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Mal avaliado, ensino médio brasileiro poderá ter currículo flexível

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Flávia Foreque, em Folha de S.Paulo

Etapa escolar que amarga baixos indicadores de qualidade em sucessivas avaliações do governo federal, o ensino médio poderá ganhar um currículo flexível, como defende o Ministério da Educação.

A pasta apresentou nesta quarta-feira (16) uma primeira proposta para o conteúdo que deve ser ensinado em salas de aula de todo o país, desde a educação infantil até o ensino médio. É uma espécie de currículo nacional.

O documento define que 60% do conhecimento a ser repassado pelos professores será uniforme em todo o país. Os demais 40% ficam a critério de Estados e municípios, devido às regionalidades.

Por exemplo, o Rio Grande do Sul pode dar ênfase maior à Revolução Farroupilha, enquanto São Paulo, à Revolução Constitucionalista de 1932.

Até o início do próximo ano, o texto ficará em consulta pública e, em seguida, será encaminhado ao Conselho Nacional de Educação. Caberá a esse grupo propor uma redação final, a ser confirmada depois pelo ministério.

 

“A proposta não assinala os diferentes percursos [para o aluno do ensino médio], mas o nosso interesse é de que, ao final, tenhamos condições de oferecer possibilidades de escolha aos jovens”, disse o secretário de Educação Básica do ministério, Manuel Palácios.

Ele reconhece que o tema precisa ainda ser “amadurecido” e debatido com os Estados, principais responsáveis por essa etapa. “Não é fácil resolver esse problema, porque o estudante deve ter possibilidade de escolhas, mas sem deixar de ter contato com conhecimentos essenciais.”

O currículo flexível no ensino médio, no qual o aluno poderia escolher o que estudar em parte da carga horária, também caminha para ser adotado na rede paulista de ensino –um projeto já foi encaminhado à Assembleia.

Para o ministro Renato Janine (Educação), um dos “pontos cruciais” dessa base nacional comum é a maior interação entre diferentes áreas.

“Um pequeno número de disciplinas desarticulada em seu conteúdo é muito menos produtivo do que um número maior de disciplinas, porém articulada”, afirmou.

Ele apontou dois efeitos diretos da definição de um currículo nacional: parâmetros mais precisos para a formação dos professores e melhoria do material didático.

REGIÕES

O ministro destacou ainda a possibilidade de Estados e municípios definirem conteúdos a partir de características regionais da literatura ou da geografia, por exemplo.
Preliminar, o documento apresentado foi elaborado por 116 especialistas, divididos em comissões temáticas por disciplina ou série.

Coordenadora desse trabalho, Hilda Micarello reconheceu que o conteúdo definido foi “mais extenso” que o desejável, mas crê que, a partir de agora, o documento de 302 páginas possa ser “refinado”.

Ali está previsto, por exemplo, que um aluno do 1º ano do fundamental deve ser capaz de “identificar práticas cotidianas de cuidados pessoais que contribuem para o bem-estar e a saúde”.

No texto, o ministério defendeu uma “visão plural de mundo”, sem discriminação por etnia, credos ou gênero –termo que motivou embates na construção de planos regionais de educação em Estados e municípios.

“A base é como o esqueleto do corpo, o que vai deixá-lo de pé. O que compõe esse corpo vem depois”, resume Eduardo Deschamps, presidente do Consed (entidade que reúne secretários estaduais de educação).

ARGUMENTOS DO CURRÍCULO NACIONAL

Prós
> Famílias saberão o que os filhos devem aprender em cada série
> Escolas e redes de ensino terão mais clareza para monta-?gem de seus próprios currículos
> Formação dos professores poderá focar especificamente o que deverá ser ensinado aos alunos

Contras
> Currículo nacional pode ser visto por escolas e redes como o máximo a ser atingido, não o mínimo
> Pode haver pouco espaço para os conteúdos regionais
> Escolas e redes podem boicotar por entenderem que houve perda de autonomia

LINHA DO TEMPO

1996
Aprovada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). A regra federal prevê que seja criada uma base nacional comum curricular

