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Com crise, disparam seguros para mensalidade de escola e faculdade

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Desempregada, Fabiana Mello contou com o seguro educacional para manter Victor na escola

Desempregada, Fabiana Mello contou com o seguro educacional para manter Victor na escola – Zanone Fraissat/Folhapress

 

Paulo Saldana, na Folha de S.Paulo

Tamires Silva começou a trabalhar aos 15 anos, quando ainda cursava o ensino médio em Franco da Rocha, Grande São Paulo. Neste ano, aos 20, realizou um feito inédito na família: chegou à faculdade, um gasto que tomava metade de seu salário.

Mas, em junho, Silva foi demitida do cargo de recepcionista, e o sonho do diploma no curso de banco de dados ficou ameaçado. O que “salvou” a continuidade da graduação no IBTA, na região central de São Paulo, foi um seguro que a faculdade passou a oferecer em 2016.

Quem perde o emprego tem seis meses de mensalidades quitadas. “É o tempo para conseguir um emprego. Eu só penso em me formar. Ninguém conseguiu da minha família e eu quero ir além”, diz.

A história não é isolada. Até setembro, o valor gasto com seguros educacionais foi de R$ 34 milhões em todo país. Já é 19% superior ao total registrado em 2015 –em valores atualizados pela inflação.

Comparando setembro com o mesmo mês do ano passado, a alta é de 62%. Os dados são da Susep (Superintendência de Seguros Privados).

Crise econômica, desemprego e alta na inadimplência têm impulsionado a procura. No ensino superior, a desaceleração na oferta do Fies (financiamento estudantil federal) também influenciou.

As instituições contratam o seguro e, em geral, oferecem para todos alunos. Mas há modelos em que o aluno é obrigado a aderir.

O IBTA integra o grupo Cetec, que reúne três instituições de ensino superior e uma escola de nível médio, com um total de 15 mil alunos. Todos estão cobertos pelo seguro.

“Com a crise do país, do Fies e desemprego, sabíamos que ia ficar difícil para os alunos”, diz o diretor financeiro do grupo, Marcelo Silva.

O custo pode chegar até 3% do valor da mensalidade. “Não repassamos para o aluno. Mas cai o risco de abandono e reduzimos em 22% a inadimplência”, pondera.

Como é preciso ter mensalidades em dia para o seguro, os alunos ficaram mais atentos aos pagamentos, segundo o gestor. Exige-se ainda que eles ou responsáveis tenham trabalhado por um ano antes de ficarem desempregados.

ALTA

Segundo Aquiles Poli, diretor da corretora BR Insurance, houve um “efeito manada”. “Começamos com instituições maiores e uma foi seguindo a outra”, diz.

A companhia teve uma alta de 115% no número de contratações, chegando a 248 instituições. Faculdades representam 70% dos contratos e o restante são escolas.

O grupo segurador Bradesco Mapfre reúne 970 instituições de ensino com seguro, após uma alta de 35% na procura no ano. “São escolas e faculdades de todos os portes”, diz Karina Massimoto, superintende de seguros.

Para Rodrigo Capelato, diretor do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior Privado), o cenário econômico tem forçado a busca pelo benefício. “Houve ainda a tendência de crescimento de inadimplência.”

A taxa de desemprego no país chegou a 11,8% em agosto, segundo o IBGE. A projeção de inadimplência no ensino superior para este ano é de 9%, maior que a de 2015 (8,8%), segundo o Semesp.

Nas escolas, a média de atrasos passou de 8% para 12% do ano passado para este, segundo a Fepesp (Federação Nacional de Escolas Particulares). “O desafio das escolas é adequar o gasto aos custos da escola, para não impactar a mensalidade”, diz Amábile Pacios, da Fepesp.

COBERTURA

Quando em janeiro a estudante Rayssa Ferreira, 24, ingressava no último ano do curso de odontologia, seu pai foi diagnosticado com câncer e, em maio, morreu aos 65 anos. Além da tristeza, ela se viu diante da impossibilidade de continuar a graduação na Unifor (Universidade de Fortaleza), na capital cearense.

Ferreira era beneficiada pelo Fies até o primeiro semestre do ano. Mas, sem o pai como fiador, não conseguiu renovar o contrato para o último semestre do curso. “Ele era meu provedor, eu não teria condições de pagar a mensalidade de quase R$ 3.000”, diz ela.

