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Clubes de leitura ampliam horizontes para além dos livros

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Crianças são contempladas pelo Leiturinha
Foto: Divulgação

Clubes de leitura valem pela experiência que proporcionam aos leitores, com opções pela internet que atendem a milhares de leitores, do público adulto ao infantil

Mariana Mesquita e Hugo Viana, na Folha de Pernambuco

Os clubes de leitura têm raízes que remontam aos salões onde os iluministas preparavam a Revolução Francesa e aos grupos em que os puritanos norte-americanos se reuniam para estudar a Bíblia, há quase 300 anos.

No século passado, surgiu o primeiro modelo à distância, nos Estados Unidos da década de 1920: o “The Book of the Month” passou a enviar pelos Correios os títulos que assinantes escolhiam a partir de uma lista. No Brasil, uma das iniciativas mais lembradas pelos consumidores é o Círculo do Livro, experiência da Editora Abril que funcionou de 1973 a 1993 e chegou a ter 500 mil filiados.

Mas nos dias atuais, mesmo tendo milhares de opções de compra por meio presencial ou pela internet, os leitores brasileiros vêm redescobrindo os serviços de assinatura mensal, que vêm ampliando sua área de atuação e se especializando para atender, de forma mais eficaz, às necessidades de seus públicos.

O foco na experiência é o elemento-chave por trás desse fenômeno editorial, já que a comodidade de receber o produto em casa não é o foco principal, e sim toda uma gama de vivências que um livro pode proporcionar: se aproximar dos filhos, conhecer um autor novo ou debater sobre escritores já conhecidos, além de expandir os próprios hábitos literários.

É o caso da empresa TAG, de Porto Alegre (RS), que se propõe a vender “experiências de leitura”. “O principal ingrediente, além da boa literatura, é o fator surpresa. O mistério acompanha toda a jornada do associado: a descoberta do título, a edição exclusiva que não pode ser encontrada em livrarias e não é revelada antes do envio, os materiais de apoio, os brindes, a apresentação que antecipa o próximo kit. Tudo é pensado para envolver e cativar o leitor. Após a descoberta, o associado pode acessar o aplicativo e participar dos encontros que possibilitam conversar sobre as obras, conhecer outras pessoas e gerar um senso de comunidade. Participar do clube significa retomar o hábito de leitura e descobrir novos títulos e autores que talvez não leria”, descreve a produtora de conteúdo Thaís Mahfuz.

Em julho passado, o clube completou 4 anos de existência, atendendo a mais de 36 mil associados (dos quais cerca de mil são pernambucanos). “Hoje, o Nordeste representa em torno de 15% da nossa base total de assinantes”, destaca. Para agradar a todos os perfis de leitor, eles acabam de lançar a TAG Inéditos, uma modalidade de assinatura voltada para os fãs de best-sellers, e elaboraram um kit mais simples (sem “mimos” e com capa em brochura), para diminuir o preço e possibilitar que pessoas com menor potencial aquisitivo possam ter acesso à proposta.

“Acreditamos muito no modelo por diversos motivos: praticidade, conforto, curadoria, retomada do hábito, senso de comunidade etc. Na prática, sentimos que a ideia e o produto são muito bem recebidos e alguns concorrentes começaram a aparecer, o que prova que o mercado está crescendo”, complementa Thais.

Outro clube que possui proposta parecida é o Leiturinha, criado em 2014 e com foco no público infantil. Segundo Rodolfo Reis, que fundou o clube junto com Luiz Castilho e Guilherme Martins, a ideia surgiu a partir de uma conversa sobre a importância de compartilhar o hábito da leitura com os filhos, para estabelecer um vínculo permanente de carinho e aprendizado, aliada à difícil tarefa de escolher livros adequados para as crianças.

Em 2016, o Leiturinha se uniu à empresa de brinquedos PlayKids, e hoje está presente em 5,1 mil cidades em todo o Brasil. “Promovemos o hábito da leitura compartilhada para 120 mil famílias, sendo Pernambuco uma das maiores praças do Nordeste”, destaca.

Ainda de acordo com Reis, “quando uma família assina o Leiturinha não está recebendo apenas livros, mas também uma experiência única para pais e filhos. Todos os produtos PlayKids têm o endosso de uma equipe de especialistas em desenvolvimento infantil e os kits passam por uma criteriosa seleção, trazendo os melhores títulos disponíveis no mercado editorial. Essa seleção baseia-se nos aspectos que devem ser estimulados em cada fase do desenvolvimento”. Ele garante: “entregamos muito mais do que livros”.

O projeto repercute entre os leitores. “Fiz assinatura do Leiturinha. Tenho um filho de nove anos e outro de cinco. Fiz dois planos, um para cada um”, explica Luciana Xavier, 37 anos, engenheira elétrica. “Acho excelente. Eles gostam muito dos livros. A gente incentiva eles a ler, desde pequenos, os livros voltados para a faixa etária deles. Vejo muito cuidado e carinho na preparação dos kits. É um material muito bom”, opina.

Quando recebe o kit, a família se reúne em torno dos livros. “O de cinco anos precisa que a gente leia para ele, já que está na fase de alfabetização. Sempre que chega o material a gente senta com ele. O de nove lê sozinho, mas a gente pede feedback da história”, detalha Luciana, que descobriu o serviço através de propagandas na internet.