2000
Especialistas em educação já classificam como “urgente” a necessidade de uma reforma curricular do ensino médio

2005
Sem a definição da base curricular comum, vão sendo criadas matérias a serem incluídas obrigatoriamente no ensino médio

2010
Conselho Nacional de Educação emite resolução definindo diretrizes curriculares nacionais para a educação básica

2011
Conselho Nacional de Educação detalha, em parecer, as novas diretrizes curriculares nacionais para o ensino médio

2014
Plano Nacional de Educação, com metas a serem cumpridas em até dez anos, é sancionado pela presidente da República

2015
Dois ministérios (Educação e Assuntos Estratégicos) elaboram, separadamente, propostas para a base curricular

Ex-gari escreve histórias para contar aos filhos e tem livro publicado no RS

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Wagner Fagundes ganhou apoio da comunidade para publicar contos.
Familiares do ex-gari, hoje eletricista, se emocionam ao falar do pai.

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Publicado no G1

Morador de uma pequena casa na Ilha dos Marinheiros, em Porto Alegre, o eletricista Wagner Fagundes virou exemplo de superação na comunidade. Mesmo sem ter o ensino fundamental completo, ele escreveu histórias em um caderno, para contá-las aos filhos pequenos, e teve um livro publicado, como mostra a reportagem do Jornal do Almoço (veja o vídeo).

O filho mais velho, Dhiordan, de 14 anos, se emociona ao falar do pai. O esforço para proporcionar uma boa infância às crianças, ainda que sem condições financeiras, valeu a pena.

“Meu pai é uma pessoa legal, orgulhosa, feliz com seus filhos. Ele é muitas coisas”, resume o jovem, sem esconder o choro.

Quando Dhiordan nasceu, Wagner trabalhava como gari. Alguns livros que encontrava no lixo, ele levava para casa. Porém, a maioria das histórias que contava ele escrevia à mão em um caderno. Wagner colocava no papel a vida que imaginava para sua família. Em noites de choro, segundo ele, as histórias acalmavam os pequenos. As crianças foram crescendo e ouvindo uma coleção de contos.

“O motivo [do orgulho] é pela educação que dei pra eles. Sempre li e escrevi. Sou um pai presente e brincalhão. Sempre brinco com eles”, conta Wagner. “Condições a gente pode não ter, mas meios para correr atrás existem. É só querer. Educação é coisa que não se compra, vem de princípios, de berço. Meu pai e minha mãe também me passaram”.

As histórias do Wagner correram a vizinhança e ganharam notoriedade. O livro com suas histórias acabou publicado.

“Pessoas que eu nem conhecia ajudaram a tornar realidade o sonho de uma pessoa da comunidade carente. Isso faz a gente acreditar num país tão sofrido como o nosso, que existe gente boa pensando na educação. Isso inspira para quem sabe surgir uma editora para lançar mais livros”, afirma ele.

Além dos filhos, Wagner ganhou novos leitores. Ele é convidado, como autor, para ir a escolas falar da sua primeira obra infantil. “Ele para mim é uma pessoa incrível”, elogia a mãe, Sandra Fagundes.

O professor é o fator que mais influencia na educação das crianças

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A família, a vizinhança e o esforço pessoal contam no resultado de cada aluno. Mas pesquisa após pesquisa mostra que um fator importa muito mais que os outros: o professor

 

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Camila Guimarães, na Época

As irmãs americanas Beatriz e Elizabeth Vergara, de 15 e 16 anos, passam por uma experiência inusitada para adolescentes que frequentam o ensino médio público. Com mais sete alunos, elas processam o Estado da Califórnia, onde moram e estudam, por oferecer uma educação ruim. O processo correu entre janeiro e junho. Mais surpreendente foi o argumento usado: segundo os advogados das meninas, o Estado da Califórnia fere a Constituição dos Estados Unidos, ao manter a estabilidade de emprego e outras leis de proteção ao professor, porque isso dificulta a demissão de educadores ruins. A decisão do juiz Rolf True não tem precedentes. Ele concordou que a estabilidade de emprego mantém os maus professores em sala de aula. Na sentença, afirmou: ‘‘Os maus professores são determinantes para a educação das crianças. Além de chocar nossa consciência, isso viola o direito constitucional dos estudantes de ter oportunidade de uma educação básica de qualidade”. A causa das irmãs Vergara foi levada à Justiça pela ONG Students Matter (Estudantes Importam), de David Welch, um empresário do setor de fibras ópticas e ex-estudante de escola pública.

