A ONU diz ter conseguido a desmobilização de pelo menos 3 mil soldados infantis envolvidos no conflito

A ONU diz ter conseguido a desmobilização de pelo menos 3 mil soldados infantis envolvidos no conflito

Ed Thomas, na BBC Brasil

As cerca de 300 crianças estão uniformizadas e carregam rifles enquanto escutam o discurso de seu comandante, em Pibor, no Sudão do Sul.

Há um certa agitação no ar, porque em breve as crianças passarão aos cuidados das Nações Unidas.

Após anos de participação como soldados em uma guerra civil, as crianças enfim poderão ir para casa.

“Não vejo minha mãe e minha família desde o verão passado”, explica Silva, um dos mais jovens soldados na cerimônia.

Ele tem apenas 11 anos. E assim como seus companheiros de armas, tem sua identidade preservada. Silva é um nome fictício.

“Vi muitas pessoas morrerem em minhas missões”, conta Silva.

“Eu tinha um fuzil AK-47. Era pesado. Estava lutando para proteger minha família e minha aldeia”.
Grito de batalha

Crianças de 11 anos estavam entre os milhares de soldados infantis recrutados pelos dois lados na guerra civil do Sudão do Sul

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A cerimônia é conduzida pelo general Khalid Butrus Bura, um dos comandantes de Silva na Tropa Cobra do Exército Democrático do Sudão do Sul.

Trata-se de uma poderosa milícia atuante na região de Pibor e que há mais de três anos vive em guerra com governo do Sudão do Sul – um dos muitos conflitos desde que o país foi criado, em 2011, após conquistar sua independência do Sudão.

Porém, a situação em Pibor se tranquilizou com a assinatura de um acordo de paz entre o governo e David Yau Yau, líder rebelde que pegou em armas contra as autoridades sob a alegação de estar defendendo os interesses da minoria étnica murle. A maioria da população sudanesa do sul, estimada entre 8 e 10 milhões de pessoas, é das etnias dinka, nuer, bari e azande.

Yau Yau é uma presença forte na região de Pibor e seu nome é gritado pelas crianças-soldado antes de sua transferência para um complexo especial da ONU no vilarejo de Gumuruk.

Depois de comandar crianças na frente de batalha o general Yau Yau agora promete que os ex-combatentes irão à escola

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Silva agora pensa num futuro sem guerras.

“Quero estudar. Não quero mas lutar. Tinha medo”

Ao lado de Silva está Abraham, de 12 anos.

Ele é uma criança que carrega o ar de um veterano de guerra.

“Tinha medo de morrer e senti que precisava lutar”, diz Abraham.

As estimativas são de que a guerra civil no Sudão do Sul já tena matado mais de 50 mil pessoas

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“Duas irmãs foram mortas. Estive em missões e vi muitas pessoas morrendo também”.

O conflito em Pibor é paralelo à rebelião nacional que eclodiu no Sudão do Sul em 2013 e que já matou mais de 50 mil pessoas.

A ONU acredita que milhares de crianças têm sido forçadas a lutar em ambos os lados do conflito.
Esperança

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