Fábio Paiva, da EduQuadrinhos, prepara lançamentos a cada mês – Crédito: Ed Machado / Folha de Pernambuco


EduQuadrinhos

Fábio da Silva Paiva, doutor em Educação, também está nesse mercado de leitura, mas sua participação está voltada a outro gênero literário: os quadrinhos. Pesquisador da presença dos quadrinhos na educação, Fábio percebeu, quando terminou o doutorado, que essa produção não costuma chegar aos leitores.

“Resolvi buscar formas de fazer com que esse material chegasse a mais gente. Então criei uma página no Facebook, um Canal de YouTube e publiquei minha dissertação de mestrado e tese de doutorado em livro, durante a Comic Con, no Recife”, explica Fábio.

O passo seguinte foi a criação do EduQuadrinhos: projeto que tem um mês, em que os assinantes recebem, todo mês, dois quadrinhos, um infantil e outro adulto, que vêm acompanhados de um texto do autor, explicando a seleção dessas HQs e sua relevância cultural. “No texto, falo sobre o que pode ser ensinado e aprendido a partir da leitura dos quadrinhos. As obras são selecionadas por mim. Esse projeto surgiu do desejo de dar continuidade e alcançar mais pessoas, através dessa ideia de que o quadrinho pode fazer parte da educação”, explica Fábio.

No primeiro volume, foram enviados “A noiva”, de Eron Villar, para os pais, e “O Rei e o Príncipe”, assinado pelo próprio Fábio e por Rhebeca Morais. “A ideia é essa: quadrinhos para diversão, entretenimento e também menção aos pontos de educação que estão nas obras”, detalha Fábio, que está em processo de concluir a caixa do segundo mês (a assinatura, disponível no site do projeto, custa R$ 42,50).

Ricardo Leitão, presidente da Cepe, quer facilitar e baratear o acesso aos livros e periódicos do catálogo da editora – Crédito: Brenda Alcântara / Folha de Pernambuco

Clube de descontos em Pernambuco

Embora não funcione com a mesma proposta de outros clubes de leitura, a Companhia Editora de Pernambuco criou uma maneira de facilitar e baratear o acesso às obras de seu catálogo. Após se inscrever no site da Cepe, o usuário passa a contar com descontos especiais tanto nos livros, como nas publicações mensais, além de ter acesso a promoções exclusivas.

Segundo o presidente da editora, Ricardo Leitão, “a iniciativa reflete uma política de valorização dos produtos editoriais da Cepe, que somente em 2018 está lançando 82 novos livros”. A ideia surgiu também como uma maneira de ampliar ainda mais o comércio virtual da Cepe, que já vem crescendo significativamente nos últimos anos (entre 2016 e 2017, houve um incremento de 137% nas vendas da plataforma digital).

A meta é duplicar as vendas através do site até agosto de 2019, ampliando as fronteiras do hábito de leitura entre os clientes da editora. Para atrair mais participantes para o clube, que já conta com 1,5 mil usuários, quem se inscrever no site da Cepe ganha três meses de assinatura da versão digital da Revista Continente. E o melhor: os serviços e vantagens do clube são gratuitos.

Por dentro dos Clubes

TAG
Desde 2014
36 mil associados (quase mil deles de Pernambuco)
15% da base está no Nordeste

Leiturinha
Desde 2014
Foco no público infantil
120 mil famílias recebem os kits

Cepe
Criado em agosto deste ano
82 livros lançados em 2018
Entre 2016 e 2017, ampliou em 137% as vendas digitais
1,5 mil clientes

IT: A Coisa 2 – Bill Skarsgard, o Pennywise, diz que a sequência vai ser bem diferente do primeiro filme!

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Lucas Rafael, no Legião de Heróis

O remake de IT: A Coisa obliterou bilheterias, rendendo um lucro astronômico para os estúdios da Warner. Agora, com a parte dois está em produção, o intérprete do palhaço, Bill Skarsgard, falou em uma entrevista com o Den of Geek sobre como a segunda parte da adaptação de Stephen King irá diferir drasticamente da primeira.

Skarsgard começou declarando que desta vez, o vilão Pennywise terá de contracenar com atores experientes e reconhecidos, que serão a contraparte das crianças introduzidas no primeiro filme:

Vai ser uma experiência bem diferente desta vez, só pelo fato de que você tem todos esses atores incríveis e experientes para contracenar, ao invés de todas as crianças. Vai ser uma experiência diferente, com certeza. Mas estou ansioso para ela.

Bill também confirmou que as filmagens da parte 2 devem iniciar em breve, fazendo com que ele volte a usar os adereços do palhaço demoníaco:

Estamos nos preparando agora, então estou no processo de voltar ao personagem de Pennywise. Estou meio que no estado mental e estamos nos preparando. Acho que começam em julho. Não sei exatamente minha data de início, mas vai ser neste verão.

IT: A Coisa – Capítulo 2 estreia nos cinemas dia 5 de setembro de 2019.

Via: HH

Classe D vende até carro para fazer filho estudar fora do país e ter mais chance de emprego

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Classe D vende até carro para fazer filho estudar fora do país e ter mais chance de emprego, diz chefe da CI

Publicado no UOL

Para conseguir arcar com os custos de um período de estudos fora do Brasil para os filhos, famílias de classe econômica mais baixa chegam a abrir mão de bens como um carro, por exemplo. Quem conta é o diretor da CI Intercâmbio e Viagem, Celso Garcia, em conversa na série UOL Líderes.

