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Escritoras condenam o termo “literatura feminina” e exigem igualdade

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Publicado no Boa Informação

Logo após a Feira Literária de Paraty (Flip), um debate teve início nos perfis de alguns leitores e escritores nas redes sociais. Eles questionam: existe a chamada literatura feminina? Se existir, o que exatamente ela é? É possível classificar a arte de acordo com o gênero sexual de quem a faz? Não seria a literatura algo feito simplesmente por seres humanos?

O UOL resolveu, então, entrar nesse debate e percebeu que, se não é possível chegar a uma resposta definitiva para perguntas tão amplas, algumas constatações são possíveis. Primeiro, é importante ressaltar a diferença que há entre alguns tipos de literatura, os feitos por mulheres, para mulheres e a respeito das mulheres, para que tenhamos as frentes de discussão bem delineadas.

Há quem tenha preferido abrir mão da conversa, como foi o caso da doutora em literatura Leyla Perrone-Moisés, que, após receber as perguntas da reportagem, respondeu, em um educado e-mail: “Literatura feminina, masculina ou GLT só existem do ponto de vista da temática. E como, para mim, a temática é apenas um aspecto da obra literária, sendo a outra a forma, não trabalho com o conceito de gênero. Clarice Lispector dizia: ‘Quando escrevo, não sou homem nem mulher. Sou homem e mulher’”.

Reprodução/Facebook Há preconceito com a literatura escrita por mulheres, porque o machismo ainda está enraizado na sociedade, em todos nós. O nome de uma escritora na capa do livro, ou mesmo o ponto de vista de uma protagonista mulher na obra, ainda desperta no leitor, no crítico, nos jurados dos concursos literários, nos organizadores de eventos, uma ideia difusa de que se trata de algo ‘menor’, ‘menos universal’ do que aparenta ser uma ‘narrativa masculina’ Marta Barcellos, escritora

Reprodução/Facebook Há preconceito com a literatura escrita por mulheres, porque o machismo ainda está enraizado na sociedade, em todos nós. O nome de uma escritora na capa do livro, ou mesmo o ponto de vista de uma protagonista mulher na obra, ainda desperta no leitor, no crítico, nos jurados dos concursos literários, nos organizadores de eventos, uma ideia difusa de que se trata de algo ‘menor’, ‘menos universal’ do que aparenta ser uma ‘narrativa masculina’ Marta Barcellos, escritora

A escritora Ivana Arruda Leite, autora de obras como “Hotel Novo Mundo” e “Cachorros”, já é mais enfática. “Se existe uma literatura que se nomeia feminina, ela é da pior qualidade e não merece sequer entrar no rol da produção literária digna desse nome. Se formos por esse caminho, começamos a classificar a literatura em feminina, masculina, gay, negra, da periferia, feminista, socialista, católica, dos caminhoneiros, dentistas, canina, bovina e por aí vai.”

Simone Campos, que escreveu “A Vez de Morrer”, dentre outras obras, por sua vez, começa a enxergar alguns vieses na definição. “Nossa literatura é formatada por nossas experiências. E quando se fala que literatura feminina ou feminista não existe, pode parecer que a experiência particular de autoras mulheres no mundo não difere da dos homens. E como difere!”, diz. “Temos muito mais experiência direta com conflitos causados pelo machismo”, exemplifica, ressalvando que “não é que mereçamos ‘atenção especial’, mas a mesma atenção seria mais do que justo”.

Indo além do existir ou não a literatura feminina, o que o UOL pôde apurar é que, independente de rótulos, é preciso que se discuta a maneira como a arte feita por mulheres é recebida.

A luta por espaço

A princípio, o sexo de uma pessoa não deveria ser importante quando falamos de literatura. “O adjetivo ‘feminina’, pra mim, não é nada mais do que uma referência ao gênero do autor, ou da autora, no caso. Quanto à classificação, os livros escritos por mulheres são simplesmente literatura”, diz Ivana.

No entanto, o mundo ideal e o real são muito diferentes. Por isso, o termo em questão pode servir de ponto de partida para que se discuta o espaço das mulheres em tudo o que envolve o universo literário, desde a publicação de livros, passando pela conquista de prêmios e chegando à participação em eventos.