Foi um amigo que avisou que a universidade contava com seguro para casos como o dela. Em caso de morte do responsável financeiro, o produto cobre os estudos até o fim do ano letivo.

“Evitei trancar, seria uma tristeza nadar, nadar e depois morrer na praia, no último ano de curso”, diz a aluna.

O gerente financeiro da Unifor, Jefferson Dantas Candido, explica que a instituição trabalha há 19 anos com o benefício. Em 2015, porém, houve ampliação do serviço, e a cobertura passou a ser de seis meses de mensalidades em caso de desemprego. Antes, eram quatro.

Além da cobertura por morte ou invalidez do responsável, há garantia para alguns custos hospitalares em caso de acidentes. Os 24,5 mil alunos de graduação têm a garantia do seguro.

“Isso tem sido determinante para a continuidade dos estudos dos nossos alunos”, diz. “Percebemos um aumento significativo nos sinistros [quando o seguro é acionado]. Seja por causa do desemprego ou porque passamos a divulgar melhor a opção.”

Na Estácio, grupo com 310 mil alunos, foram 2.500 solicitações de alunos por seguro nos últimos 16 meses.

“Houve aumento considerável na comparação com períodos anteriores, mas certamente já passamos do pior momento”, diz Leonardo Moretzsohn, executivo da área financeira da empresa.

EFEITO FIES

Segundo Daniel Mitraud, superintendente do setor de universidades do banco Santander, as instituições de ensino superior passaram a “blindar” cada vez mais os alunos matriculados. “As faculdades e as universidades buscam proteger o aluno que paga mensalidades corretamente, é a galinha dos ovos de ouro das instituições”, diz.

O banco passou a oferecer o seguro educacional a partir do ano passado. “O primeiro fator que hoje sensibiliza a busca pelo seguro é o Fies, que vive uma inconstância”, afirma Mitraud.

A partir de 2015, o governo federal, ainda na gestão Dilma Rousseff (PT), passou a restringir o acesso ao programa. No Fies, o governo paga as mensalidades para as instituições, e o aluno só começa a pagar o financiamento 18 meses após se formar.

Entre 2010 e 2014, não havia limite de vagas anuais para o financiamento federal, e as instituições incluíam os alunos no programa a qualquer momento do ano.

Com novas regras, a partir de 2015, o número de novos contratos passou a ser limitado pelo governo como forma de reduzir gastos.

Enquanto em 2014 haviam sido registrados 713 mil contratos, esse número passou para 287 mil em 2015. No primeiro semestre deste ano, 148 mil contratos foram firmados e, no segundo, o MEC oferece 75 mil novas vagas.

“As instituições estão buscando soluções para garantir a continuidade dos estudos do aluno”, afirma Sólon Caldas, da ABMES (Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior).

No ano passado, o número de novos alunos na rede privada de ensino superior caiu 8% na comparação com 2014. Passou de 1,9 milhão para 1,7 milhão –um impacto direto da redução do Fies, segundo as empresas educacionais.

‘ALÍVIO’

Aos 36 anos, a profissional de recursos humanos Fabiana Mello nunca tinha ficado desempregada. Com a crise, a empresa do setor automotivo em que trabalhava promoveu um grande corte e ela acabou desempregada em julho deste ano.

No mês seguinte, as mensalidades de R$ 546 na escola do filho Victor, 12, já estavam garantidas pelo seguro. “Sou divorciada e a única com renda na família. Quando percebi que meu filho estava garantido, deu um alivio”, diz. O menino estuda com bolsa no colégio Anchieta, em São Bernardo do Campo.

O “alívio” foi essencial para conseguir um reposicionamento no mercado de trabalho antes mesmo de o prazo de seis meses do seguro vencer. “Dei sorte de conseguir me recolocar rapidamente, tenho amigos que estão há meses procurando.”

Nunca desisti de estudar, diz ex-morador de rua que se formará em direito

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Jéssica Nascimento, no UOL

Jovem trocou as ruas pelas bibliotecas

Jovem trocou as ruas pelas bibliotecas

Um ex-morador de rua do Distrito Federal trocou o chão frio da Rodoviária do Plano Piloto, no centro de Brasília, pelo calor das bibliotecas da cidade. Com o sonho de fazer faculdade, Walisson dos Reis Pereira, 30, voltou a estudar, abandonou as ruas, fez o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio e passou no curso de direito de uma universidade particular. Hoje, no oitavo semestre da graduação, ele trabalha como estagiário da Casa Civil, no Governo do Distrito Federal.