Celso Garcia

Ele fala também sobre a importância de saber um segundo idioma na hora de conseguir emprego, avalia os problemas que estudantes podem ter na hora de conseguir o visto necessário para estudar fora e revela quais países estão mais abertos para receber os brasileiros.

Famílias fazem sacrifícios para filho estudar no exterior

UOL – O intercâmbio hoje é um produto só para classe média alta e classe alta?

Celso Garcia – Felizmente não mais. Não só das grandes cidades e também não só de quem tem muito dinheiro. Temos clientes da classe D que nos procuram. Eles investem nisso também. É muito comum sabermos que o pai está vendendo o carro dele para pagar o intercâmbio do filho, e é muito bonito ver isso.

Você vê que são famílias de poder econômico limitado, mas o pessoal vê como investimento. Muitas vezes o pessoal trabalha, mora com a família e vai juntando um dinheirinho, porque sabe que muitas vezes o idioma é mais importante na empregabilidade do que fazer um curso universitário de qualidade ruim ou fazer uma pós-graduação ou extensão universitária que não agrega nada.

A grande carência que nós temos no Brasil hoje é saber falar mais idiomas. Muitas pessoas perdem oportunidades porque não conseguem colocar no currículo que têm um nível superior de conhecimento do inglês ou do espanhol, que não é só o básico. Isso faz uma grande diferença na empregabilidade.

Vocês atendem mais o público jovem ou o público mais velho?

É muito focado ainda no jovem. E o curso de idioma continua sendo o carro-chefe desse segmento. No Brasil, nós ainda temos uma carência muito grande de as pessoas saberem falar um segundo idioma: estima-se que menos de 4% da população brasileira domine um segundo idioma, além do português.

Quando você compara com qualquer outro país que está mais inserido ou que quer se inserir na comunidade internacional, esse é um gap muito grande que nós temos que cobrir.

As empresas de intercâmbio fazem um trabalho importante, mas depende de muito mais do que isso. Depende das escolas, do governo e do interesse das pessoas em aprender um segundo idioma.

Muitas vezes a pessoa não leva a sério o idioma quando está na escola e chega lá na frente, na hora de fazer o vestibular ou na hora de conseguir um emprego, vai ver que perdeu a vaga porque havia outra pessoa com um pouquinho de conhecimento do espanhol ou de inglês, e isso realmente faz uma grande diferença.

O que nós temos de tendência é que o pessoal da terceira idade cada vez mais está abocanhando, está entrando nesse mercado também, porque é uma oportunidade muito legal de viajar.

Existem vários programas hoje em dia em que você pode fazer um curso de idioma com história da arte, curso de idioma com culinária, com esportes, com golfe, com hipismo. Existe uma gama grande para que a pessoa possa complementar a experiência.

Como a crise econômica afetou o negócio de intercâmbio?

Na verdade, esse segmento não retrata muito a economia como um todo. Ele é um projeto de investimento das pessoas. As pessoas não se programam hoje para viajar na semana que vem, no mês que vem, para fazer um intercâmbio.

Normalmente há um intervalo de 90 dias pelo menos, entre a decisão da pessoa de chegar a uma loja da CI e embarcar, porque é um processo que vem maturando na cabeça do interessado.

Quando o mercado realmente não está tão favorável, ocorre um processo que nós chamamos de represamento: as pessoas deixam de ir agora, mas não desistem da viagem. Elas acabam adiando um semestre ou um ano.

Foi o que aconteceu, por exemplo, em 2015, quando tivemos um aguçamento da crise. Nós ainda tivemos um resultado satisfatório porque vínhamos de uma maré boa, mas no ano de 2016 realmente caiu. Felizmente não tivemos decréscimo, conseguimos um crescimento de 4%. Mas no ano passado já tivemos um crescimento de 20% nas vendas, o que é muito positivo quando você olha a economia como um todo.

Com o desemprego, os profissionais veem o período sem trabalho como uma oportunidade de fazer curso e voltar para o mercado com uma bagagem melhor?

Muitas pessoas que procuram a empresa estão na iminência de sair do seu trabalho ou já saíram. Elas veem realmente que é uma oportunidade única para poder se desenvolver. Lógico que há aqueles que querem ir para fora, que vão para fora [do país] e procuram ficar, mas essa não é uma oportunidade que acontece para todos. A grande maioria vai para se desenvolver mesmo.

A questão do idioma é sempre o ponto número um. As pessoas às vezes chegam ao nível de gerência na empresa ou até têm oportunidade de subir, mas não têm o idioma. Mas também há muitas pessoas que vão para fora para fazer a especialização ou um complemento na área de formação: se a pessoa é formada em administração vai fazer uma extensão em finanças ou em marketing.

Existe uma gama muito grande de oportunidades para quem tem uma formação e quer melhorar isso, e ter uma experiência fora do país tem um peso muito grande no currículo.

A empresa tem sido procurada por pessoas ou famílias que querem se mudar de vez do Brasil?

Tem sido procurada. Felizmente, já senti uma queda no segundo semestre do ano passado. Em 2015 e meados de 2016, essa procura era maior. Mas como eu falo sempre: é muito difícil. Às vezes a pessoa quer ir para fora, mas não está preparada, porque você precisa de um visto, precisa de um lugar para ficar.