Segundo Maria José Silveira, romancista que recentemente lançou “De Onde Vêm as Histórias”, no qual faz reflexões sobre literatura e dedica um capítulo a esse assunto, a separação entre masculino e feminino não passa por nenhum crivo rigoroso, sendo “um método importado de outras ciências pelos estudiosos da literatura, talvez por uma suposta e equivocada necessidade prática. Equivocada porque, em sua ânsia de separar, classificar e arrumar, perde o foco principal e se torna estéril”. Para ela, embora intencional, esse tipo de classificação contribui para que ainda hoje exista preconceito com relação às mulheres escritoras. “Vemos essa discriminação cotidianamente, nas listas que se fazem, na distribuição dos espaços literários, nos convites que são feitos, na meritocracia que se estabelece. É algo ideológico, insidioso, mal percebido e que, no entanto, se reproduz em inúmeras esferas. Poucos escapam disso.”

Reprodução/Facebook Teve uma vez que o entrevistador me gritou ‘de brincadeirinha': ‘Tira a roupa!’, enquanto outro entrevistador se recusava a me dirigir a palavra, sentando-se sobre o microfone… Um terceiro mediador tentava salvar o que podia, coitado Simone Campos, escritora

Reprodução/Facebook Teve uma vez que o entrevistador me gritou ‘de brincadeirinha’: ‘Tira a roupa!’, enquanto outro entrevistador se recusava a me dirigir a palavra, sentando-se sobre o microfone… Um terceiro mediador tentava salvar o que podia, coitado Simone Campos, escritora

Marta Barcellos, uma das vencedoras do Prêmio Sesc de Literatura deste ano na categoria Contos com “Antes que Seque”, corrobora o discurso de Maria José. “Há preconceito com a literatura escrita por mulheres, porque o machismo ainda está enraizado na sociedade, em todos nós. O nome de uma escritora na capa do livro, ou mesmo o ponto de vista de uma protagonista mulher na obra, ainda desperta no leitor, no crítico, nos jurados dos concursos literários, nos organizadores de eventos, uma ideia difusa de que se trata de algo ‘menor’, ‘menos universal’ do que aparenta ser uma ‘narrativa masculina’.”

Em cinco das 24 narrativas breves que compõem sua premiada obra, Marta adota o ponto de vista de homens, sendo três desses contos escritos em primeira pessoa. Segundo ela, para aumentar as chances de ganharem prêmios, é comum que muitas escritoras construam suas histórias com protagonistas homens e até mesmo adotem pseudônimos masculinos.

“Tira a roupa”

Sobre os eventos literários que se espalham pelo país, quem fala é Simone Campos. Ela conta que é comum ver mesas que agrupam certas minorias, como negros, homossexuais ou as próprias mulheres, como uma espécie de “cota” para esses grupos. Apesar de ressaltar que quer ser chamada para “mesas mistas, com temas diferentes de ‘feminino’”, a escritora afirma que essas reservas podem ter sua importância. “É melhor do que nada, mas é (mais…)

‘Educação é baseada em achismos, não em ciência’, diz Viviane Senna

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Publicado em Folha de S.Paulo

Viviane Senna, a presidente do Instituto Ayrton Senna, que leva o nome do seu irmão, considera que a educação brasileira vive uma fase pré-científica. Há muitos estudos à disposição sobre como o aprendizado se dá, afirma, mas pouco é utilizado.

Sua entidade contratou recentemente o economista Ricardo Paes de Barros, importante pesquisador das áreas de desigualdade e mercado de trabalho. Fez também uma parceria com Roberto Lent, um dos principais neurocientistas do país, para o desenvolvimento de pesquisas na área de educação.

Entre outro temas, eles estão pesquisando o impacto de características pessoais como a disciplina no aprendizado.

Um estudo da entidade mostrou que qualidades como a dedicação e o foco têm quase o dobro do impacto no desempenho escolar em comparação com fatores tradicionalmente mais considerados, como cor, gênero ou ambiente familiar. Para ela, isso hoje é subestimado por escolas e professores. “Ninguém vai aprender se não for responsável, se não ralar.”

Leia abaixo a entrevista com Viviane Senna.

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Folha – É possível mensurar o impacto de características como a disciplina no desempenho dos alunos?
Viviane Senna – Estamos medindo a conscienciosidade de 25 mil alunos da rede estadual do Rio de Janeiro. É um mapeamento feito a partir de um conjunto de perguntas. Os cientistas estão megaentusiasmados. O que é a conscienciosidade? É a capacidade da pessoa de ser responsável, de ter foco, persistência, disciplina. O que descobrimos é que essa habilidade significa, a cada nove meses de aulas de matemática, um bônus de três meses no aprendizado. Ou seja, você consegue um terço a mais de resultados. O [economista] Ricardo Paes de Barros, que agora está no nosso time, está por trás dessa iniciativa.