Nascido no interior de Minas Gerais, o estudante foi criado pelos avós até os 18 anos e não chegou a completar o ensino médio na época. Como almejava um diploma de ensino superior, decidiu se mudar para Brasília e passou a morar com o pai. Infelizmente, a aproximação com o familiar não foi o que esperava.

“Meu pai me batia sem motivo, era muito violento. Sofri muito durante esse tempo. Até hoje, não nos damos bem. Preferia passar frio, preconceito, pedir esmolas e até passar fome do que morar com ele”, lembra o rapaz que, cansado da violência, fugiu de casa e passou a morar na rodoviária da cidade.

Entre as amizades com comerciantes e passageiros da rodoviária, certo dia Walisson conheceu um idoso que havia decidido pagar um lanche para ele. Foi aí que conversaram sobre o futuro e o ex-morador de rua confessou o desejo de voltar a estudar.

“Eu sempre quis terminar o ensino médio, ficava folheando as revistas e livros de uma banca de jornais que fica por lá [Rodoviária do Plano Piloto]. Então, contei para o senhor que havia procurado uma colégio para concluir os estudos, mas como não tinha residência fixa, não conseguia ser matriculado. Ele então me deu uma conta de luz. Foi o dia mais feliz da minha vida”, conta.

No mesmo dia, o Walisson pegou um ônibus, com dinheiro obtido por esmolas, e foi até o Centro de Educação de Jovens e Adultos na Asa Sul se matricular.

Era o ano de 2012 e o jovem iniciou uma rotina árdua de estudos. Acordava às 5h, ia para a escola e depois passava à tarde toda na biblioteca. Já à noite, por volta de 22h, voltava para dormir na rodoviária.

“Eu nunca desisti de estudar, mesmo nas dificuldades. Queria me esforçar cada dia mais, para sair daquela situação, entende? Tanto que no mesmo ano conclui o ensino médio. Depois, consegui um emprego como entregador de panfleto. Ganhava R$ 20 e aluguei um quarto em Samambaia. Isso foi em 2012”, relembra.

Da rua para a faculdade

Após conseguir sair das ruas e ter o próprio espaço, o estudante decidiu que persistiria no sonho de infância: entrar em uma faculdade. Durante um ano, ele frequentou bibliotecas públicas e se preparou para o Enem.

“Eu sabia das minhas dificuldades. Mas sempre pensava: ‘os outros candidatos têm internet em casa, mais estudo. Não posso ter preguiça, né? Tenho que estudar todos os dias'”, lembra.

Com o esforço, veio o resultado. Walisson garantiu uma vaga numa universidade particular da região. A pontuação no Enem também assegurou o financiamento do curso de direito por meio do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil).

Apesar da história de superação, o estudante confessa que não gosta de contá-la para professores e colegas. “Muitos nem sabem o que eu passei. Vão saber agora com a reportagem”, brinca. “Eu sei que tem muita gente metida em faculdades particulares. Fiquei com medo de me acharem coitadinho e ficarem com dó. Eu estou onde estou porque me esforcei.”

Vaquinha para a formatura

Para fechar com chave de ouro a conquista da graduação, Walisson sonha com a festa de formatura, que será realizada no ano que vem. O problema é o gasto que ele terá com a festa.

Financeiramente, a vida do jovem continua com altos e baixos. Ele ganha R$ 760 no estágio. Desse valor, R$ 500 são usados para pagar o aluguel da quitinete onde vive. “O que sobra [quando sobra] eu uso para comer, andar de ônibus e tirar cópia das apostilas”, conta.

Por isso, o rapaz resolveu fazer uma vaquinha virtual para tentar arrecadar R$ 6 mil que precisa para pagar o baile, fotos, roupas e a colação de grau.

Depois que se formar, o estudante espera passar em um concurso público para o cargo de defensor público. O motivo? Ajudar pessoas de baixa renda. “Muita gente não sabe os direitos que têm. Por isso, quero ajudá-los.”