Normalmente a pessoa vem nos procurar porque o visto para educação é sempre mais factível do que se mudar e tentar trabalhar. Essa realidade existiu e continua existindo, mas eu acho que, à medida que a economia melhora, isso vai arrefecendo. É um processo normal de crise que já aconteceu outras vezes, mas, como cada vez mais pessoas perdem o medo de ir para fora, acaba tendo uma espiral crescente.

Isso é parte do processo, e eu acho que não é uma exclusividade do Brasil. Todos os países vivem ciclos econômicos. Assim como nós tivemos alguns anos atrás aquele boom no Brasil, em que vieram milhares de espanhóis para cá, vieram portugueses, vieram pessoas de todos os países praticamente. Existe no mundo todo uma influência muito grande desse atrativo do momento econômico. Isso não é diferente aqui.

Com a tecnologia, as pessoas têm se virado bem sozinhas. Hoje é possível organizar uma viagem, indo atrás de escola, hospedagem, passagem. Por que alguém vai precisar de uma agência de intercâmbio?

Uma viagem de intercâmbio não é uma viagem de duas semanas ou dez dias. Quando você vai fazer um programa educacional, vai ficar numa casa de família ou num dormitório estudantil, ou mesmo numa escola em que você vai ficar seis semanas, oito semanas ou períodos maiores, você precisa de uma referência, precisa de mais informações.

Em uma viagem de mais longa duração, as pessoas procuram muito a segurança também. E não há diferença de custo. Se você for comprar direto de uma escola, vai pagar o mesmo preço que paga para a CI. Mas o aluno vai ter que arrumar um jeito para mandar o dinheiro, às vezes não tem o cartão de crédito, vai ter de fazer transferência.

No Brasil e na maioria dos países de que temos conhecimento, as agências de intercâmbio têm um horizonte bastante grande pela frente. Mas, além disso, temos criado cada vez mais produtos que vinculam os estudantes. Temos programas de intercâmbio teen em que os alunos saem em grupos desde o Brasil. É um negócio que você não compra pela internet, tem que estar dentro de um grupo para ir.

Assim como esses produtos, há outros em que procuramos cada vez mais vincular a uma segurança maior, que muitas vezes é o que o pai de classe média e classe média alta quer para os filhos.

Violência assusta estudantes interessados em vir para o Brasil

UOL – Vocês também têm um serviço de recepção de estudantes estrangeiros. As notícias da crise e também da violência afetam de alguma forma essa parte do negócio?

Celso Garcia – Bastante. Desde o início da CI, nós sempre trouxemos estudantes para cá. Temos alguns programas de estágios, programas esportivos, curso de idiomas também, e já tivemos uma demanda muito maior de estrangeiros querendo vir para o Brasil do que nós temos hoje.

Realmente nesse item houve uma queda bastante importante, cerca de 30% na nossa demanda, se eu pegar nossos anos dourados – dez anos atrás para agora –, as pessoas têm um pouco de preocupação de vir para o Brasil.

Sempre digo que o trabalho que nós fazemos é muito positivo para o país, porque as pessoas vêm para cá e elas veem que não é assim. Infelizmente a imprensa no mundo todo tem essa preocupação de colocar muitas coisas. Não sai quase nada de bom sobre o Brasil na imprensa. Mas o pessoal vem pra cá e realmente gosta muito da experiência aqui.

Temos a avaliação dos alunos que vêm, e é impressionante a mudança de percepção que eles têm do Brasil depois que ficam um período conosco aqui. Eles vêm para programas de um a seis meses no geral –há casos até superiores a isso–, e é impressionante a mudança de percepção deles depois da experiência.

O brasileiro também se preocupa com a segurança quando vai estudar no exterior?

É muito interessante isso, porque o brasileiro não se preocupa com segurança. Não sei se porque vivemos aqui numa situação sempre de ter de estar atento, sempre ter de estar preocupado, já temos essa vivência no dia a dia. Então não é um fator que chame a atenção na hora da escolha.

Mas, infelizmente, problemas de segurança você tem em todos os países, até nos desenvolvidos. Temos muitos casos de brasileiros que são furtados, mas faz parte do processo. Não é nada que vai impedir alguém de viajar.

E sempre orientamos que é preciso estar atento: você pode ir a Londres, Nova York, qualquer cidade, você tem que estar atento. Não dá para abandonar a bagagem, deixar sua mochila em um lugar e ir tomar um cafezinho no outro. São cuidados que temos de ter em qualquer país, em qualquer cidade.

Pergunto isso também principalmente porque a maioria do público é de jovens, às vezes saindo do Brasil pela primeira vez, sem os pais…

A orientação que sempre damos é essa: estar atento. Assim como no Brasil, não podemos chegar a uma praça, deixar a mochila num canto e jogar bola no outro. Sempre tem que estar ligado, porque as coisas acontecem em qualquer lugar.

E muitas vezes quando a pessoa vai, nos nossos programas de estágio, para alguma área que é mais conflituosa, logicamente há toda uma preocupação de orientação, a organização que vai receber no país também vai dar as orientações corretas, mas basicamente nada que coloque em risco o programa de intercâmbio.

Qual é o perfil dos estudantes que vêm para o Brasil?

A grande maioria das pessoas que viajam conosco tem até 35 anos. E quem vem de fora para cá também. É muito esse público entre 20 e 30 anos que vem para fazer um estágio, um trabalho voluntário ou uma clínica esportiva. É a demanda que existe para o Brasil. É lógico que depois querem conhecer nossas praias, querem conhecer a Amazônia, Foz do Iguaçu, que são os ícones que representam o Brasil fora daqui.

