ficar fora de controle. Quando você for mais velho, você percebe: “Bem, esse argumento não vai mais servir. Nós não concordamos, mas este não é o fim do mundo”. Daí a experiência entra em jogo.

Quando comecei – quando lancei Take the Money and Run – o pessoal da United Artists acumulou críticas do país inteiro em uma enorme pilha e eu as li. Texas, Oklahoma, Califórnia, New England… Foi quando percebi que isso é ridículo. Quero dizer, o cara em Tulsa acha que a imagem é uma obra prima, e o cara em Vermont acha que é a coisa mais estúpida que ele já viu. Cada cara escreve de uma forma inteligente. A coisa toda era tão inútil! Então eu abandonei para sempre a leitura de críticas. Graças à minha mãe, eu não perdi tempo refletindo sobre eu ser brilhante ou um tolo. É completamente inútil pensar sobre isso.

Você pode apenas se esforçar muito, e então estará à mercê da fortuna.

Eu, me sentando para um jantar com Ingmar Bergman, me senti como um pintor de paredes se sentando para jantar com Picasso.

É apenas um acidente o fato de que nós estamos aqui na Terra, desfrutando de nossos momentos bobos, distraindo-nos tantas vezes quanto possível, de modo que não temos que realmente enfrentar o fato de que, você sabe, nós somos apenas pessoas temporárias com um curto espaço de tempo em um universo que acabará por desaparecer completamente. E tudo o que você valoriza, seja Shakespeare, Beethoven, da Vinci, ou o que quer que seja, terá desaparecido. A Terra irá embora. O Sol irá embora. Não haverá nada. O melhor que você pode fazer para obter vida é se distrair. O amor funciona como uma distração. O trabalho também funciona como uma distração. Você pode distrair-se de um bilhão de maneiras diferentes. A chave é se distrair.

Um cara irá dizer: “Bem, eu faço minha sorte.” Este mesmo cara caminhará pela rua e um piano que está sendo içado cairá como uma gota sobre sua cabeça. A verdade é que sua vida está muito fora de seu controle.

Livro ‘O Último Copo’ levanta o debate sobre a relação entre embriaguez e atividade literária

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alcool

Iara Biderman e Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Entre a época em que F. Scott Fitzgerald via graça em ser “um dos mais notórios bêbados” de sua geração e o pungente relato pessoal que publicou na “Esquire”, em 1936, com o autoexplicativo título “The Crack-Up” (o colapso), não foram nem dez anos.

No primeiro momento, o autor surfava na fama com obras como “O Grande Gatsby” (1925), cuja quinta adaptação para as telas estreou no Brasil neste mês. No segundo, já nem podia concluir um livro, vencido pelo alcoolismo.

A fama de bêbado grudou nele como praga. Fitzgerald figura em qualquer lista de autores alcoólatras, de obras leves, como o “Guia de Drinques” (Zahar, 2009), que dá a receita do gim com limão de que era adepto, a estudos alentados, caso do recente “O Último Copo” (Civilização Brasileira), de Daniel Lins.

Lins, brasileiro que passou boa parte da vida na França, conviveu por dez anos com o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), de quem foi aluno. Herdou do mestre, alcoólatra recuperado, o interesse por uma “teoria do álcool”.

“Queria saber o que o autor que bebe pensa sobre a constituição do pensamento.” Bebedor moderado, segundo diz, dedicou cinco anos a obras etílicas, como a de Fitzgerald e a da francesa Marguerite Duras (1914-1996).

A fama de bêbado grudou nele como praga. Fitzgerald figura em qualquer lista de autores alcoólatras, de obras leves, como o “Guia de Drinques” (Zahar, 2009), que dá a receita do gim com limão de que era adepto, a estudos alentados, caso do recente “O Último Copo” (Civilização Brasileira), de Daniel Lins.

Lins, brasileiro que passou boa parte da vida na França, conviveu por dez anos com o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), de quem foi aluno. Herdou do mestre, alcoólatra recuperado, o interesse por uma “teoria do álcool”.

“Queria saber o que o autor que bebe pensa sobre a constituição do pensamento.” Bebedor moderado, segundo diz, dedicou cinco anos a obras etílicas, como a de Fitzgerald e a da francesa Marguerite Duras (1914-1996).

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