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Apesar de a decisão ser de primeira instância e de não criar jurisprudência, True fez barulho, na Califórnia e nos EUA. Precisa fazer barulho também no Brasil. Acabamos de passar por campanhas eleitorais, para presidente e governadores, fraquíssimas em propostas de mudanças na educação. Por aqui, o debate se concentra quase exclusivamente em quanto investir. Pouco se discute como investir de forma a melhorar o nível do professor.

Os EUA passam por profundas reformas na educação, regionais e nacionais, há décadas. Uma das maiores lutas dos reformistas é pela qualidade dos educadores. Isso passa pela avaliação do trabalho do professor. É preciso dar a ele oportunidade para melhorar e, se for o caso, dispensá-lo – medidas controversas, que contrariam leis antigas, o senso comum e os poderosos sindicatos de professores. A interpretação da lei feita pelo juiz True abalou as amarras dessas velhas regras. Desde junho, pelo menos mais três processos semelhantes ao das irmãs Vergara foram abertos em outros Estados americanos.

Reduzir a estabilidade de emprego dos professores é apenas uma das várias estratégias adotadas por países como EUA, Finlândia, Polônia e Chile. Todos já fizeram ou conduzem reformas educacionais, para chegar a um objetivo: melhorar a qualidade do professor e, dessa forma, melhorar o aprendizado do aluno.

Pode parecer óbvia, mas a ligação entre a qualidade do professor e o que se aprende em sala de aula só foi estudada e comprovada nos últimos anos. As pesquisas mais recentes mostram que não há fator mais importante para o sucesso do aluno na escola e na vida adulta. É mais decisivo que o tamanho das redes de ensino, em que região do mundo estão, as diferenças socioeconômicas entre os estudantes, os gastos com a educação de cada país, se a escola tem ou não computador, se a família ajuda na lição de casa. Por isso, para elevar o nível da educação, deve-se colocar o professor sob o microscópio. “Ninguém precisa reinventar a roda para melhorar a educação brasileira. Se a escola é o lugar onde alunos ganham conhecimento, então o professor é chave para um aprendizado de sucesso”, afirma João Batista de Oliveira, doutor em pesquisa educacional e autor do livro Repensando a educação brasileira.

As pesquisas se preocuparam em medir a influência do professor entre crianças com o mesmo nível socioeconômico, na mesma escola e até na mesma série. Pesquisadores da Faculdade de Educação da Universidade Stanford descobriram que, enquanto o estudante com professor fraco aprende metade ou menos do que deveria no ano, aquele que tem bons professores aprende o equivalente a um ano a mais, e o que tem professores considerados excelentes, um ano e meio a mais. A mais recente pesquisa sobre o assunto, da Universidade Harvard, analisou duas décadas de desempenho de alunos e professores. Chegou à conclusão de que os alunos de classes com melhores professores ganham, ao longo da vida adulta, US$ 250 mil a mais.

Para além da academia, a vida real também mostra os efeitos positivos do bom professor. “O professor é o segredo das reformas bem-sucedidas de potências educacionais, como Finlândia, Polônia e Coreia”, afirma Amanda Ripley, autora do livro As crianças mais inteligentes do mundo. Ela viajou e acompanhou estudantes em cada um desses países para compreender o que fizeram. “São diferentes países, com diferentes culturas e tamanhos, com poucas coisas em comum. Uma delas é levar mais a sério a preparação dos professores para a sala de aula”, afirma.

