Com a ajuda de computadores, pesquisadores garantem que não há dúvida sobre a autoria da peça ‘Double Falsehood’

O dramaturgo inglês William Shakespeare (Hulton Archive/Getty Images/VEJA)

O dramaturgo inglês William Shakespeare (Hulton Archive/Getty Images/VEJA)

Publicado na Veja on-line

William Shakespeare finalmente pode ser chamado de autor de Double Falsehood (Falsidade Dupla). A obra, alvo de discórdia há mais de 250 anos, foi apropriada por Lewis Theobald, editor especializado no escritor inglês que fez a sua própria adaptação do texto, intitulada Double Falsehood: or, The Distrest Lovers, em 1728.

Um estudo publicado por Ryan L. Boyd e James W. Pennebaker, da Universidade do Texas em Austin, e noticiado pelo jornal especializado Psychological Science, afirma, porém, que não há dúvidas de que o texto é de Shakespeare. O bardo o escreveu com a ajuda do amigo John Fletcher. Os pesquisadores usaram um programa de computador para analisar o tipo de escrita dos três escritores. Foram avaliadas 33 peças de Shakespeare, nove de Fletcher e doze de Theobald, criando o que os estudiosos chamam de uma “assinatura psicológica”, baseada na escolha de palavras, frases, padrões de escrita, entre outros detalhes.

“A semelhança entre Double Falsehood e as peças de Shakespeare é indiscutível”, diz Boyd. “Há pouco espaço para interpretar os números de maneira diferente.” Os especialistas afirmam que a primeira metade da peça foi totalmente escrita pelo bardo, enquanto a segunda parece ter sido uma divisão de trabalho entre ele e Fletcher. Poucos traços de Theobald foram encontrados. “Acreditamos que Theobald fez algumas edições, mas, com certeza, não a escreveu”, disse Boyd ao site do jornal CNN.

Double Falsehood é inspirada em Cardenio, personagem que aparece em Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. A obra foi encenada duas vezes em 1613 e, depois disso, todos os manuscritos desapareceram. Shakespeare morreu em 1616 e escreveu a maior parte de suas peças entre 1590 e 1612.

Em 2010, o especialista britânico Brean Hammond, professor de literatura da Universidade de Nottingham, reacendeu a discussão, adormecida há séculos, sobre a autoria do texto, afirmando que seria de Shakespeare. Porém, a análise dos pesquisadores do Texas é a primeira a ponderar a escrita com a perspectiva psicológica, tornando a autoria incontestável.