A iniciativa privada já descobriu que essas habilidades são importantes há muito tempo, não?
Sim. Estamos mostrando cientificamente aquilo que intuitivamente sabemos que é importante. Ninguém vai aprender ou trabalhar se não for disciplinado, responsável, se não ralar Nenhuma atividade que envolva esforço vai ser bem sucedida se não tiver essas características.

Que outras habilidades socioemocionais vocês apontam como importantes?
Outra, muito importante, é a flexibilidade. O melhores empregos de 2010 nem existiam em 2002, por causa da tecnologia O governo americano estima que quem está hoje na escola terá mais de dez empregos diferentes até os 38 anos. É preciso ser criativo, persistente. É como em um casamento. Não dá para sobreviver só com inteligência.

Estamos mapeando essas habilidades, ok. Mas, uma vez que a pessoa em questão não seja disciplinada, persistente, algo nos diz que seja possível mudar?
Essa é outra questão importante. Se essas habilidades são fixas, cristalizadas, não há nem o que mexer. Mas estamos descobrindo que essas características são muito maleáveis, pela vida toda, mas especialmente até os 20 anos de idade. É importante treinar os professores para que estimulem isso nos alunos. É o que estamos fazendo no Rio de Janeiro. Pode ser uma forma inclusive de a escola ficara mais motivante para o próprio aluno.

Qual a reação dos professores?
Para eles, é muito difícil ter crianças indisciplinadas, cansadas, desmotivadas, desfocadas. Ele precisa não desistir da criança, fazer ela acreditar nela mesma, trabalhar com disciplina, foco. Você tem de ensinar ao professor que ele não pode desistir da criança. Às vezes, o professor chega em sala e já elege aqueles em que vai focar, e os outros ficam meio de lado. Você tem de colocar para o professor que a meta dele é ter 100% de sucesso. Aí ele aprender a ter responsabilidade e não arrumar desculpa, dizendo que o aluno é pobre ou que a família dele é desestruturada. Se você ensinar, o aluno aprende. Quando isso acontece, o aluno passa a acreditar no professor e vice-versa. O professor também de ser persistente. Se o aluno falta, o professor vai até a casa dele ver o que aconteceu. Um serve de exemplo ao outro. É cruel quando a escola permite que a escola desista da própria inteligência. Você ensina a atitude para o professor, que vai ensinar pro aluno.

Até porque, no Brasil, terminar o ensino médio é quase uma garantia de que a pessoa não vai ser miserável.
Exato. Só 0,2% dos brasileiros que terminam o ensino médio podem ser classificados como pobres. Praticamente metade das crianças nem chegam ao ensino médio. Quando chegam, estão muitas vezes com uma defasagem muito grande. Não conseguem acompanhar. E isso em um momento em que elas começam a ter mais autonomia para querer desistir da escola. A escola é desestimulante, mas você tem um mundo superestimulante do lado de fora. Sem preparo emocional, fica fácil desistir.

Sempre que se fala de uma cultura de alto desempenho dentro da escola, de resultados, de metas, existe uma reação de corporativismo, de sindicatos. Isso segue forte?
Essa resistência existe. Ela não é tão forte quanto foi há 20 anos, mas ainda vai ter que evoluir muito. Avaliação é só uma ferramenta para saber se estamos acertando ou errando. É básico.
Uma criança que tinha oito anos quando Dilma começou o primeiro mandato vai ter 16 quando ela terminar o segundo. São oito anos decisivos. O que ela aprendeu ou não vai definir a vida dela. A questão da eficiência é uma questão ética. Não temos o direito de não ter eficiência. Essa oportunidade não volta mais.

Existe um estereótipo, não sei se justo, de que as culturas asiáticas, como as dos japoneses e dos sul-coreanos, têm uma carga muito forte de características como foco, disciplina.
Estive pensando justamente nisso recentemente. Eles são focados, disciplinados e resistentes. São coisas que fazem parte da conscienciosidade, como a resistência à frustração. Isso é indicador de maturidade emocional. Nós [ocidentais] queremos tudo para a mesma hora, não temos isso tão bem desenvolvido. Em outras características, porém, como flexibilidade, nós somos muito bons.