Escolas utilizam exemplo de Malala para conscientizar jovens

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 Paquistanesa Malala Yousafzai após pronunciamento em Birmingham, na Inglaterra Foto: Darren Staples / Reuters

Paquistanesa Malala Yousafzai após pronunciamento em Birmingham, na Inglaterra
Foto: Darren Staples / Reuters

Em colégio de São Paulo, o livro de Malala foi utilizado em projeto Impressões Humanas, que neste ano tem como tema a cultura de paz

Publicado no Terra
Enquanto no ano passado escolas particulares paquistanesas foram proibidas de comprar o livro Eu sou Malala, de Malala Yousafzai, menina símbolo da luta pelo direito das mulheres paquistanesas à educação e da luta contra o terrorismo, por ordem da Federação de Escolas Particulares do Paquistão, no Brasil, o livro é utilizado como forma de conscientização do papel do jovem nas mudanças da educação. Malala, que atualmente tem 17 anos, foi anunciada nesta sexta-feira vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2014 e se torna a vencedora mais jovem do prêmio.

Sua história serve de inspiração para jovens do mundo inteiro, inclusive no Brasil. No colégio Santo Ivo, de São Paulo, o livro de Malala foi utilizado em no projeto Impressões Humanas, que neste ano tem como tema a cultura de paz. Os alunos tiveram de ler o livro e debater sobre a história e luta da paquistanesa, que vê na educação a chave para combater o terrorismo. A menina ficou mundialmente conhecida após publicar em um blog da BBC sua experiência com a repressão sofrida por mulheres no Paquistão, por conta do regime do Taliban (as meninas são proibidas de frequentar a escola, por exemplo), que controla a região em que ela morava, o Vale de Swat. Em 2012, sofreu um atentando pelas denúncias que fazia, levando um tiro na cabeça no ônibus em que ia para a escola, mas sobreviveu e se mudou para a Inglaterra. De lá, continuou sua luta pelo direito das mulheres à educação.

Aluna do Colégio Santo Ivo, Milena Gomes Lopes, 16 anos, que leu o livro para o projeto da escola, vê em Malala uma inspiração, principalmente pela proximidade de idade. “É um exemplo para todos, mas principalmente para os adolescentes, porque ela é muito jovem e normalmente as pessoas que realizam grandes mudanças no mundo são mais velhas e experientes. Ela fazer tudo isso nos traz uma esperança para o futuro. Não imaginava que alguém tão jovem pudesse realizar mudanças assim. É fascinante a história dela”, conta. Milena já tinha ouvido falar da história da menina paquistanesa, mas foi na escola que teve a oportunidade de conhecer melhor a luta da vencedora do Nobel.

A diretora do colégio, Myrna de Barros Lima Ibrahim, explica que o projeto é interdisciplinar, envolvendo as disciplinas de história, língua portuguesa e literatura. O livro de Malala foi escolhido porque vai de encontro com o objetivo do projeto: fazer com que os alunos reflitam sobre a temática da paz e reconheçam o que os afasta dela, como a falta de diálogo. “O livro é a base do projeto, que depois se desdobra em outros temas. Mas foi escolhido porque ela aposta na educação para promover uma transformação no mundo em relação à paz. Além de ter a mesma faixa etária dos alunos. É uma nova geração chegando que precisa aprender a resolver seus conflitos por meio do diálogo e Malala os inspira”, comenta.

Milena, que está cursando o 2º ano do ensino médio, aprovou a história contada no livro. Ela destaca e se identificou com as ideias da menina, apesar da distância cultural e de realidade que as separa. Para ela, a mensagem de Malala, de que a educação é fundamental para um mundo melhor, é aplicável em qualquer lugar do mundo. “Eu concordo com tudo o que ela fala praticamente. Acredito que a educação pode mudar o mundo. Comecei a compreender melhor a nossa realidade na educação também. É um pouco diferente porque lá as meninas são proibidas de irem à escola. Mas aqui encontramos uma educação pública precária e pessoas que não podem estudar pois precisam trabalhar para sustentar a família. A educação brasileira tem essa fraqueza e precisa se fortalecer”, reflete a aluna.

