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Autoras investigam educação de crianças na Dinamarca, país mais feliz do mundo

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Crianças dinamarquesas assistem à competição de vela: socialização é aspecto importante na formação de filhos no país - Reuters

Crianças dinamarquesas assistem à competição de vela: socialização é aspecto importante na formação de filhos no país – Reuters

 

Segundo elas, a raiz dessa satisfação está na forma como os filhos são criados

Mariana Alvim, em O Globo

RIO – Considerado o país mais feliz do mundo em três das quatro edições do Relatório Mundial da Felicidade, das Nações Unidas, a Dinamarca motiva investigações e suposições sobre as causas de tanta satisfação. No livro “Crianças dinamarquesas: o que as pessoas mais felizes do mundo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes” (Fontanar), publicado em 18 países e recém-chegado no Brasil, as autoras Iben Sandahl e Jessica Alexander levantam uma hipótese: a raiz dessa felicidade está na forma como os filhos são criados.

Entre os preceitos dessa educação estão a liberdade com limites, formação cidadã e altas doses de “hygge” (pronuncia-se “ruga”), palavra dinamarquesa que define momentos de alegria com pessoas queridas, sejam amigos ou familiares, e é um estilo de vida, segundo o livro, que tem até um “juramento do hygge”. Iben é dinamarquesa e psicoterapeuta especializada em crianças e família, enquanto Jessica, com formação em Psicologia, é americana, casada com um dinamarquês e radicada na Itália. Ambas são mães, com dois filhos cada.

O GLOBO – Por que as crianças dinamarquesas são mais felizes?

Iben: Os dinamarqueses dão muita importância à socialização e à formação da criança como um todo, em vez de somente destacar suas notas e conquistas. Ensinamos ativamente a empatia, o que torna a criança capaz de levar uma vida autêntica, de se conhecer e agir a partir disso. As crianças dinamarquesas sabem que os desafios e problemas não as derrubam, porque não são poupadas disso na criação. A brincadeira também é considerada importante no aprendizado, mesmo com toda a pressão para ter as crianças engajadas em várias coisas que dão resultados mensuráveis. Não há nada a “realizar” numa brincadeira, e a personalidade da criança pode se desenvolver. Isto é um dos grandes motivos para nosso país ser o mais feliz do mundo.

Os pais dinamarqueses sabem dizer “não” para seus filhos?

Iben: Uma abordagem não disciplinadora da criação não significa que os limites não existam. Pelo contrário! Trata-se de estabelecer regras que criam um sentimento de segurança para a criança de uma forma respeitosa. Mas os conflitos de força podem ser algo difícil de evitar, apesar de tudo. Na Dinamarca, tentamos não entrar imediatamente nessas disputas.

Jessica: Dinamarqueses são muito bons em estabelecer limites, mas fazem isso com respeito e explicação. Não é fácil, mas costumo dizer que os dinamarqueses enxergam o papel de um pai ou uma mãe como um farol: eles enviam sinais consistentes, e as crianças devem aprender como navegar em suas vidas. A questão não é controlar, mas, sim, guiar.

Como é a relação das famílias com a tecnologia na Dinamarca?

Iben: As crianças usam celulares e tablets, mas não durante as refeições, por exemplo. Não podemos evitar as novas tecnologias, e esses aparelhos podem ser úteis como ferramentas pedagógicas ou até para acalmar a criança, se usados adequadamente. Mas insisto na importância dos momentos em que ninguém está ligado neles, todo dia. O cérebro das crianças precisa de paz, e os adultos precisam controlar e dar limites que façam sentido. Somos nós, os pais, que decidimos que tipo de família queremos ser.

Pais que vivem em países com condições socioeconômicas bem diferentes da Dinamarca podem, mesmo assim, aprender com o livro?

Jessica: Não moro na Dinamarca, mas uso a conduta dinamarquesa. É uma filosofia. Todos podem, por exemplo, dar a seus filhos mais tempo para brincar. Ensinar o valor da empatia, também. É claro que a qualidade de vida na Dinamarca, com toda sua estabilidade e benefícios, torna mais fácil aplicar esses ensinamentos, mas muitos podem ser adotados ao redor do mundo.

Você percebe diferenças na criação de filhos entre países que conhece?

Jessica: Sim, enormes! Vejo os Estados Unidos como extremamente competitivo e acadêmico: tudo precisa ser medido e classificado com notas. Na Dinamarca, o foco é no espírito colaborativo. Os alunos não recebem notas antes dos 13 anos. A Itália… Bem, a Itália não é muito moderna. Diria que o estilo da educação aqui está mais para o autoritário. Está ocorrendo um intenso debate, porque a França tornou a palmada ilegal (na Dinamarca, a palmada foi banida nos anos 90). E na Itália, a palmada ainda é amplamente aceita. Mas é bem marcante, por exemplo, a importância da família na sociedade.

Já viveu alguma situação diferente, no exterior, que chamou sua atenção sobre a criação dos filhos?