Diploma inútil? Por que tantos brasileiros não conseguem trabalho em suas áreas

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Com tantos graduados no mercado, muitos não conseguem exercer suas profissões - Thinkstock

Com tantos graduados no mercado, muitos não conseguem exercer suas profissões – Thinkstock

 

Ingrid Fagundez, na BBC Brasil

Enquanto você lê esta reportagem, milhares de jovens pelo Brasil se preparam para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), prova que pode garantir a entrada deles na universidade. Os estudantes apostam na graduação para começar uma carreira. No entanto, muitos dos que pegam o diploma hoje não conseguem exercer sua profissão.

A culpa não é só da crise econômica, que levou o desemprego a 11,8% no terceiro trimestre deste ano, segundo o IBGE, mas do perfil dos recém-formados. Eles se concentram em poucas áreas e, quando buscam uma vaga, percebem que não há tanto espaço para as mesmas funções.

Essa análise foi feita pelo economista e professor da USP Hélio Zylberstajn, a partir de um cruzamento de dados do Censo do Ensino Superior e da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho.

Os números de 2014, os mais recentes disponíveis, mostram que 80% dos formandos estudavam em seis ramos: comércio e administração; formação de professor e ciências da educação; saúde; direito; engenharia e computação. Ao olhar o que faziam os trabalhadores com ensino superior, o professor notou que os cargos não existiam na mesma proporção dos diplomas.

Um bom exemplo é o setor de administração que, em 2014, correspondia a 30% dos concluintes. Apesar da fatia expressiva, apenas 4,9% dos trabalhadores com graduação eram administradores de empresa. Outros 9,4% eram assistentes ou auxiliares administrativos, função que nem sempre exige faculdade.

“As pessoas fazem esses cursos, mas evidentemente não há demanda para tantos advogados ou administradores. Elas acabam sendo são subutilizadas”, diz Zylberstajn.

O professor também diz que o número total de graduados seria superior ao que o mercado brasileiro pode suportar. De acordo com o Censo do Ensino Superior, em 2014, um milhão de pessoas saíram das salas de aula. Em 2004, eram 630 mil.

Mais gente no ensino superior

Mas o que levou esse número a crescer tanto?

A multiplicação das instituições privadas, ao lado da maior oferta das bolsas do Prouni e do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), facilitaram o acesso dos brasileiros à graduação. De 2000 a 2014, a quantidade de instituições dessa natureza aumentou 15%. Outro fator, dizem os entrevistados, é cultural: no país, a beca é sinônimo de status.

“A gente despreza o técnico e supervaloriza o superior. É uma tradição ibérica. Como por muito tempo foi uma coisa da elite, passou a ser considerado um meio de ascender socialmente”, afirma Zylberstajn.

Para a professora Elisabete Adami, da Administração da PUC-SP, esse objetivo está ligado à ideia de que o diploma basta para ganhar mais.

Ela diz que deu aulas em faculdades privadas de São Paulo e notava o desejo de seus alunos de melhorar de vida.

“Na sala, tinha três que eram carteiros, muitos motoboys, o pessoal que trabalhava em lojas. O que eles queriam ali? Subir.”

Rodolfo Garrido foi fazer faculdade de engenharia porque queria ganhar mais  - Arquivo pessoal

Rodolfo Garrido foi fazer faculdade de engenharia porque queria ganhar mais – Arquivo pessoal

Rodolfo Garrido pensava nisso quando largou o ensino técnico para entrar em uma faculdade privada. Ele ganhava R$ 2.600 como programador de produção em uma metalúrgica. Como engenheiro, diz, seu salário poderia subir para R$ 4.000.

Com a oportunidade do financiamento estudantil, decidiu apostar.

“Já trabalhava na área, então só juntei os estudos. Para poder me graduar e ter um salário melhor, poderia ganhar o dobro. Quando surgiu o incentivo do governo, comecei a pesquisar, porque antes era uma bolada.”

Depois de três semestres, teve que deixar as aulas porque ficou desempregado.

Segundo a diretora do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da USP, Tania Casado, a crença de Rodolfo é endossada por pesquisa. Elas indicam salários maiores para empregos de nível superior. Mas A a professora faz uma ressalva: os estudos são feitos com quem já está trabalhando nesses cargos.

“Os dados são verdadeiros, só que é preciso lê-los corretamente. O fato de você fazer uma faculdade não significa que vai para um vaga desse tipo.”