Temos um programa interessante com a Europa, os países nórdicos, Alemanha, Suíça, que têm muito interesse no Brasil. Os Estados Unidos também. Temos programas com as universidades em que trazemos estudantes para cá, eles vêm em grupo, ficam fazendo aulas de português, estágios em empresas, durante o período de quatro a seis semanas. São programas que permitem uma visão maior do que somente vir para cá como turista.

E quais as áreas de estágio mais buscadas por estudantes brasileiros?

Existem os programas em que você faz o idioma e pode trabalhar também, e esses programas não estão muito vinculados à formação da pessoa. Mesmo que seja uma pessoa formada aqui, você chega lá e consegue uma oportunidade para trabalhar em um restaurante ou em um evento ou num parque de diversões.

Normalmente a pessoa vai para estudar e pode trabalhar. Durante esse período em que vai estar com o visto, ela pode trabalhar legalmente. Quando a CI começou, 30 anos atrás, não existia esse tipo de visto. O brasileiro ia para fora e trabalhava ilegalmente, procurava fazer algum tipo de bico. Hoje, felizmente, existem vários países que aceitam receber estudantes com visto que permite trabalhar legalmente 20 horas por semana.

Por outro lado, há outros programas de estágio vinculados à área de formação. Nós temos muitas vagas na área técnica, científica, na parte de TI (tecnologia da informação). Toda essa área ligada a desenvolvimento de software atrai muitos jovens. Talvez no somatório de todos, a parte de business seja a mais relevante, mas a parte técnica, científica é muito relevante também.

Problemas na entrada em um país estrangeiro: é possível evitar?

UOL – Não são raras as notícias de jovens com problemas ao chegar em outro país. O que você diria que precisa ser feito antes de uma viagem para evitar esse tipo de problema?

Celso Garcia – O principal ponto é: não existe ilusão. A CI tem pouquíssimos casos de vistos que não são aceitos, porque fazemos todo um processo de orientação e discutimos claramente com o cliente: qual é o objetivo da sua viagem?

Os países têm total autonomia para negar um visto para quem for. E muitas vezes dizemos que um número xis de pessoas vai ter o visto negado. Às vezes nem seria o caso de ter o visto negado, mas existe uma técnica dos países que faz parte do processo negar alguns vistos.

Uma família, ao procurar uma oportunidade fora, deve procurar uma empresa que seja idônea, que vai saber orientar corretamente, que vai saber dizer qual é o risco que essa pessoa tem de, eventualmente, ter ou não seu visto negado.

A preparação da documentação é muito importante também. Por isso nós temos uma empresa que faz parte do nosso grupo que é uma consultoria em visto, porque notamos que muitas vezes, [por causa da] falta de preparo na documentação ou da maneira como o processo é feito, a pessoa acaba tendo o visto negado.

Então é isso o que eu coloco principalmente: procure uma assessoria adequada, procure uma empresa que vai saber realmente orientá-lo de forma adequada. E muitas vezes nós falamos para o cliente: você não tem o perfil para viajar. Temos que ter o profissionalismo para poder dizer isso.

Quem não tem perfil para viajar?

Todos os órgãos dos governos, principalmente aqueles que trabalham com visto, são treinados para identificar as pessoas que querem migrar para o país. Nenhum país vai emitir um visto de turista ou visto para estudo, que é a grande maioria dos nossos casos, se ele tem a preocupação de que aquele candidato ao visto tem a intenção de ficar no país. Esse é o principal ponto: nós somos uma empresa de intercâmbio, não somos uma empresa de exportação de pessoas.

Hoje, felizmente, nós temos grandes oportunidades que são os países que aceitam que a pessoa vá para trabalhar e estudar. E para esses países, na verdade, o visto é bem mais flexível. Você chega ao país com a proposta de trabalhar, mas legalmente, você não vai para o subemprego, para ‘ir ficando’. Até porque muitos desses países permitem que o brasileiro fique por cinco, seis, sete anos com visto de estudante, trabalhando.

A grande maioria das pessoas que nos procuram vai para um programa de curso de idioma, na faixa de seis a oito semanas –quem fica menos tempo, fica duas semanas. E ela vai e volta porque tem a vida dela aqui, estuda aqui, trabalha aqui, e usa esse período das férias escolares ou as férias do trabalho para desenvolver o seu idioma.

Mas também existem aquelas pessoas que querem ficar um tempo maior fora, e esse é o programa ideal: a pessoa vai trabalhar, vai estudar e ficar legalmente no país.

Qual o maior erro uma pessoa interessada em estudar no exterior pode cometer e como evitar?

O maior erro é querer comprar simplesmente a oportunidade. Existem oportunidades? Claro, existem programas interessantes, na própria CI nós temos promoções, descontos. Isso é que é importante comparar: aonde eu estou indo é realmente uma opção consciente, eu peguei informações? Eu sei de alguém que foi para lá e teve sucesso? As mídias sociais hoje, felizmente, estão cheias de depoimentos. A pessoa deve se organizar e ver muito bem onde ela vai comprar e o que ela vai comprar, para não fazer uma opção errada.