Jessica: Os italianos são muito protetores. Então, a abordagem dinamarquesa, de dar liberdade aos filhos, deixá-los cair e se sujar, é muito nova aqui. Quando eu saio com os meus filhos, os italianos acham que eles são completamente selvagens!

Leitores de outros países já demonstraram algum estranhamento?

Iben: A brincadeira livre é estranha para muitos. Deixe a criança ser criança e brincar mais! Isto é algo que temos feito há tempos. Com essa liberdade, a criança explora o mundo ao redor sem muita interferência dos pais e se desenvolve sem perceber, nos seus próprios termos. Assim, ela pode escolher o que fazer. Hoje em dia, os pais estão tão preocupados em programar tudo para os filhos que muitas crianças não têm a habilidade de tomar decisões.

Como é o apoio do governo à criação dos filhos na Dinamarca? E a divisão de tarefas entre pais e mães?

Iben: Você recebe apoio financeiro para ficar em casa quando tem um bebê recém-nascido. A gestante tem direito a uma licença de quatro semanas antes do parto, de 14 semanas após o nascimento, e uma licença que pode ser dividida entre o pai e a mãe, no total de 32 semanas. Muitos homens tiram proveito desse benefício, então é natural que pai e mãe se envolvam na vida da criança desde o começo.

Por que você acha que as pessoas ficam tão interessadas em livros sobre a criação de filhos em outros países?

Iben: Todos queremos que nossos filhos se tornem pessoas felizes e conscientes — e isto vai além das fronteiras. Portanto, buscamos informações de quem compartilhamos valores. O livro oferece uma filosofia que faz as crianças felizes.

Jessica: Com a globalização, percebemos que não somos afetados apenas por nossos pais, mas também pela nossa cultura.

Como sua família recebeu o livro?

Jessica: Independentemente de gostar ou não do livro, as pessoas discutem sobre ele. Minha família era muito autoritária. No início, meus pais foram resistentes ao livro, mas quando virou um best-seller, eles leram. E a nossa relação mudou. Nós implementamos o “juramento do hygge”, e isso transformou nosso convívio.

Homeschooling: Brasil já tem 6 mil crianças sendo educadas em casa

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Número de famílias que aderiram ao modelo dobrou em um ano

Publicado na Crescer

Educar os filhos em casa tem se tornado uma opção cada vez mais atraente para os brasileiros. Embora o modelo ainda não seja legalizado no Brasil, 3,2 mil famílias já aderiram ao homeschooling, que, em 2016, atendeu a cerca de 6 mil crianças, segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned). O mais surpreendente é que este número dobrou em um ano – e é, provavelmente, ainda maior, já que muitas famílias não divulgam sua opção por medo de serem denunciadas.

O assunto é polêmico e continua acendendo uma forte discussão legal pois a legislação brasileira não é clara em relação à educação domiciliar: o método não é, de fato, proibido, mas segundo o Estatuto da Crianças e do Adolescente e a Constituição, a matrícula na rede regular de ensino é obrigatória e a falta de frequência é compreendida como negligência dos pais. Para especialistas que são contra o homeschooling, o problema desse sistema não se reduz apenas à perda de conteúdo. Eles defendem que estudar em casa tira da criança a chance de aprender com a diversidade e com as experiências da convivência em grupo, além de afetar seu desenvolvimento cultural, afetivo e até cognitivo.

Isso parece não desacelerar seu crescimento: a cada dia surgem novos grupos nas redes sociais que reúnem famílias interessadas em oferecer uma educação “mais completa” para seus filhos, já que consideram as escolas despreparadas e pouco atenciosas com as crianças. Em casa, as crianças não ficam sem suporte: elas seguem um roteiro definido, com uso de apostilas e livros baseados no currículo formal escolar, mas a metodologia é diferente – e exige mais disciplina. Esses pais e mães defendem, ainda, que a socialização das crianças é mais natural quando elas escolhem seus grupos espontaneamente – e não apenas pelo fato de estudarem no mesmo local. A rotina também é complementada com atividades extracurriculares. Mas, para fazer valer a educação dos filhos, muitos pais precisam ir à Justiça.

Vale lembrar que, caso o homeschooling seja legalizado, será preciso uma regulamentação que padronize a forma como o ensino domiciliar ocorra para garantir que as crianças inseridas em sistemas diferentes do que o escolar estejam, de fato, sendo educadas apropriadamente.

A importância da participação dos pais na educação escolar

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Duas pesquisas mostram que os pais fazem mais diferença na vida escolar dos filhos quando passam a mensagem de que a educação importa

PRESENÇA Daniela e Ricardo, com seus três filhos no colégio, em São Paulo. Eles acreditam que só uma escola de qualidade não garante o melhor ensino. Querem participar (Foto: Letícia Moreira/ÉPOCA)

PRESENÇA
Daniela e Ricardo, com seus três filhos no colégio, em São Paulo. Eles acreditam que só uma escola de qualidade não garante o melhor ensino. Querem participar (Foto: Letícia Moreira/ÉPOCA)

Camila Guimarães, na Época on-line

Mãe de três crianças que estudam no mesmo colégio, Daniela Khauaja se desdobra para acompanhar a vida escolar dos filhos. Professora e coordenadora de pós-graduação em São Paulo, há dez anos ela decidiu mudar de carreira (era executiva numa grande empresa) para ter mais flexibilidade de horário e estar mais perto da rotina de Luiza, de 13 anos, Carolina, de 7, e do pequeno Bernardo, de 6.