Uma das professoras responsáveis pelo projeto no Santo Ivo, Maria de Fátima Borelli, que leciona literatura, considera a história de Malala pertinente não só para mostrar a realidade dentro do Brasil aos jovens, mas para contextualizar a eles como vivem e as dificuldade por que passam jovens de sua idade em outros lugares do mundo. “A intensão é abrir o campo de visão deles para assimilar o pensamento dela (falando sobre Malala). Como professores, entendemos que precisamos mostrar aos alunos mais do que os aspectos de violência, mas também trazer a cultura de paz. Fazê-los pensar: o que eu posso fazer pela paz? Malala está aí para responder essa questão”, conta. A professora conta que os alunos gostaram da leitura, pois conseguiram enxergar na paquistanesa uma menina que conseguiu transformar sua vida por meio da educação. Apesar de ser novo, conseguiram ver por meio dela que eles também têm condições de entender os problemas do País e pensar em como fazer a diferença, mesmo muito jovens.

Outros temas puderam ser discutidos a partir do livro, como temas relacionados com a violência contra mulheres, racismo e mesmo a variedade de culturas que existem no mundo. Com um trabalho também de contextualização da realidade do Paquistão, os alunos começaram a compreender melhor as diferenças políticas e religiosas. “Discutimos a educação a todo momento no colégio, até por conta da época de eleições, pois muitos dos alunos já votam. O livro de Malala foi a porta de entrada para discutir a realidade do Brasil”, conclui a Maria.

Milena concorda. Ela conta que a partir da leitura e do debate que se seguiu a ela, conseguiu reparar em problemas da educação brasileira que antes não eram tão notados. “A questão da educação pública não ser tão boa quanto a particular, o governo não investir tanto quanto deveria na educação. Foi muito atraente estudar a história dela na escola, por ser algo que aconteceu recentemente. É distante de nossa realidade (falando sobre o Taliban), mas é algo que está acontecendo no mundo neste momento”, lembra.

Laura Matte Doering, 17 anos e estudante do 3º ano do ensino médio, no Colégio Anchieta, em Porto Alegre, passou a acreditar que é possível que jovens tenham voz para fazer mudanças no Brasil, a partir da história de Malala. Ela leu o livro por indicação de sua mãe, que é professora aposentada, e afirma que o livro abriu seus horizontes. “Eu não tinha a menor noção do que passava Malala e a população do Paquistão. A história dela é emocionante. O Prêmio Nobel da Paz foi extremamente merecido. Eu não conseguia imaginar alguém como ela tendo voz no mundo antes de ler o livro”. A estudante conseguiu enxergar melhor o seu próprio papel frente às dificuldade na educação brasileira, inspirada na história de Malala e ressalta a importância de o assunto ser tratado na escola. “Acho que meu papel, assim como o de todo mundo, é lutar por uma educação melhor. No meu colégio, o assunto não foi tratado. É essencial levar pra escola para mostrar aos jovens o que ela conseguiu fazer com a idade que tem e que como cidadãos, podemos conseguir mudanças também.”

Conheça a mulher que largou carreira de executiva para dar educação a crianças pobres na Índia

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Shukla Bose, que fará uma palestra no seminário Educação 360, fala sobre os desafios do ensino em comunidades carentes

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Por Andrea Rangel, O Globo

RIO – Em 2003, a indiana Shukla Bose decidiu jogar para o alto a carreira de executiva e criou a Fundação Humanitária Parikrma, uma organização não governamental que oferece ensino gratuito de qualidade a 1,6 mil crianças de Bangalore, a quarta cidade mais populosa da Índia. Shukla será uma das conferencistas do encontro internacional Educação 360, promovido por O GLOBO e “Extra”, em parceria com Sesc, Prefeitura do Rio e Fundação Getulio Vargas, com o apoio do Canal Futura. O encontro vai acontecer nos dias 5 e 6 de setembro na Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá.

Há 11 anos, a senhora abandonou uma carreira de sucesso numa empresa multinacional para se dedicar ao trabalho social na área da educação. O que a motivou?

Abandonei a carreira de diretora executiva numa multinacional e enveredei pelo campo do trabalho social porque não estava satisfeita com a vida corporativa, com aquela rotina de fazer balanços financeiros que só beneficiam uma minoria milionária. Trabalhei como voluntária ao lado de Madre Teresa de Calcutá durante sete anos, quando ainda era estudante. E por meio dessa experiência aprendi que o verdadeiro trabalho está nas ruelas da Índia, e que era preciso mergulhar nas mazelas da nossa sociedade para operar uma pequena mudança de verdade.