Entrevista com Ernest Cline, autor de “Jogador Número 1”

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Ernest Cline, autor de Jogador Número 1, livro que inspirou novo filme de Steven Spielberg (Foto: Divulgação/Wikimedia/Gage Skidmore)

 

Isabela Moreira, na Galileu

O livro Jogador Número 1 (Casa da Palavra, 464 páginas, a partir de R$ 26,90) conta a história de Wade, um adolescente que vive em um futuro distópico. No ano de 2045, o mundo está tão destruído que as pessoas recorrem à uma plataforma de realidade virtual como refúgio.

Chamada de OASIS, a ferramenta permite que os usuários criem avatares com novos nomes e aparências para desbravarem diversos planetas virtuais. A morte do criador da plataforma, James Halliday, gera uma caça ao tesouro dentro da realidade virtual, tudo embalado por centenas de referências da cultura pop da década de 1980, época da adolescência do empresário. “Me pareceu um conceito divertido fazer os personagens do futuro estudarem o passado para conseguirem avançar”, conta Ernest Cline, autor da obra.

Nerd de carteirinha, Cline adora videogames e, inclusive, já teve o próprio DeLorean, carro do filme De Volta para o Futuro. Para ele, trabalhar com o diretor Steven Spielberg na adaptação de Jogador Número 1 para as telas do cinema foi um sonho se tornar realidade.

“O filme final parece um dos que eu amava tanto na década de 1980, como De Volta para o Futuro, ET – O Extraterrestre e Jurassic Park. É o tipo de história que te leva em uma jornada.” Em entrevista por telefone à GALILEU, o escritor falou sobre a adaptação que chega aos cinemas brasileiros no dia 29 de março, a influência da tecnologia no presente e no futuro e, claro, cultura pop. Confira:

No livro você volta aos anos 1980 para construir uma versão do futuro, que se passa em 2045. Como foi desenvolver essa relação na sua história?
Quando comecei a pensar no futuro, várias referências da cultura pop me vieram à cabeça: desde a mitologia por trás do Santo Graal, sobre a qual ninguém sabe muito, mas todos querem encontrar, até a dificuldade de personagens em distinguir quem é do bem de quem é do mal. Usar referências dos anos 1980 nas pistas da minha caça ao tesouro no futuro me permitiu desenvolver esse mundo em que a realidade parece uma distopia e a realidade virtual, uma utopia. Me pareceu um conceito divertido fazer os personagens do futuro estudarem o passado para conseguirem avançar.

A realidade virtual evoluiu muito desde que o livro foi publicado em 2011. Você acredita que algo como a OASIS poderia se tornar realidade?
Sim, já está acontecendo. Há vários jogos e simulações de realidade virtual que entraram no mercado recentemente que têm grandes mundos virtuais que as pessoas podem explorar. Isso nunca tinha acontecido antes. Um dos primeiros jogos lançados foi Star Trek: Bridge Crew, no qual vários jogadores assumem papéis da tripulação do centro de comandos da nave Enterprise, viajar em missões e criar seus próprios episódios de Star Trek. Se as coisas estão assim em 2018, apenas imagine onde estarão nos próximos 20 anos.

O Gigante de Ferro faz uma aparição no universo da OASIS em Jogador Número 1 (Foto: Reprodução/Youtube)

A OASIS é bem detalhada no livro: durante a leitura me senti como se estivesse andando dentro do jogo. Como foi adaptar esse mundo virtual para as telas do cinema?
Foi bem divertido, ainda mais por poder fazer isso em parceria com o Steven Spielberg. A OASIS é como uma caixa mágica: você pode ser qualquer um em qualquer lugar e fazer o que quiser, desde participar de cenas dos seus filmes favoritos, escalar montanhas ou ter qualquer experiência do conforto da sua casa. Tudo isso já começou a ser discutido e será ainda mais nas próximas décadas.

Se você pudesse ter uma experiência como a fornecida pela OASIS, como seria o seu avatar?
Acho que eu criaria um avatar com a aparência que tenho no mundo real. O Wade, protagonista do livro, tem muito de como eu era durante a adolescência: se você não está satisfeito com quem você é ou com sua aparência, provavelmente vai querer criar um outro corpo com uma nova personalidade. Algumas pessoas já fazem isso ao jogarem videogames: dentro da realidade virtual, essa construção pode se tornar um vício.

Acho que eu provavelmente gostaria de mudar meu avatar o tempo todo de acordo com os diferentes jogos que estivesse jogando: um dia seria o Super-Homem, em outro um piloto de corrida, o que quisesse.

Quais são algumas das suas referências favoritas da cultura pop atual?
Acabei de terminar a última temporada de Black Mirror, que é uma série fantástica. Além disso, um dos meus livros favoritos, Altered Carbon, acabou de ser adaptado em uma minissérie da Netflix. Mas gosto um pouco de tudo, assisto a vários filmes que estão em cartaz — no momento estou lendo vários quadrinhos do Pantera Negra para me preparar para assistir ao filme do herói.

O filme é ótimo, acho que você vai gostar.
Estou torcendo para isso. [Risos]

Tye Sheridan como Wade, protagonista do filme Jogador Número 1 (Foto: Divulgação)

Voltando ao Jogador Número 1, o que os fãs do livro podem esperar do filme?
Acho que se eles já gostarem do livro e estiverem com a cabeça aberta, sem esperar ver todo e qualquer detalhe da narrativa na tela, terão uma surpresa bem positiva. O filme tem cerca de duas horas, bem mais curto do que a leitura do livro, mas a experiência parece uma montanha-russa: tive que assistir uma segunda vez porque não conseguia parar de pensar nele. Parece um dos filmes que eu amava tanto na década de 1980, como De Volta para o Futuro, ET – O Extraterrestre e Jurassic Park, o tipo de história que te leva em uma jornada.