Os motivos pelos quais Rodolfo escolheu engenharia também ajudam a explicar a concentração dos estudantes em seis áreas, que incluem saúde, direito e computação. São profissões tradicionais, teoricamente mais estáveis e bem pagas. Além disso, são as mais oferecidas pelas instituições privadas, responsáveis por 87,4% da educação superior no país.

“As pessoas vão para faculdades pagas, que têm cursos de menor custo, como Direito e Administração”, diz o professor Hélio Zylberstajn.

Eles são mais baratos porque não usam outros equipamentos a não ser a sala de aula. Cursos de Química, por exemplo, exigem laboratórios e substâncias controladas.

Outro fator para decisões tão parecidas seria a pouca idade com que os brasileiros escolhem uma profissão.

“É uma meninada de 17, 18 anos, que faz Administração porque o pai fez, ou porque acha legal ser CEO”, diz a professora Elisabete Adami, da PUC-SP.

Aceitar o que tiver

Evelyn queria ser administradora de empresas, mas trabalha como assistente administrativa  - Arquivo pessoal

Evelyn queria ser administradora de empresas, mas trabalha como assistente administrativa – Arquivo pessoal

Com tantos professores, administradores e advogados no mercado, muita gente tem dificuldade de conseguir um bom cargo na sua área. Às vezes o jeito é aceitar vagas que pedem apenas ensino médio.

Quando Evelyn Maranhão se formou, em 2011, pensava que seria administradora de empresas. Cinco anos e muitas negativas depois, trabalha como assistente administrativa. Ela registra pedidos e lança horas-extras no sistema de uma empresa de manutenção predial.

“Achei que ia lidar com estatística, relatório, análises, e, na verdade, faço o que uma secretária faria. Imaginava que estaria na tomada de decisões.”

Há quem nem consiga exercer sua profissão.

Antes de cursar enfermagem, Vivian Oliveira trabalhava com eventos. Mesmo depois da formatura, continua organizando congressos, feiras e festas. Nesse meio tempo, diz, mandou incontáveis currículos, mas não foi chamada para entrevistas. Só foi contratada por uma clínica, onde ficou um ano.

“Até há vagas, mas como não tenho muita experiência, eles não chamam.”

Para a enfermeira, o fato de não ter estudado em uma universidade conceituada prejudicou sua trajetória “Se surgir uma posição no (hospital Albert) Einstein, vai entrar alguém de faculdade renomada. Vi que meus colegas buscam fazer pós em lugares reconhecidos, porque colocam esse nome no currículo.”

Formada em enfermagem, Vivian trabalha com eventos  - Arquivo pessoal

Formada em enfermagem, Vivian trabalha com eventos – Arquivo pessoal

 

Faculdade renomada

A falta de experiência e a formação em instituições pouco prestigiadas são os principais empecilhos que os formandos enfrentam nos processos de seleção, diz Luciane Prazeres, coordenadora de Recursos Humanos da agência de empregos Luandre.

Prazeres relata que muitos profissionais chegam no mercado sem ter feito estágio porque precisavam trabalhar para pagar os estudos. E alguma experiência na área é sempre requisitada pelos empregadores.

“A maioria são recepcionistas, operadores de call center que buscam o oposto do que estão fazendo. Mas, se ele não sai do mercado para fazer estágio, é difícil conseguir uma oportunidade.”

Segundo ela, é comum que, ao abrir um posto, as empresas peçam candidatos formados em determinada universidade.

Professora na PUC-SP, Elisabete Adami diz notar essa diferença ao ver que seus alunos saem empregados do curso.

“Pega estudantes da PUC, da FGV, do Insper, da USP…eles não estão tão sem trabalho. O pessoal de faculdades de segunda linha não encontra espaço e vai ter que fazer uma pós para complementar a formação.”

Para Adami, houve uma proliferação de escolas com menos qualidade, que entregariam profissionais deficientes.

“Esses conglomerados pagam, em média, R$ 17 a hora-aula. Que tipo de professor você vai ter?”

No entanto, pondera, a estrutura ruim não é sempre sinônimo de profissionais mal-preparados. Só que, nesses ambientes, eles são mais frequentes do que em instituições de ponta.

“Sai gente boa, mas por conta própria, porque são esforçados.”