Em uma palestra recente, você disse que, depois de trazermos conhecimentos de gestão e economia à educação, o próximo passo é a neurociência. Como isso se dá?
De modo mais geral, queremos trazer a ciência para a educação. Montamos uma rede de pesquisadores, com gente como o Roberto Lent [importante neurocientista carioca]. Estamos estudando, por exemplo, o papel da repetição na automatização da leitura e o papel do sono na consolidação do conhecimento. Queremos entender como o cérebro aprende, não só pesquisando, mas também rastreando todo o conhecimento que já está disponível mas não está sistematizado. A educação trabalha com achismos, enquanto a gente tem uma quantidade imensa de ciência à disposição.

 

RAIO-X: VIVIANE SENNA

Nascimento 14.jun.1957
Formação Psicóloga pela PUC-SP, atuou como psicoterapeuta de adultos e crianças e também como supervisora de grupos de formação e aperfeiçoamento de terapeutas.
Trajetória Em 1994, mesmo ano da morte do irmão, Ayrton Senna, fundou com sua família o Instituto Ayrton Senna, dedicado ao desenvolvimento da educação e que ostenta reconhecimento nacional e internacional. Recentemente a Viviane e o IAS têm se dedicado à incorporação de conhecimentos científicos na educação, e ao fomento de pesquisas na área de neurociências e na importância das habilidades socioemocionais para o desenvolvimento escolar.

Site francês usa foto de mulheres de biquíni ao noticiar participação brasileira em evento literário

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Uma das revistas mais importantes da França, ‘Le nouvel observateur’ falou sobre os escritores convidados ao Salão do Livro de Paris

Site francês usa foto de mulheres de biquini ao noticiar participação brasileira no Salão do Livro de Paris - Reprodução

Site francês usa foto de mulheres de biquíni ao noticiar participação brasileira no Salão do Livro de Paris – Reprodução

Bolívar Torres, em O Globo

A lista dos 48 autores que representarão o Brasil no Salão do Livro de Paris, que acontece entre 20 e 23 de março de 2015, acaba de ser anunciada. E a polêmica já começou — não por causa dos nomes escolhidos, mas sim por causa de uma matéria publicada no site da revista francesa “Le nouvel observateur”, uma das mais importantes do país. Ao noticiar os escritores convidados do Brasil, país homenageado no evento, o semanário usou a foto de três mulheres de biquíni, na praia, em poses sensuais. Uma imagem que pouco diz sobre literatura — e que ainda reforça clichês sobre a imagem do Brasil.

Na legenda da foto, o site informa que se trata de “Torcedoras brasileiras, na última copa do mundo”. Mas uma simples busca no Google mostra que as modelos na foto sequer são brasileiras, e sim dançarinas inglesas que posaram num ensaio temático sobre o Brasil. Ironicamente, a matéria também destaca que a seleção de autores tem como objetivo “refletir a riqueza da produção intelectual contemporânea” do país. Nas redes sociais, editora e tradutora francesa Paula Anacaona, que publica alguns dos autores convidados na França, repudia a reportagem.

“Olhem o que uma revista francesa colocou para ilustrar o artigo sobre o convite do Brasil no Salon du Livre… Desesperador, né??”, escreveu em seu perfil no Facebook.

— Quando vi essa foto, pensei que era uma brincadeira. Mas não, o jornalista não fez uma brincadeira — diz Paula, em entrevista por email. — Ele quis ilustrar o seu artigo sobre o Brasil e a Feira do livro e pensou nisso: praia, biquíni… É justamente contra esse tipo de preconceito que eu batalho todo dia aqui, com minha editora especializada no Brasil. Na cabeça do francês, o Brasil não é um pais literário. Por mais que você tente, por mais dinheiro você gaste, parece que os franceses não querem deixar de lado esse estereótipo. Sou uma otimista, tenho fé que um dia isso mude, mas às vezes dá vontade de chorar de desespero.

Ela ironiza:

— Será que vou pedir para meus autores, quando chegarem em Paris, vestirem um biquíni nas palestras?

Para a escritora Carola Saavedra, uma das convidadas do evento, “não há como não comentar a foto”.

— É como se, ao anunciar a França como país convidado para um evento literário no Brasil, utilizássemos fotos de dançarinas de cancan — diz.

Outra representante brasileira, Tatiana Salem Levy definiu a matéria como “triste”.

— Significa que teremos trabalho pela frente, lá no salão mesmo, para ver se um dia conseguimos mudar esse clichê do Brasil — opina. — É sempre assim, onde há Brasil, há mulher de biquini e futebol. Por isso, é tão importante investirmos na exportação da literatura, do cinema, do teatro, das artes plásticas. Assim, com o tempo, pode ser que isso mude e em vez de fotos de mulheres de biquíni vejamos fotos de escritores.

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