O resultado final é parecido com o que você imaginou?
É uma visão diferente. Quando estava escrevendo o livro nem imaginava que poderia ser adaptado para os cinemas, principalmente por conta dos vários elementos da cultura pop que inclui nele. Não cheguei a pensar na narrativa como um filme, e sim como uma jornada guiada pelo leitor. Isso que é legal de escrever um livro: cada leitor interpreta a história de um jeito de acordo com suas experiências e conhecimento. Não tem como fazer uma adaptação que seja fiel à interpretação que cada um faz do livro, então o filme de Jogador Número 1 é uma versão condensada da história, com o mesmo espírito de aventura e diversão da fonte.

‘O professor pagava meu almoço’: a jovem de periferia aprovada em um dos vestibulares mais difíceis do país

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A estudante Bárbara da Costa viajou para o Rio para fazer a matrícula com passagem comprada com as milhas de um professor | Foto: Ricardo Borges/BBC Brasil

Bárbara da Costa Araujo matou a curiosidade de conhecer a sala de embarque do aeroporto de Fortaleza há poucas semanas. Apesar de morar há anos em um dos bairros no entorno do aeroporto, até então a experiência dela com o terminal se resumia ao barulho dos pousos e decolagens.

Camila Veras Mota, na BBC Brasil

Com passagem só de ida – comprada com as milhas de seu professor de matemática -, a jovem de 19 anos tinha como destino o Rio de Janeiro, onde faria sua matrícula no Instituto Militar de Engenharia (IME).

É dela uma das 98 vagas disputadas em um dos vestibulares mais exigentes do país, em uma maratona de provas com ênfase nas matérias de exatas, feita por quase 6,3 mil alunos de todo o país.

“As provas discursivas de matemática e física são as mais difíceis do país, mais do que as do ITA”, diz Francisco Antônio Martins de Paiva, o professor Max, que acompanhou a jovem e que há 20 anos dá aulas em turmas preparatórias para as provas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do IME. “A gente brinca que, se um professor conseguir acertar metade das questões, a escola pode contratar (para dar aula nas turmas regulares) de olho fechado”, completa.

O perfil de Bárbara destoa da grande maioria dos aprovados no instituto – e nos cursos mais disputados das demais instituições de ensino superior do país -, egressos de escolas particulares e de classe média e alta.

Ela é a primeira pessoa da família a entrar na faculdade. A avó e a mãe, com quem morava em uma casa simples, trabalharam praticamente a vida inteira fazendo faxinas.

Ela estudou até a 8ª série em uma escola estadual do bairro perifério da Vila União, cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 0,467, equivale a pouco mais da metade do registrado em Fortaleza, 0,732, de acordo com dados de 2014 compilados pela prefeitura.

O indicador é construído a partir de dados de renda, saúde e educação de cada região; quanto mais próximo de 1, mais desenvolvida ela é.

No fim do ensino fundamental, em 2012, Barbara disputou com outros 400 jovens de bairros carentes uma das 20 bolsas custeadas por uma ONG de educação. Se fosse selecionada, poderia cursar o ensino médio em uma escola particular. Vencidas as nove etapas do processo, Bárbara foi matriculada no ano seguinte.

De ônibus, o trajeto até a nova sala de aula, no centro de Fortaleza, era de mais ou menos uma hora. Tempo que ela considera razoável, já que o namorado – também bolsista do mesmo programa – acordava às 4 da manhã para ir de Caucaia, cidade-satélite da capital, a Fortaleza.

O nível da turma era alto, ela lembra, mas os anos de estudos para Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) – sempre por conta própria, já que a mãe sempre a deixara “muito solta” – ajudaram no primeiro ano.

Com bom desempenho, ela conseguiu uma vaga nas turmas especiais preparatórias para os vestibulares do IME, que têm mais aulas de matemática, física e química.

“Foi um baque, tirei o primeiro 4 da minha vida, em física. Foi horrível”, ela conta. Bárbara abriu mão das olimpíadas de matemática para se concentrar no pré-vestibular e as notas melhoraram. Na primeira tentativa, ela foi aprovada em engenharia na Universidade Federal do Ceará (UFC), mas queria mais.

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Image caption Bárbara quer fazer mecânica de automóveis e sonha em trabalhar na Fórmula 1

O problema é que a bolsa financiada pela ONG só se estendia até o terceiro ano do ensino médio. A escola topou custear o curso extensivo. No primeiro ano, contudo, o mal de Parkinson que acometia o avô piorou. A mãe parou de trabalhar para cuidar dele.

O orçamento da família, que já era apertado, ficou ainda mais restrito. Um dos remédios de uso contínuo custava R$ 35 por semana. “Isso era muito pra gente”.

O avô faleceu e, depois daquele ano difícil, Bárbara não fez boas provas.

A pressão para que a jovem começasse a trabalhar aumentou – a aposentadoria do avô era parte importante da renda doméstica – e, no segundo ano de cursinho, a escola ofereceu a Bárbara uma vaga no alojamento que mantém para hospedar alunos carentes vindos do interior do Ceará e de outras partes do país com potencial de aprovação. “Isso ajudou a me afastar um pouco dos problemas”.