Entre uma graduação ruim e uma boa formação técnica, diz Adami, ela aposta na segunda.

“Essa mania de ser o primeiro da família a se formar é uma ilusão, mas é forte no Brasil. É algo secular. Na França e na Alemanha, você não tem esse percentual de jovens na universidade.”

Proliferação de faculdades levou à formação de profissionais deficientes, diz professores  - Thinkstock

Proliferação de faculdades levou à formação de profissionais deficientes, diz professores – Thinkstock

Ensino técnico

O ensino técnico é citado pelos entrevistados como uma opção interessante.

Hélio Zylberstajn, da USP, diz que o ensino é negligenciado e faz falta para o país. O professor sugere que disciplinas ligadas ao ensino técnico sejam incluídas na grade curricular do ensino médio, e não em institutos, como acontece hoje.

“Estamos carentes de técnicos. No ensino médio, deveríamos formar mão de obra em cooperação com as empresas.”

Esse tipo de formação é uma possibilidade que deve ser analisada antes da decisão definitiva pelo ensino superior, diz Tania Casado, do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da USP.

“É preciso olhar para o lado e ver que há muitas posições não preenchidas, porque as pessoas não têm estudo específico. Os jovens precisam saber disso ao se lançarem em um curso.”

Se a escolha for pelo ensino superior, Casado diz que o estudante não deve conhecer apenas a profissão, mas as ocupações que ela abrange. Um graduado em Medicina, por exemplo, pode tornar-se um gestor de plano de saúde. Da mesma forma, alguém formado em Administração pode tornar-se um consultor.

Além de analisar as alternativas que o mercado oferece, aconselha a diretora, o candidato deve olhar para si e escolher algo com o que se identifique. Se depois quiser mudar de área, a transição não tem que ser dolorosa. Nem sempre uma nova faculdade é necessária, afirma. Às vezes uma especialização ou cursos livres são suficientes.

“Carreira é isto: olhar o entorno e se olhar, o tempo inteiro. E saber que, à medida que você vai evoluindo, pode haver outros interesses, o que é bom. É preciso se preparar para esses interesses, mas não necessariamente isso passa por uma graduação.”

Curso universitário ruim pode significar prejuízo para o resto da vida

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Protesto de estudantes no Chile em defesa de acesso universal à educação pública

Protesto de estudantes no Chile em defesa de acesso universal à educação pública

 

Érica Fraga, na Folha de S.Paulo

A perspectiva de renda mais alta é provavelmente o principal motivo pelo qual as pessoas buscam estudar mais.

Um profissional com diploma universitário tem salário significativamente maior do que outro que tenha parado no ensino médio. No Brasil, por exemplo, a diferença é mais do que o dobro.

O que pouco se fala é que esse tipo de número representa uma média por trás da qual há grande dispersão. Ou seja, dependendo de fatores como o investimento financeiro feito e a qualidade do curso, o ganho adicional varia bastante.

Menos discutido ainda é o risco de que algumas pessoas amarguem prejuízo com o ensino superior.

No Chile e na Colômbia, duas e três em cada dez pessoas, respectivamente, nunca vão recuperar o dinheiro gasto com um diploma universitário.

Se forem considerados cursos de ensino superior de duração mais curta e perfil técnico nesses mesmos países, os números pioram para, respectivamente, cinco e seis em cada dez.

São profissionais que teriam contabilizado maior retorno até a aposentadoria se tivessem ido do ensino médio diretamente para o mercado de trabalho.

Os números fazem parte de um estudo feito para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no ano passado.

A insatisfação com o custo do ensino superior e a ausência de cursos gratuitos têm provocado protestos dos estudantes chilenos desde 2010. E os dados do estudo ajudam a entender essa crise.

Os retornos crescentes à educação são, corretamente, muito enfatizados por trazerem benefícios individuais enormes em termos de bem-estar e mobilidade social.

Do ponto de vista coletivo, também há ganhos importantes, já que populações mais escolarizadas são mais eficientes, o que contribui para o crescimento econômico.

É compreensível que cause enorme revolta descobrir que o investimento de tempo e dinheiro num curso universitário está sendo jogado fora.

A relevância do tema fica mais evidente quando pensamos no perfil dos estudantes que podem sair no prejuízo.