Seu marido, Ricardo, consultor, é seu companheiro nas idas e vindas entre trabalho, casa e escola. São quatro reuniões bimestrais por filho, por ano. Mais as reuniões individuais com cada professora, um total de 15. Daniela e o marido também frequentam um grupo de mães e pais que se encontram para assistir a palestras e discutir temas que envolvem a educação dos filhos. São mais duas ou três horas mensais.

O envolvimento do casal vai além da escola. Em casa, conferem a lição de casa e sabem o dia da próxima prova dos filhos mais velhos – para também olhar se a matéria foi estudada. “Apenas matriculá-los numa boa escola não garante um bom desempenho”, afirma Daniela. “Nos preocupamos em mostrar a importância da educação e o valor da escola para a vida deles.”

Daniela e Ricardo não estão sozinhos no esforço de ajudar a vida escolar dos filhos. A participação dos pais na educação formal está em alta. Há um consenso entre educadores, professores e estudiosos sobre os efeitos no desempenho dos alunos. Quanto mais ativos os pais, maior a chance de o filho tirar boas notas no boletim e terminar uma faculdade.

Nas últimas décadas, os pais passaram a ser estratégicos para políticas públicas de educação em diversos governos. Nos Estados Unidos, a participação das famílias virou assunto de uma secretaria exclusiva, que planeja como envolver os pais na escola para ajudar a diminuir as diferenças de aprendizado entre os mais ricos e os mais pobres.

Do lado das escolas, os esforços para engajar os pais não são menores. “A presença dos pais legitima a educação que oferecemos”, afirma Bartira Rebello, psicóloga do Colégio Miguel de Cervantes, de São Paulo, onde estudam os filhos de Daniela e Ricardo. “A parceria reforça o vínculo entre o aluno e o ambiente escolar”, afirma Patrícia Motta Guedes, da Fundação Itaú Social.

A concordância é generalizada, mas nunca houve tantos pais desorientados sobre como ajudar seu filho a ser um bom aluno. Muitos se atrapalham na hora de ajudar com a lição de casa, outros trabalham demais, e falta tempo para participar de todas as atividades, reuniões e apresentações escolares. Quem não conhece uma mãe que se afoga em culpa por perder uma apresentação do filho na escola? Quantas não se perguntam o que fizeram de errado para seus filhos odiarem tanto as aulas?

Não é fácil medir em que medida o envolvimento da família ajuda na nota. O desempenho escolar é afetado por muitos fatores. Passa pela qualidade do professor, do ambiente da sala de aula, do material didático, da vizinhança em que a escola está, das condições econômicas da família, e por aí vai.

Saber a parcela exata da ajuda dos pais e o tipo de atitude que funciona é um desafio antigo dos pesquisadores da área. Por isso, nas pesquisas atuais, tenta-se entender como o comportamento dos pais pode influenciar não só o desempenho acadêmico, relacionado ao boletim, mas o desempenho escolar como um todo, que envolve o comportamento do aluno na escola.

“O bom aluno tem algumas posturas em relação a sua educação, como capacidade de concentração, disciplina e perseverança. Elas ajudam a estudar e aprender melhor”, afirma Priscila Cruz, diretora do Todos Pela Educação, movimento da sociedade civil que atua para a melhoria do ensino público básico.

O Todos Pela Educação fez um estudo inédito no Brasil, com famílias de estudantes de escolas públicas. Conseguiu identificar as atitudes comuns às famílias de crianças e jovens que se destacam na escola (leia no quadro abaixo). São atitudes simples – como colocar a escola nas conversas do dia a dia e valorizar o conhecimento. Elas não se traduzem necessariamente em ajudar o filho a resolver uma equação matemática. Para famílias de baixa renda, essas atitudes podem fazer diferença no potencial acadêmico dos alunos.

Tatiane da Silva, de 34 anos, é mãe de Thaís, de 7, e de Gustavo, de 13. Ambos estudam em escolas públicas de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Tatiane estudou até o ensino médio. Seu marido, que trabalha como segurança, fez apenas as séries iniciais do fundamental. Ela acredita que a educação é o único caminho para que seus filhos vivam melhor. Além de ir a todas as reuniões  e conferir os cadernos, Tatiane conversa com frequência com o mais velho sobre o que ele escolherá como profissão, que faculdade fará.

Com a mais nova, treina a leitura, leva a bibliotecas e livrarias (mesmo se não pode comprar o livro) e lê em voz alta as historinhas que tem em casa. Thaís ainda não é alfabetizada e fica ansiosa quando não consegue decifrar as letrinhas. A atitude da mãe a ajuda a superar a insegurança. “Sinto que ela se acalma quando digo que é capaz de aprender, que ela conseguirá”, diz Tatiane. (mais…)

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