Um dos professores pagou seu almoço durante todo o ano letivo e outro contribuía com algumas despesas esporádicas com as quais ela não conseguia arcar.

O professor Max foi buscar Bárbara no dia da mudança – para surpresa dele, restrita a uma mochila e um saco de supermercado. “A casa era um espaço entre dois imóveis, um vão de dois ou três metros, que a família cobriu e colocou uma porta improvisada. Sem estrutura nenhuma”, ele lembra.

‘Aos 21 anos, eu não sabia somar frações’

A realidade não era tão diferente da história do próprio professor. Max nasceu em Canindé, no interior do Ceará, e cresceu numa vila em que os moradores dividiam todos o mesmo banheiro. “Em casa não tinha uma mesa, eu estudava na rede”, conta.

Em 1992 prestou o primeiro vestibular para História e, no início do curso, descobriu que era apaixonado por matemática. “Aos 21 anos, eu não sabia somar frações. Comecei a estudar sozinho, o que me abriu a possibilidade para que começasse a dar aulas particulares para ganhar algum dinheiro”.

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Image caption ‘Em casa não tinha uma mesa, eu estudava na rede’, diz o professor de matemática

Ele mudou de curso, virou professor em uma escola pública e, pouco tempo depois, foi convidado por uma escola particular – para dar aulas de ciências.

No esforço para adquirir conhecimento por conta própria, resolvia dezenas de provas. Foi assim que descobriu os testes do ITA, entre os mais difíceis do país. “A primeira vez que peguei uma prova, não sabia resolver uma questão. Pensei na hora: ‘opa, é isso aqui mesmo que eu quero'”.

O que começou como desafio virou vocação. Há 20 anos ele é titular das turmas especiais do pré-vestibular.

“Também tive gente que acreditou em mim”.

Desigualdade de oportunidades

Histórias como a do professor Max e a de Bárbara são exceções. “Muito do futuro de quem nasce no Brasil está determinado por suas condições socioeconômicas quando nasce”, diz o pesquisador do Insper Naercio Menezes Filho, estudioso dos temas de educação, mercado de trabalho e desigualdade.

“A diferença entre o sistema público de educação e as escolas privadas, entre outras razões, alimenta uma desigualdade de oportunidades que é enorme no país”, acrescenta.

Para se ter uma ideia, ele exemplifica, filhos de pais analfabetos têm 3% de chance de concluir o ensino superior – percentual que cresce para 70% quando os os pais passaram pela universidade.

A escolaridade, por sua vez, é determinante para definir o nível de renda e até onde o salário de cada um pode chegar. No Brasil, a remuneração média de quem tem ensino médio completo é de R$ 1 mil, valor que salta para R$ 4,6 mil para quem conseguiu concluir uma faculdade.

Engenheira da Fórmula 1

Bárbara sabe que é uma dessas exceções estatísticas, mas isso não a impede de sonhar alto.

‘Muita gente não teve as mesmas oportunidades’, diz a jovem | Foto: Ricardo Borges/BBC Brasil

“Eu não gosto que me coloquem limite”, ela disse, inicialmente se referindo ao fato de que muita gente da família e do bairro torceu o nariz quando ela disse que queria ser engenheira.

Apaixonada por carros, quer trabalhar na Fórmula 1. Ao longo da infância e da adolescência ela sempre se imaginou nos boxes que via nas transmissões das corridas pela televisão, trabalhando nos carros que passam pelo pit stop.

“Eu sei, é sonhar alto, mas me deixem sonhar!”, ela diz, rindo.

Com o olho grudado na tela, nos ziguezagues que parecem intermináveis para quem não gosta do esporte, ela ouvia da mãe e da avó: “Barbara, aprende a fazer as coisas de casa, aprende, porque em algum momento você vai casar e nao vai saber fazer nada”.

Insistiam para que ela escolhesse uma carreira “mais feminina”, que fosse pediatra ou professora. “Eu acho que, quanto mais baixa é a classe social, maior é o machismo”, comenta.

O resultado da aprovação saiu no dia 6 de dezembro. Depois de comemorar, a ficha caiu. “Pronto, passei. Agora não tenho dinheiro pra um exame (médico), pra uma passagem”, conta, com bom humor.

O professor Max juntou suas milhas e comprou-lhe o tíquete para o Rio de Janeiro. O diretor da escola descobriu e resolveu pagar os exames médicos exigidos pelo instituto.

“Eu tive muitas oportunidades e gente que acreditou em mim. Muita gente não teve as mesmas oportunidades que eu, sei disso”. Aos amigos, por isso, ela aconselha que agarrem as chances sempre que elas aparecerem.

A jovem optou pelo IME, onde está matriculada como oficial da ativa, por conta do salário que a universidade paga aos alunos durante os 5 anos de curso – além, claro, da possibilidade de cursar mecânica de automóveis.

Ela mora em um alojamento dentro do instituto, localizado na Praia Vermelha, no bairro da Urca.

Bárbara quer mandar parte da renda mensal para a mãe e a avó, guardar um pouquinho para comprar uma passagem “de volta” para Fortaleza – para visitar a família e o namorado, aprovado em engenharia em uma faculdade pública do Ceará – e economizar para comprar, no futuro, uma casa melhor para a avó – o que, para ela, é “o maior sonho”.

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