Quais as principais frentes de trabalho da Fundação Parikrma?

Temos quatro escolas que atendem a 1,6 mil crianças, entre cinco e 18 anos, que moram nas ruas, favelas e orfanatos de Bangalore, na Índia. Desenvolvemos também um trabalho com os pais dos alunos que já alcança cerca de 25 mil pessoas. Recentemente, inauguramos a Academia de Formação de Professores, que atende a cerca de 2 mil educadores e a 63 mil alunos de escolas estaduais que trabalham como auxiliares em instituições de difícil acesso. São escolas que carecem de profissionais de ensino.

Como se dá o trabalho com os familiares dos alunos?

Nós identificamos os problemas de cada família e damos início a um trabalho de aconselhamento e capacitação. Oferecemos cursos de capacitação profissional para a família, que passa a ter uma renda maior. Abrimos contas bancárias para as mães, que são orientadas a lidar com suas finanças. Também oferecemos treinamento em nutrição infantil e transmitimos noções básicas de higiene e saúde.

Qual é o maior desafio de todo esse trabalho social?

Um problema sério que enfrentamos é a alta incidência de alcoolismo entre os pais. Por isso decidimos criar um programa de reabilitação, que não só atende aos pais como gera empregos para a comunidade escolar. Os próprios familiares que recebem alta no tratamento são empregados no programa. Eu comemoro a participação ativa dos pais na vida escolar dos seus filhos — 98% deles frequentam as reuniões com professores. Mas o maior desafio é garantir que a fundação tenha verba para levar adiante todos os projetos.

Qual é a filosofia adotada pela Fundação Humanitária Parikrma?

Acreditamos que é preciso estimular o potencial que existe nas comunidades pobres, que são ignoradas por conta do estigma social que carregam. Nossa filosofia defende que mesmo as pessoas marginalizadas podem ser bem-sucedidas se tiverem a oportunidade no momento certo. E essa oportunidade não está ligada apenas à oferta de uma vaga numa escola com uma boa infraestrutura de ensino. Essas pessoas só irão prosperar se estiverem num ambiente onde amor, dignidade e esperança sejam cultivados.

Está dando certo?

Nossas crianças não faltam às aulas, e frequentam a escola, inclusive, nos feriados, quando atendemos a cerca de 97% de nossos alunos.

Como se alcança esse resultado?

A educação voltada para os mais pobres deve ganhar uma abordagem diferenciada para, de fato, colher bons resultados. A condição básica para o aprendizado é uma vida familiar estável. E 98% dos nossos pais são alcoólatras, enquanto 92% dos nossos alunos possuem algum familiar preso. Com uma atmosfera familiar tumultuada, é muito mais difícil para um aluno se concentrar nos estudos.

Qual é o diferencial da formação de professores feita pela fundação?

Nosso programa de formação de professores oferece laboratórios de crescimento pessoal para todos os educadores, que aprendem a contornar algumas situações adversas do cotidiano através de empatia, paciência e tolerância. Na fundação, acreditamos que amor e compreensão podem operar grandes mudanças, uma vez que as crianças precisam de alguém que realmente tome conta delas. E elas costumam responder muito bem a essa acolhida, tornando-se crianças bastante carinhosas.

Como avalia a educação hoje?

As coisas estão mudando tão rapidamente nesta década que o conteúdo ensinado nas escolas de hoje se torna redundante tão logo o aluno ingressa no mercado de trabalho. As instituições de ensino precisam modificar seus métodos e estratégias de forma a tornar o aprendizado relevante também para a vida do aluno.

Na sua opinião, como deve ser a educação do futuro?

As escolas deverão existir como espaços de facilitação do acesso ao conhecimento, e deverão oferecer um ambiente onde os alunos aprendam de maneira autônoma. O professor deve ser apenas um guia para os alunos, e não um repositório de informações. O que percebo na Fundação Humanitária Parikrma é que o estímulo para a inovação parte dos próprios alunos. Quando um professor lança uma novidade em sala, e identifica uma resposta positiva do grupo, ele é encorajado a tentar outros métodos, concebendo uma vibrante atmosfera de aprendizado.

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