A pesquisa ressalta que os alunos de cursos universitários técnicos e tecnológicos –que apresentam os piores retornos– normalmente vêm de famílias de baixa renda, para quem o custo de um erro financeiro é maior.

Não tenho conhecimento de um estudo detalhado como o do BID para o Brasil. Como a estrutura do ensino superior –em termos de fonte de financiamento, duração dos cursos e outros fatores– varia bastante de um país para o outro, não é possível inferir quais seriam as conclusões de pesquisa similar para a realidade brasileira.

Seguindo uma tendência mundial, o número de matrículas nas universidades brasileiras aumentou 74% entre 2005 e 2015. Parte significativa do crescimento ocorreu no setor privado, com subsídios do governo federal a financiamentos estudantis.

Essa expansão foi freada com a crise fiscal e os empréstimos ficaram mais caros. No ano passado, pela primeira vez desde 2009, o número de novos ingressantes no ensino privado caiu.

É urgente reverter essa parada. A fatia de brasileiros de 25 a 34 anos com diploma universitário era de apenas 16% em 2015, contra 42% na média do OCDE.

Mas medidas nessa direção deveriam ser acompanhadas de passos para garantir transparência sobre o retorno que as pessoas —principalmente as que cursam instituições privadas— podem efetivamente esperar investindo no ensino superior.

Temos boas fontes de informação sobre a aprendizagem e a qualidade dos cursos, como o Enade (prova oficial feita pelos concluintes do ensino superior) e o RUF (Ranking Universitário Folha ).

Devemos ir além.

Chile e Colômbia criaram em anos recentes websites oficiais onde é possível consultar dados sobre empregabilidade e salários (veja aqui o site do Chile e da Colômbia )

Essas bases ajudaram a viabilizar a pesquisa feita para o BID. Um passo nesse sentido seria muito bem-vindo no Brasil.

Leituras (altamente) recomendadas: 3 livros para ler antes de começar uma faculdade

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lendo-livro

Publicado no Amo Direito

Durante o Ensino Médio, é comum que os professores passem uma lista com títulos da literatura nacional – geralmente os clássicos – para ajudar os estudantes a se prepararem para os vestibulares. Embora a intenção seja boa, esta obrigatoriedade costuma desmotivar alguns jovens que, depois do último ano na escola, abandonam o hábito da leitura.

No entanto, a literatura pode ensinar muitas coisas além dos conteúdos exigidos pelo Enem e demais exames do segundo semestre. Por esta razão, a Universia Brasil reuniu três livros que podem te passar grandes ensinamentos que serão muito úteis para a sua preparação antes da primeira semana de aulas na faculdade. Confira a seguir e boa leitura:

“Eu sou Charlotte Simmons”, de Tom Wolfe
A expectativa de começar uma vida nova num cenário cheio de novidades costuma atrapalhar ou, ao menos, confundir alguns estudantes nos primeiros meses de faculdade. Este foi o caso de Charlotte Simmons, uma garota da zona rural da Carolina do Norte que foi aceita na renomada – e fictícia – Universidade de Dupont. Focada nos estudos, ela percebe que nem todos os seus colegas têm os mesmos objetivos e começa a se encantar com esta nova perspectiva. Para os críticos, esta obra, além de pertencer a um dos maiores cronistas americanos, retrata ironicamente a juventude do início do século XXI.

“Anna Karenina”, de Liev Tolstói

Um clássico da literatura russa, “Anna Karenina”, pode ser o primeiro romance desafiador que você lerá depois da escola. Nas pouco mais de 800 páginas, Tolstói conta o romance proibido de Anna, uma mulher casada, com o sedutor Vronski. No cenário da Rússia nos tempos dos czares, o autor questiona o que é justiça social apresentando uma história na qual a destruição e as mentiras estão muito presentes.

“Faça acontecer”, de Sheryl Sandberg
Você provavelmente já ouviu ou participou de uma discussão sobre a equidade de gênero. Neste livro, a diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, compartilha as dificuldades que ela enfrentou no mercado de trabalho, apresentando estatísticas e relatos pessoais sobre como ela superou cada um dos obstáculos. “Faça acontecer” pode te introduzir a essas discussões que estão cada vez mais presentes nas universidades e ainda te incentivar a correr atrás dos seus sonhos apesar dos empecilhos.

Fonte: Universia Brasil

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